Falsos deuses, falso culto [ 1.12.1-3 ]

Como já afirmei aqui algumas vezes, um traço marcante da teologia de João Calvino é a ênfase no verdadeiro conhecimento de Deus, que tem como marcas a verdadeira piedade e a verdadeira adoração. Não é de se admirar, portanto, que concluindo a seção sobre ídolos e falsas divindades, o reformador volte-se novamente para a questão do culto a Deus.

“Dissemos no início que o conhecimento de Deus não está posto em fria especulação, mas traz consigo o culto… a não ser que resida no Deus único tudo quanto é próprio da Deidade, ele é despojado de sua dignidade e profanado é seu culto.” (1.12.1, p.117s)

Chama atenção que uma das consequências de juntar Deus e outros deuses é gerar para o Criador uma “fria noção de autoridade suprema” (1.12.1, p.118). Mais uma vez vemos que Calvino não faz o tipo “acadêmico tíbio”. Para ele, o conhecimento de Deus deve nos levar uma relação dinâmica e intensa com o Criador.

Dito isso, a falsa distinção entre Latria (culto, adoração) e Dulia (serviço) é novamente atacada, demonstrando a falácia dos papistas.

“De fato douleía é serviço, latréia, honra. Portanto, por certo que ninguém põe em dúvida que servir seja algo mais que honrar. Ora, com muita frequência seria penoso servir àquele a quem não recusarias render honra. Logo, seria uma partilha iníqua consignar aos santos o que é maior, e deixar a Deus o que é menor.” (1.12.2, p.119)

Com todos esses argumentos levantados, só resta ao reformador fechar o caso, apresentando alguns exemplos de como a Bíblia rejeita servidão e honra a qualquer outro que não seja Deus.

“Paulo, quando traz à lembrança aos gálatas o que foram eles antes de haver sido iluminados no conhecimento de Deus, diz que haviam exibido dulia para com aqueles que por natureza não eram deuses [Gl 4.8]. Portanto, uma vez que não a denomina latria, porventura a superstição lhes seria escusável?” (1.12.3, p.119)

“E quando Cristo repele a investida de Satanás com este escudo: ‘Está escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás’ [Mt 4.10], não entrava literalmente a questão latria, porque Satanás não requeria senão προσκυνήσεις [prostrar-se de joelhos em reverência].” (idem)

“Ao prostrar-se diante de Pedro, [Cornélio] evidentemente não o faz com o propósito de adorá-lo no lugar de Deus. Pedro, no entanto, o proíbe terminantemente de fazê-lo. Por quê, senão pelo fato de que os homens nunca fazem distinção tão precisa entre o culto de Deus e das criaturas, que não transfiram promiscuamente à criatura o que é próprio de Deus?” (1.12.3, p.120)

Mesmo os mais sinceros podem cair no laço da idolatria. Que nos examinemos para não repetirmos os erros do passado, escondidos debaixo de falácias e questões semânticas.

Maus costumes e argumentos [ 1.11.13-16 ]

Após tratar do bom uso da arte, o reformador volta-se novamente para os argumentos papistas a favor de imagens e esculturas nos templos. Ele se lembra que, ao contrário do que ensina, essa prática não era comum nos primórdios da igreja, o que invalida o argumento da tradição.

“Tenhamos em mente que por cerca de quinhentos anos, durante os quais até aqui mais florescia a religião e vicejava uma doutrina mais pura, os templos cristãos eram, geralmente, vazios de imagens… Como é possível, pensamos nós, que aqueles santos pais teriam deixado ficar a Igreja por tanto tempo carente desta prática que julgariam ser-lhe útil e salutar?” (1.11.13, p.112)

Entre os críticos das representações de Deus e santos, Calvino lista o próprio Santo Agostinho:

“As imagens mais valem para desviar a infeliz alma, porquanto possuem boca, olhos, ouvidos, pés, do que para assisti-la, uma vez que não falam, não veem, nem ouvem, nem andam.” (1.11.13, p.113)

Para o reformador as principais representações aceitáveis na igreja são a Ceia do Senhor e o Batismo, imagens suficientes para o crente, “de modo que não requeiram outras imagens, forjadas pela engenhosidade dos homens” (1.11.13, p.113). Está mais do que claro para ele (e para nós, se formos honestos) que não existe qualquer necessidade de ídolos em templos, prova disso são os argumentos fraquíssimos e os anátemas usados pelos sacerdotes papistas, dos quais citaremos apenas alguns.

“Outro, para provar que se devem colocar imagens nos altares, citou este testemunho: ‘Ninguém acende uma candeia e a põe debaixo do alqueire’ [Mt 5.15]… Semelhante é o raciocínio de Teodoro: ‘Maravilhoso’, diz ele: ‘, é Deus em seus santos’ [ Sl 68.35 ], e então se lê em outro lugar: ‘Quanto aos santos que estão na terra’ [ Sl 16.3 ]. Portanto, isso deve referir-se às imagens!” (1.11.14, p.114)

“E para que tudo ficasse claro e não houvesse qualquer dúvida, Teodósio, bispo de Mira, confirma, com base nos sonhos de seu arcediago, com tanta certeza, que as imagens devem ser adoradas, como se o próprio Deus lho houvesse revelado.” (1.11.15, p.115)

“Constâncio, bispo de Constância, em Chipre, professa abraçar reverentemente as imagens e confirma haver ele de tributar-lhes o mesmo culto de honra que rende à Santíssima Trindade, e a todo aquele que recusar-se a fazer o mesmo, ele o anatematiza e relega à companhia dos maniqueus e dos marcionitas.” (1.11.16, p.115)

Aprendemos muito mais nesse estudo que simplesmente o combate às imagens. Vimos que a igreja que não se preocupa com o verdadeiro conhecimento de Deus acaba se rebaixando a um mero culto idólatra. Aqueles que desprezam uma exegese séria da Palavra acabam caindo em maus costumes, como a dependência de uma tradição enganosa, o abuso da interpretação alegórica e o apelo a supostas revelações. Fiquemos alertas para que não nos desviemos do que foi proposto por nosso Pai.

Calvino e a arte [ 1.11.12 ]

Uma das acusações – inclusive feita pela conhecida líder evangélica citada no post anterior – contra os reformadores e protestantes em geral é que nós, com o apelo ao fim de ícones e ídolos, desvalorizamos a arte. Essa acusação é baseada em falta de informação e de estudo, como veremos nessa seção das Institutas.

“Nem me deixo tomar dessa superstição a tal ponto que afirme não dever-se admitir, em hipótese alguma, qualquer imagem. Mas, uma vez que a escultura e a pintura são dons de Deus, admito o uso puro e legítimo, tanto de um quanto da outra, para que não aconteça que essas coisas que o Senhor nos outorgou para sua glória e nosso bem não só sejam poluídas por ímpio abuso, mas ainda também se convertam à nossa ruína.” (1.11.12, p.111)

“Resta, portanto, que se pinte e esculpa somente aquilo que está ao alcance dos olhos, de sorte que a majestade de Deus, que paira muito acima da percepção dos olhos, não se corrompa mediante representações descabidas e fantasiosas.” (1.11.12, p.112)

Portanto, o reformador francês considera essas duas formas de arte como dons de Deus a nós, e que têm como objetivos a glória do Senhor e o bem da humanidade. Calvino ainda esboça uma breve teoria da arte, separando as obras artísticas em dois grupos básicos, e explicando em que se aproveita delas.

“Nesta classe de elementos que se podem representar pela arte estão, em parte, histórias e fatos acontecidos; em parte, imagens e formas corpóreas sem qualquer conotação de eventos consumados. Aqueles tem certa aplicação no ensino ou no conselho; estas, não vejo o que possam proporcionar, além de mero deleite.” (idem)

Concluindo – os objetivos da arte, segundo Calvino, são glorificar a Deus e trazer o bem ao homem. A arte é um presente do Pai a nós, mas deve ser usada com cuidado. Ao produzir imagens da Deidade o homem está justamente descumprindo seu papel como artista – reduz o Criador a mero objeto e encaminha as pessoas ao erro. Ao criar ídolos, o homem diminui a si mesmo, a sua arte, sua religião, e o próprio Senhor.

Servindo somente a Deus [ 1.11.9-11 ]

Outra resposta papista à acusação protestante de idolatria é que os fiéis sabem que as imagens e estátuas não tratam-se de deuses, mas apenas de representações que nos levam a uma maior piedade. Porém, os profetas parecem não se importar com essa explicação.

“As imagens, dizem eles, não são consideradas como seres divinos. Nem tão absurdamente obtusos eram os judeus, que não se lembrassem de que fora Deus quem por cuja mão tinham sido conduzidos para fora do Egito, antes de haverem forjado o bezerro… Já aqueles que, em por seu próprio dizer, eram de uma religião mais refinada, afirmavam que não adoravam nem a imagem, nem a potestade aí figurada, mas, mediante a representação material, visualizavam um sinal dessa entidade que deveriam cultuar.” (1.11.9, p.109)

A advertência de Calvino nos lembra uma líder evangélica, que disse ter sentido, certa vez, a estátua de um leão ministrar em sua vida. Provavelmente ela apenas se expressou mal, mas ainda assim fica o alerta. É claro que belas imagens (como a própria Criação, por exemplo) podem nos levar à adoração, mas existe uma diferença entre dizer que algo leva à adoração e algo “ministra” em sua vida. Veremos adiante que Calvino não é contra a arte, mas ao mau uso dessa arte pelos fiéis papistas, com a desculpa de saberem que as estátuas não são deuses.

“Ninguém ora ou adora com os olhos assim postos em uma imagem que não seja afetado a tal ponto que não pense ser por ela ouvido ou não espere que dela lhe seja concedido aquilo que deseja… ‘Não as chamamos’, dizem eles, ‘de nossos deuses’. Nem outrora aqueles as chamavam deuses, quer judeus, quer gentios. E no entanto os profetas não cessavam de reiteradamente condenar-lhes as fornicações com a madeira e a pedra, por apenas estas coisas que são diariamente praticadas por aqueles que desejam ser havidos por cristãos, isto é, que veneravam a Deus carnalmente na madeira e na pedra.” (1.11.10, p.110)

O reformador também combate a falsa distinção Latria (adoração à imagem) e Dulia (serviço à imagem), “como se na verdade adorar não fosse em nada mais atenuado que servir” (1.11.11, p.111). De fato, os apóstolos sempre se apresentam como servos (doulos) de Cristo, demonstrando que há apenas um Senhor. Por isso, a dura acusação de Calvino procede.

“O que dizem equivale exatamente a uma confissão de que cultuam suas imagens, porém sem dar-lhes culto!… Ora, um adúltero ou um homicida não se livrará da incriminação, se com dissimulação sutilmente inventar outro nome para o seu crime.” (idem)

Que tenhamos cuidado em nossas práticas e costumes durante a adoração.

A necessidade de ver e tocar [ 1.11.7-8 ]

Os papistas afirmavam que as imagens em templos auxiliavam no ensino daqueles que não podiam ler, algo que Calvino admite que, “no atual estado das coisas, não há poucos hoje que não possam dispensar tais ‘livros’” (1.11.7, p.107). No entanto, o reformador ainda insiste que deveríamos nos esforçar pela verdadeira proclamação da Palavra como forma de barrar esse vício.

“Ele ordenou que aí, nos templos, se proponha uma doutrina comum a todos na proclamação de sua Palavra e nos sagrados mistérios; mas os que andam olhando de um lugar a outro, contemplando as imagens, mostram suficientemente que não lhes é muito grata esta doutrina” (1.11.7, p.106)

Essas palavras de Calvino podem parecer radicais para alguns, mas nada mais conveniente para nossa época. O homem hodierno torna-se cada vez mais dependente de figuras que chamem sua atenção. Mesmo este blog preocupa-se em sempre publicar alguma imagem, para não tornar a leitura tão enfadonha. Isto, em parte é bom, pois a princípio não há nada de errado em uma boa estética, mas pode revelar esse nosso desprezo pela letra escrita. Existem pregadores que já são incapazes de pregar sem apresentações de slides, como se sua audiência fosse desprovida totalmente de atenção. Precisamos crer no ministério da pregação.

“Paulo testifica que, mediante a verdadeira pregação do evangelho, Cristo é pintado vivo e, de certo modo, crucificado ante nossos olhos.” (idem)

A origem dos ídolos, o reformador explica, encontra-se na necessidade do homem de enxergar ou tocar alguma coisa. Insatisfeitas pela maneira como o Deus invisível se revela, as pessoas necessitam de um apoio à sua crença, o que resulta no erro da idolatria.

“O homem tenta exprimir Deus em sua obra segundo o concebera interiormente. Logo, a mente gera o ídolo, a mão o dá à luz. Sendo esta a origem da idolatria: que os homens não creem que Deus esteja com eles, a não ser que sua presença lhes seja exibida em forma concreta, o demonstra o exemplo dos israelitas… Sabiam, realmente, que era Deus aquele cujo poder haviam experimentado em tantos milagres; porém não confiavam que ele estivesse perto deles, salvo se pudessem, com os olhos, contemplar uma representação corpórea da figura, representação que lhes fosse testemunho de um Deus a dirigi-los.” (1.11.8, p.108)

Lendo esse texto, veio à minha mente a forte ênfase sensorial que nossos cânticos tem hoje. Será que nessa grande necessidade de ver, tocar, abraçar, beijar, etc. dos nossos ministros de louvor não há, ali, um pouco desse sentimento do povo hebreu? Isto não é uma acusação, apenas um desafio para que olhemos para nós mesmos e nos examinemos em relação a esse pecado.

Calvino o iconoclasta [ 1.11.4-6 ]

“Resolveu-se que não se tenham nos templos representações pictoriais, como também não se pinte em suas paredes o que se cultua ou adora.” (Concílio de Elvira, cânon 36, citado por Calvino em 1.11.6, p.105)

Em seu combate às imagens usada por cristãos professos, Calvino apela várias vezes não apenas para a Escritura, mas para a própria incoerência da situação em que os idólatras muitas vezes se metem. Ele nota que é o medo dos seus poucos dias leva o homem a criar ídolos, mas é justamente por sua vida breve que a humanidade não deveria apegar-se aos falsos deuses.

“O homem se vê compelido a confessar que ele é uma criatura efêmera, e não obstante quer que um metal, a cuja divindade deu origem, seja considerado deus!” (1.11.4, p.103)

Mais ainda, para qualquer pessoa é óbvio que seres criados são inferiores àquele que os criou. Porém, os homens continuam a prostrar-se diante dessas figuras, como se elas tivessem alguma dignidade. Calvino cita o poeta Horácio e também ataca a veneração a ícones.

“Outrora eu era um tronco de figueira, um inútil pedaço de lenho / Quando um artífice, incerto se deveria fazer um banco etc. / Preferiu que eu fosse um deus.” (Horácio, Serm. I, sát. VIII)

“No Salmo [95], o Profeta acentua essa insânia, dizendo que aqueles que foram a tal ponto dotados de inteligência, que sabem que todas as coisas são movidas somente pelo poder de Deus, imploram o auxílio de coisas inanimadas e destituídas de sensibilidade.” (1.11.4, p.104)

Nem as representações gráficas estão isentas do pecado de corromper a glória de Deus. Calvino cita Gregório que gostaria de usar imagens com o fim de ajudar os iletrados, porém “se Gregório houvesse sido instruído nesta matéria, jamais haveria de ter assim falado” (1.11.5, p.105). Aquele que quer aprender de Deus deve conhecê-lo pelas maneiras que o próprio Deus indicou, e isto não inclui imagens.

“Os papistas assumem como infalível axioma: que as imagens fazem as vezes de livros. Pois os profetas opõem as imagens ao Deus verdadeiro, como coisas contrárias que jamais podem ser conciliadas… Uma vez que o Deus verdadeiro a quem os judeus adoravam é um e é único, pervertida e enganosamente se inventam figuras visíveis para que representem a Deus e miseravelmente iludidos se quedam todos os que daí buscam conhecimento.” (idem)

Hoje vivemos um afrouxamento nessa doutrina. O medo de parecer radical leva muitos pastores a aceitarem como normal representações de Deus, desde que não sejam estátuas. Apresentações de PowerPoint são ingênuas ilustrações que não levariam ninguém a pecar, alguns pensam. Talvez realmente ninguém chegue a adorar uma imagem JPEG, mas será que não estamos ainda assim diminuindo e corrompendo a glória do Senhor? Oremos por mais cuidado nessa área.