Calvino contra os ídolos [ 1.11.1-3 ]

A Bíblia nos revela um Deus eterno e gracioso, o que deve nos levar à adoração como proposta por ele, algo que o dignifique e não diminua a natureza do Criador. É por isso que Calvino agora se volta contra toda representação imagética da Deidade.

“Isaías, que é muito incisivo nesta demonstração, visto que ensina que a majestade de Deus é maculada de vil e absurda ficção, quando o incorpóreo é nivelado à matéria corpórea, o invisível à representação visível, o espírito à coisa inanimada, o imenso a um pequeno pedaço de madeira, pedra ou ouro.” (1.11.2, p.101)

Alguns argumentam que o fato de Deus manifestar-se em formas visíveis no Antigo Testamento significa que nos é permitido criar representações e figuras do Criador. Contra isso, Calvino também tem algo a dizer:

“Ora, nuvem, fumaça e chama, uma vez que eram símbolos da glória celestial, como que a interpor um frio, coibiam as mentes de todos para que não tentassem penetrar mais fundo… Acresce a isto que os profetas pintam os serafins que lhes foram manifestos em visão com a face velada em relação a nós, significando com isso ser tão grande o fulgor da glória divina, que até os próprios anjos se continham de contemplação direta, e as tênues centelhas que refulgem em seus anjos nos são subtraídas aos olhos.” (1.11.3, p.102)

O reformador também se lembra de Juvenal, escritor pagão que, na obra Sátiras, “censura aos judeus por adorarem as meras nuvens e a divindade do céu” (idem). Isso demonstra que a religião verdadeira da antiga aliança não envolve a construção de esculturas para serem adoradas.

“Por certo que ele está falando pervertida e impiamente. Entretanto, negando existir entre eles qualquer éfigie divina, fala mais verazmente que os papistas, que grasnam haver existido entre os judeus alguma representação visível de Deus.” (idem)

É claro que muitas vezes os judeus cairam nesse erro, mas Calvino nos lembra que não é algo que existia somente entre aqueles homens, mas uma “inclinação que em nós existe para a idolatria” (idem). Se aquele povo que viu tantos sinais errou, mais ainda nós devemos estar atentos para não tentarmos reduzir a glória do Criador à reles criatura.

Adorando o verdadeiro Deus [ 1.10.1-3 ]

Agora que já está fundamentada em nossa mente a noção de que a Escritura é a revelação de Deus, Calvino parte para mostrar o que o texto bíbico tem a dizer sobre esse Criador. Para o reformador, uma boa descriçã da natureza do Senhor encontra-se em Êxodo 34.6,7.

“SENHOR, SENHOR Deus compassivo, clemente e longânimo e grande em misericórdia e fidelidade; que guarda a misericórdia em mil gerações, que perdoa a iniqüidade, a transgressão e o pecado, ainda que não inocenta o culpado, e visita a iniqüidade dos pais nos filhos e nos filhos dos filhos, até à terceira e quarta geração!”

“Notamos que se proclamam reiteradamente ser duas vezes magnífico aquele seu nome, a eternidade e existência própria, então evocam-se suas virtudes, mediante as quais nos é descrito não quem ele é em si, mas, antes, quem ele é em relação a nós, de sorte que este conhecimento dele consista mais de viva experiência do que de vazia e leviana especulação. Na verdade, ouvimos enumerarem-se aqui suas mesmas virtudes que assinalamos luzirem no céu e na terra: clemência, bondade, misericórdia, justiça, juízo, verdade. Ora, virtude e poder estão contidos no designativo Elohim.” (1.10.2, p.98)

A referência que Calvino faz à experiência é digna de nota. Ao contrário do que pensam alguns críticos do reformador francês, ele não pregava um relacionamento puramente racionalista com Deus, mas sempre enfatiza uma relação viva com o Criador, subordinada à Palavra e avivada pelo Espírito. “Logo, com a experiência por mestra, sentimos Deus ser tal qual se declara na Palavra” (idem). Assim, mais uma vez vemos a ênfase calvinista na teologia (palavra que Calvino evita) que leva à adoração cristã.

“Portanto, o conhecimento de Deus que na Escritura nos é proposto não visa a outro escopo que aquele que refulge gravado nas criaturas, isto é, nos convida, em primeiro lugar, ao temor de Deus; em seguida, à confiança nele, para que, na verdade, aprendamos a cultuá-lo não só com perfeita inocência de vida, mas ainda com obediência não fingida, e então a dependermos totalmente de sua bondade.” (idem)

Por fim, Calvino argumenta que a noção do Deus único é comum a muitos povos. Mesmo aqueles que são politeístas muitas vezes falam da unicidade de Deus. Ainda assim, mesmo afirmando a existência de alguém (ou algo) que elas chamam de Deus, essas pessoas são indesculpáveis, por corromper a verdade revelada pelo Criador.

“Ora, mesmo os que adoravam ingente multidão de deuses, quantas vezes têm falado de acordo com o genuíno senso da natureza, têm usado simplesmente o termo Deus, como se um Deus único lhes fosse bastante… Tudo quanto em bases naturais sentiram a respeito do Deus único de nada lhes valeu a não ser que ficassem inescusáveis… E já o dissemos em outro lugar, todos e quaisquer subterfúgios que os filósofos tem argutamente imaginado, não lhes diluem o crime de apostasia, senão que evidenciam que a verdade de Deus foi corrompida por todos eles.” (1.10.3, p.99)

De fato, vemos pessoas, que não procuram em qualquer momento da vida conformarem-se ao padrão proposto pelo Senhor, afirmando sua devoção a Deus. Sustentam apenas um termo vazio, praticam uma idéia deísta do Criador, e pensam ser isso o suficiente. Calvino encerra com uma advertência a eles, mas que também serve àqueles que procuram conhecer mais o Criador:

“Por esta razão, Habacuque, que condenou a todos os ídolos, ordena que busquem a Deus em seu templo [2.20], para que os fiéis não admitissem outro Deus senão aquele que se revelara por meio de sua Palavra.” (idem)

Espírito x Escritura – parte 3 [ 1.9.3 ]

Existe uma acusação comum contra aqueles que tentam manter-se fiéis à Palavra, e desejam que somente as Escrituras falem no púlpito, através de uma boa interpretação – eles seguem a letra morta, não o Espírito que vivifica (uma distorção de 2Co 3.6). Calvino começa essa seção rebatendo essa falsa crítica.

“Portanto, morta é a letra, e a lei do Senhor mata a seus leitores, quando não só se divorcia da graça de Cristo, mas ainda, não tangindo o coração, apenas soa aos ouvidos. Se ela, porém, mediante o Espírito, é eficazmente impressa nos corações, se a Cristo manifesta, ela é a palavra da vida, a converter almas, a dar sabedoria aos símplices.” (1.9.3, p.95)

Há uma relação orgânica e viva entre Escritura e Espírito, de maneira que só conhece corretamente a Escritura aquele que está no Espírito. Ao mesmo tempo, somente pela Escritura podemos ter plena certeza das ações do Espírito e identificar falsas manifestações.

“Pois o Senhor ligou entre si, como que por mútuo nexo, a certeza de sua Palavra e a certeza de seu Espírito, de sorte que a sólida religião da Palavra se implante em nossa alma quando brilha o Espírito, que nos faz aí contemplar a face de Deus assim como, reciprocamente, abraçamos ao Espírito, sem nenhum temor de engano, quando o reconhecemos em sua imagem, isto é, a Palavra.” (idem)

Para Calvino, é ministério de Deus, em especial do Espírito, cuidar para que a mensagem da Escritura permaneça na mente dos cristãos. É comum ver igrejas que não seguem princípios bíblicos em seus cultos, apresentando a desculpa de que foram movidas pelo Senhor a isso. Devemos tomar cuidado com tais congregações.

“[Deus] enviou o mesmo Espírito, pelo poder de quem havia ministrado a Palavra, para que realizasse sua obra mediante a confirmação eficaz dessa mesma Palavra… Cristo abriu o entendimento aos dois discípulos de Emaús não para que, postas de parte as Escrituras, se fizessem sábios por si mesmos, mas para que entendessem essas Escrituras.” (idem)

Nossa oração é que o Espírito fale sempre, por meio do que Ele mesmo designou.

Espírito x Escritura – parte 2 [ 1.9.2 ]

Como já vimos, crescimento espiritual e leitura da Palavra não se separam.

“Se ansiamos por receber algum uso e fruto da parte do Espírito de Deus, imperioso nos é aplicar-nos diligentemente a ler tanto quanto ouvir a Escritura.” (1.9.2, p.94)

Porém, existem aqueles que negam a necessidade do estudo bíblico e enfatizam uma suposta orientação do Espírito Santo. Ainda hoje esse tipo de heresia existe, e muitas vezes vemos alguém enganando a si, afirmando ter uma revelação especial, quando aquilo que ela sustenta pode até ir contra a Escritura. Diante dessas pessoas, que “buscam o Espírito de si próprios e não por ele mesmo” (idem), Calvino pergunta:

“Uma vez que Satanás se transfigura em anjo de luz, que autoridade terá o Espírito entre nós, a não ser que seja discernido por meio de sinal de absoluta certeza?” (idem)

A resposta de Calvino pode parecer polêmica para alguns, mas, para ele, o Espírito Santo não irá além daquilo que está escrito. Isto é, ele não negará as Sagradas Escrituras, e nem pode fazê-lo. Evidentemente, alguns dirão que estamos prendendo Deus em uma caixa, mas o reformador responde:

“Alegam, com efeito, que é afrontoso que o Espírito de Deus, a quem todas as coisas devem ser sujeitas, seja subordinado à Escritura. Como se, na verdade, isto fosse ignominoso ao Espírito Santo: ser ele por toda parte igual e conforme a si mesmo; permanecer consistente consigo em todas as coisas; em nada variar! De fato, se fosse necessário julgar em conformida com qualquer norma humana, angélica, ou estranha, então deveria considerar-se que o Espírito estaria reduzido a subordinação.” (idem)

Deus não pode mentir, e aquilo que ele disse na Escritura, é aquilo que Deus Espírito diz aos seus. Qualquer ensino que desvirtue isso é anátema.

“Para que o espírito de Satanás não se insinue sob o nome do Espírito, ele quer ser por nós reconhecido em sua imagem que imprimiu nas Escrituras. Ele é o autor das Escrituras: não pode padecer variação e inconsistência para consigo mesmo. Portanto, como ali uma vez se manifestou, assim tem ele de permanecer para sempre.” (1.9.2, p.95)

Espírito x Escritura – parte 1 [ 1.9.1 ]

Citei em tópico anterior, a relevância dos escritos de João Calvino para nosso tempo. Parece que o reformador francês enfrentava desafios semelhantes aos que os crentes atuais encaram. Esse capítulo, em especial, é um dos melhores lidos até agora (em minha opinião) e merece alguns posts a mais. Nele Calvino fala sobre aqueles que menosprezam as Escrituras em detrimento de suposta orientação do Espírito de Deus.

“Surgiram em tempos recentes certos desvairados que, arrogando-se, com extremada presunção, o magistério do Espírito Santo, fazem pouco caso de toda leitura da Bíblia e se riem da simplicidade daqueles que ainda seguem, como eles próprios a chamam, a letra morta e que mata.” (1.9.1, p.93)

Provavelmente nos virá à memória alguém que pensa de maneira semelhante aos contemporâneos do reformador, e alguns até tenham se sentido mal por parecerem tão “insensíveis ao toque do Espírito”. Mas o reformador sabe que nenhum dos apóstolos pensava como os hereges de seu tempo.

“Eu, porém gostaria de saber deles que Espírito é esse de cuja inspiração transportam a alturas tão sublimadas que ousem desprezar como pueril e rasteiro o ensino da Escritura? Ora, se respondem que é o Espírito de Cristo, tal certeza é absolutamente ridícula, se na realidade concedem, segundo penso, que os apóstolos de Cristo e os demais fiéis da Igreja primitiva, foram iluminados não por outro Espírito. O fato é que nenhum deles aprendeu o menosprezo pela Palavra de Deus.” (idem)

Para Calvino, o Espírito e a Escritura estão unidos por um “vínculo inviolável” (idem), mas aqueles que tentam criar uma dicotomia entre esses dois elementos cometem sacrilégio e desrespeito para com Deus, sua Palavra e o próprio ministério do Espírito Santo.

“Logo, não é função do Espírito que nos foi prometido configurar novas e inauditas revelações ou forjar um novo gênero de doutrina, mediante a qual sejamos afastados do ensino do evangelho já recebido; ao contrário, sua função é selar-nos na mente aquela mesma doutrina que é recomendada no evangelho.” (1.9.1, p.94)

Criar uma divisão entre o que a Bíblia diz e o que o Espírito Santo ensina é colocar Deus contra Deus. Não que tenhamos um Livro como divindade, mas ali estão guardados os pensamentos do próprio Criador. Fugir da Palavra em nome do Espírito é dizer que Deus, que não pode mentir, se contradiz, ou que o Consolador deixou seu ministério a fim de trazer inovações no Cristianismo. Tal postura é incompatível com a de um cristão e deve ser combatida. Que o Espírito de Cristo nos ajude nisso.

Um testemunho vivo [ 1.8.12-13 ]

No final do capítulo VIII, Calvino nos deixa uma advertência:

“A Escritura será realmente satisfatória para o conhecimento salvífico de Deus, então, finalmente, quando a certeza lhe for fundamentada na convicção interior pelo Espírito Santo… Procedem insipientemente, porém, aqueles que desejam que se prove aos infiéis que a Escritura é a Palavra de Deus, pois, a não ser pela fé, isso não se pode conhecer.” (1.8.13, p.92)

O apologeta deve ter esta consciência – por mais satisfatórias que sejam suas respostas a razão humana, o homem só se colocará aos pés de Cristo por meio da fé que vem de Deus. Ao mesmo tempo em que é uma obra catequética, as Institutas também são apologéticas. Ainda assim, o reformador sabia que não eram seus escritos pura e simplesmente que converteriam os homens a Deus, mas a Palavra e o Espírito.

De fato, desde os primórdios, a Bíblia é alvo de ataques e controvérsias. Hoje, até teólogos ditos cristãos acabam questionando a veracidade da Palavra de Deus. Porém, a Palavra resiste e sempre encontra lugar no coração dos fiéis.

“Nem se deve julgar ser de importância mínima que, desde que a Escritura foi publicada, constantemente se lhe anuiu à obediência o querer de tantos séculos, e por mais que Satanás, com todo o mundo, a tenha tentado, por meio perplexivos, seja oprimindo, seja destruindo, seja de todo refreando e obliterando da lembrança dos homens, entretanto sempre, como a palmeira, tem ela subido mais alto e persistido de forma inabalável.” (1.8.12, p.91)

Além da resistência da Palavra ao ataque do mundo, vemos também a resistência dos santos e santas por amor à Bíblia, não por um desejo sadomasoquista, mas como testemunhas (μάρτυρες) das verdades ali reveladas.

“Portanto, não é uma comprovação de pouco peso o fato de a Escritura ser selada pelo sangue de tantas testemunhas, mormente quando ponderamos que eles enfrentaram a morte para dar testemunho da fé, não com excesso fanático, como por vezes costuma suceder a espíritos sem norte, mas, ao contrário, por zelo firme e constante, contido sóbrio, por Deus.” (1.8.13, p.92)

Muitos homens e mulheres foram mortos pelo Evangelho, comprovando que ele é muito mais que o registro da religião de alguns judeus. Essas pessoas morreram porque sabiam que carregavam a verdade, uma coisa que jamais pode ser escondida dos outros. Peçamos a Deus a ousadia de nossos irmãos, para não deixarmos a Escritura oculta diante de qualquer tipo de ameaça.