Mais argumentos pela Escritura [ 1.8.9-11 ]

Algo que me chama atenção desde o início deste leitura é a maneira como Calvino sempre toca pontos atuais, mesmo sem perceber. Isto não deve ser surpresa, pois quando se faz uma exposição de Cristianismo, acabamos tratando de questões universais e atemporais, de maneira que vemos a relevância da Escritura, e de seus expositores, em nossa vida.

Nesse trecho, Calvino continua a defender a Bíblia de acusações dos incrédulos. E uma dessas acusações nos lembra bastante o pensamento vigente em universidades seculares e seminários teológicos – a autoria de Moisés, e mesmo sua existência. Ora, se a Bíblia diz que Moisés existiu e escreveu parte de seus textos, mas isso não é verdade, a Palavra não é confiável. O reformador nota que trata-se de uma tentativa de desmerecer a Bíblia, mas que os critérios que se usam contra ela nunca seriam usados contra outros textos antigos.

“Mas, se alguém puser em dúvida que jamais existiu um Platão, um Aristóteles, ou um Cícero, quem não haverá de dizer que tal insânia deve ser castigada com bofetadas ou com açoites?” (1.8.9, p.88)

O reformador também nos lembra que Moisés sempre foi conhecido dos povos hebreus, o que parece indicar sua credibilidade. Mesmo com os manuscritos sendo transmitidos por gerações, a Lei Mosaica pode ser considerada verdadeira, pois “foi maravilhosamente preservada, mais pela providência celestial do que pelo cuidado de homens” (idem).

Um exemplo disso é o relato feito em 1Macabeus, que conta da queima de todos os volumes das Escrituras, ordenado por Antíoco. Ainda assim, pouco depois a Escritura circulava normalmente entre o povo. Por meio da providência, os judeus, a quem “Agostinho merecidamente chama de os bibliotecários da Igreja” (1.8.10, p.90), preservaram os volumes pouco depois dessa perseguição.

Também o Novo Testamento é digno de admiraçao, por apresentar escritores que aos olhos humanos jamais poderiam ter escrito aqueles textos. A explicação é que somente por meio do poder de Deus os apóstolos podem alcançar tamanha sabedoria e discernimento para colocar no papel.

“Neguem esses cães que o Espírito Santo haja descido sobre os apóstolos ou, quando menos, anulem a credibilidade da história. Entretanto, a própria realidade brada patentemente que esses homens haviam sido ensinados pelo Espírito que, antes desprezíveis em meio ao próprio vulgo, de repente começaram a dissertar tão magnificamente acerca de mistérios celestiais.” (1.8.11, p.91)

A Bíblia é um tesouro preservado de geração em geração. E isto só aconteceu pelo cuidado de homens piedosos e, em primeiro lugar, pela providência divina. Que valorizemos mais e mais a Palavra do Senhor.

A favor da Escritura [ 1.8.1-8 ]

Depois de deixar claro que a Bíblia é suficiente para autenticar-se, e que o homem somente reconhecerá as palavras de Deus por meio da ação do Santo Espírito, Calvino nos mostra que isso não é motivo para nos silenciarmos. Pelo contrário, isto o motiva a apresentar mais razões que suportam a veracidade da Escritura, utilizando para isso provas que apelam ao bom senso de qualquer pessoa.

O primeiro desses argumentos para crermos nas Escritura envolve o conteúdo dos textos bíblicos. Isto é, para o reformador, a Palavra nos traz uma mensagem que é superior a qualquer texto humano, o que significa que ela deve ter origem divina.

“Quão peculiar, porém, é esse poder à Escritura, transparece claramente disto: que dos escritos humanos, por maior que seja a arte com que são burilados, nenhum sequer nos consegue impressionar de igual modo” (1.8.1, p.83)

“Se faz claro que ela está repleta de idéias que não poderiam ser concebidas em bases estritamente humanas.” (1.8.2, p.83)

O conteúdo da Palavra é uma prova incontestável da autoridade bíblica, mas a forma pela qual esse conteúdo é apresentado também nos chama a atenção. Calvino reconhece que muitas passagens foram escritas em “linguagem singela e sem realce” (1.8.1, p.82), mas não se esquece da beleza de outros trechos.

“Alguns profetas tem um modo de dizer elegante e polido, até mesmo esplendoroso, de sorte que sua eloquência não é inferior à dos escritores profanos. E, com tais, exemplos, o Espírito Santo quis mostrar que não lhe falta eloquência, enquanto em outros lugares fez uso de um estilo não burilado e pomposo.” (1.8.2, p.83)

O próximo argumento do reformador diz respeito à antiguidade da Bíblia, que demonstra não ser a distorção de outra religião, mas a revelação do próprio Deus. Em suas palavras, Moisés não estava a inventar um novo Deus (1.8.3, p.84). Calvino também lembra que o líder hebreu, autor do Pentateuco, é fonte de informação segura, alguém de quem não há nada a desconfiar. Prova disso é o fato de Moisés não deixar de citar no texto bíblico eventos constrangedores a ele e sua família.

Além disso, os milagres realizados por meio de Moisés comprovam a autoridade que Deus o entregou. Alguns podem argumentar que eram obras falsas, mas Calvino lembra que o profeta se valeu desses milagres para vindicar sua autoridade sobre os israelitas. Se eles não fossem reais, não haveria qualquer respeito pelo líder.

“Isto é, Moisés ter-se-ia apresentado no meio deles e, acusando o povo de infidelidade, contumácia, ingratidão e de outros atos incrimináveis, teria se vangloriado de que a doutrina lhe fora autenticada sobe seus próprios olhos, por esses milagres que eles mesmos jamais haviam contemplado!” (1.8.5, p.85)

O cumprimento das profecias, feitas por Moisés e pelos outros autores, também demonstram claramente o poder da Palavra. Mesmo profecias tão imprevisíveis quanto a aceitação dos gentios por parte de Yahweh ou o chamamento do rei pagão Ciro foram cumpridas. Vemos claramente que existe algo de diferente nos textos sagrados usados pelos cristãos.

“Não seria grande descaramento negar que a autoridade dos profetas foi confirmada com tais testemunhos, e que de fato se cumpriu o que eles afirmam, para que se desse crédito às suas palavra?” (1.8.8, p.88)

Em momentos de dúvida e fraqueza, podemos ter mente esse estudo de Calvino. Da mesma maneira que o Senhor cumpriu as profecias ditas pelos seus profetas, ele cumprirá as promessas que tem para o cristão. Não devemos temer, pois nosso Pai nos fala com autoridade e poder, e ele nos diz: “Porque eu, o SENHOR teu Deus, te tomo pela tua mão direita; e te digo: Não temas, eu te ajudo” (Isaías 41.13)

O Espírito e a Palavra [ 1.7.4-5 ]

Qual a base para afirmarmos a confiabilidade da Escritura? Para o reformador, a Bíblia “é indubitavelmente autenticada por si mesma” (1.7.5, p.79), e os crentes reconhecem isso. Ele está certo. Se a Biblia não se autentica, então precisamos de uma autoridade maior que o próprio Deus, uma vez que a Bíblia é Deus a falar. A Escritura é a Palavra de Deus e Deus não pode mentir. Portanto, “a suprema prova da Escritura se estabelece reiteradamente da pessoa de Deus falando nela” (1.7.4, p.78).

Por se tratar de uma questão de fé, é importante que tenhamos em mente que somente Deus pode capacitar alguém a entender o texto sagrado. Isto não nos isenta do evangelismo e da apologética. Pelo contrário, essas são ferramentas criadas pelo Senhor para alcançar a humanidade. Isto se dará pela obra do Espírito em nós.

“Deve-se buscar essa convicção para além das razões, dos juízos, ou das conjeturas humanas, ou seja, do testemunho íntimo do Espírito.” (idem)

“É necessário que o mesmo Espírito que falou pela boca dos profetas penetre em nosso coração, para que nos persuada de que eles proclamaram fielmente o que lhes fora divinamente ordenado.” (1.7.4, p.79)

Isto não quer dizer que a Bíblia se torna Palavra de Deus quando atinge o nosso coração, algo completamente subjetivo e relativista. Calvino quer dizer que a Bíblia já tem sua autoridade, quer seja o homem crente ou não, mas que somente por meio do testemunho interior do Espírito este homem perceberá a veracidade da Escritura.

“Respondo que o testemunho do Espírito é superior a toda razão. Ora, assim como só Deus é idônea testemunha de si mesmo em sua Palavra, também assim a Palavra não logrará fé nos corações humanos antes que seja neles selada pelo testemunho interior do Espírito Santo.” (1.7.4, p.79)

A verdadeira religião, portanto, consiste na união de uma vida guiada pelo Espírito através da Palavra. Antes de basearmos nossas certezas em nossos próprios raciocínios, em emoções ou experiências, a Bíblia tem primazia, pois é o próprio Deus que nos dá a fé. Calvino nos diz que a “fé verdadeira é aquela que o Espírito de Deus sela em nosso coração”(1.7.5, p.80), algo que o reformador mal consegue expressar.

“Aqui está uma convicção que não requer razões; um conhecimento ao qual assiste a mais sublimada razão; na verdade, no qual a mente descansa mais firme e constantemente que em quaisquer razões; enfim, um sentimento que não pode nascer senão de revelação celestial.” (idem)

Em um mundo cheio de “caçadores de Deus”, é irônico que a Bíblia – que “nos emanou diretamente da boca de Deus” (idem) – esteja esquecida em tantos púlpitos.

Quem autoriza quem? [ 1.7.1-3 ]

A Igreja autoriza a Bíblia ou a Bíblia autoriza a Igreja? Questões como essas parecem distantes para os crentes de hoje em dia. A maioria dirá “é claro que a Bíblia tem autoridade sobre a Igreja”, mas poucos perceberão quantas vezes a igreja acaba tentando silenciar a Palavra.

“Como, porém, não se outorgam oráculos dos céus quotidianamente, e só subsistem as Escrituras, na qual aprouve ao Senhor consagrar sua verdade e perpétua lembrança, elas granjeiam entre os fiéis plena autoridade, não por outro direito senão aquele que emana do céu onde foram promulgadas, e, como sendo vivas, nelas se ouvem as próprias palavras de Deus.” (1.7.1, p.75)

Quantas vezes pastores e denominações se rendem ao último modismo evangélico ou mundano, considerando a Escritura defasada sobre certos assuntos? Quantos de nós aplaudimos certas manifestações espirituais, fingindo que Deus nada tem a dizer sobre isso? Outros preferem seguir certos “manuais de exorcismo” a descobrir o que a Escritura tem a dizer. Na prática, é a Igreja tentando autorizar a Bíblia, mas só naquilo que lhe convém.

“Se o fundamento da Igreja é a doutrina profética e apostólica, é necessário que esta doutrina tenha sua inteira infalibilidade antes que a Igreja começasse a existir.” (1.7.2, p.76)

Porém, a Igreja tem o seu papel no testemunho da veracidade das Escrituras. Livrando Agostinho da falsa acusação de só crer na Escritura se a Igreja o levar a isso, Calvino mostrar que este irmão queria, na verdade, dizer que a Igreja tem parte na obra do Espírito que nos dá certeza e convicção sobre a Palavra.

“O santo varão não tivera esta intenção: que fizesse pendente da autoridade ou do arbítrio da Igreja a fé que temos nas Escrituras; ao contrário, que apenas indicasse, o que também confessamos ser verdadeiro, que aqueles que ainda não foram iluminados pelo Espírito de Deus são induzidos à docilidade pela reverência à Igreja, para que porfiem em aprender do evangelho a fé em Cristo.” (1.7.3, p.77)

Assim, aprendemos que nossa missão é essa – trazer pessoas ao conhecimento de Deus. E isso só se consegue por meio da ação da Igreja e da apresentação séria da Escritura.

Um conhecimento seguro [ 1.6.1-4 ]

Quando começamos a falar sobre o conhecimento de Deus, havia a questão da confiabilidade das informações que temos. Embora a Criação, a providência e a semente divina no homem comuniquem ao ser humano alguma coisa sobre o Senhor, esse conhecimento é incompleto, por vezes subjetivo, e sujeito à má interpretação (é só ir numa universidade para confirmarmos isso). Assim, é necessário que tenhamos algo que “nos dirija retamente ao próprio Criador do universo” (1.6.1, p.71).

“Portanto, Deus não acrescenta em vão a luz de sua Palavra para que a salvação se fizesse conhecida. E considerou dignos deste privilégio aqueles a quem quis atrair para mais perto e mais íntimo.” (idem)

Calvino compara a Palavra de Deus a lentes que nos permitem enxergar de maneira confiável a Deus, diferente de todos os outros meios. Sem a Escritura estaríamos entregues a nossa própria opinião, e aos nossos ídolos. Muito da espiritualidade moderna se baseia simplesmente nisso – o que algum guru acha que os outros devem fazer. Baseado em quê? Nele mesmo, apenas.

“Por meio de sua Palavra, Deus fez para sempre com que a fé não fosse dúbia, fé esta que houvesse de ser superior a toda mera opinião… Para que nos reluza a verdadeira religião, é preciso considerar isto: que ela tenha a doutrina celeste como seu ponto de partida; nem pode alguém provar sequer o mais leve gosto da reta e sã doutrina, a não ser aquele que se faz discípulo da Escritura. Donde também provém o princípio do verdadeiro conhecimento: quando abraçamos reverentemente o que Deus quis testificar nela acerca de si mesmo.” (1.6.2, p.72s)

É por esse motivo que sempre me fico com o pé atrás quando vejo pessoas tão dedicadas na igreja, mas que nada conhecem da Bíblia. Ou aqueles que gostam de falar de uma suposta intimidade com Deus, mas que são incapazes de dedicar-se a uma leitura séria e disciplinada da Palavra. A Bíblia é “a escola especial dos filhos de Deus” (1.6.4, p.74). Não há conhecimento seguro de Deus sem a Revelação escrita.

A fábrica de ídolos [ 1.5.11-15 ]

Se existem tantas informações a respeito de Deus na Criação e na mente do homem, por que as pessoas ainda se desviam dele? Por causa do pecado, Calvino responderá. Aqueles dons que o Senhor nos entregou são distorcidos por nossa mente carnal. Nem o mais culto representante da raça humana está imune disso.

“Sem dúvida, nisto somos todos diferentes, a saber, em que cada um, por sua vez, suscita para si algum erro peculiar; todavia, nisto são muito semelhantes, a saber, em que à uma, por meio de absurdas ridicularias, todos nos desgarramos do Deus único e verdadeiro. Desta enfermidade são afetados, não apenas os espíritos vulgares e obtusos, mas ainda os mais ilustres e dotados de outra sorte de habilidade singular.” (1.5.11, p.65)

A mente humana, quando deixada sozinha, é uma fábrica de ídolos – mais uma expressão calvinista que tornou-se clássica.

“Dificilmente um só jamais se achou que não fabricasse para si um ídolo ou imagem no lugar de Deus. Na verdade, exatamente como as águas borbulham de vasta e ampla fonte, imensa turba de deuses tem promanado na mente dos homens, enquanto cada um, a divagar com excessiva licença, erroneamente inventa isso ou aquilo acerca do próprio Deus.” (1.5.12, p.66)

Com isto em mente, o reformador lista algumas escolas filosóficas que, embora proveitosas às vezes, não conseguiram alcançar ao verdadeiro Deus, mas apenas criaram ídolos para si. Em 1.5.12, Calvino critica os estóicos, a teologia esotérica dos egípcios, os epicureus, além de Simônides. O ser humano é incapaz de produzir a verdadeira religião com base apenas em si mesmo e em uma opinião falível.

“Todos quantos se afastam do Deus único adulteram a religião pura, como necessariamente sucede a quantos se entregam à sua própria opinião… Mesmo que nem todos hajam laborado em vícios crassos, ou resvalado a idolatrias francas, nem assim houve alguma religião pura e aprovada que se fundamentasse apenas no senso comum… a opinião humanamente concebida, ainda que nem sempre engendre farto amontoado de erros, não obstante é a mãe do erro.” (1.5.13, p.68)

A grande ironia é que, ainda que seres irracionais e impessoais praticamente gritam ao homem, ele não consegue escutar nada. Aquele que deveria dominar age como se fosse o menor dos seres. Isso o torna indesculpável.

“Se o homem alega que lhe faltaram ouvidos para ouvir a verdade, quando para declará-la às criaturas mudas sobejam vozes mais do que canoras; se pleteia que com os olhos não pode ver o que lhe mostram as criaturas não dotadas de visão; se como escusa evoca a deficiência do entendimento, quando o ensinam todas as criaturas destituídas de razão!… Sem rumo e desgarrados, nos extraviamos, quando todas as coisas nos apontam a trilha certa.” (1.5.15, p.70)

A solução para o problema humano é que Deus haja na vida das pessoas. É preciso que o Senhor nos guie ao verdadeiro conhecimento dele.

“Não temos olhos para contemplá-la, salvo-se, mercê da revelação interior de Deus, mediante a fé, eles sejam iluminados.” (1.5.14, p.69)

É sobre este guia que Calvino tratará nos próximos capítulos – a Escritura.