Objeções à providência [ 1.17.4-5 ]

Se Deus é aquele que tudo decide, por que devemos cuidar de nós mesmos? Para que agir como se pudéssemos cuidar de nossa própria vida? São essas questões que Calvino enfrentará na presente seção. A resposta do reformador é simples – Deus proveu os meios para que a proteção (ou não) de nossas vidas acontecessem.

“Aquele que nos limitou a vida com seus termos, ao mesmo tempo, depondo diante dele nossa solicitude, proveu-nos de meios e recursos de conservá-la; também nos fez capazes de antecipar os perigos; para que não nos apanhassem desprevenidos, ministrou-nos precauções e remédios.” (1.17.4, p.209)

Da mesma maneira que a prudência do homem prudente é protegido por esse meio, Deus utiliza a imprudência para dar cabo do tolo. O Senhor ordena que cuidemos de nossas vidas, e o próprio fato de não conhecermos o futuro é motivo para colocarmos isso em prática.

“Pois, donde acontece que o homem providente, enquanto cuida bem de si, se desvencilha até de males iminentes, o insipiente pereça levado por temeridade, senão que tanto a insipiência quanto a prudência são instrumentos da divina administração para um e outro desses dois aspectos? Essa é a causa por que Deus quis que não conhecêssemos o futuro, para que, sendo ele incerto, nos preveníssemos e não deixássemos de usar os remédios que ele nos dá contra os perigos, até que, ou os vençamos, ou sejamos deles vencidos.” (1.17.4, p.210)

Outra objeção que se levanta diz respeito aos pecados, ordenados por Deus, e, portanto, justificáveis. Calvino lembra que é na Palavra de Deus que estão os mandamentos para o homem, e que ninguém comete o mau desejoso de fazer a vontade de Deus, mas por rebeldia e concupiscência.

“Se intentamos algo contra seu preceito, isso não é obediência; pelo contrário, é contumácia e transgressão. Mas, replicarão, a não ser que ele o quisesse, não o haveríamos de fazer. Concordo. Entretanto, porventura fazemos as coisas más com este propósito, ou, seja, que lhe prestemos obediência? Com efeito, de maneira alguma Deus não no-las ordena; antes, pelo contrário, a elas nos arremetemos, nem mesmo cogitando se ele o queira, mas de nosso desejo incontido, a fremir tão desenfreadamente, que de intento deliberado lutamos contra ele.” (1.17.5, p.211)

Para explicar melhor, o reformador usa uma metáfora bastante sugestiva, e com isso desbanca de vez os opositores da doutrina da providência.

“E, indago eu, donde provém o mal cheiro em um cadáver que, pelo calor do sol, não só se fez putrefato, mas até já entrou em decomposição? Todos vêem que isso é provocado pelos raios do sol; contudo, ninguém por isso diz que eles cheiram mal. Daí, como no homem mau residem a matéria e a culpa do mal, que razão há para que se conclua que Deus contrai alguma mácula se, a seu arbítrio, ele faz uso de sua atuação?” (idem)

Vemos que a preocupação de Calvino com esta doutrina não é meramente algum tipo de exercício de imaginação, mas um desejo de expressa a verdade da Escritura e, como perceberemos nas próximas seções, a preocupação pastoral de trazer conforto aos fiéis. Que nós, estudantes de teologia, também tenhamos essas coisas em nossas mentes e em nossos estudos.

Estudando a profundidade [ 1.17.1-3 ]

O assunto da providência, tão ignorado em nossos dias, recebe de Calvino mais um capítulo, que ele gastará esclarecendo ainda mais a doutrina, e respondendo o objeções. Logo de início ele apresenta o escopo do seu estudo.

“E, em primeiro lugar, certamente deve notar-se que é preciso considerar a providência de Deus tanto em função do tempo futuro quanto do passado. Em segundo lugar, que ela a tal ponto é a moderatriz de todas as coisas, que ora opera por meios interpostos, ora sem meios, ora contra todos os meios. Em terceiro lugar, que ela aponta para o fato de que Deus mostra tomar sobre si o cuidado de todo o gênero humano, mas principalmente que vela em governar a Igreja, a qual tem por digna da mais estrita atenção.” (1.17.1, p.205)

Enfim, ao mesmo tempo que não podemos ir muito além do que a Bíblia nos revela sobre esse assunto, também não podemos negar que somos chamados a contemplar e nos maravilhar diante da soberania de Deus sobre o universo. Enquanto a vontade revelada de Deus (sua Lei e seu Evangelho) nos estão claramente expostos, a vontade oculta do Senhor é comparada por Calvino com um profundo abismo [Sl 36.6; Rm 11.33,34] que não podemos negar.

“Sua admirável maneira de governar o mundo com razão se denomina de abismo, porque, a despeito de nos ser ignota, deve ser reverentemente por nós adorada. Moisés expressou magnificamente a ambos esses aspectos em poucas palavras: ‘As coisas ocultas’, diz ele, ‘pertencem a nosso Deus; aquelas, porém, que foram aqui escritas pertencem a vós e a vossos filhos’ [Dt 29.29]. Vemos, pois, que ele ordena não apenas aplicarmos diligência em meditar a lei, mas ainda reverentemente contemplarmos a providência secreta de Deus.” (1.17.2, p.207)

Agostinho também é citado nesse trecho, demonstrando que temos uma lei que devemos nos submeter e a lei que a todos Deus submete, mesmo que secretamente. Cabe ao crente reconhecê-la.

“Porque não conhecemos tudo que, na melhor disposição possível, Deus opera em relação a nós, agimos só em boa vontade, segundo a lei; contudo, segundo a lei, se age em outras coisas sobre nós, pois sua providência é uma lei imutável.” (Agostinho, citado em 1.17.2, p.208)

Uma dos aparentes problemas que a doutrina da providência levanta diz respeito à responsabilidade. Calvino cita alguns escritores pagãos que diziam que isso geraria o fim da responsabilidade humana, pois se Deus controla tudo, ele controla nossas decisões para o mal. O reformador falará sobre isso nas próximas seções, mas introduziremos o assunto aqui.

“Eu, porém, não sou causador, e, sim, Zeus e o Destino… Deus foi o impulsor; creio que os deuses o quiseram, porquanto se não o quisessem, sei que não teria acontecido.” (citando Agamenão, de Homero, e Licônio, de Plauto, 1.17.3, p.208)

“Até mesmo concluem que haverão de ser perversas, não só totalmente supérfluas, as orações dos fiéis nas quais se pede que o Senhor proveja àquelas coisas que decretou já desde a eternidade.” (1.17.3, p.209)

Assim, é necessário que nos dediquemos mais tempo a essa questão. Como já foi disto, é uma doutrina que mexe com verdades difíceis para o ser humano, e merece mais algum tempo de estudo. Que o Espírito Santo possa nos iluminar nessa empreitada.

Providência ou acaso? [ 1.16.7-9 ]

Calvino continua sua exposição sobre a providência divina, demonstrando que as ações naturais não apenas são governadas pelo Criador, mas também levadas por ele a um propósito que lhe agrade. Tanto aquilo que ordinário quanto o extraordinário estão debaixo da soberania de Deus.

“Sua providência geral não apenas vigora nas criaturas, de sorte a continuar a ordem natural, mas ainda, por seu admirável desígnio, se aplica a um fim definido e apropriado.”
(1.16.7, p.201)

Como já foi dito, essa doutrina não agrada a muitos, o que leva à uma acusação comum – estariam aqueles que defendem o governo de Deus sobre tudo se assemelhando aos antigos filósofos, que defendiam o controle da sorte, do destino ou do acaso. Evidentemente, essa objeção não se encaixa, uma vez que os cristãos defendem um universo governador por um Ser pessoal. E não apenas um Des pessoal, mas cheio de sabedoria e bondade.

“Ao contrário, de tudo constituímos a Deus árbitro e moderador, o qual, por sua sabedoria, decretou desde a extrema eternidade o que haveria de fazer, e agora, por seu poder, executa o que decretou. Daí, afirmamos que não só o céu e a terra, e as criaturas inanimadas, são de tal modo governados por sua providência, mas até os desígnios e intenções dos homens, são por ela retilineamente conduzidos à meta destinada… Nada há mais absurdo do que alguma coisa acontecer sem que Deus o ordene, pois doutra sorte aconteceria às cegas.” (1.16.8, p.201s)

Calvino também fala do termo permissão, usado por Agostinho, que não pode significar que Deus simplesmente assiste os eventos do universo, deixando o acontecer o que quiser. O Criador permitir algo significa também sua ação governadora sobre todos, sendo ele a primeira causa de tudo.

“Certamente, ele não imagina Deus a repousar em ociosa torre de observação, enquanto se dispõe a permitir algo, quando intervém uma, por assim dizer, vontade presente, de qualquer modo não se poderia declarar como causa.” (idem)

Por fim, Calvino também leva em consideração que muitos dos fatos que nos parecem fortuitos são providenciados por Deus, mesmo que não os entendamos. Em suas palavras, “muito aquém da altura da providência de Deus se põe a lerdeza da mente” (1.16.9, p.202). Certos eventos acontecem por causa da própria natureza dos elementos envolvidos, mas mesmo ali está a mão de Deus a guiar esses acontecimentos ordinários.

“Raciocínio idêntico vale em relação à contingência dos eventos futuros. Como todas as coisas futuras nos são incertas, por isso as temos em suspenso, como se houvessem de inclinar para um lado ou para outro. Entretanto, permanece não menos arraigado em nosso coração que nada haverá de acontecer que o Senhor já não o haja provido.” (1.16.9, p.203)

Nos próximos textos, Calvino dedicará mais de sua atenção ao assunto da providência, nos levando a confiar plenamente no justo desígnio de Deus sobre a Criação. Que tenhamos esses pensamentos na mais alta conta, visto que nos servem para elevar a mente ao Criador.

O Deus que decide [ 1.16.4-6 ]

Muitas vezes para a mente humana a idéia de um Deus que governa e determina todas as coisas gera problema. Alguns temem que sua liberdade seja suprimida por essa idéia, outros querem inocentar Deus dos eventos que consideram ruins. Porém, o que a Bíblia ensina é que o Criador realmente tem em suas mãos o controle de tudo, e age de maneira eficaz.

“Pergunto, pois, que outra coisa é governar, senão presidir de tal modo que as coisas sobre as quais se preside sejam regidas por um conselho determinado e uma ordem infalível?” (1.16.4, p.197)

Negar o que o Senhor está envolvido em cada evento, é torná-lo “Regente do universo somente em nome, não de fato” (idem). Por isso, Calvino gasta um pouco de seu estudo mostrando a providência de Deus tanto na natureza, quanto entre os homens. Uma das provas do poder de Deus sobre sua criação encontra-se no Salmo 147.

“Com efeito, Davi louva a providência geral de Deus, porque ministra alimento aos filhotes de corvos que o invocam; quando, porém, o próprio Deus ameaça de fome aos animais, porventura não declara suficientemente que ele alimenta a todos os viventes, ora com escassa medida, ora com medida mais farta, conforme bem lhe pareceu?” (1.16.5, p.198)

Da mesma forma, a humanidade não pode mover um passo, se não for guiada pelo próprio Criador e Preservador. Os exemplos bíblicos são inúmeros, e não devemo nos deixar em dúvida.

“‘Do homem’, diz ele, ‘é a disposição do coração, e do Senhor é a preparação da língua’ [Pv 16.1, 9]. Sem dúvida que é uma ridícula insânia que míseros homens deliberem agir sem Deus, quando realmente nem podem falar a não ser aquilo que ele quer.” (1.16.6, p.199)

Deus também é aquele que decide quem será exaltado e quem será humilhado. Em sua justiça, ele fará aquilo que lhe agradar, e o que lhe dará glória. Cabe ao homem agradecer pela decisão de seu Criador e agir sem desespero.

“Embora os ricos estejam, no mundo, mesclados com os pobres, enquanto a cada um é divinamente assinalada sua condição, Deus, que a todos ilumina, não é de modo nenhum cego, e assim exorta os pobres à paciência, porque todos quantos não estão contentes com a própria sorte tentam alijar o fardo que Deus impôs sobre eles… Uma vez que Deus não pode despojar-se da função de Juiz, o salmista conclui daqui que de seu secreto desígnio permite que uns se enalteçam e outros permaneçam desprezíveis.” (1.16.6, p.200)

A mensagem de Calvino não deve nos levar à passividade e ao conformismo, mas é necessária para entender porque somos quem somos. Deus nos criou, e rege nossa vida conforme sua vontade soberana. Aqueles que fogem dessa verdade enfrentarão temor e ansiedade, enquanto o fiel achará, mesmo em dificuldades, alegria e prazer. Que tenhamos isso em nosso coração.

Deus, Criador e Preservador [ 1.16.1-3 ]

Se Deus é o Criador de tudo, segue-se que ele é o Sustentador e Governador também. Esse é o raciocínio de Calvino ao entrar no assunto da providência divina. Quem crê em Deus como Criador deve reconhecê-lo como soberano também.

“Se não chegamos até sua providência, por mais que pareçamos não só compreender com a mente, mas até confessar com a língua, ainda não aprendemos corretamente o que isto significa: ‘Deus é Criador’.” (1.16.1, p.192)

O governo de Deus sobre a criação não se restringe a simplesmente acionar a “máquina do universo” e deixá-la funcionando, como creem os deístas (e muitos crentes), mas ele mesmo se envolve no funcionamento de tudo, seja (ao nosso ver) bonança ou desastre. Além disso, nem a sorte, nem o acaso devem ser lembrados como regentes do universo, mas somente Deus.

“Se alguém cai nas garras de assaltantes, ou de animais ferozes; se do vento a surgir de repente sofre naufrágio no mar; se é soterrado pela queda da casa ou de uma árvore; se outro, vagando por lugares desertos, encontra provisão para sua fome; arrastado pelas ondas, chega ao porto; escapa milagrosamente à morte pela distância de apenas um dedo; todas essas ocorrências, tanto prósperas, quanto adversas, a razão carnal as atribui à sorte. Contudo, todo aquele que foi ensinado pelos lábios de Cristo de que todos os cabelos da cabeça lhe estão contados [Mt 10.30], buscará causa mais remota e terá por certo que todo e qualquer evento é governado pelo conselho secreto de Deus.” (1.16.2, p.193)

Assim, todas as coisas, embora tenham em sua natureza certas propriedades, só se tornam efetivas quando são movidas por Deus a realizar aquilo a que foram propostas. O crente deve guardar isso, para que se lembre que Deus é aquele que decide como governar cada ser criado. Essa doutrina nos será de grande importância, trazendo confiança e glória ao Criador e conforto à alma.

“Primeiro, que poder mui amplo de fazer o bem há com aquele em cuja posse estão o céu e aterra e a cujo arbítrio as criaturas todas voltam os olhos, de sorte a devotar-se à sua obediência. Em segundo lugar, podem descansar em segurança na proteção desse a cujo arbítrio se sujeitam todas as coisas que poderiam fazer-lhes dano; sob cuja autoridade, não menos que de um freio, Satanás é coibido, juntamente com todas as suas fúrias e todo o seu aparato; de cujo arbítrio pende tudo quanto se opõe ao nosso bem-estar.” (1.16.3, p.195)

A doutrina da providência, longe de ser uma fonte de especulação (como acreditam alguns), é um oásis de segurança para o crente, em meio a tantas pessoas em busca de um sentido na vida. Somente aceitando o governo do nosso Pai sobre tudo o que há poderemos ser cristãos verdadeiramente constantes e satisfeitos em Deus.

O livre-arbítrio [ 1.15.8 ]

Quando se pensa em Calvino, a questão da predestinação e do livre-arbítrio é a primeira coisa que vem a mente da grande maioria dos evangélicos. Curiosamente, só agora, depois de 15 capítulos, o reformador começa a tocar no assunto. Isso demonstra que a caricatura reducionista que se pinta de Calvino deve ser combatida. O teólogo de Genebra não se preocupou em sistematizar a predestinação, mas de ensinar aquilo que a Bíblia ensina, e a predestinação é apenas uma parte.

Para entendermos o que o homem é hoje, é necessário compreendermos seu estado original. Como vimos no estudo anterior, Calvino entende que a alma do homem tem duas propriedades básicas: a razão e a vontade. Assim, a vontade do homem era inteiramente ajustada ao que ponderava seu entendimento. Com isso em mente, ele explica como era Adão antes do pecado.

“A escolha do bem e do mal lhe era livre. Não só isso, mas ainda suma retidão havia em sua mente e em sua vontade, e todas as partes orgânicas estavam adequadamente ajustadas à sua obediência, até que, perdendo-se a si próprio, corrompeu todo o bem que nele havia.” (1.15.8, p.190)

Assim, o livre-arbítrio só poderia ser considerado verdadeiramente livre se a vontade está debaixo dessa capacidade de julgar. O erro dos filósofos, como já dissemos, foi ignorar a corrupção do homem. E o erro de muitos cristãos hoje é darem mais consideração a um conceito grego que à revelação de Deus.

“Mas os que professam ser cristãos, e ainda buscam o livre-arbítrio no homem perdido e imerso em morte espiritual, corrigindo a doutrina da Palavra de Deus com os ensinos dos filósofos, estes se desviam totalmente do caminho e não estão nem no céu nem na terra.” (idem)

Calvino aproveita para combater aqueles que tentam culpar Deus por não ter evitado a Queda. No entanto, o reformador nos lembra que Adão caiu por sua própria vontade, e que Deus não tinha a obrigação de conferir ao homem mais perseverança do que já havia dado.

“Adão recebera o poder, se quisesse; não teve, entretanto, o querer, por meio do qual pudesse, porque a perseverança acompanharia este querer. Todavia, não tem escusas quem recebeu tanto que, por seu próprio arbítrio, a si engendrasse a ruína. Aliás, nenhuma necessidade fora imposta a Deus para que não lhe outorgasse uma vontade medial e até passível de cair, para que da queda daquele derivasse matéria para sua glória.” (1.15.9, p.191)

Como o próprio Calvino nos propõe, é necessário também conhecer o homem para conhecer a Deus. Aqueles que negam a incapacidade do ser humano de escolher livremente entre o bem e o mal precisam livrar-se de todo conceito que não vem da Bíblia. O crente que ignora o que a Escritura ensina sobre si pode cair em grave erro. Que sejamos submissos à Palavra do Senhor.