A imortalidade da alma [ 1.15.2-3 ]

Confesso que, por maior que seja minha admiração por Calvino, não concordo com alguns pontos de sua antropologia. Me parece que, por vezes, ele está mais próximo dos gregos que dos judeus (basicamente, os autores da Bíblia). Queria saber o que os irmãos acham. De qualquer maneira, como o interesse dos leitores (e do blog) não é o que penso, mas o que o reformador pensa, prossigamos.

“Afinal, que o ser humano consta de alma e corpo, deve estar além de toda controvérsia. E pela palavra alma entendo uma essência imortal, contudo criada, que lhe é das duas a parte mais nobre.” (1.15.2, p.180)

Como é comum entre os teólogos reformados, Calvino entende o homem como formado de uma parte material (seu corpo) e a parte imaterial (a alma, ou espírito), aquilo que conhecemos como dicotomia. Para o reformador, embora o corpo tenha sua dignidade, é na alma que encontramos a mais perfeita expressão da imagem de Deus.

Para Calvino, existem diversas provas da imortalidade e superioridade da alma. Por exemplo, a capacidade de discernir entre o bem e o mal, a memória, o funcionamento da mente no sono, e a própria Escritura, claro. Listaremos alguns:

“Sem dúvida que a consciência, que discernindo entre o bem e o mal responde ao juízo de Deus, é sinal indubitável do espírito imortal. Pois, como uma disposição sem essência poderia penetrar até o tribunal de Deus e a si incutiria terror de sua culpabilidade?” (1.15.2, p.180)

“Portanto, só o espírito pode ser a sede dessa inteligência. Aliás, o próprio sono, que entorpecendo o homem parece até mesmo privá-lo da vida, é uma testemunha não obscura da imortalidade, quando não só sugere pensamentos dessas coisas que jamais ocorreram, mas ainda presságios quanto ao porvir.” (1.15.2, p.181)

Calvino combate o pensamento de Osiandro, que acreditava ser a imagem de Deus tanto a alma quanto o corpo, este baseado no futuro corpo do Filho encarnado. Outro erro que o reformador condena é a tentativa de diferenciar os termos “imagem” e “semelhança”.

“Discussão bem acirrada há também a respeito de imagem e semelhança, enquanto entre estes dois termos buscam os intérpretes uma diferença que não existe, salvo que semelhança foi adicionada à guisa de explicação. Em primeiro lugar, sabemos que entre os hebreus as repetições eram triviais, através das quais exprimem duas vezes uma só coisa; em segundo lugar, nenhuma ambigüidade há na própria matéria, a saber, que o homem seja designado de imagem de Deus, porquanto é ele semelhante a Deus. “ (1.15.3, p.183)

O homem foi criado à imagem e semelhança de Deus, e dotado com habilidades maravilhosas. Já dissemos que nos acostumamos com a Criação e muitas vezes deixamos de dar glória a Deus. Porém, quantas vezes fomos levados a adoração por reconhecer a arte e poder do Criador ao nos fazer? Mesmo caído, o homem ainda demonstrar um pouco daquilo que era – a obra máxima do Criador. Que essa consciência nos leve à verdadeira piedade.

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