Filosofando sobre o homem [ 1.15.5-7 ]

O ser humano e suas capacidades sempre foram material de estudo farto na filosofia. Por isso, Calvino dedica parte de seu estudo às teorias propostas pelos pensadores seculares. Ele começa combatendo a doutrina dos maniqueus, que ensinavam ser a alma parte da essência de Deus. O argumento contrário de Calvino compara a mudança e corruptibilidade do homem à eternidade de Deus.

“Ora, se a alma do homem procede da essência de Deus mediante transfusão, segue-se que a natureza de Deus está sujeira não só a mudança e a paixões, mas ainda a ignorância, a desejos depravados, a enfermidade e a vícios de toda espécie… Se aceitamos que a alma é porção da essência de Deus ou misterioso influxo da divindade, faz-se necessário atribuir tudo isso à natureza de Deus.” (1.15.5, p.186)

A conclusão de Calvino contra os maniqueus é que “criação, porém, não é transfusão; ao contrário, é começo de essência oriunda do nada” (idem). A respeito de outros filósofos, porém, o reformador é um pouco mais positivo, reconhecendo que “as coisas que ensinam são realmente verazes, não apenas agradáveis de se conhecer, como também são proveitosas” (1.15.6, p.187).

No entanto, por mais úteis que sejam os filósofos, eles pecam por não considerar a queda do homem nos seus estudos. Na seção 1.15.8, Calvino nos dirá que o erro deles foi procurar um edifício estruturado em meio a escombros. Por isso, o reformador prefere ensinar apenas duas faculdades básicas da alma humana.

“A divisão que usaremos será considerar duas partes na alma: o entendimento e a vontade. Entretanto, a função do entendimento é discernir entre as coisas que lhe são propostas, para ver qual há de ser aprovada e qual há de ser rejeitada; a função da vontade, entretanto, é escolher e seguir o que o entendimento ditar como bom, rejeitar e evitar o que ele houver desaprovado.” (1.15.7, p.189)

Aprendemos nessa seção que o estudo secular tem utilidade para o cristão, mesmo que nos sirvam apenas para reconhecermos seus erros e os evitarmos. Assim, embora beba muitas vezes dos escritos dos filósofos, para o reformador essa definição simples nos é suficiente. Esses termos serão úteis na próxima seção, quando ele falará sobre a queda do homem.

“Para que não nos enredilhemos em questões supérfluas, seja-nos bastante que o entendimento é como que o guia e piloto da alma, que a vontade sempre atenta para seu arbítrio e em seus desejos espera seu juízo.” (idem)

A imagem de Deus [ 1.15.4 ]

Afinal, o que significa a expressão “imagem de Deus”? Para Calvino, isso só pode ser respondido à luz do que a Bíblia fala a respeito do estado original e do estado regenerado do homem. O homem pecador ainda carrega essa imagem, porém deformada pelo pecado. O Espírito Santo trabalha para trazê-la à tona novamente.

“Agora ela se percebe nos eleitos, em certa medida, na extensão em que foram regenerados pelo Espírito. Entretanto, pleno fulgor ela haverá de fluir somente no céu.” (1.15.4, p.185)

Para Calvino, “o propósito da regeneração é este: para que Cristo nos remolde à imagem de Deus” (1.15.4, p.184). Assim, ele nos mostra que Paulo várias vezes faz uso desse conceito, exortando-nos a nos conformarmos com Cristo. O reformador cita alguma dessas características que fazem brilhar a imagem do Criador em nós.
“Põe ele, em primeiro lugar, conhecimento; em segundo, sincera retidão e santidade. Do quê concluímos que, de início, a imagem de Deus foi conspícua na luz da mente, na retidão do coração e na saúde de todas as partes do ser humano.” (idem)

Calvino também refuta as heresias de Osiandro, inclusive sua teoria de que apenas o homem seria a imagem de Deus, e não a mulher. O reformador sabe que o termo “compreende tudo quanto diz respeito à vida espiritual e eterna” (1.15.4, p.185), o que inclui o sexo feminino. Calvino também critica a especulação de Agostinho, que falava da alma como reflexo da Trindade. Por fim, combate também aqueles que associam a imagem de Deus ao domínio sobre a terra (idéia forte hoje em dia, e bastante aceitável, em minha opinião).

A mensagem que este estudo deixa, portanto, é essa – que o homem foi criado conforme a imagem de Deus, caiu dessa posição, mas Cristo nos traz de volta ao que fora dado à humanidade.

“Cristo é a perfeitíssima imagem de Deus, conformados à qual somos de tal modo restaurados que trazemos a imagem de Deus em verdadeira piedade, retidão, pureza, entendimento.” (idem)

A imortalidade da alma [ 1.15.2-3 ]

Confesso que, por maior que seja minha admiração por Calvino, não concordo com alguns pontos de sua antropologia. Me parece que, por vezes, ele está mais próximo dos gregos que dos judeus (basicamente, os autores da Bíblia). Queria saber o que os irmãos acham. De qualquer maneira, como o interesse dos leitores (e do blog) não é o que penso, mas o que o reformador pensa, prossigamos.

“Afinal, que o ser humano consta de alma e corpo, deve estar além de toda controvérsia. E pela palavra alma entendo uma essência imortal, contudo criada, que lhe é das duas a parte mais nobre.” (1.15.2, p.180)

Como é comum entre os teólogos reformados, Calvino entende o homem como formado de uma parte material (seu corpo) e a parte imaterial (a alma, ou espírito), aquilo que conhecemos como dicotomia. Para o reformador, embora o corpo tenha sua dignidade, é na alma que encontramos a mais perfeita expressão da imagem de Deus.

Para Calvino, existem diversas provas da imortalidade e superioridade da alma. Por exemplo, a capacidade de discernir entre o bem e o mal, a memória, o funcionamento da mente no sono, e a própria Escritura, claro. Listaremos alguns:

“Sem dúvida que a consciência, que discernindo entre o bem e o mal responde ao juízo de Deus, é sinal indubitável do espírito imortal. Pois, como uma disposição sem essência poderia penetrar até o tribunal de Deus e a si incutiria terror de sua culpabilidade?” (1.15.2, p.180)

“Portanto, só o espírito pode ser a sede dessa inteligência. Aliás, o próprio sono, que entorpecendo o homem parece até mesmo privá-lo da vida, é uma testemunha não obscura da imortalidade, quando não só sugere pensamentos dessas coisas que jamais ocorreram, mas ainda presságios quanto ao porvir.” (1.15.2, p.181)

Calvino combate o pensamento de Osiandro, que acreditava ser a imagem de Deus tanto a alma quanto o corpo, este baseado no futuro corpo do Filho encarnado. Outro erro que o reformador condena é a tentativa de diferenciar os termos “imagem” e “semelhança”.

“Discussão bem acirrada há também a respeito de imagem e semelhança, enquanto entre estes dois termos buscam os intérpretes uma diferença que não existe, salvo que semelhança foi adicionada à guisa de explicação. Em primeiro lugar, sabemos que entre os hebreus as repetições eram triviais, através das quais exprimem duas vezes uma só coisa; em segundo lugar, nenhuma ambigüidade há na própria matéria, a saber, que o homem seja designado de imagem de Deus, porquanto é ele semelhante a Deus. “ (1.15.3, p.183)

O homem foi criado à imagem e semelhança de Deus, e dotado com habilidades maravilhosas. Já dissemos que nos acostumamos com a Criação e muitas vezes deixamos de dar glória a Deus. Porém, quantas vezes fomos levados a adoração por reconhecer a arte e poder do Criador ao nos fazer? Mesmo caído, o homem ainda demonstrar um pouco daquilo que era – a obra máxima do Criador. Que essa consciência nos leve à verdadeira piedade.

Sobre o homem [ 1.15.1]

A partir de agora, Calvino se volta ao conhecimento do homem. Para ele, é essencial que conheçamos a nós mesmos, se quisermos conhecer a Deus. Isso não é algum tipo de princípio antropocêntrico, mas é fruto da certeza de que o Senhor imprimiu suas marcas também na humanidade.

“Convém-nos falar agora da criação do homem, não apenas porque dentre todas as obras de Deus é ele a expressão mais nobre e sumamente admirável de sua justiça, sabedoria e bondade, mas ainda porque, como dissemos de início, Deus não nos pode ser clara e plenamente conhecido, a não ser que se acresça conhecimento correlato de nós mesmos.” (1.15.1, p.179)

Por outro lado, devemos nos lembrar que a humanidade está corrompida pelo pecado. Segue-se, portanto, que o conhecimento sobre o homem divide-se entre o que sabemos sobre ele antes da queda e o que sabemos após a queda. Não podemos nos confundir quanto a isso, nem ignorar essa verdade (algo comum hoje em dia, dentro e fora das igrejas). Essa convicção também evita que alguém pense que o Criador fez a humanidade com algum tipo de falha.

“E visto ser duplo esse conhecimento de nós próprios, isto é, que saibamos como fomos criados em nosso estado original e como começou a ser nossa condição após a queda de Adão (aliás, nem seria de muito proveito conhecer nossa criação, a não ser que reconhecêssemos qual é a corrupção e deformidade de nossa natureza nesta desoladora ruína em que nos achamos).” (idem)

Por fim, antes de entrarmos nesse assunto, é necessário que lembremos que a natureza de nossa criação deve nos levar a humildade. O homem veio do pó da terra, fruto das mãos do oleiro.

“Em primeiro lugar, uma vez que o homem foi tomado da terra e do barro, é preciso reconhecer que assim ao orgulho foi posto um freio, pois nada é mais absurdo do que se gloriarem de sua excelência aqueles que não só ‘habitam uma casa de barro’ [Jó 4.19], mas ainda, como tais, em parte eles próprios são terra e cinza. Visto, porém, que Deus se dignou não só animar a um vaso de terra, como também quis que o mesmo fosse a habitação de um espírito imortal, Adão pôde gloriar-se nessa generosidade tão ingente de seu Criador.”(1.15.1, p.180)

É sobre esse espírito imortal que Calvino falará nas próximas seções.

O magnífico palácio [ 1.14.20-22 ]

Para esta seção, é importante ter em mente a atitude proposta por Calvino para estudar a Criação de Deus.

“Portanto, para usar de brevidade, saibam os leitores então terem aprendido, em verdadeira fé, quem é Deus o Criador do céu e da terra, se, em primeiro lugar, seguirem esta regra universal: que não deixem de atentar, seja por ingrata irreflexão, seja por ingrato esquecimento, para os esplendentes primores que Deus exibe em suas criaturas; e, em segundo lugar, assim aprendam a aplicar essas coisas a si próprios, para que se lhes apeguem profundamente ao coração.” (1.14.21, p.176)

Isto é, para o reformador, devemos observar as coisas criadas contemplando as maravilhas do poder de Deus nela, e não apenas reconhecendo isso, mas aplicando ao nosso coração, a fim de agirmos em piedade e adoração. Nesse pequeno trecho, onde Calvino volta-se rapidamente ao tema da Criação outra vez, vemos algumas das mais belas passagens escritas pelo teólogo de Genebra, e podemos perceber que ele coloca em prática esses dois princípios citados acima. Comecemos com seu breve resumo da doutrina da Criação.

“Deus criou do nada o céu e a terra; daqui produziu a todo gênero, animais e coisas inanimadas; distinguiu em admirável seqüência incontável variedade de coisas; a cada gênero revestiu de sua natureza específica; designou funções, atribuiu regiões e moradas; e, visto que todas as coisas são susceptíveis à corrupção, contudo providenciou para que, preservadas, se conservem as espécies, uma a uma, até o dia final… Igualmente adornou o céu e a terra com uma abundância perfeitíssima, e a tudo com diversidade e formosura como se fosse um grande e magnífico palácio admiravelmente mobiliado.” (1.14.20, p.175)

É nesse belo palácio que o homem foi colocado, com tudo o que é necessário para ele à disposição. Algo que nos deve encher de alegria e gratidão. Ao contrário do homem moderno, que conhece tantas maravilhas do universo, mas é incapaz de glorificar a Deus, Calvino, com o pouco que sabia (se comparado a nós) se enche de júbilo.

“De quão grande ingratidão haveria de ser agora duvidarmos que esse Pai boníssimo tenha cuidado de nós, quando vemos ter sido solícito a nosso respeito antes mesmo que nascêssemos! Quão ímpio seria tremer de desconfiança de que, em algum momento, sua benevolência nos falte na necessidade, quando vemos ser-nos exibido, com sua prodigalidade, tudo o que é bom, quando ainda nem éramos nascidos!” (1.14.22, p.177)

Que esse sentimento também esteja presente em nós. Por mais acostumados que estejamos com as maravilhas da Criação, devemos ensinar nossos corações a seguirem aqueles dois princípios que abrem esse post. Certamente essa experiência fará nossa vida cada vez mais contente, e nosso relacionamento com Deus cada dia mais vivo. Ao mesmo tempo, como Calvino, perceberemos que as coisas criadas demonstram aquilo que a Bíblia já ensina – que os atributos de Deus são maravilhosos e, muitas vezes, indizíveis.

“De fato, se quisermos apresentar, como lhe convém à dignidade, quanto refulja na estruturação do mundo a inestimável sabedoria, poder, justiça e bondade de Deus, não estará à altura da magnitude de empresa de tão grande proporção nenhum esplendor nem ornato de linguagem.” (1.14.21, p.176)

O inimigo contido [ 1.14.17-19 ]

Que o Diabo se levanta contra Deus e seus filhos, já sabemos, mas até onde vai o seu poder? Calvino mostra que, ao contrário da crença popular, o inimigo só pode ir até onde Deus determinou. Não existe uma luta equilibrada, pois Satanás, mesmo rebelde, ainda serve aos planos do Senhor e só pode ir até onde lhe é permitido.

“Quanto, porém, diz respeito à discórdia e luta que dissemos existir de Satanás com Deus, entretanto assim importa admitir que isto permanece estabelecido: que aquele nada pode fazer, a não ser que Deus o queira e consinta.” (1.14.17, p.171)

Isso não quer dizer que o Inimigo não seja um anjo rebelde e não odeie seu próprio Criador, mas significa que o seu mal é usado por Deus a fim de alcançar o bem, e a fim de cumprir seus próprios planos. Entre seus exemplos, Calvino cita a ação do Diabo em Jó e contra Acabe (1Rs 22.20).

“Ele se opõe a Deus com vil paixão e deliberado intento. Em virtude dessa depravação, é ele incitado à tentativa dessas coisas que julga serem especialmente contrárias a Deus. Como, porém, este o mantém amarrado e tolhido pelo freio de seu poder, ele leva a bom termo apenas aquelas coisas que lhe foram divinamente concedidas, e assim, queira ou não, obedece a seu Criador, porquanto é compelido a prestar-lhe serviço aonde quer que o mesmo o impelir.” (1.14.17, p.172)

Além disso, devemos ter a certeza de que o Senhor não permitirá que Satanás derrote definitavamente os cristãos. Por mais que Deus permita dificuldades, é somente sobre os incrédulos que o demônio exerce seu poder total. Isso se deve não a algo especial que os crentes têm, mas à vitória de Cristo.

“Doutra sorte, ela seria a cada instante reduzida cem vezes a nada pelo Diabo. Ora, uma vez que tal é nossa insuficiência e tal lhe é o furibundo poder, como, a não ser firmados na vitória de nosso Chefe, faríamos frente, sequer um mínimo, a seus multiformes e constantes ataques? Portanto, Deus não permite o reinado de Satanás nas almas dos fiéis, mas só nas almas dos ímpios e incrédulos, a quem não tem por dignos de serem contados em sua igreja, os abandona para que sejam por ele governados.” (1.14.18, p.173)

Finalizando o estudo sobre o Diabo e os demônios, Calvino também rebate a heresia de que os espíritos maus são apenas impulsos humanos, e não verdadeiras criaturas. Ele mostra que não há sentido em pensar vários dos textos bíblicos que tratam do assunto entendendo-se os demônios como outra coisa além de seres reais pessoais.

“Quão improcedentes haveriam de ser estas expressões: que os seres diabólicos foram destinados ao juízo eterno; que fogo lhes foi preparado; que mesmo agora são atormentados e torturados pela glória de Cristo, se simplesmente não existissem nenhum diabo?” (1.14.19, p.175)

Uma lição que fica nesse último estudo é que sempre devemos exortar a igreja a não ir além do que a Palavra diz. Muitos crentes hoje vivem com medo de demônios, por aprenderem doutrinas erradas sobre o Inimigo. Não podemos dar crédito a especulações e suspostas revelações que vão contra o que o Espírito Santo nos revelou. Devemos ter cuidado, sim, com os ardis e a astúcia de Satanás, mas sem abandonar a certeza de que Deus é soberano.