A natureza do inimigo [ 1.14.16 ]

Em seções anteriores, Calvino combateu duramente a doutrina dos maniqueus, que pregava uma paridade de origem, natureza e poder entre Deus e o Diabo. Um dos motivos dessa doutrina ser tão forte anos depois é que ela “livra” Deus da acusação de ser o criador da natureza má do Inimigo. O reformador explica como isso não é necessário, e como Deus nada tem a ver com os erros do demônio.

“Como, porém, o Diabo foi criado por Deus, lembremo-nos de que esta malignificência que atribuímos à sua natureza não procede da criação, mas da depravação. Tudo quanto, pois, tem ele de condenável, sobre si evocou por sua defecção e queda… Não venhamos, crendo que ele recebeu de Deus exatamente o que é agora, a atribuir ao próprio Deus o que lhe é absolutamente estranho.” (1.14.16, p.171)

O reformador não vai muito além da pouca informação bíblica, que apenas diz que os demônios já estiveram em uma posição de glória, mas eles mesmos decidiram abandoná-la, em rebeldia. A Bíblia é clara em dizer que os anjos maus abandonaram seus postos, não foram empurrados para fora de lá.

“Pois o que era proveitoso de se conhecer, claramente se ensina em Pedro e Judas [2Pe 2.4; Jd 6]: ‘Deus não poupou’, dizem eles, ‘aos anjos que pecaram e não conservaram sua origem; ao contrário, abandonaram sua morada.’ E Paulo, mencionando os anjos eleitos [1Tm 5.21], sem dúvida contrasta com eles tacitamente os réprobos.” (idem)

“Por esta razão, Cristo declara [Jo 8.44] que Satanás, quando profere a mentira, fala do que é próprio à sua natureza, e apresenta a causa: ‘porque não permaneceu na verdade.’ De fato, quando estatui que Satanás não persistiu na verdade, implica em que outrora ele estivera nela.” (idem)

Note que ele nem cita os supostos textos-bases sobre a rebelião de Satanás, algo comum hoje em dia. Para Calvino, o Espírito Santo não quis nos tem a intenção de nos satisfazer a “curiosidade com histórias fúteis, destituídas de proveito”(idem). Portanto, precisamos ser humildes e aceitar de bom grado aquilo que a Palavra nos ensina.

“Estejamos contentes com resumirmos a matéria assim: na criação original foram anjos de Deus; mas, em degenerando, perderam-se e se fizeram instrumentos de perdição a outros.” (idem)

O inimigo da Igreja [ 1.14.13-15 ]

Terminado o estudo sobre os anjos bons, Calvino agora fala sobre os demônios, iniciando com o chefe deles – o Diabo. Sua descrição do Inimigo nos faz lembrar que lutamos contra alguém muito perigoso, alguém que é simplesmente “o autor, guia e arquiteto de toda maleficência e iniqüidade” (1.14.15, p.170). Às vezes isso é algo que desejamos esquecer.

“Ele é descrito de tal forma em Gênesis, capítulo 3, onde afasta o homem da obediência que devia a Deus, para que, a um tempo, não só despoje a Deus da justa honra, mas ainda precipita o próprio homem na ruína.” (idem)

“Um inimigo prestíssimo em audácia, vigorosíssimo em forças, astutíssimo em estratagemas, infatigável em diligência e presteza, munidíssimo de todos os apetrechos bélicos, habilíssimo na arte de guerrear, conduzamos tudo a este fim: que não nos deixemos sobrepujar por inércia ou pusilanimidade, mas, em contraposição, tendo o ânimo soerguido e despertado, finquemos pé a resistir; e uma vez que esta beligerância não se finda senão com a morte, nos exortemos à perseverança.” (1.14.13, p.169)

Mais ainda, não apenas o diabo está contra nós, mas um exército de inimigos, o que deve nos deixar mais atentos às tentações e ataques satânicos. A Escritura várias vezes refere-se a essas hostes demoníacas, ainda que fale muitas vezes apenas do líder delas.

“Assim, pois, muitas vezes a referência é a um Satanás ou Diabo, no número singular, denotando-se aquele império de iniqüidade que se opõe ao reino de justiça. Pois da mesma forma que a Igreja e a sociedade dos santos têm a Cristo como Cabeça, assim também a facção dos ímpios, e a própria impiedade, nos são pintadas com seu príncipe, que nessa esfera exerce império absoluto.” (1.14.14, p.170)

A chave para não sermos derrotados nessa perigosa batalha é nos apegarmos àquele que tem poder para vencer. Que tenhamos isso em mente, que deixemos de lado nosso orgulho e independência.

“Sobretudo, porém, cônscios de nossa insuficiência e obtusidade, invoquemos a assistência de Deus a nosso favor, nem tentemos coisa alguma, senão apoiados nele, visto que só a ele pertence o ministrar conselho, força, coragem e armas.” (1.14.13, p.169)

Anjos, ministros de Deus [ 1.14.11-12 ]

Finalizando seu estudo sobre anjos, Calvino levanta uma interessante questão – por que Deus utiliza-se de tais intermediários, se ele mesmo poderia nos proteger, nos trazer mensagens ou presentear-nos com bênçãos? Para o reformador, isso nos traz mais segurança.

“Por esta razão, não somente promete que haverá de cuidar de nós pessoalmente, mas ainda que dispõe de inumeráveis guardiães a quem já determinou para provernos a segurança, ou, seja, por todo o tempo em que estamos cercados da guarda e proteção destes, qualquer que seja o perigo que ameace, fomos postos além de toda contingência do mal.” (1.14.11, p.167)

Esse cuidado do Senhor deve nos trazer mais conforto e segurança. Por outro lado, a falta de confiança em Deus torna-se um pecado ainda pior.

“De fato confesso que isto se nos converte em erro: que após essa inconfundível promessa acerca da proteção do Deus único, ainda volvamos o olhar em derredor, buscando donde nos venha o socorro.” (idem)

O outro perigo que envolve essa doutrina sobre os seres celestiais é darmos atenção demais a eles. Calvino critica aqueles que tentam fazer pedidos a anjos, uma prática comum até hoje, mesmo em algumas igrejas. Devemos sempre voltar nossas petições ao Criador, não a seus ministros.

“Unicamente pela intercessão de Cristo, resulta que nos advenham as ministrações dos anjos, como ele próprio o afirma: ‘Vereis doravante os céus abertos e os anjos descendo ao Filho do Homem’ [Jo 1.51]… Ora, visto que Deus não os faz ministros de seu poder e bondade em tais moldes que partilhe com eles sua glória, assim também não nos promete sua assistência na ministração deles em relação a nós em termos tais que dividamos nossa confiança entre eles e ele.” (1.14.12, p.168)

Diante desse belíssimo estudo de Calvino, devemos agradecer a Deus por esses ministros que ele coloca à disposição de sua igreja. Ainda que nem saibamos quando eles estão a nos proteger ou nos ajudar, a Palavra nos dá certeza desse serviço angelical. Que sejamos gratos a Deus por mais essa prova de bondade com seus pequenos filhos.

O mistério dos anjos [ 1.14.8-10 ]

A Bíblia nos oferece poucas informações sobre os anjos, se comparamos com aquilo que ela fala de nós mesmos, ou da própria Criação. Por isso, nos trechos que se seguem, Calvino reune apenas aquilo que a Escritura nos ensina, rebatendo qualquer tipo de informação espúria sobre o assunto. Primeiramente, ele fala sobre hierarquia e quantidade desses seres, embora “creiamos ser desse gênero de mistérios cuja plena revelação se dará no último dia” (1.14.8, p.165).

“Reconheço que Miguel é chamado ‘o grande príncipe’ em Daniel [12.1] e ‘o arcanjo que, com uma trombeta, convocará os homens ao juízo. Quem, entretanto, poderá daí estabelecer graus de honra entre os anjos, distinguir a cada um por suas insígnias específicas, assinalar a cada um o lugar e a posição?” (1.14.8, p.164s)

Por fim, ele chega a conclusão de que certamente a legião de anjos é gigantesca, mesmo que as informações sobre isso sejam raras. Uma nota interessante é o que Calvino diz a respeito dos anjos serem retratados como seres alados na Bíblia.

“A Escritura, sob o nome de querubins e serafins, não em vão nos pinta anjos alados, para que não tenhamos dúvida de que sempre haverão de estar presentes para, com incrível celeridade, trazer-nos auxílio, tão logo as circunstâncias o exijam, como se, com a costumeira velocidade, voasse para nós como um relâmpago despedido do céu.” (1.14.8, p.165)

Uma heresia que o reformador combate diz respeito à pessoalidade dos seres celestiais. Para alguns, como os saduceus, o que chamamos de anjos são apenas os impulsos de Deus que inspiram o homem. Em resposta, Calvino cita diversos textos onde claramente associam-se características pessoais aos anjos, como por exemplo a alegria (Lc 15.10) e suas aparições em forma humana.

Antes de prosseguir nesse estudo, Calvino novamente volta a alertar-nos contr a superstição da angelolatria, ou seja, dar aos anjos honra que não lhes é devida. Devemos nos voltar a Cristo, o único que é auto-existente e auto-suficiente, e o mesmo que sustenta a bondade e os poderes angelicais.

“Não só se deve distinguir Cristo de todos os anjos, mas ainda que ele é o autor de tudo o que eles têm de bom, para que não aconteça que, deixando-o de parte nos volvamos para aqueles que não podem nem a si próprios bastar, ao contrário, tudo recebem da mesma fonte da qual nós mesmos recebemos.” (1.14.10, p.167)

Anjos de guarda [ 1.14.6-7 ]

Existe realmente um anjo da guarda para cada pessoa, ou pelo menos cada crentes? Calvino agora dedica parte de seu estudo à função que esses seres têm de cuidar dos fiéis. O próprio Deus deu ordens para que essas maravilhosas criaturas cuidassem de meros pecadores.

“A Escritura indica que eles montam guarda por nossa segurança, assumem nossa defesa, dirigem nossos caminhos, exercem solicitude para que não nos aconteça algo de adverso.” (1.14.6, p.163)

Calvino cita diversos textos que comprovam a ação dos anjos em defesa dos crentes, dos quais destaco aquele que se encontra no Salmo 91 – “A seus anjos deu ordens a teu respeito, para que te guardem em todos os teus caminhos; nas mãos te susterão, para não tropeçares em alguma pedra” (v.11,12). Certamente esses mensageiros têm a incumbência de também nos proteger.

Isso, no entanto, não dos dá base para sustentarmos a popular doutrina do anjo da guarda individual. O reformador reconhece que temos alguns textos favoráveis a essa crença, como em Mateus 18.1o – “Não desprezeis algum destes pequeninos, porque eu vos digo que os seus anjos nos céus sempre vêem a face de meu Pai que está nos céus”.

“Mas disto não sei se deva concluir-se por certo que incumbe não a um só anjo o cuidado de cada um de nós, mas, antes, que todos, em um consenso único, vigiam por nossa segurança.” (1.14.7, p.164)

O que dá força a essa afirmação do teólogo são alguns textos bíblicos, em que vários anjos tomam conta ou se envolvem com apenas uma pessoa. Em Lucas 16.22, vários anjos cuidaram de levar Lázaro ao seio de Abraão, enquanto em 2Reis 6.17, os carros e cavalos angelicais são milhares protegendo apenas dois homens.

Por fim, quanto a Atos 12.15, quando os cristãos falam a respeito de um suposto anjo de Pedro, Calvino nos diz o seguinte (note a referência a crenças que até hoje perduram):

“Se bem que aqui se pode também replicar que nada nos impede que entendamos a qualquer um dentre os anjos, a quem o Senhor houvesse então confiado a proteção de Pedro, e não obstante nem por isso lhe seria guarda perpétuo, tal como, popularmente, se imagina que foram designados a cada pessoa, como se fossem gênios diversos, dois anjos, um bom e um mau.” (idem)

A doutrina dos anjos pode ser difícil e distante de nós. Por isso, devemos seguir o exemplo de Calvino e nos agarrarmos apenas naquilo que a Escritura nos dá certeza – que o Senhor é tão bom e amoroso, que mesmo esses maravilhosos seres são instrumentos de sua graça. Que louvemos ao Senhor por tão valorosos obreiros!

Uma introdução aos anjos [ 1.14.4-5 ]

“Ao teólogo, porém, o propósito não é deleitar os ouvidos com argumentação loquaz, mas firmar as consciências, ensinando o verdadeiro, o certo, o proveitoso.” (1.14.4, p.161)

Com essas palavras, sabemos quais são as intenções de Calvino nas próximas seções. O reformador agora passa a nos guiar em angelologia, a doutrina dos anjos – conforme a Escritura somente. Em primeiro lugar, ele lista alguns dos termos usados para designar esses seres, e a explicação do uso dessas palavras.

“Denominam-se exércitos porque, como elementos de sua guarda, rodeiam a seu Príncipe, adornam-lhe a majestade e a tornam ostensiva, e como soldados estão sempre atentos ao sinal de seu comandante, e desse modo estão preparados e prontos para cumprir-lhe as ordens, de sorte que, tão logo ele lhes acena, à ação se preparam, ou, antes, entram em ação.” (1.14.5, p.162)

“Por meio deles, o Senhor expressa e manifesta maravilhosamente a força e a punjança de sua mão, daí os anjos serem chamados poderes. Porque, acima de tudo, através deles Deus exerce e administra sua soberania no universo, por isso ora são chamados principados, ora potestades, ora domínios… porque neles, de certo modo, reside a glória de Deus, por esta razão são também chamados tronos.” (idem)

“Além disso, também à vista disso, não uma vez só, os anjos são chamados deuses, visto que, em seu ministério, como em um espelho, em certa medida a Deidade nos é representada.” (idem)

Esse último termo pode causar confusão a alguns, mas isso não quer dizer que os judeus acreditavam em deuses menores, além de Yahweh. Trata-se realmente disso que Calvino fala – pessoas ou seres com uma medida da Deidade, que lhes conferem autoridade e a posição de juízes sobre a terra.

“Tampouco deve isso parecer-nos coisa surpreendente, porque, se a príncipes e prepostos se outorga esta honra [Sl 82.6], porquanto, em sua função, fazem as vezes de Deus, que é o Supremo Rei e Juiz, muito maior razão a que seja conferida aos anjos, em quem a efulgência da glória divina esplende muito mais copiosamente.” (1.14.5, p.163)