Contra os maniqueus [ 1.14.3 ]

Os anjos sempre foram personagens bíblicos que atrairam especulações e curiosidades de muitos. Ao continuar seu alerta, Calvino novamente nos diz para não irmos além do que se deve saber. Por exemplo, se Moisés não nos conta quando os anjos foram criados, isso não nega aquilo que sabemos – que somente Deus é incriado.

De fato, presos a especulações, muitos acabam dando a anjos honra que não são deles. Outros se interessam tanto pelo assunto que acabam menosprezando as confiáveis informações da Palavra de Deus.

“A preeminência da natureza angélica de tal modo tem obcecado a mente de muitos, que chegaram a pensar que se lhes faz agravo, se fossem, por assim dizer, forçados em sua condição de criaturas a sujeitar-se à autoridade do Deus único. E por isso chegaram a atribuir-lhes certa divindade” (1.14.3, p.160)

Porém, antes de tratar diretamente de angelologia, o reformador prefere discutir o pensamento de Mani – criador da seita dos maniqueus, de onde vem o termo “maniqueísta” – “que inventou para si dois princípios absolutos: Deus e o Diabo”(idem). Isto é, esse falso mestre acreditava num dualismo absoluto entre bem e mal, como se tanto Deus quanto o Diabo fossem detentores de poder e natureza semelhantes, como se Deus tivesse criado o que é bom, e seu inimigo aquilo que é mal. Calvino combate duramente essa idéia idólatra, que se parece muito com a idéia que alguns tem de “batalha espiritual” atualmente.

“Ora, uma vez que, por assim dizer, nada seja mais próprio de Deus que a eternidade, e a existência própria, aqueles que atribuem isto ao Diabo porventura não estão, de certo modo, a adorná-lo com o título da divindade? Onde, pois, a onipotência de Deus, se ao Diabo se concede tal poder que, contra a vontade de Deus e a despeito de sua oposição, leve a bom termo tudo quanto deseja?” (idem)

O reformador sustenta que o Diabo não tem o poder de fazer aquilo que quer sem a permissão do Criador. Além disso, o Diabo nada criou, sendo tudo obra de Deus. Temos a seguir uma declaração marcante da teologia calvinista – a ênfase na bondade das coisas criadas. Para Calvino, a Criação por si só não é algo ruim, mas apenas está afetada pelo pecado. Essa será a base para o chamado cultural do homem, que ele deve ensinar mais adiante.

“O único fundamento que os maniqueus têm – não ser próprio atribuir-se a um Deus bom a criação de qualquer coisa má –, isto nem de leve fere a fé ortodoxa, a qual não admite que no universo inteiro haja alguma natureza má, porquanto nem a depravação e malignidade, seja do homem, seja do Diabo, ou os pecados que daí nascem, provêm da natureza, mas da corrupção da natureza; nem de início há absolutamente nada que exista em que Deus não haja estampado o selo, tanto de sua sabedoria, quanto de sua justiça.” (idem)

Um novo alerta [ 1.14.1-2 ]

Terminado o longo tratado a respeito do verdadeiro Deus e do puro conhecimento do Criador, João Calvino agora dedica-se à própria Criação. Antes, porém ele resolve novamente voltar-se contra todos aqueles que desviam-se do testemunho simples da Escritura, perguntando questões inúteis sobre Deus. Ele cita, por exemplo, aqueles quer perguntam o motivo de Deus ter “demorado tanto” para criar o universo, e outros que questionam o que Deus fazia antes de criar. A resposta clássica de Agostinho é citada.

“E, judiciosamente, como em galhofa lhe perguntasse certo individuo abelhudo o que Deus estivera fazendo antes de o mundo ser criado, respondeu aquele piedoso ancião: a construir o inferno para os curiosos.” (1.14.1, p.158)

Ao invés de gastarmos tempo com especulações frívolas, o Senhor nos convida a conhecer mais a respeito dele, e de nós mesmos, através das lentes que ele mesmo preparou.

“Pois, assim como os olhos, ou toldados pela decrepitude da velhice, ou entorpecidos de outro defeito qualquer, nada percebem distintamente, a menos que sejam ajudados por óculos, de igual modo nossa insuficiência é tal que, a não ser que a Escritura nos dirija na busca de Deus, de pronto nos extraviamos totalmente.” (idem)

Calvino nos lembra que aquilo que Deus nos deu, sua Criação, já nos tomará muito de nossa atenção, o que significa que não há necessidade de nos determos naquilo que não nos foi revelado. Assim como há um dia de descanso, a mente deve descansar sobre certos assuntos, e ocupar-se somente com aquilo que é importante.
“Aqui também, até que, sujeita à obediência da fé, aprende a cultivar esse repouso a que nos convida a santificação do sétimo dia, vocifera a razão humana, como se tais passos na obra da criação fossem inconsistentes com o poder de Deus.” (1.14.2, p.159)

Por fim, o reformador inicia o processo de analisar a Criação, focando mais uma vez informações que nos ajude a reconhecer o Deus verdadeiro como um Pai bondoso. Enfim, o teólogo de Genebra quer nos levar à adoração. Que sigamos seu exemplo no estudo da Palavra.

“Mas é preciso considerar diligentemente na própria ordem das coisas criadas o amor paternal de Deus para com o gênero humano, visto que não criou Adão antes que enchesse o mundo de toda abundância de coisas boas… assumindo o cuidado de um chefe de família provido e zeloso, mostrou Deus sua mirífica bondade para conosco.” (idem)

Um argumento histórico [ 1.13.27-29 ]

Finalizando o longo capítulo sobre a Trindade, Calvino rebate agora os argumentos históricos dos antitrinitarianos. Para alguns dos falsos mestres, os pais da igreja nunca defenderam a doutrina ortodoxa sobre o Deus Triuno, algo de que o reformador discorda solenemente. A primeira vítima da distorção é Irineu, que supostamente ensina que somente o Pai é o Deus de Israel. O reformador rebate essa acusação lembrando que o autor na verdade estava combatendo outros hereges, que negavam ser o Deus do Antigo Testamento também Deus Pai, e aproveita em seguida para citar o próprio Irineu.

“Irineu se concentra inteiramente nisto: tornar patente que na Escritura não se proclama outro Deus senão o Pai de Cristo, e que se cogita erroneamente outro, e daí não é de maravilhar-se se conclui tantas vezes que o Deus de Israel não era outro senão aquele que é celebrado por Cristo e pelos apóstolos.” (1.13.27, p.153)

“Aquele que, em acepção absoluta e não particularizada, na Escritura é chamado Deus, esse é verdadeiramente o Deus único, e Cristo, com efeito, é chamado Deus em acepção absoluta.” (Irineu, citado em idem)

A próxima vítima dos antitrinitarianos é Tertuliano, sob o pretexto de que coloca o Filho em segundo plano. Calvino, apesar de admitir a dificuldade nos escritos desse pai, deixa claro que ele não ensinou nada além da doutrina correta.

“É verdade que ele confessa admitir o Filho como segundo em relação ao Pai, todavia não o entende como outro senão em função da distinção pessoal. Em algum outro lugar, ele diz que o Filho é visível, entretanto, após haver arrazoado ambos os lados da questão, conclui ser ele invisível até onde é a Palavra.” (1.13.28, p.154)

Depois de citar esses casos, Calvino lembra que Justino Mártir, Hilário e Inácio também ensinaram a correta doutrina, apesar do que afirmam os hereges. Prova disso é que Ário, um antitrinitariano, não apelou a nenhum deles diante do Concílio de Nicéia. Além disso, Agostinho em sua obra magistral sobre a Trindade também nada encontra de errado entre os escritos desses santos homens.

“Mercê destas considerações, contudo, o leitor piedoso por fim reconhecerá, segundo espero, estar desmantelada todas as cavilações com que Satanás tem tentado até agora perverter ou entenebrecer a pura fé da doutrina.” (1.13.29, p.155)

Uma doutrina não é reconhecida como verdadeira por maioria de votos, mas pelo que diz a Escritura. No entanto, é importante quando ouvimos as vozes do passado, e todos esses santos homens concordam a respeito de algo tão complexo. Isso nos dá segurança sobre o que cremos e nos leva a desconfiar daquilo que era estranho aos pais. Calvino sabe disso, e assim conclui seu ensino sobre a Trindade, algo que nos desafia a estudar cada dia mais, e especular cada vez menos.

“Finalmente, confio que tenha sido fielmente explicada toda a suma desta doutrina, desde que os leitores imponham moderação à curiosidade, nem reivindiquem para si avidamente mais do que se faz necessário controvérsias molestas e perplexivas. Aliás, creio que bem pouco satisfeitos haverão de ficar aqueles a quem deleita o imoderado gosto de especular.” (idem)

Mais heresias antitrinitarianas [ 1.13.25-26 ]

obs.: antes de ler esse post, recomendo uma revisada no Sobre os termos técnicos [ 1.13.4-6 ], do dia03/02/09

O reformador de Genebra prossegue seu tratamento às heresias com algumas afirmações um pouco difíceis, mas que nos serão úteis se as entendermos. Novamente, ele se volta contra aqueles que dizem haver diferença entre a essência do Pai e das outras duas pessoas. Outros afirmam que acreditamos em algo semelhante a uma “quaternidade”, onde a substância divina diferencia-se nas (ou mesmo, das) três subsistências, “como se supuséssemos que de uma essência única procedem, dir-se-ia por derivação, três pessoas” (1.13.25, p.151). Usarei as palavras de Rick Phillips para nos ajudar nesse assunto tão denso.

“Calvino argumenta que a essência divina, compartilhada pela Trindade inteira, é ingênita [não-gerada]. Mas as pessoas do Filho e do Espírito são geradas pelo Pai (eternamente, portanto nunca houve um tempo onde eles não existiam). As Pessoas não são separadas da essência divina, o que significaria haver três deuses, mas são diferenciadas de cada outra dentro da divina essência única.” (traduzido daqui)

Dizer que Filho e Espírito não têm parte com (ou que recebebem) a essência divina do Pai, é torná-los menos que Deus, ao mesmo tempo que se nega a própria natureza do Pai, como proposta pela Bíblia. O que Phillips explica nos é dito da seguinte maneira por Calvino.

“Embora a essência não concorra à distinção de pessoas, como parte ou membro da Trindade, contudo as pessoas não subsistem sem ela ou fora dela, porquanto não só o Pai, se não fosse Deus, não podia ser Pai, mas também o Filho de outra sorte não seria Filho, a não ser porque é Deus… Finalmente, se Pai e Deus fossem sinônimos, então o Pai seria o deificador, nada no Filho restaria senão uma sombra, nem seria a Trindade outra coisa senão a conjunção do Deus único e uno com duas coisas criadas.” (idem)

Outra objeção que se levanta, diz respeito à hierarquia dentro das pessoas da Trindade. Para os falsos mestres, Cristo é menor do que Deus, como alguns textos da Bíblia supostamente comprovam. Porém, Calvino nos mostra que isso se deve à distinção de funções entre as Pessoas e à encaranção, não por algo diferente na natureza do Pai e do Filho.

“Assim, quando dizia aos apóstolos: “Convém que eu suba ao Pai, porque o Pai é maior do que eu” [Jo 14.28; 16.7], não está atribuindo a si apenas uma divindade secundária, como se no que tange à essência eterna seja inferior ao Pai, mas porque, sendo Mediador que possui a glória celestial, consorcia os fiéis na participação dessa glória.” (1.13.26, p.152)

É importante conhecermos a Trindade, pois por ela entendemos melhor a nossa salvação. Podemos compreender um pouco mais sobre o amor de Deus, como nessa belíssima passagem, em que Calvino expressa o ministério do Redentor.

“E de fato Cristo desceu até nós para que, elevando-nos até o Pai, ao mesmo tempo também nos elevasse a si próprio, visto ser um com o Pai.” (idem)

Heresias antitrinitarianas [ 1.13.23-24 ]

Os falsos mestres sempre tiveram dificuldades com a doutrina trinitariana. Agora analisaremos alguns de seus ensinos, e a resposta de Calvino, caso não tenha sido dada em posts anteriores.

“Pois certos biltres… confessaram que, na realidade, há três pessoas, desde que se faça, porém, a restrição de que o Pai, que é o único verdadeiro e propriamente Deus, ao formar o Filho e o Espírito, neles comunicou sua deidade… Objetam que, se ele[Cristo] é verdadeiramente o Filho de Deus, é absurdo que ele seja Filho de uma Pessoa” (1.13.23, p.146)

Ou seja, o problema desse primeiro ensinamento não é negar as três Pessoas, mas afirmar que o Pai é responsável por tornar o Filho e o Espírito, por assim dizer, Deus. Isso tornaria Cristo realmente Filho de Deus, e não “apenas” filho de uma Pessoa. Embora Calvino admita que é comum se associar ao Pai o termo “Deus”, isso não exclui Cristo de subsistir em Deus, ser verdadeiro Deus e verdadeiro Filho de Deus, como vimos em estudos anteriores.

“Ora, se admitimos que toda a essência só esteja no Pai, ou ela se fará divisível, ou estará totalmente ausente do Filho; e assim, despojado de sua essência, ele será Deus apenas em nome… Além disso, em função de seu princípio, é necessário admitir que o Espírito é somente do Pai, porquanto se é ele derivação da essência primária, a qual não é própria senão ao Pai, de direito não se considerará o Espírito como sendo do Filho, o que, no entanto, é refutado pelo testemunho de Paulo, o qual o faz comum a Cristo e ao Pai [Rm 8.9].” (1.13.23, p.147s)

O próximo erro tratado é a afirmação de que quando a Escritura menciona Deus sem qualificação, deve-se entender apenas como o Pai. Afinal, dizem os falsos mestres, se não pensarmos assim, diremos que Cristo é Pai de si mesmo. Novamente, Calvino utiliza alguns dos textos que falam de Jesus como Deus, demonstrando que os hereges não entenderam corretamente a Trindade. Chama atenção em especial, a passagem onde Cristo diz que somente Deus é bom [Mt 19.17]. Ou admitem que o Verbo é Deus ou que ele não é bom.

“Pergunto se o eterno Verbo de Deus é bom ou não. Se o negam, sua impiedade fica plenamente indiciada; admitindo-o, cortam a garganta a si próprios.” (1.13.24, p.149)

Por fim, o reformador também lembra da passagem da criação do homem - “Façamos o homem à nossa imagem” [Gn 1.26] – quando o Criador fala no plural. Para ele, essa é uma indicação velada da tripessoalidade de Deus.

“Ora, pois, a não ser que admitam ser comum ao Filho e ao Espírito, com o Pai, o poder de criar, e comum a autoridade de ditar ordens, se seguirá que Deus não falou consigo mesmo no âmbito de sua interioridade; ao contrário, ele dirigiu a palavra a outros artífices exteriores.” (1.13.24, p.150)

A questão da Trindade sempre será discutida por mestres e falsos mestres. É importante, para não nos afastarmos do verdadeiro Deus, que tenhamos a Escritura como nossa guia. Foi isso que Calvino procurou e nos recomenda. Somente assim saberemos diferenciar entre a ortodoxia e a idolatria.

Calvino estava errado [ 1.13.22 ]

Não importa o quanto João Calvino nos seja útil até hoje, e o quanto ele tentou viver e guiar os outros no caminho da piedade, para muitos o episódio Serveto (quando Calvino se envolveu na condenação desse herege à fogueira) será aquele que definirá que tipo de homem o reformador era. Que o mundo só leve em consideração essa mancha na vida de Calvino era de se esperar, mas é triste que muitos evangélicos cedam ao preconceito e não tentem aproveitar aquilo que o reformador também fez de bom.

Não estou defendendo Calvino de ser intolerante a ponto de usar ferramentas pecaminosas contra os inimigos da fé, apenas questionando o mau tratamento que se dá ao grande reformador. Por outro lado, já vi o site de uma igreja listar Serveto entre os heróis da igreja. Tomemos cuidado!

Dito isso, podemos abordar a próxima seção, quando Calvino inicia uma longa lista de heresias e objeções à doutrina da Trindade, começando pelas propostas pelo próprio Miguel Serveto. Como muitos falsos ensinamentos já foram rebatidos nas seções anteriores ou serão discutidos posteriormente, apenas citarei aquilo que me parece argumento novo ou interessante a favor da sã doutrina.

“A Serveto, o termo Trindade foi a tal ponto odioso, pior, abominável, que dizia serem ateus todos quantos ele denominava de trinitários… Esta, com efeito, foi sua síntese das especulações: Deus fica dividido em três partes quando se diz que ele subsiste em três pessoas na essência, e que esta Tríade é imaginária, porquanto se põe em conflito com a unidade de Deus.” (1.13.22, p.145)

Além de distorcer o ensinamento bíblico sobre a Trindade, Serveto abraçou outras doutrinas estranhas, das quais Calvino faz um resumo.

“Ele indiscriminadamente mistura com todas as criaturas tanto o Filho de Deus quanto o Espírito. Ora, afirma abertamente que na essência de Deus há partes e divisões, das quais cada porção é Deus. De modo especial, porém, diz que os espíritos dos fiéis são coeternos e consubstanciais com Deus, visto que, em outro lugar, atribui deidade substancial não apenas à alma humana, mas ainda às demais coisas criadas.” (1.13.22, p.146)

A falha de Calvino não transforma Serveto em um mártir da fé cristã. Mas ainda assim, ele é vítima de um exagero pecaminoso no zelo por parte do reformador. Serveto estava errado, mas nessa questão Calvino foi impiedoso. Esta foi sua pior decisão como líder em Genebra, e devemos sempre tê-la em mente, como prova da depravação humana, mas também da Graça divina sobre a vida desse homem.

Para mais informações sobre esse caso, confira esse texto do Dr. Augustus Nicodemus.