A lei natural [ 2.2.22-23 ]

Em seções anteriores, Calvino citou três elementos que a mente humana, sem o apoio do Espírito Santo, não pode alcançar. Os dois primeiros eram o conhecimento de Deus e de seu favor, que nos leva a salvação. Agora, ele volta-se ao terceiro ponto – a lei natural – que todo ser humano carrega em si, e que serve de árbitro moral em sua vida.

“Se os gentios têm a justiça da lei da natureza gravada na mente, por certo que não diremos que são inteiramente cegos na maneira de conduzir a vida. E nada é mais generalizado que ser o homem suficientemente assistido, em relação à reta norma da vida, pela lei natural de que o Apóstolo aqui fala.” (2.2.22, p.49)

No entanto, essa lei natural não dá ao homem completa norma de vida, nem o prepara para a santidade. É claro que ela é útil para que a humanidade, mesmo caída, não se autodestrua. Porém, sua finalidade maior é condenatória. O apóstolo Paulo nos explica isso em Romanos 2.1 – “Portanto, és indesculpável, ó homem, quando julgas, quem quer que sejas; porque, no que julgas a outro, a ti mesmo te condenas; pois praticas as próprias coisas que condenas” – e Calvino tem essas palavras em mente ao expor essa doutrina.

“Portanto, a finalidade da lei natural é tornar o homem inescusável. E poderíamos defini-la adequadamente dizendo que é um sentimento da consciência mediante o qual discerne entre o bem e o mal o suficiente para que os homens não prextestem ignorância, sendo convencidos por seu próprio testemunho. A indulgência do homem para consigo mesmo é que, ao perpetrar o mal, sempre e de bom grado aparta a mente do senso de pecado, até onde permissível.” (2.2.22, p.50)

Muito útil nessa discussão é o que Calvino chama de “princípio de Temístio”. Este filosófo grego dizia que os homens sempre têm um senso de pecado em relação a situações gerais. No entanto, para si, abre exceções, por considerar que o seu erro, naquele caso específico, é justificado. O reformador concorda – ainda que admita exceções, como veremos – com ele.

“Ninguém haverá que não afirme que o homicídio é mau, se a indagação é de cunho geral. Aquele, porém, que maquina a morte de um inimigo, delibera-a como se tratasse de uma boa coisa. O adúltero condenará o adultério em geral; entretanto o lisonjeará no seu em particular… homem se esquece dessa regra que havia há pouco estabelecido como princípio universal, quando chega a um caso particular.” (2.2.23, p.50)

Esse princípio, porém, não é absoluto. Calvino nos lembra que existem pessoas que realmente praticam a maldade sabendo que fazem o mal. O reformador cita a distinção do erro humano, feita por Aristóteles, entre incontinência e intemperança. O primeiro caso é esse citado em Temístio – alguém que considera algo como mau, mas está cego quando pratica esse mal. Já a intemperança diz respeito aos que convictamente praticam o erro. Como diz Ovídio:

“Vejo as coisas melhores e as aprovo; porém sigo as piores.” (Medéia, in Metamorfose, de Ovídio, VII, 20, citado em idem)

Portanto, a obra missionária é necessária, pois a lei natural nunca levará homens à salvação, mas apenas à condenação. É necessário que o crente se esforce por isso, não confundindo a mera obediência a essa lei à verdadeira piedade, esta que só vem do Senhor.

Bancarrota espiritual [ 2.2.20-21 ]

Adentramos finalmente em um dos principais pontos da teologia calvinista, e vemos que o reformador dedica realmente um bom tempo ao assunto – a pecaminosidade humana. Evidentemente, Calvino usará diversas passagens da Escritura para demonstrar a total inabilidade humana em relação à piedade. Ele começa com Moisés.

“Diz ele: ‘Teus olhos viram aqueles sinais e portentos ingentes, e o Senhor não te deu coração para entender, nem ouvidos para ouvir, nem olhos para ver’ [Dt 29.3, 4]. Que mais precisaria dizer, se no que tange à consideração das obras de Deus, nos chamou de broncos?” (2.2.20, p.47)

Em seguida o próprio Cristo deixa patente nossa bancarrota espiritual – termo usado por Lloyd-Jones.

“Cristo, por sua palavra, também confirmou isto claramente, quando dizia que ninguém podia vir a ele, a não ser aquele a quem fosse dado por seu Pai [Jo 6.44]… Portanto, ele não pôde mostrar de forma mais clara qual é nossa capacidade para conhecermos a Deus, do que quando nega que tenhamos olhos para contemplar-lhe a imagem mesmo onde tão claramente ela se exibe.” (idem)

Nas palavras de Calvino, é necessário que o Espírito forme ouvidos novos em cada homem, a fim de que eles possam ouvir o Evangelho. Aliás, as figuras usadas pela Bíblia são das mais variadas. Uma das mais comuns é a comparação da regeneração com o fim da cegueira. Isso é explicitado em especial no texto de Efésios que também é exposto pelo reformador.

“Dessa forma, o que aqui detrai aos homens, só a Deus, em oração, atribui em outro lugar: ‘O Deus’, diz ele, ‘e Pai da glória vos dê o Espírito de sabedoria e de revelação’ [Ef 1.17]. Ouves já nessas palavras que toda sabedoria e revelação é dom de Deus. Então, o que diz ele em seguida a isso? ‘Iluminados os olhos de vossa mente’ [Ef 1.181]. Certamente, se carecem de nova revelação, é que por si mesmos são cegos. Segue-se, então: ‘Para que saibais qual seja a esperança de vossa vocação’ [Ef 1.18], etc. Logo, confessa que as mentes dos homens não são capazes de tão grande entendimento, ao ponto de conhecerem sua vocação.” (2.2.21, p.48)

Essa doutrina, como já dissemos mais de uma vez, não é meramente uma depreciação da humanidade, mas parte do remédio necessário para a salvação do homem. Somente ao nos reconhecermos necessitados de Deus iremos ao seu encalço. Lembremo-nos sempre que Deus favorece o humilde, mas rejeita os orgulhosos.

“Se o que buscamos de Deus, confessamos assim faltar-nos, e ele próprio acusa nossa indigência naquilo que promete, que ninguém vacile em confessar que só será capaz de entender os mistérios de Deus quando tiver sido iluminado por sua graça. Quem mais entendimento se atribui, tanto mais cego e menos reconhece sua cegueira.” (2.2.21, p.49)

A miséria humana [ 2.2.17-19 ]

“Esta é a síntese: pode-se perceber em todo o gênero humano que a razão é própria à nossa natureza, a qual nos distingue dos animais brutos, assim como pela sensibilidade diferem estes das coisas inanimadas… Porque, donde procede que um seja mais eminente que outro, senão para que na natureza comum se sobreleve a graça especial de Deus, a qual, preterindo a muitos, se proclama não estar obrigada a ninguém?” (2.2.17, p.44s)

Assim, temos um resumo do pensamento de Calvino a respeito da mente humana. Ela ainda pode alcançar as alturas, mas somente porque Deus o abençoou. Como ele disse ao iniciar esse tema, a razão ainda pode aprender e produzir conhecimento sobre temas terrenos, mas não sobre temas celestiais. Sobre essa “falha” o reformador falará agora. Trata-se de uma “visão espiritual”, que ele entende como formada por três tópicos:

“Conhecer a Deus, conhecer seu paterno favor para conosco, no qual se nos firma a salvação, e conhecer a maneira de plasmar a vida segundo a norma de sua lei. Quer nos primeiros dois desses pontos, quer, porém, especialmente no segundo, aqueles que dentre os homens são os mais talentosos, são mais cegos que as toupeiras.” (2.2.18, p.45)

Somos totalmente incapazes de nos aproximarmos da luz de Deus por nós próprios. Por mais que o cérebro do homem possa nos dar produtos impressionantes, ele naturalmente se encontra em trevas e não pode alcançar a verdade espiritual. Isso é o que a Escritura também ensina, como os textos a seguir, citados pelo reformador nos mostram.

“Nesta passagem [João 1.4,5] indica-se certamente que a alma do homem é iluminada pelo fulgor da divina luz de tal sorte que nunca é inteiramente destituída um mínimo sequer de sua tênue chama, ou no mínimo de uma centelha, mas mesmo com essa iluminação não compreende a Deus.” (2.2.19, p.46)

“Quando o Espírito chama aos homens trevas, ao mesmo tempo os despoja de toda faculdade de entendimento espiritual. Razão por que os fiéis, que a Cristo abraçam, afirma serem nascidos não de sangue, nem da vontade da carne ou da vontade do homem, mas de Deus [Jo 1.13]. Como se estivesse dizendo que a carne não é capaz de tão sublime sabedoria que possa conceber a Deus e ao que é de Deus, a não ser que seja iluminada pelo Espírito de Deus.” (idem)

Essa doutrina deve nos levar à humildade, mas também deve impulsionar o empreendimento missionário. Peçamos a Deus por isso. Que sua igreja reconheça cada dia mais a pobreza em que os homens se encontram, e que essa triste constatação a leve a ser instrumento divino do resgate da humanidade com mais vigor.

Dons do Espírito [ 2.2.15-16 ]

Uma crença popularizada no meio evangélico diz respeito aos dons espirituais, isto é, capacidades especiais recebidas pelos crentes regenerados pelo Espírito Santo. Ou seja, são dádivas dadas somente pelos crentes, uma vez que estes tornaram-se espirituais. Não nego que a doutrina seja bíblica, porém existe uma certa “gnosticalização” do conceito, ao menosprezar outros dons que também são dados por Deus e que, portanto, podem ser considerados espirituais. Para Calvino, entre eles, está a razão humana.

“Se reputarmos ser o Espírito de Deus a fonte única da verdade, a própria verdade, onde quer que ela apareça, não a rejeitaremos, nem a desprezaremos, a menos que queiramos ser insultuosos para com o Espírito de Deus. Ora, nem se menosprezam os dons do Espírito sem desprezar- se e afrontar-se ao próprio Espírito.” (2.2.15, p.43)

A seguir o reformador lista as diversas conquistas humanas, em variadas áreas como filosofia, direito, medicina, matemática, entre outras. Tudo isso é fruto do dom de Deus e não deve ser rejeitado.

“Portanto, se esses homens, a quem a Escritura chama naturais [1Co 2.14], que não tinham outra ajuda além da luz da natureza, foram tão engenhosos na inteligência das coisas deste mundo, tais exemplos devem ensinar-nos quantos são os dons e graças que o Senhor tem deixado à natureza humana, mesmo depois de ser despojada do verdadeiro e sumo bem.” (idem)

Claro que há falhas na razão humana, mas como foi dito, aquilo que é verdade não pode ser ignorado. Calvino considera isto como um pecado, pois rejeita-se uma dádiva do Espírito. Ele lembra que isso não significa que o Espírito habita nos ímpios só porque eles têm dons, mas que é ele quem sustenta e vivifica tudo o que há. Negar isso é cair em grave erro.

“Pois se o Senhor nos quis assim que fôssemos ajudados pela obra e ministério dos ímpios na física, na dialética, na matemática e nas demais áreas do saber, façamos uso delas, para que não soframos o justo castigo de nossa displicência, caso negligenciemos as dádivas de Deus nelas graciosamente oferecidas.” (2.2.16, p.44)

Essas maravilhosas habilidades legadas por Deus não devem se tornar motivo de orgulho. O homem continua em condição miserável mesmo com tantos avanços no saber. Peçamos a Deus essa consciência.

“Não julgue ser o homem sumamente ditoso, quando se lhe concede tão grande poder de compreender a verdade sob os elementos deste mundo, deve-se, ao mesmo tempo, apreender que não só toda esta capacidade de compreensão, como também a compreensão que daí resulta, é coisa sem consistência e sem estabilidade diante de Deus, quando não subjaz nela o sólido fundamento da verdade… após a queda, foram subtraídos ao homem os dons graciosos, assim também foram corrompidos estes dons naturais que lhe restavam.” (idem)

Os dons naturais [ 2.2.13-14 ]

Resta ainda alguma coisa boa no homem? Para Calvino, a resposta não é tão simples como alguns crêem. Isto é, apenas pela bondade de Deus resta-nos alguns poucos dons naturais. Embora o homem esteja totalmente corrompido, tanto na mente quanto na vontade, e tenha se tornado escravo do pecado, ainda assim ele se diferencia dos seres irracionais. Ou seja, sobra à humanidade algumas dádivas, mantidos graciosamente por Deus. Nesse sentido, resta algo de bom nos seres humanos.

O reformador divide as nossas capacidades em dois tipos: aquelas compreendem os dons terrenos e as que compreendem dons celestiais. Evidentemente, o segundo tipo está ausente no homem caído. Conclusão: o homem pode também ser considerado totalmente mal.

“Chamo de ‘coisas terrenas’ aquelas que não dizem respeito a Deus e seu reino, à verdadeira justiça, à bem-aventurança da vida futura; mas, ao contrário, têm significado e nexo em relação à presente vida, e de certo modo se mantêm dentro dos limites. ‘Coisas celestiais’ chamo o puro conhecimento de Deus, o senso da verdadeira justiça e os mistérios do reino celeste. Na primeira classe estão a ciência política, a economia doméstica, todas as artes mecânicas e as disciplinas liberais; na segunda, o conhecimento de Deus e da divina vontade e a norma de plasmar a vida em conformidade com essa vontade.” (2.2.13, p.41)

Assim, Calvino lista algumas das áreas em que esses dons de Deus ainda estão presentes. A primeira dessas é na organização da sociedade, nas leis feitas pelo homem, etc. Mesmo aqueles que quebram a ordem social seguem algum tipo de padrão e conformam-se a ele.

“Daqui resulta que não se ache ninguém que não compreenda ser conveniente que todas e quaisquer comunidades humanas sejam reguladas por leis, e que não abarque na mente os princípios dessas leis… enquanto os homens disputam entre si a respeito de capítulos das leis, estão de acordo no que tange a certa noção básica da justiça… Não obstante, isto permanece: em todos é implantada uma certa semente da ordem política. E esta é ampla prova de que na direção desta vida homem nenhum é destituído da luz da razão.” (2.2.13, p.41s)

A capacidade humana também se mostra superior à de todos os outros seres também nas artes, sejam manuais ou liberais. Ora, como o homem manteria essa habilidade se não fosse dado por Deus? Não que mereçamos tamanho poder de criação, mas aprouve ao Senhor nos deixar alguma chama de razão, que permitisse isso.

“Mas, ainda que nem todos sejam aptos para aprender todas elas, todavia é marca bastante segura da energia comum o fato de que não se acha quase ninguém em quem não se evidencie proficiência em alguma arte. Nem se encontra à mão somente a energia e capacidade para aprender, mas também para inventar algo novo em cada arte, ou para aperfeiçoar e burilar o que hajas aprendido de outrem que veio antes de ti… Porque atinge indistintamente a piedosos e a ímpios, com razão se conta entre os dons naturais.” (2.2.14, p.42s)

Portanto, devemos ser gratos a Deus por essa habilidades que ele nos entregou. Ainda que os injustos não glorifiquem ao Senhor por isto, que nós tenhamos os corações agradecidos diante das maravilhas que a humanidade promoveu e continuará promovendo.

A razão humana [ 2.2.12 ]

Um aspecto fascinante dos escritos calvinistas é que, mesmo nos chamando à humildade, ele reconhece que o ser humano – mesmo caído – ainda guarda algumas das bênçãos dadas por Deus. Os dons sobrenaturais (fé, amor, santidade, entre outros), foram perdidos, enquanto a vontade e a razão, ainda que gravemente afetadas, ainda sobrevivem.

“Na natureza pervertida e degenerada do homem ainda brilham centelhas que mostram ser ele um animal racional e diferir dos brutos, porquanto foi dotado de inteligência, e todavia esta luz é sufocada por mui densa ignorância, de sorte a não poder defluir eficientemente. Assim, a vontade, porque é inseparável da natureza do homem, não pereceu, mas foi cingida” (2.2.12, p.40)

Calvino vê também que há algo no ser humano que o diferencia de todas as outras criaturas – a busca e o interesse pela verdade. Se a mente do homem tivesse sido totalmente destruída essa inclinação humana não aconteceria mais. A busca pela resposta às suas perguntas, ainda que falha, é uma marca da humanidade.

“Ora, vemos que é inerente na mente humana não sei que desejo de buscar a verdade, à qual de modo algum aspiraria, a não ser que lhe fosse anteriormente sentido algum odor. Portanto, que o homem é por natureza arrebatado pelo amor da verdade, cujo menosprezo nos animais brutos lhes argúi crasso senso, sem racionalidade, é já esta alguma perspiciência do intelecto humano; não obstante, esta predisposição, seja qual for sua natureza, desfalece antes que adentre o estádio de sua corrida, porquanto cede logo à vacuidade.” (idem)

É claro que o pecado afeta a mente humana, assim como afetou a vontade. Calvino fala corretamente do costume dos homens de “investigar coisas de todo vazias e irrelevantes”. No entanto, como veremos nas próximas seções, ele reconhece também o valor da inteligência humana, nas mais diversas esferas – sociedade civil, artes, ciência, entre outras. Que nos unamos ao reformador em gratidão por tantos dons divinos.