Depravação total [ 2.1.8-9 ]

Calvino inicia a nova seção definindo o que ele quer dizer por pecado. Mais uma vez, vemos a importância que o reformador dava a não deixar qualquer ensino ambíguo ou exposto a interpretações errôneas. Como é comum em seus escritos, trata-se de uma definição dupla.

“O pecado original representa, portanto, a depravação e corrupção hereditárias de nossa natureza, difundidas por todas as partes da alma, que, em primeiro lugar, nos fazem condenáveis à ira de Deus; em segundo lugar, também produzem em nós aquelas obras que a Escritura chama de ‘obras da carne’ [Gl 5.19]. E é propriamente isto o que por Paulo, com bastante freqüência, designa apenas de pecado.” (2.1.8, p.23)

A doutrina da Depravação Total, conhecida como o primeiro ponto do Calvinismo, é exposta pelo reformador – ainda que ele não use esses termos. Isso demonstra que os teólogos reformados não colocaram palavras na boca de Calvino, mas na verdade resumiram os seus ensinamentos.

“Tudo quanto há no homem, desde o intelecto até a vontade, desde a alma até a carne, foi poluído e saturado por essa concupiscência. Ou, para expressar-se mais sucintamente, o homem todo, de si mesmo, outra coisa não é senão concupiscência.” (2.1.8, p.24)

De fato o “total” dessa doutrina não quer dizer que os homens são tão maus quanto podem ser, mas que todas as esferas de seu ser foram infectadas pela impiedade. Mais a frente (2.1.9, p.25), Calvino dirá que não é simplesmente o corpo ou a alma que precisa da graça, mas o homem por completo. Nossa situação é tão desesperadora que mesmo aqueles que parecem mais inocentes estão tomados por esse mal e são, portanto, culpadas.

“E por isso também as próprias crianças, enquanto trazem consigo sua condenação desde o ventre materno, são tidas como culposas não por falta alheia, mas pela falta de si próprias. Ora, embora ainda não tenham trazido à tona os frutos de sua iniqüidade, no entanto têm encerrada dentro de si a semente.” (idem)

Para alguns, esse ensinamento é ofensivo e precisa ser evitado. Mas isso é um erro. Essa doutrina aterradora e tão difícil de suportar não deve nos fazer mal, mas nos levar ao reconhecimento da necessidade do poder de Deus em nossas vidas. É somente pela graça que poderemos vencer essa corrupção, e é somente reconhecendo-nos com fracos e sujos que teremos acesso a esta maravilhosa regeneração. Não sejamos arrogantes, mas humildes.

A natureza corrompida [ 2.1.6-7 ]

A relação entre Adão e sua posterioridade é desenvolvida por Calvino nas próximas seções. Tomando os temas que o apóstolo Paulo desenvolve em sua carta aos Romanos, o reformador explica a depravação humana com a dicotomia Adão/Cristo. Se a justiça de Cristo não nos vem por imitação, segue que o pecado de Adão também não caiu sobre nós dessa forma.

“Porque, se está fora de controvérsia que, mediante comunicação, a justiça de Cristo é nossa, e desta a decorrer a vida, segue-se, ao mesmo tempo, que em Adão foram ambas assim perdidas, como em Cristo ambas são recuperadas… E por isso, entre estes dois [Cristo e Adão], a relação é esta: que este, a nós envolvendo em sua ruína, consigo nos perdeu; Aquele, por sua graça, nos restituiu à salvação.” (2.1.6, p.21)

No entanto, é necessário nos lembrarmos que não é o homem algo ruim em si mesmo. Por ser criado por Deus, o ser humano é uma criatura boa. Porém, o pecado o torna corruptível, e desgradável ao Criador. Calvino novamente nos adverte a não cairmos nessa heresia.

“Depreende-se facilmente que por certo aqui não se deve entender natureza como foi criada por Deus; antes, como foi corrompida em Adão, pois que estaria muito longe de ser procedente que Deus se fizesse o autor da morte.” (2.1.6, p.22)

Há um outro problema comum quando se trata desse tema, a respeito da transmissão hereditária dessa corrupção. Muito debateu-se sobre como essa depravação é passada aos descendentes. Calvino dá uma resposta simples para o assunto – Deus revogou os dons que havia dado ao homem, e isso nos basta saber.

“A nós nos convém estar contentes com isto: haver o Senhor depositado em Adão aqueles dotes que quis conferir à natureza humana. Portanto, quando perdeu os dotes recebidos, aquele os perdeu, não apenas por si só, mas também por todos nós.” (2.1.7, p.22)

Por fim, o reformador volta a atacar a heresia pelagiana, que ensinava que existe uma transmissão da pureza de pais regenerados para seus descendentes, livrando-os assim da corrupção humana. Essa idéia não tem base bíblica e nem mesmo os pais da igreja a apoiavam.

“Ora, não descendem da regeneração espiritual, mas da geração carnal. Daí, como diz Agostinho: ‘Quer um infiel culposo, quer um fiel inculpável, um e outro não gera inculpáveis, mas culposos, porque os gera de natureza corrupta’… Pois, a culposidade provém da própria natureza; a santificação, contudo, procede da graça supernatural.” (2.1.7, p.22s)

Deixemos a Bíblia falar mais alto que nosso orgulho e vãs especulações. Que a igreja abandone o pelagianismo que abraçou e volte-se novamente para essa maravilha graça sobrenatural!

Os filhos de Adão [ 2.1.5 ]

Seguindo a queda de Adão, passamos a tratar das consequências dessa desobediência sobre nós. Ao pecar, o homem acabou transmitindo aos seus descendentes a maldição da morte.

“‘Gemem todas as criaturas’, diz Paulo, ‘não por sua própria vontade, sujeitas à corrupção’ [Rm 8.20, 22]. Caso se busque a causa disso, não há dúvida de que estão a sofrer parte daquele castigo que o homem mereceu, para cujo proveito elas foram criadas. Portanto, quando, de alto a baixo, por sua culpa atraiu a maldição que grassa por todos os recantos do mundo, nada há de ilógico se ela foi propagada a toda sua descendência.” (2.1.5, p.20)

Chesterton já disse que o pecado é a doutrina cristã que podemos mais efetivamente demonstrar. De fato, essa “corrupção hereditária” (idem) é inata a todos os seres humanos, como filhos dos primeiros seres humanos. Assim, não se sustenta a opinião de Pelágio, de que somos pecadores por imitação e não por uma deformação em nossa natureza.

“Naturalmente, com esta artimanha de encobrir a enfermidade, Satanás tentou torná-la incurável. Como, porém, pelo claro testemunho da Escritura se mostrasse que o pecado foi transmitido do primeiro homem a toda a posteridade [Rm 5.12], sofismavam haver-se transmitido por imitação, não por geração.”(idem)

No entanto, a Bíblia não nos permite tirar essa conclusão – de que o homem nasce puro, para depois “aprender” o que é o pecado. Além do já citado texto de Romanos 5.12, Calvino nos apresenta mais algumas provas, como veremos adiante.

“Por certo que não é ambíguo o que Davi confessa, a saber, ter sido gerado em iniqüidades e de sua mãe concebido em pecado [Sl 51.5]. Não está ele aí a censurar as faltas do pai ou da mãe; antes, para que melhor enalteça a bondade de Deus para consigo, faz remontar a confissão de sua iniqüidade à própria concepção.” (idem)

“Portanto, todos que descendemos de uma semente impura, nascemos infeccionados pelo contágio do pecado. Na verdade, antes que contemplemos esta luz da vida, à vista de Deus já estamos manchados e poluídos. Pois, “quem do imundo tirará o puro?” Certamente, como está no livro de Jó [14.4], ninguém!” (idem)

Negar a corrupção humana é uma das heresias que mais atacam a igreja. Ao minimizar os efeitos da queda em nós, corrermos o risco de não encarar de frente o problema da humanidade. Corremos o risco de desvalorizar a obra de Cristo e a graça de Deus. O Senhor nos livre desse erro trágico.

O pecado de Adão [ 2.1.4 ]

Para começar a falar sobre o Redentor e a necessidade dele (tema do segundo livro das Institutas), é preciso primeiro falar sobre o pecado. E daí é importante que lidemos com o assunto desde seu início – quando o homem caiu. Calvino discorre sobre a natureza desse evento tão infeliz para a humanidade.

“A proibição da árvore do conhecimento do bem e do mal foi um teste de obediência; de modo que, ao obedecer, Adão podia provar que se sujeitava à autoridade de Deus, de livre e deliberada vontade. Com efeito, o próprio nome da árvore evidencia que o propósito do preceito não era outro senão que, contente com sua sorte, o homem não se alçasse mais alto, movido de ímpia cobiça.” (2.1.4, p.18)

Mais do que isso, a queda do homem foi um ato de ambição e ingratidão. O homem recusou aquilo que Deus lhe deu como suficiente para si e quis mais do que devia.

“Ignobilmente Adão desdenhou a tão grande liberalidade de Deus pela qual havia sido enriquecido. Na verdade, esta foi uma impiedade monstruosa, a saber, a um filho da terra parecer pouco que fosse criado à semelhança de Deus, se também não lhe fosse acrescentada a igualdade.” (2.1.4, p.19)

Concluindo, o reformador mostra que esse ato de desobediência de Adão também significou uma forma de blasfêmia, por desmerecer as palavras do Criador e elevar as palavras da serpente como verdadeiras. Com isso, Calvino conclui, ao melhor estilo John Piper, o homem perdeu o status de mais alta felicidade.

“Ora, jamais teria Adão ousado repudiar o imperativo de Deus, a não ser que não lhe desse crédito à palavra. Era este, de fato, o melhor freio para adequadamente regular-lhe todas as inclinações: que nada é melhor do que, mercê de estrita obediência aos preceitos de Deus, amar a justiça; em seguida, que a meta final da vida feliz é ser por ele amado.” (idem)

O conhecimento do homem [ 2.1.1-3 ]

O assunto do conhecimento volta à tona nesse início do livro 2 das Institutas. Um dos propósitos de todo esse projeto de Calvino é que homens e mulheres também conheçam mais sobre si, visto que para ele nosso conhecimento total e proveitoso basicamente consiste nisso – em conhecer Deus e conhecer a nós mesmos (vide seção 1.1.1). O reformador nos diz que este conhecimento do homem possui duas partes – antes e pós-queda.

“O conhecimento de nós mesmos situa-se, em primeiro lugar, nisto: que, atentando para o que nos foi outorgado na criação, e quão benignamente Deus continua sua graça para conosco, saibamos quão grande seria a excelência de nossa natureza, se porventura permanecera íntegra, contudo ao mesmo tempo reflitamos que em nós nada subsiste de próprio… Em segundo lugar, que encaremos bem a miserável condição em que nos achamos após a queda de Adão, por cujo reconhecimento, posta por terra toda jactância e confiança própria, esmagados de vergonha, verdadeiramente nos humilhemos.” (2.1.1, p.15)

No entanto, algo que se coloca como barreira a esse conhecimento é o orgulho humano. Calvino lembra que “nada há que a natureza humana mais cobice que ser afagada por lisonjas” (2.1.2, p.16), o que se torna um problema quando se deve contemplar a maldade e pecaminosidade dos seres humanos. Somente quando reconhecermos nossa inabilidade humildemente buscaremos essa ciência.

“Aos que confiam poder fazer algo de sua própria capacidade não pode suceder de outra maneira. Portanto, se alguém dá ouvidos a tais mestres que nos incitam a tão-somente mirarmos nossas boas qualidades, não avançará no conhecimento de si próprio; ao contrário, se precipitará na mais ruinosa ignorância.” (2.1.2, p.17)

O reformador também nos dá um alerta. Deus não quer que ignoremos as características do homem antes da queda. É costume, especialmente entre os reformados, dá tanta ênfase na natureza caída do homem que muitos acabam considerando a humanidade como a pior das obras de Deus. Calvino rejeita essa distorção, lembrando que saber como era Adão originalmente nos leva a ansiar mais ainda pela presença de Deus conosco.

“Tampouco quer Deus que nos esqueçamos de nossa nobreza primeva, nobreza que conferira a nosso pai Adão, nobreza que por certo deve, com razão, despertar nosso zelo pela justiça e pela bondade. Pois não podemos sequer pensar, seja em nossa própria condição original, seja para quê fomos criados, que não sejamos acicatados a meditar na imortalidade e a anelar pelo reino de Deus.” (2.1.3, p.17)

Sobre esses propósitos para conhecer-se, Calvino tem mais a dizer, algo que ele divide em dois propósitos básicos - “que o homem reconheça qual seja seu dever” e “de que recursos dispõe para desempenhá-lo” (2.1.3, p.18) . Ele explica esses conceitos dessa forma.

“Em primeiro lugar, considere para que fim foi criado e provido de dotes que não se deve desprezar, mercê de cuja reflexão se desperte à meditação do culto divino e da vida futura; em segundo lugar, pondere suas capacidades; ou, de fato, sua carência de capacidades, a qual, uma vez percebida, se prostre em extrema confusão, como que reduzido a nada.” (idem)

Portanto, é importante que tenhamos em vista a proposta de Calvino para uma antropologia bíblica. Ela não deve ser mera informação, mas algo que nos leve a ansiar pelos céus e nos faça aprender em humildade. Que nossos teólogos possam também pensar assim.

A instrumentalidade dos ímpios [ 1.18.4 ]

Finalizado o assunto da providência (e o Livro 1 das Institutas), Calvino novamente defende a fé cristã de ataques antibíblicos. Para alguns, Deus deve ser considerado o autor de todos os pecados, uma vez que ele decreta e age sobre os ímpios para alcançar seus propósitos. Essa última seção objetiva a combater essa objeção. Como dissemos no post anterior, trata-se de uma confusão entre vontade e preceito.

“Isto nos cabe realmente sustentar: enquanto por instrumentalidade dos ímpios Deus leva a bom termo o que decretou em seu juízo secreto, não são eles escusáveis, como se estivessem obedecendo a seu preceito, o qual deliberadamente violam em sua desregrada cupidez.” (1.18.4, p.229)

Novamente Calvino usa do auxílio de Agostinho para defender essa doutrina que ele já expôs por bastante tempo. Chama atenção essa boa influência na vida do reformador, ainda que ele rejeite aquilo que discorda do bispo de Hipona. O argumento é o que já dissemos no estudo anterior – Deus e o homem diferem em seus objetivos para um mesmo ato.

“Uma vez que o Pai haja entregado o Filho, e Cristo seu corpo, e Judas o Senhor, por que nesta entrega Deus é justo e o homem réu, senão porque, em um e o mesmo ato que praticaram, a causa em função da qual o praticaram não é uma e única?” (Agostinho, Epístola XLVIII (93), a Vicente, capítulo 7, citado em 1.18.4, p.230)

A respeito do controle de Deus sobre a morte de seu próprio Filho, o reformador tem a dizer o mesmo que Santo Agostinho. Por fim, conclui – as intenções dos ímpios acabam os condenando, por mais que sejam eles instrumentos da bondade de Deus. Ninguém pratica o mal por ordem do Senhor.

“Certamente que, na traição de Judas, atribuir a Deus a culpa do ato nefando, visto que ele próprio não só quis que o Filho fosse entregue, como inclusive o entregou à morte, em nada será mais lícito que transferir a Judas o louvor da redenção… neste exame Deus não indaga o que os homens têm podido, ou o que têm feito, porém o que têm querido, de sorte que o que se leva em conta é o propósito e a vontade.” (1.18.4, p.231)

Conclusão do Livro 1

Aprendemos muitas coisas nesse ensino piedoso que Calvino nos traz. Dessas, destaco algumas que devemos manter conosco ao fechar esse tomo das Institutas: que o conhecimento de Deus é necessário para nossa felicidade, que a Escritura é a fonte primordial desse conhecimento vivo e dinâmico, e que o Criador também controla tudo por meio de seu poder e sabedoria. Que estejamos dispostos a sorver cada vez mais da Palavra de Deus.

“Ora, nosso saber não deve ser outra coisa senão abraçar com branda docilidade, e certamente sem restrição, tudo quanto foi ensinado nas Sagradas Escrituras.” (idem)