Chamado eficaz [ 2.3.10 ]

“Ora, o Apóstolo não está ensinando que, se a aceitarmos, se nos oferece a graça de uma boa vontade; ao contrário, que ele próprio efetua em nós o querer, o que outra coisa não é senão que o Senhor, por seu Espírito, nos dirige, inclina, governa o coração e nele reina como em domínio seu.” (2.3.10, p.70)

Ainda que não utilizasse os mesmos termos do Sínodo de Dort, Calvino certamente aprovaria suas declarações. Prova disso, é a ênfase que ele dá ao chamado eficaz de Deus, sua graça irresistível que vence qualquer barreira colocada pelo o homem, e o leva graciosamente à futura glorificação. Veja o que o teólogo de Genebra nos diz.

“Na verdade ele não está prometendo, através de Ezequiel [11.19, 20; 36.27], que haverá de dar aos eleitos um novo espírito apenas com esta finalidade: que sejam capacitados a andar em seus preceitos; ao contrário, para que, de fato, neles andem! Nem se pode interpretar diferentemente a afirmação de Cristo [Jo 6.45]: ‘Todo aquele que ouviu de meu Pai vem a mim’, senão que ensina que a graça de Deus é de si mesma eficaz.” (idem)

Calvino, ao contrário do que se pensa, não nega que o Evangelho deva ser oferecido a todos. No entanto, ele sabe que apenas Deus tem o poder para aplicar de maneira eficaz esta mensagem.

“Por certo que os homens devem ser ensinados que a benignidade de Deus é oferecida, sem exceção, a todos os que a buscam. Como, porém, somente aqueles a quem a graça celeste inspirou começam por fim a buscá-la, nem mesmo esta porçãozinha mínima deveria ser subtraída de seu louvor.” (idem)

Calvino sabe que tem como testemunha de sua posição o próprio Agostinho. O bispo de Hipona foi claro ao dizer que apenas “a natureza é comum a todos, a graça não”(2.3.10, p.71). Com isso, podemos entender que, embora a salvação não seja para todos, não sabemos quem são aqueles a quem Deus elegeu. Por isso, devemos proclamar o Evangelho a todos, a fim de que o próprio Senhor, por sua poderosa graça, traga seus filhos para junto de si.

O querer e o executar [ 2.3.8-9 ]

Calvino continua a explorar a questão do bem que surge nos homens. Para ele, desde o princípio de nossa salvação temos o próprio Senhor como fonte de toda bondade. Na verdade, antes da fundação do mundo Deus já iniciou sua obra ao eleger-nos. Esta escolha, então, é aplicada quando o cristão crê na obra de Cristo, e isto vem de Deus.

“Adiciona-se outra razão, não contrária: ora, uma vez que o princípio do querer o bem e do agir corretamente procede da fé, impõe-se ver donde procede a própria fé. Como, porém, toda a Escritura proclama que a fé é um dom gracioso de Deus, segue-se que procede de sua mera graça que comecemos a querer o bem, estando naturalmente inclinados ao mal.” (2.3.8, p.67)

Assim, o reformador conclui que tudo aquilo que vem de bom, é dado a nós pelo Senhor. Não apenas a chegada à fé, mas mesmo aquelas iniciativas que parecem nossas são fruto da vontade de Deus em nossas vidas. Calvino cita o Salmo 51, onde Davi pede que Deus crie nele um coração puro. Ainda que já fosse um crente, o salmista reconhecer que somente de Deus vem a piedade. O reformador cita textos em que os crentes pedem para que o Senhor incline o coração deles ao bem, e nos dá uma advertência.

“Sem dúvida é surpreendente e portentoso o fremir de nosso orgulho! Nada exige o Senhor mais estritamente do que observarmos mui religiosamente seu sábado, a saber, descansando de nossos labores. E não há nada mais difícil de se conseguir de nós do que nos descartarmos de nossas ocupações para darmos justo lugar às obras de Deus.” (2.3.9, p.68)

Assim, toda pretensão de termos qualquer esforço próprio na salvação é eliminada, e precisamos aceitar esse “sábado” proposto por Calvino. Por fim, ele cita Filipenses 2.13, onde o Apóstolo Paulo nos diz que Deus não apenas opera o nosso querer, mas também o efetuar.

“A primeira parte de uma boa obra é a vontade; a segunda, o firme empenho em executá-la: Deus é o autor de ambos. Portanto, furtamos ao Senhor, se algo arrogamos para nós, seja na vontade, seja na execução. Se fosse dito que Deus empresta ajuda à vontade fraca, algo nos seria deixado; quando, porém, se diz que ele produz a vontade, então se localiza fora de nós tudo quanto nela há de bom. Ademais, uma vez que até mesmo uma boa vontade é esmagada pelo peso de nossa carne, tanto que não possa soerguer-se, acrescentou que, para superar as dificuldades dessa luta, nos é administrada a constância de empenho para que nos assista até mesmo a execução.” (2.3.9, p.69)

Tudo vem do Senhor, mesmo os nossos desejos mais sinceros. E eles não deixam de ser sinceros por virem do Senhor. Pelo contrário, por meio dele, eles se tornam reais.

Capacitados ao bem [ 2.3.6-7 ]

Para que o homem totalmente depravado volte seus olhos para o Criador é necessária uma obra sobrenatural. É aquilo que Paulo chama de “boa obra”, que Deus havia iniciado nos filipenses (Fp 1.6), e que continuaria até o dia final. É necessário que o coração seja refeito. Ezequiel registra essa promessa do Senhor, dizendo que os homens teriam os corações de pedra trocados por de carne. Isto é, um milagre.

“Se porventura numa pedra existe plasticidade de qualquer natureza, a qual, tornada mais mole por algum meio, recebe algum tipo de inflexão, não negarei que o coração do homem pode tornar-se flexível à obediência do que é reto, desde que o que é nele imperfeito seja suprido pela graça de Deus. Mas, se com esta comparação o Senhor quis mostrar que nada de bom jamais será extraído do coração, a não ser que ele se faça inteiramente outro, não dividamos entre ele e nós o que reivindica exclusivamente para si.” (2.3.6, p.64)

Mais uma vez, então, o reformador enfatiza que não há violência ou destruição no ser humano, mas uma reorientação e transformação do seu coração.

“Quando Deus nos converte ao zelo do que é reto, uma pedra se transforma em carne e está eliminado tudo quanto é de nossa própria vontade: o que toma seu lugar procede inteiramente de Deus. Digo que a vontade é suprimida não até onde é vontade, pois que na conversão do homem permanece íntegro o que é da primeira natureza; digo ainda que a vontade é feito nova, não no sentido em que comece a existir, mas que ela muda de má em boa.” (2.3.6, p.64s)

É importante também acrescentar que o reformador deixa claro que essa obra divina não se dá apenas no início, mas segue a vida toda. Como diz Efésios 2.10, Deus preparou boas obras de antemão, para que andássemos nelas. Embora a vontade humana possa ser considerada uma “serva acompanhante” (expressão de Agostinho), Calvino enfatiza bastante que a fonte da obediência dessa serva é a própria graça de Deus. O comentário do Bispo de Hipona sobre João 6.45 é útil.

“Assim seu arbítrio o assiste, para que não só saiba o que deve fazer, mas, porque o sabe, também o faça. E daí, quando Deus, não mediante a letra da lei, mas através da graça do Espírito, assim ensina que o que alguém aprendeu, não apenas o veja, conhecendo; mas ainda o busque, querendo; e o faça, agindo.” (Agostinho, citado em 2.3.7, p.66)

Devemos nos unir a estes homens santos e reconhecer que nossa salvação vem somente do Senhor (Jonas 2.9). Desde o primeiro passo até o fim da jornada – tudo isto está nas mãos do Senhor, que nos transforma, nos cura e nos guia.

Vontade e Necessidade [ 2.3.5 ]

Novamente Calvino trata da questão da liberdade humana, agora centrando-se no aspecto da nessecidade de pecar. Como já foi dito, o homem, embora escravo do pecado, em nenhum momento tem sua vontade violentada. O teólogo de Genebra crê que o que existe aí é uma confusão entre compulsão e necessidade. Ele cita um antigo mestre para ajudar em sua explicação.

“O homem, ao sujeitar-se a esta necessidade, não é privado da vontade, mas da sanidade da vontade… Com efeito, nem se pronunciou inadequadamente Bernardo, que ensina subsistir em todos nós o querer – porém, querer o bem ser proveito; querer o mau, defeito. Isto é, simplesmente querer provém do homem: querer mal, da natureza corrompida; querer bem, da graça.” (2.3.5, p.62)
Calvino mostra que tanto Deus quanto o diabo têm necessidades voltadas para certo valor, e nem por isso podemos considerá-los como marioenetes ou robôs. Não se trata de uma compulsão, mas de uma orientação. Tratam-se de trechos bastante elucidativos:
“Ora, a bondade de Deus é a tal ponto entrelaçada com sua divindade, que não lhe é mais necessário ser Deus do que ser bom. O Diabo, porém, em decorrência de sua queda, a tal ponto se alienou da comunhão do bem, que nada pode fazer senão o mal… Portanto, não se impede que a vontade de Deus seja livre em fazer o bem, só porque ele por necessidade opera o bem; se o Diabo, que outra coisa não pode fazer senão o mal, entretanto peca por vontade, quem por isso dirá que o homem peca menos voluntariamente, uma vez que está sujeito à necessidade de pecar?” (2.3.5, p.62s)
O que existe no caso do homem, para Calvino, é uma relação quase simbiótica entre vontade e necessidade. Ao mesmo tempo em que o homem é livre enquanto peca, ele tem a necessidade de pecar. A vontade do homem produz a necessidade, e a necessidade produz a vontade. Novamente trazendo Bernardo como guia, o reformador nos deixa uma desafiadora citação dele:
“Desse modo, não sei por que modo depravado e estranho, mudada pelo pecado, em verdade para pior, a própria vontade para si engendra a necessidade, de modo que nem a necessidade, uma vez que provenha da vontade, pode escusar a vontade, nem a vontade, uma vez que tenha sido seduzida, pode excluir a necessidade… E assim a alma, de certa maneira estranha e deplorável, sob esta necessidade, há um tempo, decorrente da vontade e perniciosamente livre, afirma ser não só escrava, mas também livre: escrava, em função da necessidade; livre, em função da vontade; e, o que é mais estranho e mais deplorável: é culposa, por ser livre; e é escrava, por ser culposa; e, em decorrência disso, é escrava, quando é livre.” (2.3.5, p.63)

A Graça Comum [ 2.3.3-4 ]

A última seção terminou com Calvino nos explicando que nem todas as pessoas efetivam toda a corrupção que existe em seus corações. Nem todos se parecem com o retrato da humanidade que Paulo apresenta em Romanos 3. O reformador passa a explicar isso, uma doutrina que mais tarde ficaria conhecida como graça comum.

“Em seus eleitos, o Senhor cura estes achaques na maneira que logo exporemos; nos outros, aplicado um freio, apenas os coíbe, só para que não se arrojem a extremos, até onde antevê ser conveniente para a preservação da totalidade das coisas.” (2.3.3, p.60)

As maneiras que Deus utiliza para deter o pecado nos seres humanos não-regenerados são das mais variadas. O importante é notarmos que tudo está debaixo da providência de Deus, que sabiamente governa a humanidade.

“Daqui, uns são contidos pelo senso de vergonha, outros, pelo temor das leis, para que não se lancem a muitas espécies de torpezas, se bem que, em larga medida, não dissimulam sua impureza; outros, porque julguem ser de vantagem uma forma honesta de viver, a ela, de certa maneira, aspiram; outros se alteiam acima da condição vulgar para que, mercê de sua própria importância, contenham os demais na linha da deferência apropriada.” (idem)

O reformador também nos lembra que muitos homens carregam algumas virtudes, mas que elas são sempre dons com que Deus presenteia alguns ímpios, sem que haja algum tipo de transformação interior nessas pessoas. Por sua providência o Senhor capacita as pessoas conforme sua vontade e propósito.

“Por cuja razão, em linguagem comum, não nos arreceamos de dizer ser este bem-nascido, ser aquele de natureza depravada. Entretanto, nem deixamos de incluir a um e ao outro sob a condição universal de depravação humana, mas apontamos que, por graça especial, o Senhor tem conferido a um, da qual não dignou prover ao outro.” (2.3.4, p.61)

No entanto, por maior que seja a aparência de justiça em um ímpio, há um teste final que ele não pode superar – sua motivação. Deus distribui seus dons a essas pessoas e muitas possuem elevado padrão de conduta. No entanto, nenhum ímpio glorificará conscientemente a Deus com seus atos. Por mais virtuoso que seja o incrédulo, ele é incapaz de fazer o que faz para a glória de Deus e isso o torna pecador, mesmo em sua justiça.

“Onde nenhum empenho há de promover a glória de Deus, empenho de que são desprovidos todos os que Deus não regenerou por seu Espírito, está ausente a parte principal da retitude.” (2.3.4, p.61s)

Não devemos pensar que os homens não são todos corruptos porque um ou outro se elevam acima dos pecadores. Precisamos ter em mente que somente aqueles que buscam a glória de Deus realmente entenderam o que é a perfeita justiça.

Corrupto por completo [ 2.3.1-2 ]

Uma confusão comum entre os leitores da Bíblia é a associação muito restrita do termo carne à porção sensória do ser humano. Calvino inicia o terceiro capítulo do livro 2 corrigindo este mal entendido. Não foi apenas o corpo humano afetado pela queda, como creem alguns, mas o homem por completo. Tudo aquilo que temos naturalmente está corrompido.

“Na verdade, tanto quanto em outras circunstâncias, se pudesse haver dúvida acerca desta matéria, a mesma nos é dirimida por Paulo, onde, descrito o velho homem, que dissera ter sido corrompido pelas concupiscências do erro, ordena que sejamos renovados no espírito de nossa mente [Ef 4.22, 23]. Vês que ele não situa os desejos ilícitos e depravados apenas na parte sensorial, mas também na própria mente, e por isso requer que lhe haja renovação.” (2.3.1, p.57)

A Bíblia é clara em afirmar que a parte imaterial do homem é fonte de pecado. Não derivamos nosso pensamento dos platônicos, mas de Deus. Mesmo o coração, considerado por alguns a melhor expressão do que é o ser humano, não escapa desse vírus implacável. “Em nada é mais branda a condenação do coração, quando se diz ser enganoso acima de todas as coisas e depravado [Jr 17.9].” (2.3.2, p.58). Para não se delongar muito nesse assunto, Calvino escolhe Romanos 3 como texto-base para demonstrar a nossa depravação. Temos uma citação longa, mas necessária.

“Ele priva o homem, de início, da justiça, isto é, da integridade e da pureza; a seguir, do entendimento [Rm 3.10, 11]. Ora, a carência de entendimento é demonstrada pela apostasia para com Deus, a busca de quem é o primeiro degrau da sabedoria. Mas essa deficiência necessariamente se acha naqueles que se têm afastado de Deus. Acrescenta em seguida que todos se têm transviado e se têm tornado como que putrefatos, que nenhum há que faça o bem; então adiciona as ignomínias com as quais contaminam a cada um de seus membros aqueles que uma vez se espojaram na dissolução. Finalmente, atesta que são vazios do temor de Deus, o que deveria ser a regra a dirigir-nos os passos.” (2.3.2, p.59)

O reformador nos lembra que essa passagem trata de toda humanidade, e não apenas de alguns. Ele também afirma que, embora nem todos cheguem a cometer tamanhos males, essa semente pecaminosa deixa aberta essa possibilidade no coração de todo ser humano.

“Se forem estes os dotes hereditários do gênero humano, em vão se busca algo de bom em nossa natureza. Reconheço, sem dúvida, que nem todas estas abominações vêm à tona em cada ser humano, entretanto não se pode negar que esta hidra jaz oculta no coração de cada um.” (idem)