Segunda função da Lei [ 2.7.10-11 ]

Calvino explica a partir de agora a segunda função da Lei de Moisés. Ela está intimamente ligada à doutrina da graça comum. Àqueles que não são regenerados, os mandamentos serevem como um freio para o pecado humano. Eles não têm o coração voltado a Deus, mas as ameaças da Lei os assustam e os levam a obedecê-la.

“São, porém, contidos, não porque a disposição interior lhes seja acionada ou afetada, mas porque, como que interposto um freio, contêm as mãos de ação externa e coíbem internamente sua depravação, a qual, de outra sorte, teriam de derramar desabridamente. Na verdade, isto não os faz nem melhores, nem mais justos diante de Deus.” (2.7.10, p.121)

Mesmo que não pareça, aqueles que se submetem à Lei, caso não sejam regenerados, não o fazem por amor a Deus, mas por medo deste, a quem odeiam e desprezam. Isto também serve ao governo de Deus sobre os homens, pois sem esses regimentos refreando o pecado, viveríamos numa sociedade caótica. Cabe à Lei – mesmo que muitos não reconheçam – o papel de reguladora dos homens pecadores.

“A uns, de fato, mais obscuramente; a outros, mais claramente; a todos os que ainda não são regenerados, entretanto, é tão inerente este sentimento, que são arrastados à observância da lei apenas pela violência do temor, não por submissão voluntária, mas a contragosto e renitentemente. No entanto, esta justiça, coata e compulsária, é necessária à sociedade comum dos homens, a cuja tranqüilidade este se vota, enquanto se vela para que todas as coisas não se misturem em confusão, o que aconteceria, se a todos tudo se permitisse.” (idem)

Calvino repara uma consequência interessante dessa segunda função da Lei. Trata-se da preparação daqueles que são eleitos de Deus para a vida santa. Isto é, antes de serem regenerados os futuros cristãos já têm seus costumes moldados pelos mandamentos. Assim, quando convertidos, já tem a prática da Lei do Senhor em suas vidas.

“E, desta sorte, se Deus não regenera imediatamente aqueles a quem destinou à herança de seu reino, mediante as obras da lei os conserva debaixo do temor até o tempo de sua visitação, certamente não aquele temor casto e puro, qual deve haver em seus filhos, todavia, prestante para isto, sejam, segundo sua capacidade, instruídos na verdadeira piedade… Todos quantos viveram por algum tempo na ignorância de Deus confessam haver-lhes isso acontecido que fossem contidos em certo temor e deferência de Deus pelo freio da lei, até que, regenerados pelo Espírito, começassem a amá-lo de coração.” (2.7.11, p.122)

Como cristãos, temos a obrigação de estudar a Lei de Deus, pois também é através dela que Deus governa nossa sociedade. Ainda hoje os mandamentos representam aquilo que o Senhor ordena ao mundo, e isso não deve ser esquecido pelos cristãos. Que façamos como o salmista, e tenhamos prazer na Lei do Senhor.

A Lei leva à Graça [ 2.7.8-9 ]

A Lei não apenas nos mostra quão grandiosa foi a graça de Deus ao cobrir nossos pecados. Ela também nos leva a pedir por graça em nossas vidas. Diante de nossa incapacidade e do castigo sobre nós, só nos resta implorar para que o Senhor tenha misericórdia sobre nós.

“Posta de parte a opinião injustificada de sua própria capacidade, compreendam que é tão somente pela mão de Deus que são firmados e subsistem, de sorte que, nus e vazios, se refugiem na misericórdia, nesta repousem inteiramente, no recesso desta se escondam, e tão-somente a esta se apeguem por justiça e méritos, misericórdia que foi revelada em Cristo a todos quantos, em verdadeira fé, não só a buscam, mas também nela esperam.” (2.7.8, p.119)

Para Calvino, enquanto Deus demonstra sua severidade e justiça pela Lei, “em Cristo sua face brilha, cheia de graça e brandura, para com os pecadores, ainda que míseros e indignos” (idem). Assim, a Lei nos leva à Graça, fato que é confirmado também por Agostinho em inúmeras citações e, em especial, na obra Do Espírito e da Letra.

“A lei ordena; a graça ministra o poder para cumprir… Deus ordena as coisas que não podemos, para que saibamos o que lhe devamos pedir.”

Concluindo, Calvino nos deixa a oração em que Agostinho pede a Deus que o capacite a cumprir os mandamentos. Que sejamos como esses dois homens, e a humildade esteja sempre em nossos lábios.

“Assim faze, ó Senhor; assim faze, ó Senhor misericordioso; ordena o que não se pode cumprir; sim, ordena o que não se pode cumprir, a não ser por tua graça, para que, uma vez que os homens não o possam cumprir por suas próprias forças, toda boca se cale e ninguém se faça grande a si mesmo. Sejam todos pequeninos e o mundo todo se faça culpado diante de Deus.” (três últimas citações de Agostinho tiradas de 2.7.9, p.120)

Primeira função da Lei [ 2.7.6-7 ]

Para Calvino, a Lei Moral tem três funções principais. A primeira delas já começamos a tratar brevemente – a lei serve para demonstrar a condição pecaminosa do homem. “Não há um justo sequer”, dizem Davi e Paulo (Sl 14.1-3; Rm 3.10), e os mandamentos do Senhor evidenciam nossa injustiça, nos desprovindo de qualquer tentativa de engrandecer-se. Sobre o homem não-regenerado, que se considera santo, Calvino nos diz:

“Por quanto tempo se lhe permite firmar em seu próprio julgamento, fomenta a hipocrisia em lugar da justiça, contente com a qual se levanta contra a graça de Deus, não sei com que engendradas justiças. Entretanto, depois que é obrigado a pesar sua vida na balança da lei, posta de parte a presunção dessa justiça imaginária, percebe estar distanciado da santidade por imenso espaço; pelo contrário, que superabunda de infinitos vícios dos quais até aqui parecia livre.” (2.7.6, p.118)

Como se nossa condição não fosse já lamentável, a Lei também lembra que existe uma série de maldições sobre aqueles que vivem em pecado. Ela não apenas nos declara a condição do incrédulo, mas as consequências de seus atos.

“Pois aquele a quem falta a capacidade para seguir a justiça, este está de modo absoluto atolado em um lamaçal de pecados. Ao pecado se segue imediatamente a maldição. Portanto, quanto mais a lei nos convence de que somos homens que têm cometido transgressão, tanto mais nos mostra que somos dignos de pena e castigo.” (2.7.7, p.118)

O reformador esclarece que em nenhum momento procura diminuir a Lei do Senhor. Pelo contrário, visto ser ela expressão da justiça e santidade divina, seria útil para a salvação do homem, se a humanidade não buscasse apenas a própria glória. No entanto, ainda assim podemos desfrutar desta primeira função, uma vez que, diante de nosso pecado a graça do Senhor a cada dia se mostra mais grandiosa. Que nossos corações estejam gratos, como aquele a quem muito foi perdoado (Lc 7.36-47).

“Ora, daí se evidencia cabalmente que por nossa corrupção e perversidade somos impedidos de fruir da bem-aventurança de vida revelada mediante a lei. Donde se torna mais dulçorosa a graça de Deus que nos socorre sem o subsídio da lei e mais aprazível sua misericórdia que no-la confere, mediante a qual aprendemos que ele jamais se cansa de continuamente conceder-nos benefícios e cumular-nos de novas dádivas.” (2.7.7, p.119)

As promessas da Lei [ 2.7.3-5 ]

Sendo a expressão da vontade de Deus, a Lei nos mostra altíssimos padrões de justiça, algo que o homem pecador não pode alcançar. Assim, para Calvino, um dos propósitos da Lei é levar o homem a perceber a inutilidade de seus esforços e ansiar pelas promessas daqueles que cumprem os mandamentos.

“Portanto, resta isto somente: que da excelência destas promessas melhor estime o homem sua própria miséria, enquanto, cortada a esperança da salvação, reconhece ameaçá-lo, inexoravelmente, a morte.” (2.7.3, p.115)

Então essas promessas da Lei não passam de mera zombaria? Se não podemos alcançá-las, para que prometê-las? Calvino explica:

“Se bem que, até onde são condicionais, as promessas da lei dependem da perfeita obediência da lei, obediência que em parte alguma se achará, contudo não foram dadas em vão. Pois, quando tivermos aprendido que elas nos haverão de ser fúteis e ineficazes, salvo se, de sua graciosa bondade, sem levar em consideração as obras, Deus nos abrace e, de igual modo, pela fé sejamos abraçado por essa bondade a nós exibida pelo evangelho, por certo que as promessas não carecem de sua eficácia, mesmo com a condição anexa.” (2.7.4, p.115s)

Caso alguém tenha dúvidas sobre a incapacidade humana, Calvino deixa claro que a Escritura sempre afirma que é impossível ao homem pecador cumprir toda Lei. Para o reformador, trata-se de um sofisma afirmar algo que a Escritura e superstição crer que algum santo do passado não cometeu pecados.

“Se retornarmos ao mais remoto período, afirmo que nenhum dos santos jamais existiu que, revestido do corpo de morte [Rm 7.24], a este grau de amor haja atingido, que amasse a Deus de todo o coração, de todo o entendimento, de toda a alma, de toda a força; por outro lado, ninguém que não tenha sentido o poder da concupiscência. Quem o contradiz? Vejo, com efeito, que sorte de santos nos imagine a estulta superstição, isto é, santos a cuja pureza mal correspondem os anjos dos céus, mas o repelem tanto a Escritura quanto o ditame da experiência.” (2.7.5, p.116)

Assim, que sejamos gratos ao Senhor, por nos presentear com bênçãos que não conquistamos, mas que ele conquistou para nós. Que nos lembremos sempre das palavras do reformador sobre o assunto.

“De tal forma tudo nos confere graciosamente o Senhor que também isto acrescente ao vasto acervo de sua benevolência: que, não rejeitando nossa imperfeita obediência, e suprindo o que lhe falta em completamento, nos faz perceber o fruto das promessas da lei, exatamente como se por nós fosse cumprida a condição.” (2.7.4, p.116)

A Lei do Senhor [ 2.7.1-2 ]

Neste novo capítulo, Calvino tratará sobre a natureza e o propósito da Lei, abrindo caminho para a exposição dos mandamentos, que se dará no capítulo VIII. Nesta primeira seção, o reformador se preocupa em afirmar a Lei como parte da ação redentora de Deus sobre os homens. A Nova Aliança não é uma ruptura da Antiga, mas a continuação da obra do Senhor na vida de seu povo.

“A lei foi acrescentada cerca de quatrocentos anos após a morte de Abraão não para afastar de Cristo o povo eleito; pelo contrário, para que mantivesse as mentes suspensas até sua vinda, até mesmo lhe acendesse o desejo e na expectação os firmasse, para que não esmorecessem por uma demora mais longa.” (2.7.1, p.112)

É importante ressaltar que, nesse trecho, Calvino entende como Lei toda a religião proposta no Antigo Testamento. Para ele, essas práticas seriam meros ritos se não apontassem para o Messias. Ao invés de terem um fim em si mesma, a religião veterotestamentária deveria levar o povo a procurar seu cumprimento.

“Todo o sistema cultual da lei, se é considerado em si, nem mesmo contém sombras e figuras a que corresponda a verdade, será coisa inteiramente risível.” (idem)

“Em vão é ensinada a justiça pelos mandamentos até que Cristo a confira, tanto por graciosa
imputação, quanto pelo Espírito de regeneração. Pelo que, com justiça, Paulo chama a Cristo o cumprimento ou fim da lei, porquanto de nada valeria sabermos o que Deus exige de nós, se aos que se esforçam e estão oprimidos sob seu jugo e fardo intolerável Cristo não os socorresse.”
(2.7.2, p.114)

Além disso, a aliança do Senhor com Davi também serve como espelho daquela que seria a Aliança definitiva entre Deus e seu povo escolhido.

“O reino que foi, afinal, estabelecido na família de Davi é parte da lei e está contido sob a ministração de Moisés. Donde se segue que, tanto em toda a linhagem levítica, quanto nos pósteros de Davi, Cristo fora posto diante dos olhos do povo antigo como que diante de um duplo espelho.” (2.7.2, p.113)

Assim, a Lei em si mesma não é algo ruim. Por vezes, Paulo utiliza a expressão como antagônica à graça. No entanto, isto ele faz quando enfrenta a distorção provocada pelos mestres de sua época, que tentavam alcançar a reconciliação com Deus por meio de suas obras. Para o Apóstolo (e para o reformador) a Lei nos é útil, assim como foi útil enquanto guia do antigo Israel.

“Os judeus foram mantidos como que sob a custódia de um “pedagogo” até que viesse a semente a cujo favor a promessa fora dada [G1 3.24]. Ora, uma vez que Cristo ainda não se dera a conhecer intimamente, foram eles semelhantes a crianças, cuja insuficiência não podia ainda suportar o pleno conhecimento das coisas celestes.” (2.7.2, p.113s)

Que nos dediquemos a estudar e meditar na Lei do Senhor. Que ela não seja desvalorizada mas amada e guardada em nossos corações.

A necessidade do Mediador [ 2.6.3-4 ]

“Ora, ainda que, em tempos idos, muitos se tenham gloriado de adorar o nome supremo, e Artífice do céu e da terra, entretanto uma vez, que não tinham nenhum Mediador, não pôde acontecer que, de fato, degustassem a misericórdia de Deus e fossem assim persuadidos de que ele era seu Pai. Portanto, porque não se atinham ao Cabeça, isto é, a Cristo, evanescido foi entre eles o conhecimento de Deus, donde também resultou que, tombados afinal em crassas e repelentes superstições, pusessem à mostra sua ignorância.” (2.6.4, p.111)

A idéia de que o interesse de alguém por Deus implica em sua salvação é algo ainda presente hoje. Muitos declaram amar e confiar num Criador, mas poucos são aqueles que vivem conforme a vontade dele. Por que isso acontece? Essas pessoas seguem um ídolo por não conhecerem aquele que revela o Pai.

“O primeiro passo para a piedade é reconhecer que Deus nos é o Pai, para que nos proteja, governe e sustente, até que nos congregue na eterna herança de seu reino. Daqui se faz patente o que dissemos há pouco: à parte de Cristo não subsiste o conhecimento salvífico de Deus, e por isso desde o princípio do mundo ter sido ele posto diante de todos os eleitos, para quem voltassem os olhos e em quem descansassem sua confiança.” (2.6.4, p.110s)

Isto também é válido para o povo antigo, ainda que eles vivessem em um período de sombras, sem a revelação completa de nosso Deus. Jesus é o cumprimento daquele pacto feito muito tempo antes de sua vinda.

“‘Eis a virgem conceberá e dará à luz um filho’ [Is 7.14], indicando indiretamente que, embora, por sua depravação, o rei e o povo rejeitassem a promessa que lhes era oferecida, como se de propósito se lançassem a abalar a fidedignidade de Deus, no entanto o Pacto não haveria de vir a ser nulo – o Redentor viria a seu tempo.” (2.6.3, p.109)

Assim, os cristãos devem se lembrar sempre dessa verdade. Sem Cristo, não há salvação, não há reconciliação e não há nem mesmo um relacionamento com Deus. Numa era de frouxidão doutrinária, o maior perigo para igreja pode ser esquecer da necessidade de um Mediador. Que Deus nos use para falar dele!

“‘Credes em Deus; também crede em mim’, diz ele [Jo 14.1]. Pois, falando apropriadamente, embora a fé se eleve de Cristo ao Pai, deixa ele claro, no entanto, que, embora se apóie firme em Deus, ela aos poucos se desvanece, a não ser que na condição de Mediador intervenha esse mesmo que a retém em sólida firmeza.” (2.6.4, p.110)