A figura do Mediador [ 2.6.1-2 ]

Após vários capítulos explanando a natureza da Queda do homem, João Calvino passa do problema à solução. Ainda que não adentre muito no assunto, as próximas seções ele falará sobre a necessidade de um mediador entre o homem pecador e Deus. Este mediador só pode ser Cristo, e a idéia de que todas as religiões nos aproximam de Deus é falsa. Assim, somente os judeus encontraram a verdadeira piedade, uma vez que esperavam o Messias.

“Com estas palavras [Jo 4.22] não só condena como falsas a todas e quaisquer religiões dos povos, mas assinala também a razão: porque, sob a lei, somente ao povo eleito se prometeu o Redentor. Donde se segue que jamais culto algum agradou a Deus a não ser aquele que contemplasse a Cristo.” (2.6.1, p.106)

Essa crença em Cristo está clara no Antigo Testamento, onde nos precursores do Messias (os ungidos do Senhor), Israel se estabeleceu fundamentado na mesma fé que a Igreja. Tanto as promessas a Abraão, a Lei de Moisés e o reinado de Davi apontam para a figura do Mediador.

“Está patente, portanto, em uma única cabeça foi primordialmente computada a semente de Abraão, nem foi manifesta a salvação prometida, até que essa semente viesse a Cristo, cujo ofício é ajuntar as coisas que foram dispersas. Portanto, da graça do Mediador dependia a adoção original do povo eleito. O que, embora em Moisés ainda não se exprimisse em termos claros, contudo se faz bastante patente ter sido geralmente conhecido de todos os piedosos.” (2.6.2, p.107)

“Nem de fato há dúvida de que o Pai celeste quisesse que se contemple em Davi e em seus pósteros a imagem viva de Cristo. Por isso, desejando exortar os piedosos ao temor de Deus, Davi manda beijar ao Filho [Sl 2.12], ao que de fato responde esta declaração do evangelho: ‘Quem não honra ao Filho, não honra ao Pai’ [Jo 5.23].” (idem)

Portanto, não existe diferença radical entre o povo da Antiga Aliança e o da Nova Aliança. Ainda que existam grandes diferenças sobre a maneira como o Senhor governava seu povo e sua religião, a salvação viria somente pela graça, pela fé na figura do Ungido. Que tenhamos isso em mente enquanto proseguirmos nesse estudo. Glória a Deus por seu Messias!

“Sem dúvida que depois da queda do primeiro homem nenhum conhecimento de Deus valeu para a salvação, sem o Mediador, pois que Cristo, quando diz que a vida eterna é esta: conhecer ao Pai como o único Deus verdadeiro e a Jesus Cristo, a quem ele enviou [Jo 17.3], fala não apenas de seu tempo, pelo contrário compreende a todos os séculos.” (2.6.1, p.106)

Outras objeções IV [ 2.5.18-19 ]

O próximo texto vem de Eclesiástico, um dos apócrifos. Embora Calvino considere sua autoridade duvidosa, resolve tratar da questão. Nos diz a passagem que “no princípio Deus criou o homem, e o entregou ao seu próprio juízo; deu-lhe ainda os mandamentos e os preceitos. ” (15.14,15)

Calvino compara esse texto com outro, este sim inspirado – Eclesiastes 7.29: “Deus fez ao homem reto, porém eles buscaram muitas astúcias”. Os dois tratam da criação do homem, quando ele poderia escolher entre vida e morte. Após a queda, porém, não é mais assim.

“No entanto, uma vez que, em conseqüência de sua degeneração, o homem fez naufrágio não só de si próprio, mas também de todas as coisas boas que em si havia, qualquer coisa que lhe é atribuída, provinda da criação original, não mais compete à natureza viciada e degenerada.” (2.5.18, p.103)

O próximo texto encontra-se na parábola do Bom Samaritano (Lc 10.25-37). Nos diz a Escritura que o homem vitimizado pelos bandidos foi deixado “meio-morto” (v.30). Os detratores do reformador entendem essa passagem como uma indicação de que o homem não está totalmente morto, mas ainda retém certas habilidades. Para responder, Calvino critica primeiro a fraquíssima intepretação do texto.

“Em primeiro lugar, o que diriam, se eu negar que há algum lugar para sua alegoria?… As alegorias não devem ultrapassar os limites da norma que a Escritura lhes antepõe; pois longe estão de ser suficientes e adequadas para servirem de base a qualquer doutrina.” (2.5.19, p.103s)

O reformador nos lembra que Efésios 2 ensina que o homem está totalmente morto. Não estávamos semivivos em nossos delitos, mas mortos espiritualmente, necessitando de uma verdadeira ressurreição, que só o Espírito dá. O reformador, porém, admite que poderíamos considerar a presença dos dons naturais como algum resquício de vida, mas isso não tem relação com a vida espiritual do homem.

“Foram subtraídos ao homem, após a queda, os dons graciosos de que depende para a salvação; corrompidos e poluídos, porém, foram os dotes naturais.” (idem)

Assim, este capítulo conclui. Aprendemos que a doutrina de Calvino é uma coluna forte contra qualquer tipo de ataque. Ainda que o reformador não tenha respondido a todas as questões, todo o estudo que veio antes desse capítulo pode nos trazer muitas respostas. Louvemos a Deus pela habilidade deste grande homem em expor a Palavra de Deus.

Outras objeções III [ 2.5.16-17 ]

A utilização de versos-prova para refutar doutrinas pode funcionar às vezes, mas também podem servir de muletas para alguém que não tem uma mente moldada pelas Escrituras. Ao invés da pessoa pensar a Palavra como um todo, ela prefere catar um texto aqui e ali para refutar o que não aceita bem. Isso não quer dizer que quem usa os próximos textos para comprovar sua doutrina anticalvinismo é assim, mas pode ser o caso de alguns. De qualquer maneira, sem mais delongas, vamos aos textos:

“Se bem fizeres, não é certo que serás aceito? E se não fizeres bem, o pecado jaz à porta, e sobre ti será o seu desejo, mas sobre ele deves dominar.” (Gênesis 4.7)

Na tradução de Calvino, essa frase pode ser entendida ou como uma ordem ou uma promessa. Devemos saber disso antes de lermos sua explicação para o verso. Seu argumento é simples: Deus não falou sobre a capacidade de Caim, mas sobre sua obrigação.

“Se está ordenando, já demonstramos que daí não se deduz nenhuma prova de capacidade humana; se está prometendo, onde jaz o cumprimento da promessa, uma vez que Caim sucumbiu ao pecado ao qual deveria dominar?… Ora, se esse domínio se refere ao pecado, ninguém nutre dúvida de que a oração seja imperativa, na qual não se define que possamos; pelo contrário, que devamos, embora acima de nosso poder.” (2.5.16, p.101)

O próximo texto tratado encontra-se em Romanos 9.16: “Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece” – curiosamente, um dos textos mais utilizados por calvinistas. Para os oponentes de Calvino, o texto significa que a graça de Deus colabora com nossa fraca capacidade de correr e querer. Sobre isso o reformador diz:

“Mais simples, porém, é a mente de Paulo: Não é a vontade, não é a corrida que nos preparam o caminho para a salvação; aqui entra somente a misericórdia do Senhor. Pois tampouco o Apóstolo fala aqui de uma maneira diferente de Tito [3.4-5], onde escreve que a bondade e a humanidade de Deus se fizeram manifestas não por meio de obras de justiça que porventura tenhamos feito, mas em virtude de sua imensa misericórdia.” (2.10.17, p.102)

O último texto é 1Co 3.9: “Porque nós somos cooperadores de Deus”. O reformador não gasta muito tempo com este, dedicando apenas um parágrafo rápido.

“Sem a mínima dúvida se restringe só aos ministros. Entretanto, chamam-se cooperadores não porque por si sós proporcionem alguma coisa; ao contrário, porque Deus se serve de sua obra, depois de os qualificar e os prover dos dotes necessários.” (idem)

Uma rápida explicação [ 2.5.15 ]

Abrindo espaço em meio às objeções, Calvino explica novamente a natureza da regeneração. Como já foi dito, é nossa vontade que está agindo, mas ao mesmo tempo é algo totalmente transformado pelo Espírito. Em uma frase que pode significar um paradoxo para alguns, o reformador explica que ao mesmo tempo a vontade do pecador é reparada, mas também recriada.

“A vontade não é destruída pela graça; ao contrario, é antes reparada, pois que ambos esses conceitos se harmonizam esplendidamente, de modo que se pode dizer que a vontade do homem é restaurada, enquanto, corrigida a viciosidade e depravação, é ela dirigida à verdadeira norma da justiça, e ao mesmo tempo se pode dizer que é criada no homem uma vontade nova, porquanto está viciada e corrompida a tal ponto que ele tem por necessário induzir-lhe no íntimo uma nova natureza.” (2.5.15, p.100)

Isso não quer dizer que tenhamos alguma participação na salvação sem a obra do Espírito Santo em nós. Toda ação vem de Deus, ainda que sejamos nós agindo. Como diz o Senhor, “sem mim nada podeis fazer” (Jo 15.5). Para o reformador, ainda que os atos sejam nossos, devemos dar glória a Deus, pois por sua benignidade é que eles são nossos, ainda que originados nele.

“Uma vez que, entretanto, o querer nos é naturalmente ingênito, nos é dito não sem causa que efetuamos essas coisas cujo louvor, de direito, Deus para si reivindica, em primeiro lugar, porque nosso é, por sua benignidade, tudo quanto ele opera em nós, uma vez que compreendamos que não procedem de nós; em segundo lugar, visto que nossa é a mente, nossa a vontade, nosso o esforço, estes são por ele dirigidos para o bem.” (idem)

Depois dessa rápida explicação, o reformador voltará a se concentrar nas objeções contra sua doutrina, escolhendo alguns versos utilizados pelos precursores do arminianismo. Que Deus nos dê sabedoria e iluminação para continuarmos nesses estudos, sem nos desviarmos da sã doutrina.

Outras objeções II [ 2.5.14 ]

A questão que se levanta agora diz respeito aos atos que a Bíblia chama de nossos. Ora, se a Escritura associa a nós o louvor e as boas obras, por exemplo, como podemos dizer que eles não vêm de nós, mas de Deus. Por acaso seria o homem como uma simples pedra, lançada de um lado para o outro? Calvino não entende assim.

“Se porventura se alegasse este ponto único, a saber: que se dizem nossas as boas obras, eu, por minha vez, objetaria que se diz nosso o pão que rogamos que Deus nos dê [Mt 6.11]. Que haverão de entender do pronome possessivo, senão que, de modo algum, o que se nos deve de outra maneira, nosso se faz pela benignidade de Deus e por seu gratuito favor?” (2.5.14, p.98)

Uma variação dessa objeção diz que a própria Escritura ensina que de nós mesmos vem a adoração a Deus, a perseverança, a justiça, entre outros. Calvino considera esse questionamento mais forte, mas nos mostra que sua doutrina não é afetada por ele. Seu argumento começa falando dos ímpios. Se Deus usa a ação dos injustos para seus propósitos, isso significa que não têm eles a vontade para isso?

“Portanto, o homem criminoso que, enquanto diligencia por obedecer apenas à sua concupiscência, assim serve ao poder de Deus, porventura o compararemos com uma pedra que, acionada por impulso alheio, não é impelida nem por motilidade, nem por sensibilidade, nem por vontade própria? Vemos, pois, a grande diferença que existe!” (2.5.14, p.99)

Da mesma forma acontece conosco, quando realizamos um ato bom. Deus usa nossas escolhas, ainda que esteja ele agindo para que elas obedeçam a seus mandamentos. O mérito é todo do Senhor, ainda que a ação seja nossa. Novamente, o reformador usa o auxílio de Agostinho:

“Dir-me-ás: Portanto, não agimos, sofremos ação. Pelo contrário, ages e sofres ação, e então ages bem, se do bom estás a sofrer a ação. O Espírito de Deus que age sobre ti é ajudador dos que agem. O designativo ajudador prescreve que também tu ajas em certa medida.” (idem)

Calvino alerta que isso não significa que existe algum mérito que possa ser atribuído a nós nessa situação. Pelo contrário, continuamos sendo instrumentos de Deus, e devemos nos alegrar por sermos usados por ele, para seus bons propósitos, e ainda sermos considerados os feitores de tais atos.

“O querer nos é da natureza, o querer bem, no entanto, nos é da graça. Por isso, [Agostinho] dissera pouco antes: ‘A não ser que Deus nos venha em auxílio, não só não poderemos vencer, mas nem mesmo lutar’.” (idem)

Outras objeções I [ 2.5.12-13 ]

“Porque este mandamento, que hoje te ordeno, não te é encoberto, e tampouco está longe de ti. Não está nos céus, para dizeres: Quem subirá por nós aos céus, que no-lo traga, e no-lo faça ouvir, para que o cumpramos?” (Dt 30.11,12)

O reformador continua a responder seus adversários, admitindo que esse verso de Deuteronômio poderia colocá-lo “em grande apuro para responder” (2.5.12, p.96). Porém, ao seguir a premissa de que “a Escritura interpreta a Escritura”, Calvino entende que Moisés não estaria aqui falando simplesmente dos preceitos da Lei, mas também do Evangelho, como Paulo afirma em Romanos 10.8. De qualquer maneira, em versos anteriores o Senhor cita sua ação sobre os israelitas para que esse mandamento fosse cumprido.

“Logo, nada é mais certo do que Moisés haver compreendido com estas palavras o pacto de misericórdia que havia promulgado juntamente com a exação da lei. Ora, havia também ensinado, poucos versos antes, a saber, que nos é indispensável que o coração seja circuncidado pela mão de Deus, para que o amemos [Dt 30.6]. Conseqüentemente, esta capacidade de que fala logo em seguida não a colocou no poder do homem, mas na assistência e proteção do Espírito Santo, que em nossa fraqueza leva a bom termo sua obra, poderosamente, embora não se deva entender esta passagem simplesmente acerca dos preceitos.” (idem)

A próxima objeção diz respeito a um verso de Oséias: “Irei e voltarei ao meu lugar, até que se reconheçam culpados e busquem a minha face; estando eles angustiados, de madrugada me buscarão” (5.15). Sobre isto, Calvino nos lembra que o distanciamento que Deus avisa significa supressão da profecia, não ausência de graça.

“Mas, o afastamento do Senhor para longe denota a supressão da profecia. Ficar observando o que porventura os homens hão de fazer significa acossá-los por algum tempo com aflições várias, silencioso e como que às escondidas. A ambos faz o Senhor para que nos torne mais humildes, pois, a não ser que, por seu Espírito, nos predispusesse a essa suscetibilidade em aprender, seríamos mais depressa chagados do que corrigidos pelos azorragues das coisas adversas.” (2.5.13, p.97)