O quinto mandamento [ 2.8.35-36 ]

Honra a teu pai e a tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o SENHOR teu Deus te dá. (Êxodo 20.12)

Sobre o quinto mandamento, Calvino dá uma interpretação surpreendente para aqueles que não estão familiarizados com sua teologia. Como ele deixou claro, normalmente o mandamento enfatiza a ação mais grave dentro dos princípios que ele quer ensinar. Assim, a desobediência aos pais é o que há de mais grave no que ele considera a idéia desta ordem: honrar aqueles que receberão alguma posição de autoridade sobre nós.

“A finalidade deste mandamento é: uma vez que ao Senhor Deus apraz a manutenção do que dispôs, importa que nos sejam invioláveis os graus de eminência por ele ordenados. A síntese, portanto, será: que usemos de deferência para com aqueles que o Senhor nos fez superiores e os tenhamos em honra, em obediência e em grato reconhecimento. Donde se segue a proibição: que não denigremos nada de sua dignidade, quer por desdém, quer por contumácia, ou por ingratidão.” (2.8.35, p.159)

Calvino entende que a prática desse mandamento nos ensina a submissão. Devemos estimar as pessoas que estão em posição superiores a nós, pois receberam esta honra da parte de Deus. Ele nota que muitos dos títulos do Criador são compartilhados com seres humanos (por exemplo, pai, rei, senhor). Isto não é sem propósito.

“Portanto, aqueles a quem faz participantes desses títulos ilumina-os como que com uma centelha de seu fulgor, de sorte que sejam, cada um, dignos de honra em conformidade com sua posição de eminência. Desse modo, aquele que nos é pai, é próprio reconhecer nele algo divinal, porquanto não sem causa é portador do título divino. De igual modo, aquele que é um príncipe, ou aquele que é um senhor, tem com Deus alguma comunhão de honra.” (idem)

Esta honra deve ser dada, não importa se tais superiores sejam dignos dela ou não. O importante é sabermos que foi Deus que os colocou, por sua providência, nessa posição. Em especial nessa situação, temos os pais. E Calvino não mede palavras quando fala de filhos rebeldes.

“Contudo, preceituou expressamente acerca da reverência de nossos pais, que nos trouxeram a esta vida, com o que nos deve ensinar, de certa maneira, a própria natureza. Pois são monstros, não seres humanos, os que infringirem o poder paterno por desrespeito ou insubordinação!” (2.8.36, p.160)

A fim de entendermos melhor como deveria ser o tratamento que os filhos devem dar aos pais, o teólogo de Genebra lista três manifestações dessa honra que o Senhor exige que prestemos a eles.

“A primeira dessas, a reverência, o Senhor a sanciona quando preceitua que seja entregue à morte aquele que maldisser ao pai ou à mãe [Ex 21.17; Lv 20.9; Pv 20.20], uma vez que aí castiga o menosprezo e a insolência. A segunda, a obediência, sanciona-a quando decreta a pena de morte contra os filhos contumazes e rebeldes [Dt 21.18-21]. Diz respeito à terceira a gratidão ou reconhecimento, o que Cristo diz: que é do mandamento de Deus que façamos o bem a nossos pais [Mt 15.4-6]. E quantas vezes Paulo faz menção deste mandamento, entende que nele se requerer obediência [Ef 6.1-3; Cl 3.20].” (idem, grifo meu)

Este mandamento é um dos mais difíceis de ser aplicados quando tratamos da honra aos governantes. Não sabemos quais os propósitos de Deus para levantar este ou aquele, mas precisamos tomar cuidado com nossas atitudes quando tratarmos de certos cargos. Àqueles que convivem com seus pais, as palavras de Calvino são uma grave advertência e ele chega a lembrar da condenação à morte aos que se rebelevam contra seus familiares. Assim, tomemos cuidado com tais atitudes.

O domingo para o cristão [ 2.8.33-34 ]

Alguns perturbadores acusavam os cristãos de retornarem a ritos judaicos, por conta do Dia do Senhor. Calvino responde essa questão lembrando novamente que a igreja não se reune em um dia fixo por conta de algum tipo de ritualismo, mas por ser necessária certa data fixa para essas celebrações. Paulo, por exemplo, não era contrário a este dia, mas ao uso judaico.

“Não o celebramos como uma cerimônia revestida com a mais estrita religiosidade, pela qual pensamos representar-se um mistério espiritual. Pelo contrário, tomamo-lo como um remédio necessário para reter-se ordem na Igreja… Visto que para suprimir-se a superstição se impunha isto, foi abolido o dia sagrado observado pelos judeus; e como era necessário para se conservarem o decoro, a ordem e a paz na Igreja, designou-se outro dia, o domingo para este fim.” (2.8.33, p.157s)

O reformador lembra que o domingo foi escolhido por ser o dia da ressurreição do Senhor, demonstrando que a realidade, da qual o sábado era apenas sombra, agora foi desvendada para os fiéis. Assim, da mesma maneira que fez com o sábado para os judeus, Calvino divide o sentido do mandamento, agora para os cristãos, em três partes.

“Em primeiro lugar, nos é outorgada sem sombras, para que por toda a vida observemos um perpétuo sabatismo de nossos labores, a fim de que o Senhor em nós opere por seu Espírito; em segundo lugar, para que cada um, individualmente, sempre que disponha de lazer, se exercite diligentemente na piedosa reflexão das obras de Deus. Então, ainda, para que todos a um tempo observemos a legítima ordem da Igreja, constituída para ouvir-se a Palavra, para a administração dos sacramentos, para as orações públicas. Em terceiro lugar, para que não oprimamos desumanamente os que nos estão sujeitos.” (2.8.34, p.158, grifos meus)

Calvino também critica aqueles que entendem que o mandamento, embora não tenha suas características cerimonais, ainda tem força moral, obrigando todos os cristãos a guardarem um dia da semana de maneira semelhante ao judaísmo¹.

“Asseverando que nada mais foi cancelado senão o que era cerimonial neste mandamento, com isto entendem em seu linguajar a fixação do dia sétimo, mas remanescer o que é moral, isto é, a observância de um dia na semana. Com efeito, isto outra coisa não é senão mudar o dia por despeito aos judeus e reter em mente a mesma santidade do dia, uma vez que ainda nos permanece nos dias sentido de mistério igual ao que tinha lugar entre os judeus.” (2.8.34, p.158)

Essa seção sobre o quarto mandamento se encerra com uma exortação. Não é saudável faltarmos as reuniões da igreja se desejamos manter nossa caminhada cristã sempre viva e crescente. O crente que despreza o encontro com a comunidade dos santos corre grande perigo.

“Importa manter-se, principalmente, o ensino geral: para que a religião não pereça ou enlanguesça entre nós, devem ser realizadas diligentemente as reuniões sagradas e deve dar-se atenção aos meios externos que servem para fomentar o culto divino.” (2.8.34, p.159)

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¹ Nota do editor: Alguém pode explicar melhor esta opinião de Calvino? Ele entende que não é pecado não dedicar o domingo totalmente a Deus, de maneira diferente do que pensam muitos reformados, por exemplo? Para ele o quarto mandamento vale apenas como princípio geral? Agradeço a cooperação de quem conhece mais sobre o reformador que este iniciante que vos escreve.

O sábado para o cristão [ 2.8.31-32]

Calvino entende também que Jesus, trazendo a revelação definitiva de Deus, torna-se o cumprimento do sábado. Com sua vinda, a observância cerimonial foi terminada, e os cristãos precisam entender que todos os dias de nossa vida devem ser dias dedicados ao Senhor.

“Por isso, escreve o Apóstolo em outro lugar que o sábado tem sido uma sombra da realidade futura, e que o corpo, isto é, a sólida substância da verdade, que bem explicou naquela passagem, está em Cristo [Cl 2.17]. Esta não consiste em apenas um dia, mas em todo o curso de nossa vida, até que, inteiramente mortos para nós mesmos, nos enchamos da vida de Deus. Portanto, que esteja longe dos cristãos a observância supersticiosa de dias.” (2.8.31, p.156)

Isto não quer dizer, certamente, que não há lugar para os princípios propostos pelo sétimo dia. Pelo contrário, é necessário que as reuniões das igrejas sejam feitas frequentemente. E claramente vemos na Bíblia a igreja se reunindo em grupo, para celebrarem a novidade de vida trazida pelo Senhor. Além disso, a função trabalhista do sábado ainda nos é útil.

“Ainda que o sábado esteja cancelado, entre nós, não obstante, ainda tem lugar isto: primeiro, que nos congreguemos em dias determinados para ouvir a Palavra, para partir o pão místico, para as orações públicas; segundo, para que se dê aos servos e aos operários relaxação de seu labor.” (2.8.32, p.156)

Calvino entende que temos muito proveito em observar essa datas. Usando o mandamento de Paulo (1 Co 14.40) para que tudo seja feito em ordem, o reformador apresenta um motivo para termos um dia fixo de reuniões – uma questão de organização também, algo que ele desenvolverá mais nas próximas seções. Finalizando, ele responde uma questão interessante: por que não se reunir diariamente? O teólogo mostra-se favorável a isso, mas sabe que nem todos têm maturidade para tanto.

“Por que, dirás, não nos congregamos antes diariamente, de sorte que, dessa forma, se ponha termo à distinção de dias? Prouvera que, de fato, isto se nos concedesse! E, por certo, a sabedoria espiritual era digna de que se lhe reservasse diariamente alguma porçãozinha do tempo. Mas, se pela fraqueza de muitos não se pode conseguir que se realizem reuniões diárias, e a norma da caridade não permite deles exigir mais, por que não obedeçamos à norma que nos foi imposta pela vontade de Deus?” (2.8.32, p.157)

É necessário que o crente tenha consciência dessas palavras de Calvino – primeiro, que toda sua vida consiste de um culto a Deus e que é importante dedicar uma parte de seu tempo diariamente à meditação e adoração ao Senhor; segundo, que é necessário que a igreja se reuna ao menos uma vez cada semana, e que ele tome parte dessas celebrações. Muito do que vemos de fraqueza espiritual hoje é fruto do desrespeito para com o culto público. Fujamos dessa armadilha!

O quarto mandamento [ 2.8.28-30 ]

Lembra-te do dia do sábado, para o santificar. Seis dias trabalharás, e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o sábado do SENHOR teu Deus; não farás nenhuma obra. (Êxodo 20.8-10a)

O quarto mandamento guarda características diferentes, por sua natureza também cerimonial, o que leva Calvino a dedicar algumas páginas a mais à ordenança do sábado. O reformador entende que há aqui uma ordenança prefigurativa, com muitos aspectos abolidos com a vinda de Jesus. Ele apresenta três funções principais neste mandamento.

Primeira, pois o celeste Legislador quis que sob o descanso do dia sétimo prefigurasse ao povo de Israel um repouso espiritual, pelo qual devem os fiéis descansar de suas próprias atividades para que deixem Deus neles operar. Segunda, quis ele que um dia fosse estabelecido no qual se reunissem para ouvir a lei e realizar os atos de culto, ou, pelo menos, o qual consagrassem particularmente à meditação de suas obras, de sorte que, por esta rememoração, fossem exercitados à piedade. Terceira, ordenou um dia de repouso no qual se concedesse aos servos e aos que vivem sob o domínio de outros para que tivessem alguma relaxação de seu labor.” (2.8.28, p.54, grifos meu)

Sobre o primeiro sentido, Calvino chama a atenção para o fato do sábado ser um mandamento enfatizado rigidamente por Deus. Parece haver um sentido de dignidade maior nele que em outros mandamentos, especialmente por conta de seu sentido tipológico. Em certo sentido, ele é a manifestação da licenciosidade do antigo Israel.

“Com efeito, de quase nenhum mandamento mais severamente o Senhor exige obediência. Quando, nos profetas, quer dar a entender que toda a religião está subvertida, queixa-se Deus de que seus sábados foram profanados, violados, não observados, não santificados, como se, posta de lado esta deferência, nada mais restasse em que pudesse ser honrado [Is 56.2; Jr 17.21-23, 27; Ez 20.12, 13; 22.8; 23.38].” (2.8.29, p.154)

Calvino nota que o sábado é um símbolo do senhorio de Deus sobre nossas vidas, quando abrimos mão de nossa vontade por amor ao Senhor. Repousamos de nossas preocupações e desejos para ganhar algo muito maior.

“Se nossa santificação se patenteia na mortificação da própria vontade, então mui adequada correspondência se oferece do sinal externo com a própria realidade interior. Importa que nos desativemos totalmente, para que Deus opere em nós, abrindo mão de nossa vontade, resignando o coração, de seus apetites abdicando toda a carne. Enfim, impõe-se abster-nos de todas as atividades de nosso próprio entendimento, para que, tendo a Deus operando em nós [Hb 13.21], nele descansemos, como também o ensina o Apóstolo [Hb 4.19].” (2.8.29, p.155)

Além disso, o reformador também chama atenção para o sentido do sábado que aponta para o descanso eterno dos filhos de Deus. Era necessário guardar sábado pós sábado, a fim de relembrar o Dia em que viveremos eternamente dedicados a Deus.

“O Senhor assim indicou que o sábado nunca haverá de ser absoluto até que tenha chegado o último dia… Portanto, pode parecer que, mediante o sétimo dia, o Senhor tenha delineado a seu povo a perfeição futura de seu sábado no Último Dia, a fim de que, pela incessante meditação do sábado, a esta perfeição aspirasse por toda a vida.” (2.8.30, p.155)

O juramento correto [ 2.8.27 ]

Encerrando o assunto do juramento, Calvino apresenta algumas características do que seria a atitude ideal. Ele lembra que o próprio Senhor fez uso desse procedimento, assim como os discípulos, em especial, Paulo.

“Quem ousaria dizer que Paulo haveria de ter jurado, se o juramento fora inteiramente proibido? Com efeito, onde a situação assim exigiu, jura sem qualquer escrúpulo, adicionada até mesmo, às vezes, uma imprecação [Rm 1.9; 2Co 1.23].” (2.8.27, p.152)

Em seguida, o teólogo francês debate se os juramentos adequados são apenas públicos ou podem ser feito de maneira particular. Ele entende que, embora juramentos públicos sejam mais recomendáveis, é possível dependendo da questão que se jure de maneira privada. Ele cita vários exemplos, como Abrãao e Isaque com Abimeleque, e Boaz com Rute. Uma citação interessante é o caso de clamarao Senhor como Juíz, algo que Calvino considera uma situação ainda mais perigosa.

“Ora, se aos indivíduos é lícito entre si invocar a Deus como Juiz [1Sm 24.12] em coisa grave e séria, muito mais o será como testemunha… Se pesados são os termos, invocar por testemunha é menos que invocar como juiz. Não vejo, portanto, por que aqui chamaríamos de ilícita a invocação de Deus por testemunha.” (2.8.27, p.153)

Por fim, o reformador entende que não teremos leis que cubram todos os casos e situações sobre o assunto. Ele apresenta como princípio a respeito disso que tenhamos em mente que é ao Senhor que adoramos, e que reverentemente usemos esse instrumento.

“Conseqüentemente, não tenho nenhuma regra melhor, senão que assim moderemos nossos juramentos, para que não sejam temerários, nem indiscriminados, nem caprichosos, nem frívolos, mas, ao contrário, sirvam a justa necessidade, onde de fato, ou tenha de vindicar-se a glória do Senhor, ou promover a edificação de um irmão. Pois, para este fim unicamente nos foi dado o mandamento.” (idem)

O juramento proibido [ 2.8.26 ]

Uma idéia comum na época de Calvino, e mais comum hoje em dia, é que Cristo proibe todo e qualquer tipo de juramento em Mateus 5.34-37. Calvino entende que, seguindo o padrão do ensino de Jesus no Sermão do Monte, não temos uma revogação de aspectos da Lei, mas a tentativa de colocá-la novamente em prática da maneira prescrita na Bíblia.

“Ele não teve o propósito de ou relaxar ou restringir a lei, mas de reconduzi-la ao verdadeiro e genuíno significado, que tinha sido assaz corrompido pelas falsas invenções dos escribas e fariseus… Portanto, o Senhor, o mais seguro intérprete da lei, adverte que é mau não apenas jurar falsamente, mas até mesmo o simples jurar. Jurar como? Certamente, jurar em vão. Mas, os juramentos que se recomendam na lei ele os deixa intactos e desimpedidos.” (2.8.26, p.151)

Calvino chama atenção para a cláusula “de modo algum” [Mt 5.34], mas entende que não haja uma proibição geral do juramento, mas dos juramentos que os versos anteriores explicam – tentativas de não dizer o nome de Deus, mas que acabavam invocando o Senhor como testemunha.

“Não obstante, a seus próprios olhos têm razão, fazendo finca pé naquele ‘de modo algum’, que entretanto não se refere ao termo ‘jurar’, mas às formas de juramentos anexas em seguida. Ora, também esta era uma parcela de seu erro: pensar que não tocavam no nome de Deus enquanto juravam pelo céu e pela terra… Embora não se profira o nome de Deus, contudo os homens juram por ele por meios indiretos, como quando juram pela luz vital, pelo pão com que se alimentam, pelo seu batismo, ou por quaisquer outros penhores da divina munificência para com eles.” (idem)

Assim, o reformador entende que Cristo está apenas criticando esse tipo de sutileza dos judeus, que tentavam se livrar de alguma possibilidade de castigo por perjúrios, invocando autoridades que não eram o Senhor. Em seu entendimento, não haveria necessidade de Cristo explicar pelo que ou por quem não podemos jurar se todo e qualquer juramento fosse proibido.

“Ora, se aplicas à substância a expressão ‘de modo algum’, como se de fato, sem nenhuma exceção, fosse ilícito todo e qualquer juramento, a que propósito serviria a explicação que se adiciona logo em seguida: ‘Nem pelo céu, nem pela terra’ etc., palavras mediante as quais se patenteia sobejamente lançar-se mão de subterfúgios do quê pensavam os judeus atenuar-se-lhes o erro?” (2.8.26, p.152)