Falando sobre a Encarnação [ 2.12.3-4 ]
O reformador continua em sua explicação da necessidade de que o Filho tomasse a forma de homem. Era necessário que Deus se tornasse homem para a salvação, e não existia finalidade principal além dessas. Assim como um homem levou toda humanidade a perecer, não encontraríamos a salvação sem que alguém nos levasse a isso, pagando a dívida que era nossa e recebendo as penalidades que merecíamos.
“Deve-se sustentar principalmente aquilo que expus há pouco: que a natureza comum que temos com ele é o penhor de nossa união com o Filho de Deus, e que, vestido de nossa carne, destruiu ele a morte com o pecado, para que a vitória e o triunfo fossem nossos; ofereceu ele em sacrifício a carne que recebeu de nós, para que, feita a expiação, apagasse nossa culpa e aplacasse justa ira do Pai.” (2.12.3, p.222)
Embora esteja enfatizando a encarnação, Calvino novamente lembra que as duas naturezas, tanto divina quanto humana, são necessárias para entendermos nossa salvação. Se não houvesse essa bendita união, o plano de Deus não se mostraria tão perfeito. Como Deus, o redentor não poderia sofrer a morte necessária, mas como homem não poderia derrotá-la:
“Uma vez que, afinal, nem podia, como somente Deus, sentir a morte, nem como somente homem podia superá-la, associou a natureza humana com a divina, para que sujeitasse à morte a fraqueza de uma, no afã de expiar pecados; e, sustentando luta com a morte pelo poder da outra, nos adquirisse a vitória. Logo, aqueles que despojam a Cristo ou de sua divindade, ou de sua humanidade, na realidade lhe diminuem tanto a majestade quanto a glória, obscurecem igualmente sua bondade. Mas, por outro lado, não menos detrimento causam aos homens, cuja fé assim abalam e subvertem, a qual não pode permanecer firme a não ser neste fundamento.” (idem)
Após apresentar a doutrina, o reformador agora rebate certas especulações levantadas a respeito desse assunto. O que ele chama de “curiosidade demasiado estulta” é a ideia de que haveria a encarnação de Cristo mesmo se não fosse necessária a salvação da humanidade. Já vimos o reformador se indignar contra esse tipo de jogo teológico. Isto ele combate com a própria Palavra:
“Quando, porém, a Escritura inteira proclama haver-se ele revestido de carne a fim de que viesse a ser o Redentor, não passa de tremenda temeridade imaginar-se outra causa ou outro propósito… de fato, a não ser que ele tivesse vindo para reconciliar a Deus, posta por terra lhe estaria a honra do sacerdócio, visto que o sacerdote se interpõe por mediador entre Deus e os homens para fazer intercessão [Hb 5.1]. Não seria ele nossa justiça, pois foi feito vítima por nós para que Deus não nos impute os pecados [2Co 5.19]. Finalmente, despojado será ele de todos os louvores com que o adorna a Escritura.” (2.12.3-4, p.223s)
Nessa seção, Calvino nos apresenta de forma irrefutável como a Palavra proclama a salvação como missão do Salvador (ele cita: Hb 9.11,12,22; Is 53.4,5; Jo 3.16, 5.25, 10.15,17,18, 11.25; Mt 18.11, 9.12; Lc 1.79, 24.46,47; Rm 8.3; Tt 3.4, entre outros) . Mais que ser um mero exemplo de vida, um curandeiro, uma figura política, um filósofo galileu, Jesus deixou claro que veio à Terra para morrer por nossos pecados, unir-nos como seu povo e inaugurar seu Reino. E assim seus discípulos entenderam. Excluir a morte expiatória dos propósitos de Cristo é minimizar a Encarnação.
Fala, João Calvino! rsrs
Muito bom seu novo site (antigo blog).
Bom saber que existe um espaço para admirarmos e aprendermos mais sobre Calvino.
Já está em meus favoritos no blog.
Um abraço!
Josaías, te achei muito perpicaz, que o senhor te abençoe.