A esperança dos fiéis [ 2.10.13-16 ]

O reformador prossegue em sua análise da esperança dos justos do Antigo Testamento. Estariam eles esperando algo além de bênçãos materiais? A resposta de Calvino, analisando agora as vidas de Jacó, Balaão e Davi, é: sim. O mesmo vale para o povo de Israel, que eram peregrinos mesmo chegando à Canaã.

“Pois, se são peregrinos e forasteiros na terra de Canaã, onde está a promessa do Senhor pela qual lhe foram constituídos herdeiros? Portanto, está ele obviamente a indicar que olha mais longe, a saber, para a posse que o Senhor lhes havia prometido. Pelo que, ‘não adquiriram sequer o espaço de um pé’ [At 7.5] na terra de Canaã, a não ser para sepultura, através do quê atestavam esperar receber o fruto da promessa somente após a morte.” (2.10.13, p.197)

“Davi mais tarde proclamou: ‘Preciosa é a morte dos santos à vista do Senhor [Sl 116.15]; péssima, porém, é a morte dos ímpios’ [Sl 34.21]? Se o termo definitivo dos homens fosse a morte, certamente não haveria lugar para indicar diferença alguma entre a do justo e a do ímpio.” (2.10.14, p.197s)

Os profetas fazem coro a Davi, citando em diversas ocasiões a idéia de uma vida futura eterna. Para Calvino, não é possível que se pense que temos já a herança conquistada por Cristo aqui na terra, uma vez que várias vezes os santos vivem em situações de sofrimento.

“A verdade é que o Senhor às vezes deixa seus servos ao bel-prazer dos ímpios, não só para que sejam por eles oprimidos, mas até estraçalhados e destruídos, permite que os bons definhem em trevas e em imundície, enquanto que os ímpios quase refulgem em meio às estrelas. Não os alegra a tal ponto com a serenidade de seu semblante que desfrutem diariamente de deleite.” (2.10.16, p.199)

Assim, não devemos esperar uma vida de prosperidade aqui nesta vida, ainda que Deus nos proporcione muitas bênçãos. Precisamos, pelo contrário, ter a certeza de que o Senhor nos dará a vida eterna, reservada para o fim dos tempos.

“Contudo, esta esperança não pode, de modo algum, subsistir, a menos que descanse na promessa que lemos em Isaías [51.6]: ‘Os céus, diz o Senhor, dissipar-se-ão como fumaça, a terra gastar-se-á como uma vestimenta, e seus habitantes se desvanecerão como estas mesmas coisas; minha salvação, porém, será para sempre, e minha justiça não desvanecerá’ – passagem na qual a perpetuidade da justiça e da salvação é atribuída não até onde residem em Deus, mas até onde são experimentadas pelos homens.” (2.10.15, p.198s)

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A dura vida dos fiéis [ 2.10.10-12 ]

A análise de Calvino das vidas dos personagems do Antigo Testamento mereceria um post para cada um deles. Como, porém, temos as próprias Institutas, seria mais proveitoso cada irmão ler esses trechos que eu apenas reproduzir aqui. O reformador faz esse resumo das vidas de Adão, Noé, Abraão, Isaque e Jacó, e outros, para demonstrar que dificilmente podemos considerar as bênçãos que receberam nessa vida como a bem-aventurança prometida por Deus.

“Se porventura os próprios fiéis também foram ou não assim instruídos pelo Senhor para que sentissem haver para eles, em outra parte, uma vida melhor, e, relegada a um plano inferior a existência terrena, tivessem em consideração essa outra. Em primeiro lugar, a condição do viver que lhes fora divinamente imposta era um exercício contínuo em virtude do qual fossem lembrados de que eram de todos os mais miseráveis, caso fossem felizes apenas nesta vida.” (2.10.10, p.193)

Essas seções são um remédio para irmãos impressionados com a teologia da prosperidade, uma vez que geralmente personagens como Noé e Jacó são usados como exemplo de vidas cheias de riqueza. É evidente que eles receberam inúmeras bênçãos, mas também passaram por grandes provações, demonstrando que só têm verdadeira herança nos céus.

Num belíssimo capítulo, Calvino mostra como a vida de Abraão trouxe diversas dores: vagar por terra estranha; prostituir a esposa, algo “mais amargo que muitas mortes” (2.10.11, p.194); separar-se de Ló, dor “como se lhe amputasse um de seus próprios membros” (idem) e outras provações, como a ordem de sacrificar o próprio filho.

“Abraão foi a tal ponto acossado e atribulado em todo o decurso da vida, que, se alguém porventura queira pintar numa tela o exemplo de uma vida calamitosa, certamente não achará nada mais apropriado. Nem objete alguém que ele não foi totalmente desafortunado, uma vez que, afinal, emergira venturosamente de tantas e tão grandes tempestades. Pois não diremos que leva uma vida ditosa aquele que moureje laboriosamente por infinitas dificuldades ao longo do tempo, mas aquele que desfrute tranqüilamente dos bens presentes, sem a sensação dos males.” (2.10.11, p.195)

Da mesma maneira que Abraão, Calvino mostra as dificuldades de Adão pós-Queda, de Noé vivendo “quase atolado nos estrumes de animais” (2.10.10. p.193), Isaque e Jacó. O reformador lembra que o próprio neto de Abraão chama seus dias de maus e breves (Gn 47.9), demonstrando que a esperança dele estava na vida eterna.

“Quem declara haver atravessado a vida por entre contínuas adversidades, nega, evidentemente, haver usufruído essa prosperidade que lhe havia sido prometida pelo Senhor. Logo, ou Jacó era um mau e ingrato apreciador do favor de Deus, ou, com verdade, confessava publicamente haver sido desventurado sobre a terra. Se esta afirmação foi verdadeira, segue-se que ele não teve sua esperança fixa nas coisas terrenas.” (2.10.12, p.196)

Que esse estudo nos ajude a ter uma mentalidade semelhante, retirando nossa esperança final das coisas terrenas e colocando-a no Senhor.

Deus de vivos [ 2.10.7-9 ]

A questão das bênçãos dadas aos personagens do Antigo Testamento continua sendo tratada por Calvino. Eles receberam uma herança espiritual ou meramente tesouros terrenos? Uma análise de diversos personagens mostrará que os nossos pais tiveram acesso à mesma vida eterna que teremos.

“As almas dos piedosos são não só iluminadas para o conhecimento de Deus, como também são, de certo modo, a ele ligadas. Uma vez que, mediante esta modalidade de iluminação da Palavra, se apegaram a Deus Adão, Abel, Noé, Abraão e os demais patriarcas, digo que não há nenhuma dúvida de que tiveram ingresso no reino imortal de Deus. Pois essa era uma firme participação de Deus, que não pode subsistir fora da bênção da vida eterna.” (2.10.7, p.191)

O reformador cita diversos textos do Antigo Testametno, como Habacuque 1.12 e Isaías 33.22, confirmando sua doutrina. Seu argumento é bastante simples – é impossível que Deus graciosamente resolva relacionar-se com alguém sem que também lhe presenteie com a vida eterna.

“A que homem ele haverá de manifestar-se por Deus a quem não abra também os tesouros da salvação?… Não se pode obter essa sua presença, a qual, ao mesmo tempo, não se possua a vida… Pois, não só aos corpos apenas enunciava ele haver-lhes de ser Deus, mas, sobretudo, às almas. Mas as almas, salvo se unidas a Deus pela justiça, dele alienadas, permanecem na morte. Por outro lado, faça-se presente esta união: levará consigo perpétua salvação.” (2.10.8, p.192)

A Bíblia também trata muitas vezes os fiéis como se mantivessem um relacionamento com Deus após sua morte, como se a existência não acabasse com o fim da vida. Várias promessas serão cumpridas quando o objeto do que foi prometido já estiver morto. Por exemplo, a bênção de uma longa e bem-aventurada posteridade. Deus não é Deus de mortos, mas de vivos.

“Com efeito, a veracidade desta promessa então a selou o Senhor, e como que lhe exibiu o cumprimento, quando, muito depois da morte destes, o denominavam o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó [Ex 3.6]. E então? Não era, porventura, ridícula essa designação, se haviam perecido? Ora, teria sido exatamente como se assim houvesse falado: ‘Eu sou Deus daqueles que não existem.’… Donde era de se concluir que, na verdade, não se extinguem na morte aqueles a quem receberam sob sua tutela, guarda e proteção é Aquele que é o árbitro da morte e da vida.” (2.10.9, p.192s)

A unidade dos testamentos [ 2.10.4-6 ]

Calvino continua sua exposição da similaridade entre os dois Testamentos, lembrando que a fé em Cristo, o Mediador, é comum ao povo antigo e à igreja. Temos o exemplos diversos na Bíblia, e o reformador destaca alguns:

“E, para que não disputemos por demorado tempo acerca de coisa óbvia, temos a notável afirmação do Senhor: ‘Abraão exultou porque haveria de ver meu dia; viu-o e se regozijou’ [Jo 8.56]… Tanto a bendita Virgem, quanto Zacarias, em seus cânticos [Lc 1.54, 55, 72, 73], dizem que a salvação revelada em Cristo foi o cumprimento das promessas que o Senhor fizera outrora a Abraão e aos patriarcas. Se, em manifestando a seu Cristo, o Senhor saldou o compromisso de seu antigo juramento, não se pode dizer que seu objetivo não esteve sempre em Cristo e na vida eterna” (2.10.4, p.189)

Não apenas o Mediador da Aliança, mas as consequências que envolvem esse contrato com Deus são semelhantes para Israel e os cristãos. Paulo liga claramente os símbolos do batismo e da ceia com as situações dos israelitas no deserto, como vemos em 1 Coríntios 10. Ali, o apóstolo mostra que o mesmo Deus que castigou os israelitas é aquele pode castigar a Igreja. Consequentemente, tanto os judeu quanto os crentes de hoje recebem de Cristo alimento e herança espiritual.

“Não só os cercou o Senhor dos mesmos benefícios, mas também manifestou sua insigne graça entre eles pela instrumentalidade dos mesmos símbolos. Como se [Paulo] estivesse a dizer: Se confiais que estais fora de perigo só porque não apenas o Batismo com que fostes selados, mas também a Ceia de que participais diariamente, têm excelentes promessas, enquanto isso, desprezada a bondade de Deus, vos entregais desenfreadamente à dissolução, sabei que os judeus nem mesmo precisaram de tais símbolos, contra quem, no entanto, a despeito disso, o Senhor executou mui severamente seus juízos.” (2.10.5, p.189)

Algumas objeções podem ser feitas, como a comparação que Jesus faz entre si mesmo e o maná no deserto. Diz Cristo que aquele pão não lhes deu a vida eterna, algo que sua carne nos providencia (João 6). A resposta está no contexto da cena, onde o Senhor está confrontando pessoas que tentam colocá-lo contra Moisés. Jesus ensina que ele, como Pão vivo, é alimento eterno.

“Porquanto sabia que o Senhor, quando fazia chover do céu o maná, não havia derramado apenas o alimento do ventre, mas também o havia dispensado como um mistério espiritual, para prefigurar a vivificação em espírito que se tem em Cristo, Paulo não negligencia este aspecto, que era o mais digno de consideração. Pelo que se conclui, certa e claramente, que não só foram comunicadas aos judeus as mesmas promessas de vida eterna e celestial com que o Senhor nos digna agora, mas também foram elas seladas com sacramentos verdadeiramente espirituais.” (2.10.6, p.190)

Portanto, podemos ter certeza de que o mesmo Deus que cuidou de Abraão e seus descendentes é aquele que cuidará de nossas vidas. Que tenhamos essa confiança.

Uma esperança para todos [ 2.9.1-3 ]

Calvino enfatiza as semelhanças entre o Antigo e o Novo Testamento nesse capítulo. Uma de suas intenções é combater as heresias propostas por Serveto e grupos anabatistas, que rejeitavam os judeus como herdeiros da vida eterna. Para o reformador, vemos apenas uma forma de governo diferente, de uma aliança que vem pelo mesmo Mediador.

“O pacto de todos os ancestrais em nada difere do nosso em substância e na própria realidade, o qual, em última instância é um e o mesmo. Varia-lhes, no entanto, a forma da dispensação.” (2.10.2, p.187)

Existem alguns pontos de contato entre estes dois momentos da história da salvação que são destacados por Calvino. São eles: a vida eterna, a graça e o Mediador. Cada um será tratado adiante.

Primeiro, sustentemos que a meta proposta aos judeus não foi opulência carnal e felicidade, a que supinamente aspirassem, mas, ao contrário, que foram eles adotados à esperança da imortalidade e que a realidade desta adoção lhes foi certificada, seja por divinas comunicações, seja pela lei, seja pelos profetas. Segundo, que o pacto mediante o qual foram coligados ao Senhor não se fundamenta em quaisquer méritos seus, mas unicamente na misericórdia de Deus, que os chamou. Terceiro, que eles não só tiveram, mas também conheceram a Cristo como o Mediador, através de quem tanto fossem unidos a Deus, quanto fossem eles possuidores de suas promessas.” (idem, grifos meus)

Sobre este primeiro ponto, Calvino nos lembra que Paulo nos diz que o Evangelho, ainda que encoberto, foi a mensagem que o povo de Israel ouviu. Ora, sendo a mesma mensagem que recebemos pelos apóstolos, está claro que diz respeito à vida eterna em um reino espiritual, não a promessas terrenas.

“De igual modo, da lei e dos profetas tem testemunho a justiça da fé, que é ensinada pelo próprio evangelho [Rm 3.21]. Porque, de fato o evangelho não detém os corações humanos no encantamento da presente vida, ao contrário os arrebata à esperança da imortalidade; não os prende às delícias terrenas, mas, proclamando a esperança posta no céu, para ali os transporta.” (2.9.3, p.188)

“Ora, se a doutrina do evangelho é espiritual e abre acesso à posse da vida incorruptível, não pensemos que aqueles a quem fora ele prometido e anunciado, tenham descartado e negligenciado o cuidado da alma, e tenham se embotado na busca dos prazeres do corpo, como se fossem animais brutos.” (idem)

Assim, os cristãos não devem cair no erro de pensar que existe diferença entre a esperança prometida aos patriarcas e a nós. Todos aguardamos uma herança divina, e não um mundo de prazeres e bênçãos meramente materiais. Não devemos ser gnósticos e renegar a criação, porém também precisamos cuidar para que nosso coração não esteja neste mundo caído, mas nos novos céus e nova terra.

Lei e Evangelho II [ 2.9.4-5 ]

A dicotomia Lei e Evangelho continua sendo tratada por Calvino. Diferente de muitos grupos, o reformador não entende que haja uma distinção tão grande entre essas duas porções da Palavra. Ele reconhece que Paulo usa os termos de maneira contrária ás vezes, quando quer discutir a justiça quem da lei e a justiça que vem da fé.

“Certamente que não se deve rejeitar esta antítese, pois, com freqüência, Paulo entende sob o termo lei a norma do justo viver, pela qual Deus exige de nós o que é seu, nenhuma esperança de vida outorgando, se não lhe obedecemos integralmente, e por sua vez acrescenta maldição, se nos desviamos mesmo que seja apenas um mínimo.” (2.9.4, p.184)

Por outro lado, a Lei, como já dissemos várias vezes, é a própria expressão da vontade de Deus. Ela foi a revelação do Criador aos judeus e, como tal, não pode ser meramente descartada. Certamente existe um motivo para que nossos pais seja chamados heróis da fé – ainda que envoltos em sombra, eles creram na mensagem de graça que foi apresentada.

“Paulo acrescenta, pouco depois, que ele tem o testemunho da parte da lei e dos profetas [Rm 3.21]. Aliás, no final desta mesma Epístola [Rm 16.25, 26], ainda que a ensinar que a pregação de Jesus Cristo é a revelação do mistério guardado em silêncio durante os tempos eternos, atenua esta postulação com uma explicação anexa, ensinando que esse mistério se manifestou por meio das Escrituras proféticas. Do que concluímos que onde se trata de toda a lei, dela difere o evangelho só no que respeita a uma clara manifestação.” (2.9.4, p.184s)

No limite dessas duas dispensações há um personagem que se destaca – João Batista. Enquanto ele não tenha conhecido a glória da Aliança renovada por Cristo, este profeta a anunciou, reconhecendo que estava se iniciando uma diferente era.

“Porque ainda não havia fulgido o pleno dia, foi ele chamado por Cristo uma lâmpada a arder e a luzir [Jo 5.35]. No entanto, tampouco isso impede que João Batista seja contado entre os pregoeiros do evangelho, posto que, além disso, ele fez uso do mesmo batismo que, mais tarde, foi outorgado aos apóstolos. Entretanto, o que ele começou, somente após Cristo ter sido recebido na glória celeste veio a completar-se, de maneira mais desenvolta, pela instrumentalidade dos apóstolos.” (2.9.5, p.185)

Que tenhamos em nossos corações a convicção de que vivemos um momento glorioso na história da salvação, e que isso gere em nós um sentimento de cuidado pela mensagem que devemos anunciar.