Lei e Evangelho II [ 2.9.4-5 ]

A dicotomia Lei e Evangelho continua sendo tratada por Calvino. Diferente de muitos grupos, o reformador não entende que haja uma distinção tão grande entre essas duas porções da Palavra. Ele reconhece que Paulo usa os termos de maneira contrária ás vezes, quando quer discutir a justiça quem da lei e a justiça que vem da fé.

“Certamente que não se deve rejeitar esta antítese, pois, com freqüência, Paulo entende sob o termo lei a norma do justo viver, pela qual Deus exige de nós o que é seu, nenhuma esperança de vida outorgando, se não lhe obedecemos integralmente, e por sua vez acrescenta maldição, se nos desviamos mesmo que seja apenas um mínimo.” (2.9.4, p.184)

Por outro lado, a Lei, como já dissemos várias vezes, é a própria expressão da vontade de Deus. Ela foi a revelação do Criador aos judeus e, como tal, não pode ser meramente descartada. Certamente existe um motivo para que nossos pais seja chamados heróis da fé – ainda que envoltos em sombra, eles creram na mensagem de graça que foi apresentada.

“Paulo acrescenta, pouco depois, que ele tem o testemunho da parte da lei e dos profetas [Rm 3.21]. Aliás, no final desta mesma Epístola [Rm 16.25, 26], ainda que a ensinar que a pregação de Jesus Cristo é a revelação do mistério guardado em silêncio durante os tempos eternos, atenua esta postulação com uma explicação anexa, ensinando que esse mistério se manifestou por meio das Escrituras proféticas. Do que concluímos que onde se trata de toda a lei, dela difere o evangelho só no que respeita a uma clara manifestação.” (2.9.4, p.184s)

No limite dessas duas dispensações há um personagem que se destaca – João Batista. Enquanto ele não tenha conhecido a glória da Aliança renovada por Cristo, este profeta a anunciou, reconhecendo que estava se iniciando uma diferente era.

“Porque ainda não havia fulgido o pleno dia, foi ele chamado por Cristo uma lâmpada a arder e a luzir [Jo 5.35]. No entanto, tampouco isso impede que João Batista seja contado entre os pregoeiros do evangelho, posto que, além disso, ele fez uso do mesmo batismo que, mais tarde, foi outorgado aos apóstolos. Entretanto, o que ele começou, somente após Cristo ter sido recebido na glória celeste veio a completar-se, de maneira mais desenvolta, pela instrumentalidade dos apóstolos.” (2.9.5, p.185)

Que tenhamos em nossos corações a convicção de que vivemos um momento glorioso na história da salvação, e que isso gere em nós um sentimento de cuidado pela mensagem que devemos anunciar.

Bênçãos familiares [ 2.8.21 ]

Muitos dos defensores da doutrina da maldição hereditária esquecem-se da segunda cláusula do mandamento, que promete misericórdia para milhares de gerações. Calvino entende aqui uma relação tanto com a educação que os filhos dos justos recebem quanto com as promessas do pacto. Enfim, a graça de Deus atinge a descendência dos fiéis de maneira multiforme.

“Contemplando isto, Salomão escreve que seriam bem-aventurados os filhos dos justos após a morte destes [Pv 20.7], não apenas em razão de sua santa educação, que também ela própria não tem, na verdade, reduzida importância, mas ainda, em decorrência desta bênção prometida no pacto, para que a graça de Deus resida eternamente nas famílias dos piedosos.” (2.8.21, p.147)

No entanto, acontece, até frequentemente, de aqueles que vêm de uma família incrédula voltarem-se a Deus. Tudo vem pelo propósito do Senhor e sua graça, e não por uma questão hereditária – seja para o bem, seja para o mal. O importante é não ouvirmos levianamente as exortações do Senhor.

“Nada impede que a descendência dos ímpios por vezes se volte à prática do bem, a descendência dos fiéis degenere, pois aqui não quis o Legislador fixar uma regra perpétua que anulasse sua eleição. Ora, para conforto do justo e terror do pecador, é suficiente que ela não seja uma declaração vã ou ineficaz, embora nem sempre tenha lugar.” (idem)

A conclusão que o reformador chega é a seguinte: ao salvar o filho dos justos Deus mostra sua graça e cuidado com os justos. Ao reprovar o ímpio, ele apresenta seu justo juízo sobre aqueles que seguem esse caminho. Aprendemos com isso a vivermos e educarmos nossos filhos nos caminhos do Senhor. E, principalmente, a confiarmos somente nessa misericórdia milenar de Deus.

“Ademais, recomenda-nos, de passagem, a grandeza de sua misericórdia, que estende por mil gerações, quando somente quatro gerações reservara à punição.” (idem)