Anjos, ministros de Deus [ 1.14.11-12 ]

Finalizando seu estudo sobre anjos, Calvino levanta uma interessante questão – por que Deus utiliza-se de tais intermediários, se ele mesmo poderia nos proteger, nos trazer mensagens ou presentear-nos com bênçãos? Para o reformador, isso nos traz mais segurança.

“Por esta razão, não somente promete que haverá de cuidar de nós pessoalmente, mas ainda que dispõe de inumeráveis guardiães a quem já determinou para provernos a segurança, ou, seja, por todo o tempo em que estamos cercados da guarda e proteção destes, qualquer que seja o perigo que ameace, fomos postos além de toda contingência do mal.” (1.14.11, p.167)

Esse cuidado do Senhor deve nos trazer mais conforto e segurança. Por outro lado, a falta de confiança em Deus torna-se um pecado ainda pior.

“De fato confesso que isto se nos converte em erro: que após essa inconfundível promessa acerca da proteção do Deus único, ainda volvamos o olhar em derredor, buscando donde nos venha o socorro.” (idem)

O outro perigo que envolve essa doutrina sobre os seres celestiais é darmos atenção demais a eles. Calvino critica aqueles que tentam fazer pedidos a anjos, uma prática comum até hoje, mesmo em algumas igrejas. Devemos sempre voltar nossas petições ao Criador, não a seus ministros.

“Unicamente pela intercessão de Cristo, resulta que nos advenham as ministrações dos anjos, como ele próprio o afirma: ‘Vereis doravante os céus abertos e os anjos descendo ao Filho do Homem’ [Jo 1.51]… Ora, visto que Deus não os faz ministros de seu poder e bondade em tais moldes que partilhe com eles sua glória, assim também não nos promete sua assistência na ministração deles em relação a nós em termos tais que dividamos nossa confiança entre eles e ele.” (1.14.12, p.168)

Diante desse belíssimo estudo de Calvino, devemos agradecer a Deus por esses ministros que ele coloca à disposição de sua igreja. Ainda que nem saibamos quando eles estão a nos proteger ou nos ajudar, a Palavra nos dá certeza desse serviço angelical. Que sejamos gratos a Deus por mais essa prova de bondade com seus pequenos filhos.

O mistério dos anjos [ 1.14.8-10 ]

A Bíblia nos oferece poucas informações sobre os anjos, se comparamos com aquilo que ela fala de nós mesmos, ou da própria Criação. Por isso, nos trechos que se seguem, Calvino reune apenas aquilo que a Escritura nos ensina, rebatendo qualquer tipo de informação espúria sobre o assunto. Primeiramente, ele fala sobre hierarquia e quantidade desses seres, embora “creiamos ser desse gênero de mistérios cuja plena revelação se dará no último dia” (1.14.8, p.165).

“Reconheço que Miguel é chamado ‘o grande príncipe’ em Daniel [12.1] e ‘o arcanjo que, com uma trombeta, convocará os homens ao juízo. Quem, entretanto, poderá daí estabelecer graus de honra entre os anjos, distinguir a cada um por suas insígnias específicas, assinalar a cada um o lugar e a posição?” (1.14.8, p.164s)

Por fim, ele chega a conclusão de que certamente a legião de anjos é gigantesca, mesmo que as informações sobre isso sejam raras. Uma nota interessante é o que Calvino diz a respeito dos anjos serem retratados como seres alados na Bíblia.

“A Escritura, sob o nome de querubins e serafins, não em vão nos pinta anjos alados, para que não tenhamos dúvida de que sempre haverão de estar presentes para, com incrível celeridade, trazer-nos auxílio, tão logo as circunstâncias o exijam, como se, com a costumeira velocidade, voasse para nós como um relâmpago despedido do céu.” (1.14.8, p.165)

Uma heresia que o reformador combate diz respeito à pessoalidade dos seres celestiais. Para alguns, como os saduceus, o que chamamos de anjos são apenas os impulsos de Deus que inspiram o homem. Em resposta, Calvino cita diversos textos onde claramente associam-se características pessoais aos anjos, como por exemplo a alegria (Lc 15.10) e suas aparições em forma humana.

Antes de prosseguir nesse estudo, Calvino novamente volta a alertar-nos contr a superstição da angelolatria, ou seja, dar aos anjos honra que não lhes é devida. Devemos nos voltar a Cristo, o único que é auto-existente e auto-suficiente, e o mesmo que sustenta a bondade e os poderes angelicais.

“Não só se deve distinguir Cristo de todos os anjos, mas ainda que ele é o autor de tudo o que eles têm de bom, para que não aconteça que, deixando-o de parte nos volvamos para aqueles que não podem nem a si próprios bastar, ao contrário, tudo recebem da mesma fonte da qual nós mesmos recebemos.” (1.14.10, p.167)

Anjos de guarda [ 1.14.6-7 ]

Existe realmente um anjo da guarda para cada pessoa, ou pelo menos cada crentes? Calvino agora dedica parte de seu estudo à função que esses seres têm de cuidar dos fiéis. O próprio Deus deu ordens para que essas maravilhosas criaturas cuidassem de meros pecadores.

“A Escritura indica que eles montam guarda por nossa segurança, assumem nossa defesa, dirigem nossos caminhos, exercem solicitude para que não nos aconteça algo de adverso.” (1.14.6, p.163)

Calvino cita diversos textos que comprovam a ação dos anjos em defesa dos crentes, dos quais destaco aquele que se encontra no Salmo 91 – “A seus anjos deu ordens a teu respeito, para que te guardem em todos os teus caminhos; nas mãos te susterão, para não tropeçares em alguma pedra” (v.11,12). Certamente esses mensageiros têm a incumbência de também nos proteger.

Isso, no entanto, não dos dá base para sustentarmos a popular doutrina do anjo da guarda individual. O reformador reconhece que temos alguns textos favoráveis a essa crença, como em Mateus 18.1o – “Não desprezeis algum destes pequeninos, porque eu vos digo que os seus anjos nos céus sempre vêem a face de meu Pai que está nos céus”.

“Mas disto não sei se deva concluir-se por certo que incumbe não a um só anjo o cuidado de cada um de nós, mas, antes, que todos, em um consenso único, vigiam por nossa segurança.” (1.14.7, p.164)

O que dá força a essa afirmação do teólogo são alguns textos bíblicos, em que vários anjos tomam conta ou se envolvem com apenas uma pessoa. Em Lucas 16.22, vários anjos cuidaram de levar Lázaro ao seio de Abraão, enquanto em 2Reis 6.17, os carros e cavalos angelicais são milhares protegendo apenas dois homens.

Por fim, quanto a Atos 12.15, quando os cristãos falam a respeito de um suposto anjo de Pedro, Calvino nos diz o seguinte (note a referência a crenças que até hoje perduram):

“Se bem que aqui se pode também replicar que nada nos impede que entendamos a qualquer um dentre os anjos, a quem o Senhor houvesse então confiado a proteção de Pedro, e não obstante nem por isso lhe seria guarda perpétuo, tal como, popularmente, se imagina que foram designados a cada pessoa, como se fossem gênios diversos, dois anjos, um bom e um mau.” (idem)

A doutrina dos anjos pode ser difícil e distante de nós. Por isso, devemos seguir o exemplo de Calvino e nos agarrarmos apenas naquilo que a Escritura nos dá certeza – que o Senhor é tão bom e amoroso, que mesmo esses maravilhosos seres são instrumentos de sua graça. Que louvemos ao Senhor por tão valorosos obreiros!

Uma introdução aos anjos [ 1.14.4-5 ]

“Ao teólogo, porém, o propósito não é deleitar os ouvidos com argumentação loquaz, mas firmar as consciências, ensinando o verdadeiro, o certo, o proveitoso.” (1.14.4, p.161)

Com essas palavras, sabemos quais são as intenções de Calvino nas próximas seções. O reformador agora passa a nos guiar em angelologia, a doutrina dos anjos – conforme a Escritura somente. Em primeiro lugar, ele lista alguns dos termos usados para designar esses seres, e a explicação do uso dessas palavras.

“Denominam-se exércitos porque, como elementos de sua guarda, rodeiam a seu Príncipe, adornam-lhe a majestade e a tornam ostensiva, e como soldados estão sempre atentos ao sinal de seu comandante, e desse modo estão preparados e prontos para cumprir-lhe as ordens, de sorte que, tão logo ele lhes acena, à ação se preparam, ou, antes, entram em ação.” (1.14.5, p.162)

“Por meio deles, o Senhor expressa e manifesta maravilhosamente a força e a punjança de sua mão, daí os anjos serem chamados poderes. Porque, acima de tudo, através deles Deus exerce e administra sua soberania no universo, por isso ora são chamados principados, ora potestades, ora domínios… porque neles, de certo modo, reside a glória de Deus, por esta razão são também chamados tronos.” (idem)

“Além disso, também à vista disso, não uma vez só, os anjos são chamados deuses, visto que, em seu ministério, como em um espelho, em certa medida a Deidade nos é representada.” (idem)

Esse último termo pode causar confusão a alguns, mas isso não quer dizer que os judeus acreditavam em deuses menores, além de Yahweh. Trata-se realmente disso que Calvino fala – pessoas ou seres com uma medida da Deidade, que lhes conferem autoridade e a posição de juízes sobre a terra.

“Tampouco deve isso parecer-nos coisa surpreendente, porque, se a príncipes e prepostos se outorga esta honra [Sl 82.6], porquanto, em sua função, fazem as vezes de Deus, que é o Supremo Rei e Juiz, muito maior razão a que seja conferida aos anjos, em quem a efulgência da glória divina esplende muito mais copiosamente.” (1.14.5, p.163)

Contra os maniqueus [ 1.14.3 ]

Os anjos sempre foram personagens bíblicos que atrairam especulações e curiosidades de muitos. Ao continuar seu alerta, Calvino novamente nos diz para não irmos além do que se deve saber. Por exemplo, se Moisés não nos conta quando os anjos foram criados, isso não nega aquilo que sabemos – que somente Deus é incriado.

De fato, presos a especulações, muitos acabam dando a anjos honra que não são deles. Outros se interessam tanto pelo assunto que acabam menosprezando as confiáveis informações da Palavra de Deus.

“A preeminência da natureza angélica de tal modo tem obcecado a mente de muitos, que chegaram a pensar que se lhes faz agravo, se fossem, por assim dizer, forçados em sua condição de criaturas a sujeitar-se à autoridade do Deus único. E por isso chegaram a atribuir-lhes certa divindade” (1.14.3, p.160)

Porém, antes de tratar diretamente de angelologia, o reformador prefere discutir o pensamento de Mani – criador da seita dos maniqueus, de onde vem o termo “maniqueísta” – “que inventou para si dois princípios absolutos: Deus e o Diabo”(idem). Isto é, esse falso mestre acreditava num dualismo absoluto entre bem e mal, como se tanto Deus quanto o Diabo fossem detentores de poder e natureza semelhantes, como se Deus tivesse criado o que é bom, e seu inimigo aquilo que é mal. Calvino combate duramente essa idéia idólatra, que se parece muito com a idéia que alguns tem de “batalha espiritual” atualmente.

“Ora, uma vez que, por assim dizer, nada seja mais próprio de Deus que a eternidade, e a existência própria, aqueles que atribuem isto ao Diabo porventura não estão, de certo modo, a adorná-lo com o título da divindade? Onde, pois, a onipotência de Deus, se ao Diabo se concede tal poder que, contra a vontade de Deus e a despeito de sua oposição, leve a bom termo tudo quanto deseja?” (idem)

O reformador sustenta que o Diabo não tem o poder de fazer aquilo que quer sem a permissão do Criador. Além disso, o Diabo nada criou, sendo tudo obra de Deus. Temos a seguir uma declaração marcante da teologia calvinista – a ênfase na bondade das coisas criadas. Para Calvino, a Criação por si só não é algo ruim, mas apenas está afetada pelo pecado. Essa será a base para o chamado cultural do homem, que ele deve ensinar mais adiante.

“O único fundamento que os maniqueus têm – não ser próprio atribuir-se a um Deus bom a criação de qualquer coisa má –, isto nem de leve fere a fé ortodoxa, a qual não admite que no universo inteiro haja alguma natureza má, porquanto nem a depravação e malignidade, seja do homem, seja do Diabo, ou os pecados que daí nascem, provêm da natureza, mas da corrupção da natureza; nem de início há absolutamente nada que exista em que Deus não haja estampado o selo, tanto de sua sabedoria, quanto de sua justiça.” (idem)