Um testemunho vivo [ 1.8.12-13 ]

No final do capítulo VIII, Calvino nos deixa uma advertência:

“A Escritura será realmente satisfatória para o conhecimento salvífico de Deus, então, finalmente, quando a certeza lhe for fundamentada na convicção interior pelo Espírito Santo… Procedem insipientemente, porém, aqueles que desejam que se prove aos infiéis que a Escritura é a Palavra de Deus, pois, a não ser pela fé, isso não se pode conhecer.” (1.8.13, p.92)

O apologeta deve ter esta consciência – por mais satisfatórias que sejam suas respostas a razão humana, o homem só se colocará aos pés de Cristo por meio da fé que vem de Deus. Ao mesmo tempo em que é uma obra catequética, as Institutas também são apologéticas. Ainda assim, o reformador sabia que não eram seus escritos pura e simplesmente que converteriam os homens a Deus, mas a Palavra e o Espírito.

De fato, desde os primórdios, a Bíblia é alvo de ataques e controvérsias. Hoje, até teólogos ditos cristãos acabam questionando a veracidade da Palavra de Deus. Porém, a Palavra resiste e sempre encontra lugar no coração dos fiéis.

“Nem se deve julgar ser de importância mínima que, desde que a Escritura foi publicada, constantemente se lhe anuiu à obediência o querer de tantos séculos, e por mais que Satanás, com todo o mundo, a tenha tentado, por meio perplexivos, seja oprimindo, seja destruindo, seja de todo refreando e obliterando da lembrança dos homens, entretanto sempre, como a palmeira, tem ela subido mais alto e persistido de forma inabalável.” (1.8.12, p.91)

Além da resistência da Palavra ao ataque do mundo, vemos também a resistência dos santos e santas por amor à Bíblia, não por um desejo sadomasoquista, mas como testemunhas (μάρτυρες) das verdades ali reveladas.

“Portanto, não é uma comprovação de pouco peso o fato de a Escritura ser selada pelo sangue de tantas testemunhas, mormente quando ponderamos que eles enfrentaram a morte para dar testemunho da fé, não com excesso fanático, como por vezes costuma suceder a espíritos sem norte, mas, ao contrário, por zelo firme e constante, contido sóbrio, por Deus.” (1.8.13, p.92)

Muitos homens e mulheres foram mortos pelo Evangelho, comprovando que ele é muito mais que o registro da religião de alguns judeus. Essas pessoas morreram porque sabiam que carregavam a verdade, uma coisa que jamais pode ser escondida dos outros. Peçamos a Deus a ousadia de nossos irmãos, para não deixarmos a Escritura oculta diante de qualquer tipo de ameaça.

Mais argumentos pela Escritura [ 1.8.9-11 ]

Algo que me chama atenção desde o início deste leitura é a maneira como Calvino sempre toca pontos atuais, mesmo sem perceber. Isto não deve ser surpresa, pois quando se faz uma exposição de Cristianismo, acabamos tratando de questões universais e atemporais, de maneira que vemos a relevância da Escritura, e de seus expositores, em nossa vida.

Nesse trecho, Calvino continua a defender a Bíblia de acusações dos incrédulos. E uma dessas acusações nos lembra bastante o pensamento vigente em universidades seculares e seminários teológicos – a autoria de Moisés, e mesmo sua existência. Ora, se a Bíblia diz que Moisés existiu e escreveu parte de seus textos, mas isso não é verdade, a Palavra não é confiável. O reformador nota que trata-se de uma tentativa de desmerecer a Bíblia, mas que os critérios que se usam contra ela nunca seriam usados contra outros textos antigos.

“Mas, se alguém puser em dúvida que jamais existiu um Platão, um Aristóteles, ou um Cícero, quem não haverá de dizer que tal insânia deve ser castigada com bofetadas ou com açoites?” (1.8.9, p.88)

O reformador também nos lembra que Moisés sempre foi conhecido dos povos hebreus, o que parece indicar sua credibilidade. Mesmo com os manuscritos sendo transmitidos por gerações, a Lei Mosaica pode ser considerada verdadeira, pois “foi maravilhosamente preservada, mais pela providência celestial do que pelo cuidado de homens” (idem).

Um exemplo disso é o relato feito em 1Macabeus, que conta da queima de todos os volumes das Escrituras, ordenado por Antíoco. Ainda assim, pouco depois a Escritura circulava normalmente entre o povo. Por meio da providência, os judeus, a quem “Agostinho merecidamente chama de os bibliotecários da Igreja” (1.8.10, p.90), preservaram os volumes pouco depois dessa perseguição.

Também o Novo Testamento é digno de admiraçao, por apresentar escritores que aos olhos humanos jamais poderiam ter escrito aqueles textos. A explicação é que somente por meio do poder de Deus os apóstolos podem alcançar tamanha sabedoria e discernimento para colocar no papel.

“Neguem esses cães que o Espírito Santo haja descido sobre os apóstolos ou, quando menos, anulem a credibilidade da história. Entretanto, a própria realidade brada patentemente que esses homens haviam sido ensinados pelo Espírito que, antes desprezíveis em meio ao próprio vulgo, de repente começaram a dissertar tão magnificamente acerca de mistérios celestiais.” (1.8.11, p.91)

A Bíblia é um tesouro preservado de geração em geração. E isto só aconteceu pelo cuidado de homens piedosos e, em primeiro lugar, pela providência divina. Que valorizemos mais e mais a Palavra do Senhor.

A favor da Escritura [ 1.8.1-8 ]

Depois de deixar claro que a Bíblia é suficiente para autenticar-se, e que o homem somente reconhecerá as palavras de Deus por meio da ação do Santo Espírito, Calvino nos mostra que isso não é motivo para nos silenciarmos. Pelo contrário, isto o motiva a apresentar mais razões que suportam a veracidade da Escritura, utilizando para isso provas que apelam ao bom senso de qualquer pessoa.

O primeiro desses argumentos para crermos nas Escritura envolve o conteúdo dos textos bíblicos. Isto é, para o reformador, a Palavra nos traz uma mensagem que é superior a qualquer texto humano, o que significa que ela deve ter origem divina.

“Quão peculiar, porém, é esse poder à Escritura, transparece claramente disto: que dos escritos humanos, por maior que seja a arte com que são burilados, nenhum sequer nos consegue impressionar de igual modo” (1.8.1, p.83)

“Se faz claro que ela está repleta de idéias que não poderiam ser concebidas em bases estritamente humanas.” (1.8.2, p.83)

O conteúdo da Palavra é uma prova incontestável da autoridade bíblica, mas a forma pela qual esse conteúdo é apresentado também nos chama a atenção. Calvino reconhece que muitas passagens foram escritas em “linguagem singela e sem realce” (1.8.1, p.82), mas não se esquece da beleza de outros trechos.

“Alguns profetas tem um modo de dizer elegante e polido, até mesmo esplendoroso, de sorte que sua eloquência não é inferior à dos escritores profanos. E, com tais, exemplos, o Espírito Santo quis mostrar que não lhe falta eloquência, enquanto em outros lugares fez uso de um estilo não burilado e pomposo.” (1.8.2, p.83)

O próximo argumento do reformador diz respeito à antiguidade da Bíblia, que demonstra não ser a distorção de outra religião, mas a revelação do próprio Deus. Em suas palavras, Moisés não estava a inventar um novo Deus (1.8.3, p.84). Calvino também lembra que o líder hebreu, autor do Pentateuco, é fonte de informação segura, alguém de quem não há nada a desconfiar. Prova disso é o fato de Moisés não deixar de citar no texto bíblico eventos constrangedores a ele e sua família.

Além disso, os milagres realizados por meio de Moisés comprovam a autoridade que Deus o entregou. Alguns podem argumentar que eram obras falsas, mas Calvino lembra que o profeta se valeu desses milagres para vindicar sua autoridade sobre os israelitas. Se eles não fossem reais, não haveria qualquer respeito pelo líder.

“Isto é, Moisés ter-se-ia apresentado no meio deles e, acusando o povo de infidelidade, contumácia, ingratidão e de outros atos incrimináveis, teria se vangloriado de que a doutrina lhe fora autenticada sobe seus próprios olhos, por esses milagres que eles mesmos jamais haviam contemplado!” (1.8.5, p.85)

O cumprimento das profecias, feitas por Moisés e pelos outros autores, também demonstram claramente o poder da Palavra. Mesmo profecias tão imprevisíveis quanto a aceitação dos gentios por parte de Yahweh ou o chamamento do rei pagão Ciro foram cumpridas. Vemos claramente que existe algo de diferente nos textos sagrados usados pelos cristãos.

“Não seria grande descaramento negar que a autoridade dos profetas foi confirmada com tais testemunhos, e que de fato se cumpriu o que eles afirmam, para que se desse crédito às suas palavra?” (1.8.8, p.88)

Em momentos de dúvida e fraqueza, podemos ter mente esse estudo de Calvino. Da mesma maneira que o Senhor cumpriu as profecias ditas pelos seus profetas, ele cumprirá as promessas que tem para o cristão. Não devemos temer, pois nosso Pai nos fala com autoridade e poder, e ele nos diz: “Porque eu, o SENHOR teu Deus, te tomo pela tua mão direita; e te digo: Não temas, eu te ajudo” (Isaías 41.13)

Que é o homem? [ 1.5.5-8 ]

Na seção 5 do quinto capítulo, o reformador dedica-se a combater o pensamento daqueles que, negando a origem divina da humanidade, acreditam que porção imaterial do ser humano (chamada aqui de “alma”) é apenas uma propriedade e fruto de seu corpo físico, “de tal modo que sem este aquela não subsiste” (1.5.5, p.58). Idéia semelhante encontramos no pensamento do homem hodierno, para quem nossos pensamentos, emoções, lembranças, espiritualidade, são todos apenas frutos de reações químicas no cérebro, de instintos animais latentes, da cultura que nos envolve ou de nossos desejos ocultos por sexo, poder e dinheiro.

Para Calvino, isso é uma tentativa de negar a imortalidade da alma e a existência de Deus, pois muitas das capacidades que o homem tem não dizem respeito a seu corpo, e vão muito além das meras funções orgânicas.

“Ao contrário, a alma tem suas propriedades distintas do corpo… A multiforme agilidade da alma, com que perscruta o céu e a terra, liga as coisas passadas às que estão por vir, retém em lembranças as coisas que há muito ouviu, até mesmo para si pinta o que bem lhe apraz, assim também a habilidade com que imagina coisas incríveis, e que é a matriz de tantas invenções admiráveis, são seguros sinais da Deidade no homem.” (1.5.5, p.59)

Antecepiando em alguns séculos o argumento moral de C.S. Lewis, o reformador questiona como podemos creditar certas faculdades ao homem, entre elas, a habilidade de identificar o certo e errado.

“Como feito, nós, em função da capacidade judicatória que nos foi outorgada, faremos distinção entre o justo e o injusto, porém nenhum juiz no céu haverá? A nós, até mesmo durante o sono, nos remanescerá certo resíduo de entendimento; Deus nenhum, porém, estará de vigia a reger o mundo?” (1.5.5, p.59)

Por fim, Calvino também critica aqueles que confundem a natureza com o próprio Criador, como muitos panteístas fazem hoje. De certa forma, boa parte das religiões não-monoteístas acabam caindo nesse erro, assim como os defensores do naturalismo. Trocam o Pai Criador pela Mãe Natureza, esquecendo-se de que tudo “foi criado para manifestação da glória de Deus” (1.5.5, p.60) e que “é prejudicial envolver a Deus ambiguamente com o curso inferior de suas obras” (idem).

O governo, a soberania e o justo juízo de Deus são as próximas evidências que Calvino nos apresenta como revelação de Deus na Criação. É possível captarmos algumas características do Criador.

“Tem necessariamente de ser eterno e ter de si próprio o princípio donde todas as coisas derivam a origem. Ademais, se porventura se busca a causa, em virtude da qual não só foi ele uma vez levado a criar todas as coisas, mas ainda é agora movido a preservá-las, só em sua bondade acharemos estar sua causa.” (1.5.6, p.61)

Citando o Salmo 107, Calvino mostra que Deus domina sobre a vida humana, fato que deve ser reconhecido por todos. Seu comentário é um desafio para os crentes atuais, que fazem rígida divisão entre natural e sobrenatural, sem perceber que Deus está trabalhando em tudo, não apenas nas intervenções miraculosas.

“Os fatos que se consideram ser eventos casuais são outros tantos testemunhos da providência celestial, na verdade especialmente da clemência paterna.” (1.5.8, p.62)

Espelho da glória de Deus [ 1.5.3-4 ]

Já que está tratando da possibilidade de conhecermos Deus por meio de sua Criação, João Calvino nos lembra que, entre todas as coisas criadas, existe aquela que é a maior obra do Criador – o ser humano.

“Por isso, alguns dentre os filósofos, outrora, designaram o homem, não sem razão, de microcosmos, porquanto é ele raro exemplo de poder, da bondade e da sabedoria de Deus, em si contém bastante de milagres para ocupar-nos a mente, desde que não nos enfademos de dar-lhes atenção.” (1.5.3, p.57)

É por esse motivo que alguns consideram Calvino como um humanista, ainda que possuísse uma mente teocêntrica. Ao contrário do que outros pensam, o reformador não desprezava o ser humano como criação de Deus, mas o valorizava, ainda que gastasse severas palavras contra o homem, quando esse se distrai do Criador. Uma das maneiras de negar Deus, evidentemente, é não nos reconhecermos como obra dele.

“Ora, se para aprendermos a Deus não é necessário sairmos fora de nós mesmos, aquele que se fizer moroso em descer em seu íntimo para aí descobrir a Deus, sua negligência merecerá perdão?” (idem)

Mais ainda, citando o Salmo 8.2: “Da boca de pequeninos e crianças de peito suscitaste força”, o reformador nos mostra que mesmo as crianças refletem o Feitor de tudo.

“E assim não apenas postula que no gênero humano reside nítido espelho das obras de Deus, mas também que as criancinhas, ainda a penderem no seio materno, tem línguas bastante eloquentes para proclamar sua glória, de tal modo que não se requer nenhum orador.” (idem)

Outra evidência para reconhecermos Deus é a variedade de dons, habilidades e poderes que são nos presenteados por ele, de maneira que todos “são obrigados a reconhecer que essas coisas são sinais da Divindade, queiram, ou não” (1.5.4, p.57). A idéia de um homem que gerou-se espontaneamente está totalmente excluída.

“Pergunto, pois, quão detestável é esta sandice, que o homem achando a Deus cem vezes em seu próprio corpo e alma, sob este mesmo pretexto de excelência, negue que ele existe? Não dirão que se distinguem dos seres brutos por obra do acaso. Todavia, sobreposto o véu da natureza, a qual lhes é o artífice de todas as coisas, alijam Deus.” (1.5.4, p.58)

Essa última frase é a descrição do homem moderno. A maioria das pessoas hoje vê-se como fruto do ocaso, de forças impessoais da natureza, que resultaram em uma criatura incrivelmente complexa. Tal doutrina é perigosa, pois, além de retirar de Deus a sua glória, acaba dando às pessoas uma visão incorreta sobre elas mesmas. Uma pessoa que nem sabe o que ela é está em trevas, sem direção e sem propósitos. Alguém que se enxerga como obra do acaso, inconscientemente (ou não), passa a perceber-se como fruto do nada e, portanto, nada também.

E não é a depressão para alguns o mal deste e do século anterior?

O teatro da glória de Deus [ 1.5.1-2 ]

Um dos maiores debates entre apologetas e teólogos diz respeito ao conhecimento que o homem alcança por meio da revelação natural de Deus. Quando Paulo fala sobre homens que poderiam dar graças ao Criador, mas foram rebeldes (Rm 1.18-32) a que ele se refere?

Para alguns, é possível chegar-se a um conhecimento verdadeiro do Criador apenas por meio do estudo e contemplação da Criação – podemos aprender sobre sua sabedoria, sobre sua bondade, etc. Para outros, esse conhecimento é possível, porém devido à semente divina colocada na mente do homem. Sem ela, o homem contemplaria as coisas, mas jamais poderia chegar ao conceito de Deus. Existe ainda um grupo de estudiosos que acreditam que esse conhecimento adquirido por meio da observação da natureza pode levar alguém a ser salvo.

“Não só implantou Deus na mente humana essa semente de religião a que nos temos referido, mas ainda de tal modo se revelou em toda a obra da criação do mundo, e cada dia nitidamente se manifesta, que eles não podem abrir os olhos sem serem forçados a contemplá-lo.” (1.5.1, p.55)

Para Calvino, a semente divina é complementada pela manifestação da sabedoria e poder divinos na Criação. Porém, como já foi dito antes, este conhecimento não leva ninguém ao arrependimento e à salvação, mas deixa os homens indesculpáveis diante de Deus.

“Em primeiro lugar, para todo e qualquer rumo a que dirijas os olhos, nenhum recanto há do mundo, por mínimo que seja, em que não se vejam brilhar ao menos algumas centelhas de sua glória.” (1.5.1, p.55)

A expressão calvinista de que a Criação é o “formosíssimo teatro” da glória de Deus (1.14.20, p.175) é conhecida nos diversos ramos do Cristianismo. Pela internet encontramos pentecostais e católicos citando isso, mesmo sem saber seu autor. Realmente, para o reformador, aqueles que se aventuram em ciências como astronomia e medicina podem descobrir um pouco mais sobre nosso Criador.

“De fato, quantos nessas artes liberais à farta se abeberaram, ou mesmo apenas de leve as experimentaram, ajudados por sua contribuição, são levados muito mais longe na penetração dos segredos da divina sabedoria… Como, ao serem essas coisas perscrutadas, mais explicitamente se projeta a providência divina, assim, para contemplar-lhe a glória, impõe-se à alma que se eleve um tanto mais alto.” (1.5.2, p.56)

A colaboração do pensamento protestante ao desenvolvimento da ciência moderna é um fato que apenas os mais céticos (leia-se: naturalistas) negam, e vemos aqui Calvino sem temer qualquer constrangimento que a pesquisa e o estudo poderiam trazer. No entanto, aqueles que não são cientistas também podem aprender por meio da observação das coisas criadas.

“Nem mesmo a pessoa mais simples e as de cultura mais elementar, que foram ensinadas só pelo recurso dos olhos, não podem ignorar a excelência da divina arte a revelar-se profusamente nesta incontável e, além do mais, particularmente, distinta e harmoniosa variedade da milícia celestial; salta à vista que não existe ninguém a quem o Senhor não manifeste sobejamente sua sabedoria.” (1.5.2, p.56)