Os dons naturais [ 2.2.13-14 ]

Resta ainda alguma coisa boa no homem? Para Calvino, a resposta não é tão simples como alguns crêem. Isto é, apenas pela bondade de Deus resta-nos alguns poucos dons naturais. Embora o homem esteja totalmente corrompido, tanto na mente quanto na vontade, e tenha se tornado escravo do pecado, ainda assim ele se diferencia dos seres irracionais. Ou seja, sobra à humanidade algumas dádivas, mantidos graciosamente por Deus. Nesse sentido, resta algo de bom nos seres humanos.

O reformador divide as nossas capacidades em dois tipos: aquelas compreendem os dons terrenos e as que compreendem dons celestiais. Evidentemente, o segundo tipo está ausente no homem caído. Conclusão: o homem pode também ser considerado totalmente mal.

“Chamo de ‘coisas terrenas’ aquelas que não dizem respeito a Deus e seu reino, à verdadeira justiça, à bem-aventurança da vida futura; mas, ao contrário, têm significado e nexo em relação à presente vida, e de certo modo se mantêm dentro dos limites. ‘Coisas celestiais’ chamo o puro conhecimento de Deus, o senso da verdadeira justiça e os mistérios do reino celeste. Na primeira classe estão a ciência política, a economia doméstica, todas as artes mecânicas e as disciplinas liberais; na segunda, o conhecimento de Deus e da divina vontade e a norma de plasmar a vida em conformidade com essa vontade.” (2.2.13, p.41)

Assim, Calvino lista algumas das áreas em que esses dons de Deus ainda estão presentes. A primeira dessas é na organização da sociedade, nas leis feitas pelo homem, etc. Mesmo aqueles que quebram a ordem social seguem algum tipo de padrão e conformam-se a ele.

“Daqui resulta que não se ache ninguém que não compreenda ser conveniente que todas e quaisquer comunidades humanas sejam reguladas por leis, e que não abarque na mente os princípios dessas leis… enquanto os homens disputam entre si a respeito de capítulos das leis, estão de acordo no que tange a certa noção básica da justiça… Não obstante, isto permanece: em todos é implantada uma certa semente da ordem política. E esta é ampla prova de que na direção desta vida homem nenhum é destituído da luz da razão.” (2.2.13, p.41s)

A capacidade humana também se mostra superior à de todos os outros seres também nas artes, sejam manuais ou liberais. Ora, como o homem manteria essa habilidade se não fosse dado por Deus? Não que mereçamos tamanho poder de criação, mas aprouve ao Senhor nos deixar alguma chama de razão, que permitisse isso.

“Mas, ainda que nem todos sejam aptos para aprender todas elas, todavia é marca bastante segura da energia comum o fato de que não se acha quase ninguém em quem não se evidencie proficiência em alguma arte. Nem se encontra à mão somente a energia e capacidade para aprender, mas também para inventar algo novo em cada arte, ou para aperfeiçoar e burilar o que hajas aprendido de outrem que veio antes de ti… Porque atinge indistintamente a piedosos e a ímpios, com razão se conta entre os dons naturais.” (2.2.14, p.42s)

Portanto, devemos ser gratos a Deus por essa habilidades que ele nos entregou. Ainda que os injustos não glorifiquem ao Senhor por isto, que nós tenhamos os corações agradecidos diante das maravilhas que a humanidade promoveu e continuará promovendo.

Calvino e a arte [ 1.11.12 ]

Uma das acusações – inclusive feita pela conhecida líder evangélica citada no post anterior – contra os reformadores e protestantes em geral é que nós, com o apelo ao fim de ícones e ídolos, desvalorizamos a arte. Essa acusação é baseada em falta de informação e de estudo, como veremos nessa seção das Institutas.

“Nem me deixo tomar dessa superstição a tal ponto que afirme não dever-se admitir, em hipótese alguma, qualquer imagem. Mas, uma vez que a escultura e a pintura são dons de Deus, admito o uso puro e legítimo, tanto de um quanto da outra, para que não aconteça que essas coisas que o Senhor nos outorgou para sua glória e nosso bem não só sejam poluídas por ímpio abuso, mas ainda também se convertam à nossa ruína.” (1.11.12, p.111)

“Resta, portanto, que se pinte e esculpa somente aquilo que está ao alcance dos olhos, de sorte que a majestade de Deus, que paira muito acima da percepção dos olhos, não se corrompa mediante representações descabidas e fantasiosas.” (1.11.12, p.112)

Portanto, o reformador francês considera essas duas formas de arte como dons de Deus a nós, e que têm como objetivos a glória do Senhor e o bem da humanidade. Calvino ainda esboça uma breve teoria da arte, separando as obras artísticas em dois grupos básicos, e explicando em que se aproveita delas.

“Nesta classe de elementos que se podem representar pela arte estão, em parte, histórias e fatos acontecidos; em parte, imagens e formas corpóreas sem qualquer conotação de eventos consumados. Aqueles tem certa aplicação no ensino ou no conselho; estas, não vejo o que possam proporcionar, além de mero deleite.” (idem)

Concluindo – os objetivos da arte, segundo Calvino, são glorificar a Deus e trazer o bem ao homem. A arte é um presente do Pai a nós, mas deve ser usada com cuidado. Ao produzir imagens da Deidade o homem está justamente descumprindo seu papel como artista – reduz o Criador a mero objeto e encaminha as pessoas ao erro. Ao criar ídolos, o homem diminui a si mesmo, a sua arte, sua religião, e o próprio Senhor.