Uma esperança para todos [ 2.9.1-3 ]

Calvino enfatiza as semelhanças entre o Antigo e o Novo Testamento nesse capítulo. Uma de suas intenções é combater as heresias propostas por Serveto e grupos anabatistas, que rejeitavam os judeus como herdeiros da vida eterna. Para o reformador, vemos apenas uma forma de governo diferente, de uma aliança que vem pelo mesmo Mediador.

“O pacto de todos os ancestrais em nada difere do nosso em substância e na própria realidade, o qual, em última instância é um e o mesmo. Varia-lhes, no entanto, a forma da dispensação.” (2.10.2, p.187)

Existem alguns pontos de contato entre estes dois momentos da história da salvação que são destacados por Calvino. São eles: a vida eterna, a graça e o Mediador. Cada um será tratado adiante.

Primeiro, sustentemos que a meta proposta aos judeus não foi opulência carnal e felicidade, a que supinamente aspirassem, mas, ao contrário, que foram eles adotados à esperança da imortalidade e que a realidade desta adoção lhes foi certificada, seja por divinas comunicações, seja pela lei, seja pelos profetas. Segundo, que o pacto mediante o qual foram coligados ao Senhor não se fundamenta em quaisquer méritos seus, mas unicamente na misericórdia de Deus, que os chamou. Terceiro, que eles não só tiveram, mas também conheceram a Cristo como o Mediador, através de quem tanto fossem unidos a Deus, quanto fossem eles possuidores de suas promessas.” (idem, grifos meus)

Sobre este primeiro ponto, Calvino nos lembra que Paulo nos diz que o Evangelho, ainda que encoberto, foi a mensagem que o povo de Israel ouviu. Ora, sendo a mesma mensagem que recebemos pelos apóstolos, está claro que diz respeito à vida eterna em um reino espiritual, não a promessas terrenas.

“De igual modo, da lei e dos profetas tem testemunho a justiça da fé, que é ensinada pelo próprio evangelho [Rm 3.21]. Porque, de fato o evangelho não detém os corações humanos no encantamento da presente vida, ao contrário os arrebata à esperança da imortalidade; não os prende às delícias terrenas, mas, proclamando a esperança posta no céu, para ali os transporta.” (2.9.3, p.188)

“Ora, se a doutrina do evangelho é espiritual e abre acesso à posse da vida incorruptível, não pensemos que aqueles a quem fora ele prometido e anunciado, tenham descartado e negligenciado o cuidado da alma, e tenham se embotado na busca dos prazeres do corpo, como se fossem animais brutos.” (idem)

Assim, os cristãos não devem cair no erro de pensar que existe diferença entre a esperança prometida aos patriarcas e a nós. Todos aguardamos uma herança divina, e não um mundo de prazeres e bênçãos meramente materiais. Não devemos ser gnósticos e renegar a criação, porém também precisamos cuidar para que nosso coração não esteja neste mundo caído, mas nos novos céus e nova terra.

O quarto mandamento [ 2.8.28-30 ]

Lembra-te do dia do sábado, para o santificar. Seis dias trabalharás, e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o sábado do SENHOR teu Deus; não farás nenhuma obra. (Êxodo 20.8-10a)

O quarto mandamento guarda características diferentes, por sua natureza também cerimonial, o que leva Calvino a dedicar algumas páginas a mais à ordenança do sábado. O reformador entende que há aqui uma ordenança prefigurativa, com muitos aspectos abolidos com a vinda de Jesus. Ele apresenta três funções principais neste mandamento.

Primeira, pois o celeste Legislador quis que sob o descanso do dia sétimo prefigurasse ao povo de Israel um repouso espiritual, pelo qual devem os fiéis descansar de suas próprias atividades para que deixem Deus neles operar. Segunda, quis ele que um dia fosse estabelecido no qual se reunissem para ouvir a lei e realizar os atos de culto, ou, pelo menos, o qual consagrassem particularmente à meditação de suas obras, de sorte que, por esta rememoração, fossem exercitados à piedade. Terceira, ordenou um dia de repouso no qual se concedesse aos servos e aos que vivem sob o domínio de outros para que tivessem alguma relaxação de seu labor.” (2.8.28, p.54, grifos meu)

Sobre o primeiro sentido, Calvino chama a atenção para o fato do sábado ser um mandamento enfatizado rigidamente por Deus. Parece haver um sentido de dignidade maior nele que em outros mandamentos, especialmente por conta de seu sentido tipológico. Em certo sentido, ele é a manifestação da licenciosidade do antigo Israel.

“Com efeito, de quase nenhum mandamento mais severamente o Senhor exige obediência. Quando, nos profetas, quer dar a entender que toda a religião está subvertida, queixa-se Deus de que seus sábados foram profanados, violados, não observados, não santificados, como se, posta de lado esta deferência, nada mais restasse em que pudesse ser honrado [Is 56.2; Jr 17.21-23, 27; Ez 20.12, 13; 22.8; 23.38].” (2.8.29, p.154)

Calvino nota que o sábado é um símbolo do senhorio de Deus sobre nossas vidas, quando abrimos mão de nossa vontade por amor ao Senhor. Repousamos de nossas preocupações e desejos para ganhar algo muito maior.

“Se nossa santificação se patenteia na mortificação da própria vontade, então mui adequada correspondência se oferece do sinal externo com a própria realidade interior. Importa que nos desativemos totalmente, para que Deus opere em nós, abrindo mão de nossa vontade, resignando o coração, de seus apetites abdicando toda a carne. Enfim, impõe-se abster-nos de todas as atividades de nosso próprio entendimento, para que, tendo a Deus operando em nós [Hb 13.21], nele descansemos, como também o ensina o Apóstolo [Hb 4.19].” (2.8.29, p.155)

Além disso, o reformador também chama atenção para o sentido do sábado que aponta para o descanso eterno dos filhos de Deus. Era necessário guardar sábado pós sábado, a fim de relembrar o Dia em que viveremos eternamente dedicados a Deus.

“O Senhor assim indicou que o sábado nunca haverá de ser absoluto até que tenha chegado o último dia… Portanto, pode parecer que, mediante o sétimo dia, o Senhor tenha delineado a seu povo a perfeição futura de seu sábado no Último Dia, a fim de que, pela incessante meditação do sábado, a esta perfeição aspirasse por toda a vida.” (2.8.30, p.155)

A Lei Cerimonial [ 2.7.16-17 ]

Existe, no entanto, uma porção da Lei que pode se considerar abolida – as cerimônias. Calvino, porém, entende que essas cerimônias não devem ser praticadas, mas que são usadas por nós para ver e entender melhor a glória de Cristo.

“Ora, assim como ao povo antigo teriam as cerimônias oferecido um espetáculo vazio, salvo se nelas fosse revelado o poder da morte e ressurreição de Cristo, assim também, se elas não cessassem, hoje não seria possível discernir a que propósito foram instituídas.” (2.7.16, p.126)

“Vemos, pois, que em seu cancelamento refulge melhor a verdade do que se continuassem tipificando a Cristo, embora de longe e como que por trás de um véu, o qual já apareceu concretamente. Por isso também, na morte de Cristo, o véu do templo se rasgou em duas partes [Mt 27.51], porque já era vinda à luz a imagem viva e expressa dos bens celestes, que foi iniciada apenas em delineamentos obscuros, como fala o autor da Epístola aos Hebreus [10.1].” (idem)

Assim, esse aspecto da Lei também nos serve de interesse, porém não deve ser colocado em prática, pois isso seria desprezar o caráter definitivo e universal da revelação em Cristo. O erro de muitas igrejas atuais e seus judaizantes modernos está justamente nessa atitude leviana a respeito dos costumes e propósitos da Lei. Calvino entende que as cerimônias procuravam muito mais a confissão do povo, mas não tinham o poder de expiar o pecado, pois isto só está em Cristo.

“Com justiça, portanto, o Apóstolo chama aos ritos e cerimônias veterotestamentários ‘títulos de dívida’ contrários aos que os observavam, uma vez que através deles atestavam abertamente sua condenação e impureza. Nem a isto se contrapõe o fato de que eles também fossem participantes conosco da mesma graça. Pois alcançaram isto em Cristo, não nas cerimônias, o que o Apóstolo naquela passagem dele distingue, porquanto, então em vigor, obscureciam sua glória.” (2.7.17, p.128)

Assim, a expressão “títulos de dívida” (Cl 2.13,14), para Calvino, representava as confissões de pecado (ou seja, de dívida) que os judeus deveriam fazer nas cerimônias mosaicas. Esses títulos só foram cancelados quando Jesus pagou por eles, demonstrando a ineficácia da Lei Cerimonial para salvar. Infelizmente, muitas igrejas se esquecem disso hoje, e fazem seus seguidores temerem maldições e realizarem celebrações judaicas. Isto é negar o poder da Cruz do Senhor. Que Deus nos guarde desse erro!

“Como quisessem os falsos apóstolos de novo sujeitar-lhes a Igreja Cristã, Paulo, não sem causa, reinvestigando-lhes mais a fundo o significado, advertiu aos colossenses no que recairiam se neste modo se deixassem subjugar-se por elas. Pois, ao mesmo tempo, se privavam do benefício de Cristo, razão por que, consumada uma vez a expiação eterna, Cristo aboliu essas observâncias diárias, as quais, eficazes apenas para atestar os pecados, nada podiam fazer para cancelá-los.” (idem)

A Lei do Senhor [ 2.7.1-2 ]

Neste novo capítulo, Calvino tratará sobre a natureza e o propósito da Lei, abrindo caminho para a exposição dos mandamentos, que se dará no capítulo VIII. Nesta primeira seção, o reformador se preocupa em afirmar a Lei como parte da ação redentora de Deus sobre os homens. A Nova Aliança não é uma ruptura da Antiga, mas a continuação da obra do Senhor na vida de seu povo.

“A lei foi acrescentada cerca de quatrocentos anos após a morte de Abraão não para afastar de Cristo o povo eleito; pelo contrário, para que mantivesse as mentes suspensas até sua vinda, até mesmo lhe acendesse o desejo e na expectação os firmasse, para que não esmorecessem por uma demora mais longa.” (2.7.1, p.112)

É importante ressaltar que, nesse trecho, Calvino entende como Lei toda a religião proposta no Antigo Testamento. Para ele, essas práticas seriam meros ritos se não apontassem para o Messias. Ao invés de terem um fim em si mesma, a religião veterotestamentária deveria levar o povo a procurar seu cumprimento.

“Todo o sistema cultual da lei, se é considerado em si, nem mesmo contém sombras e figuras a que corresponda a verdade, será coisa inteiramente risível.” (idem)

“Em vão é ensinada a justiça pelos mandamentos até que Cristo a confira, tanto por graciosa
imputação, quanto pelo Espírito de regeneração. Pelo que, com justiça, Paulo chama a Cristo o cumprimento ou fim da lei, porquanto de nada valeria sabermos o que Deus exige de nós, se aos que se esforçam e estão oprimidos sob seu jugo e fardo intolerável Cristo não os socorresse.”
(2.7.2, p.114)

Além disso, a aliança do Senhor com Davi também serve como espelho daquela que seria a Aliança definitiva entre Deus e seu povo escolhido.

“O reino que foi, afinal, estabelecido na família de Davi é parte da lei e está contido sob a ministração de Moisés. Donde se segue que, tanto em toda a linhagem levítica, quanto nos pósteros de Davi, Cristo fora posto diante dos olhos do povo antigo como que diante de um duplo espelho.” (2.7.2, p.113)

Assim, a Lei em si mesma não é algo ruim. Por vezes, Paulo utiliza a expressão como antagônica à graça. No entanto, isto ele faz quando enfrenta a distorção provocada pelos mestres de sua época, que tentavam alcançar a reconciliação com Deus por meio de suas obras. Para o Apóstolo (e para o reformador) a Lei nos é útil, assim como foi útil enquanto guia do antigo Israel.

“Os judeus foram mantidos como que sob a custódia de um “pedagogo” até que viesse a semente a cujo favor a promessa fora dada [G1 3.24]. Ora, uma vez que Cristo ainda não se dera a conhecer intimamente, foram eles semelhantes a crianças, cuja insuficiência não podia ainda suportar o pleno conhecimento das coisas celestes.” (2.7.2, p.113s)

Que nos dediquemos a estudar e meditar na Lei do Senhor. Que ela não seja desvalorizada mas amada e guardada em nossos corações.

A necessidade do Mediador [ 2.6.3-4 ]

“Ora, ainda que, em tempos idos, muitos se tenham gloriado de adorar o nome supremo, e Artífice do céu e da terra, entretanto uma vez, que não tinham nenhum Mediador, não pôde acontecer que, de fato, degustassem a misericórdia de Deus e fossem assim persuadidos de que ele era seu Pai. Portanto, porque não se atinham ao Cabeça, isto é, a Cristo, evanescido foi entre eles o conhecimento de Deus, donde também resultou que, tombados afinal em crassas e repelentes superstições, pusessem à mostra sua ignorância.” (2.6.4, p.111)

A idéia de que o interesse de alguém por Deus implica em sua salvação é algo ainda presente hoje. Muitos declaram amar e confiar num Criador, mas poucos são aqueles que vivem conforme a vontade dele. Por que isso acontece? Essas pessoas seguem um ídolo por não conhecerem aquele que revela o Pai.

“O primeiro passo para a piedade é reconhecer que Deus nos é o Pai, para que nos proteja, governe e sustente, até que nos congregue na eterna herança de seu reino. Daqui se faz patente o que dissemos há pouco: à parte de Cristo não subsiste o conhecimento salvífico de Deus, e por isso desde o princípio do mundo ter sido ele posto diante de todos os eleitos, para quem voltassem os olhos e em quem descansassem sua confiança.” (2.6.4, p.110s)

Isto também é válido para o povo antigo, ainda que eles vivessem em um período de sombras, sem a revelação completa de nosso Deus. Jesus é o cumprimento daquele pacto feito muito tempo antes de sua vinda.

“‘Eis a virgem conceberá e dará à luz um filho’ [Is 7.14], indicando indiretamente que, embora, por sua depravação, o rei e o povo rejeitassem a promessa que lhes era oferecida, como se de propósito se lançassem a abalar a fidedignidade de Deus, no entanto o Pacto não haveria de vir a ser nulo – o Redentor viria a seu tempo.” (2.6.3, p.109)

Assim, os cristãos devem se lembrar sempre dessa verdade. Sem Cristo, não há salvação, não há reconciliação e não há nem mesmo um relacionamento com Deus. Numa era de frouxidão doutrinária, o maior perigo para igreja pode ser esquecer da necessidade de um Mediador. Que Deus nos use para falar dele!

“‘Credes em Deus; também crede em mim’, diz ele [Jo 14.1]. Pois, falando apropriadamente, embora a fé se eleve de Cristo ao Pai, deixa ele claro, no entanto, que, embora se apóie firme em Deus, ela aos poucos se desvanece, a não ser que na condição de Mediador intervenha esse mesmo que a retém em sólida firmeza.” (2.6.4, p.110)

A figura do Mediador [ 2.6.1-2 ]

Após vários capítulos explanando a natureza da Queda do homem, João Calvino passa do problema à solução. Ainda que não adentre muito no assunto, as próximas seções ele falará sobre a necessidade de um mediador entre o homem pecador e Deus. Este mediador só pode ser Cristo, e a idéia de que todas as religiões nos aproximam de Deus é falsa. Assim, somente os judeus encontraram a verdadeira piedade, uma vez que esperavam o Messias.

“Com estas palavras [Jo 4.22] não só condena como falsas a todas e quaisquer religiões dos povos, mas assinala também a razão: porque, sob a lei, somente ao povo eleito se prometeu o Redentor. Donde se segue que jamais culto algum agradou a Deus a não ser aquele que contemplasse a Cristo.” (2.6.1, p.106)

Essa crença em Cristo está clara no Antigo Testamento, onde nos precursores do Messias (os ungidos do Senhor), Israel se estabeleceu fundamentado na mesma fé que a Igreja. Tanto as promessas a Abraão, a Lei de Moisés e o reinado de Davi apontam para a figura do Mediador.

“Está patente, portanto, em uma única cabeça foi primordialmente computada a semente de Abraão, nem foi manifesta a salvação prometida, até que essa semente viesse a Cristo, cujo ofício é ajuntar as coisas que foram dispersas. Portanto, da graça do Mediador dependia a adoção original do povo eleito. O que, embora em Moisés ainda não se exprimisse em termos claros, contudo se faz bastante patente ter sido geralmente conhecido de todos os piedosos.” (2.6.2, p.107)

“Nem de fato há dúvida de que o Pai celeste quisesse que se contemple em Davi e em seus pósteros a imagem viva de Cristo. Por isso, desejando exortar os piedosos ao temor de Deus, Davi manda beijar ao Filho [Sl 2.12], ao que de fato responde esta declaração do evangelho: ‘Quem não honra ao Filho, não honra ao Pai’ [Jo 5.23].” (idem)

Portanto, não existe diferença radical entre o povo da Antiga Aliança e o da Nova Aliança. Ainda que existam grandes diferenças sobre a maneira como o Senhor governava seu povo e sua religião, a salvação viria somente pela graça, pela fé na figura do Ungido. Que tenhamos isso em mente enquanto proseguirmos nesse estudo. Glória a Deus por seu Messias!

“Sem dúvida que depois da queda do primeiro homem nenhum conhecimento de Deus valeu para a salvação, sem o Mediador, pois que Cristo, quando diz que a vida eterna é esta: conhecer ao Pai como o único Deus verdadeiro e a Jesus Cristo, a quem ele enviou [Jo 17.3], fala não apenas de seu tempo, pelo contrário compreende a todos os séculos.” (2.6.1, p.106)