A dura vida dos fiéis [ 2.10.10-12 ]

A análise de Calvino das vidas dos personagems do Antigo Testamento mereceria um post para cada um deles. Como, porém, temos as próprias Institutas, seria mais proveitoso cada irmão ler esses trechos que eu apenas reproduzir aqui. O reformador faz esse resumo das vidas de Adão, Noé, Abraão, Isaque e Jacó, e outros, para demonstrar que dificilmente podemos considerar as bênçãos que receberam nessa vida como a bem-aventurança prometida por Deus.

“Se porventura os próprios fiéis também foram ou não assim instruídos pelo Senhor para que sentissem haver para eles, em outra parte, uma vida melhor, e, relegada a um plano inferior a existência terrena, tivessem em consideração essa outra. Em primeiro lugar, a condição do viver que lhes fora divinamente imposta era um exercício contínuo em virtude do qual fossem lembrados de que eram de todos os mais miseráveis, caso fossem felizes apenas nesta vida.” (2.10.10, p.193)

Essas seções são um remédio para irmãos impressionados com a teologia da prosperidade, uma vez que geralmente personagens como Noé e Jacó são usados como exemplo de vidas cheias de riqueza. É evidente que eles receberam inúmeras bênçãos, mas também passaram por grandes provações, demonstrando que só têm verdadeira herança nos céus.

Num belíssimo capítulo, Calvino mostra como a vida de Abraão trouxe diversas dores: vagar por terra estranha; prostituir a esposa, algo “mais amargo que muitas mortes” (2.10.11, p.194); separar-se de Ló, dor “como se lhe amputasse um de seus próprios membros” (idem) e outras provações, como a ordem de sacrificar o próprio filho.

“Abraão foi a tal ponto acossado e atribulado em todo o decurso da vida, que, se alguém porventura queira pintar numa tela o exemplo de uma vida calamitosa, certamente não achará nada mais apropriado. Nem objete alguém que ele não foi totalmente desafortunado, uma vez que, afinal, emergira venturosamente de tantas e tão grandes tempestades. Pois não diremos que leva uma vida ditosa aquele que moureje laboriosamente por infinitas dificuldades ao longo do tempo, mas aquele que desfrute tranqüilamente dos bens presentes, sem a sensação dos males.” (2.10.11, p.195)

Da mesma maneira que Abraão, Calvino mostra as dificuldades de Adão pós-Queda, de Noé vivendo “quase atolado nos estrumes de animais” (2.10.10. p.193), Isaque e Jacó. O reformador lembra que o próprio neto de Abraão chama seus dias de maus e breves (Gn 47.9), demonstrando que a esperança dele estava na vida eterna.

“Quem declara haver atravessado a vida por entre contínuas adversidades, nega, evidentemente, haver usufruído essa prosperidade que lhe havia sido prometida pelo Senhor. Logo, ou Jacó era um mau e ingrato apreciador do favor de Deus, ou, com verdade, confessava publicamente haver sido desventurado sobre a terra. Se esta afirmação foi verdadeira, segue-se que ele não teve sua esperança fixa nas coisas terrenas.” (2.10.12, p.196)

Que esse estudo nos ajude a ter uma mentalidade semelhante, retirando nossa esperança final das coisas terrenas e colocando-a no Senhor.

Conselhos matrimoniais [ 2.8.43-44 ]

Como foi dito na seção anterior, nem todos têm o dom do celibato, portanto é necessário que o cristão se case. Calvino entende que o homem que não se casa certamente perderá a batalha contra sua própria carne, e isso ele enfatiza diversas vezes. O jovem cristão, em especial, deve guardar essa verdade e não fugir daquilo que Deus nos propõe como igreja.

“Ademais, que aquele que não se pode conter, contraia matrimônio no Senhor [1Co 7.9]. Significa, assim, em primeiro lugar, que a maior parte dos homens está sujeita ao vício da incontinência; em seguida, dentre esses que estão assim sujeitos, a nenhum excetua a quem não ordene refugiar-se nesse único remédio com o qual se pode ir de encontro à impudência” (2.8.43, p.165)

Finalizando a análise desse mandamento, o teólogo de Genebra também apresenta algumas dicas para aqueles que já estão casados. Cabem aos cônjuges manterem sua relação de maneira honrosa e sóbria, sem excessos. Citando Ambrósio, Calvino explica que o marido que “na relação conjugal não tem nenhuma preocupação de decoro ou honorabilidade chamou de adúltero para com a própria esposa” (2.8.44, p.166). Não é porque está casado que alguém não pode cair no vício da luxúria.

“Assim, enquanto proíbe a prática de fornicação, ao mesmo tempo veda o atentar contra a pudicícia alheia, seja pelo atavio lascivo do corpo, seja por gestos obscenos, seja por palavras impuras. Pois, um filósofo chamado Arquelau disse não sem razão a um jovem vestido muitíssimo voluptuosa e sensualmente, que pouco importava em que parte do corpo mostrasse sua desonestidade. Eu aplico isso a Deus, que detesta toda impureza em qualquer parte, seja do corpo, seja da alma.” (idem)

Vemos que a questão de usar trajes apropriados tem muito a ver com este mandamento. Membros da igreja muitas vezes pensam que trata-se apenas de um tradicionalismo antiquado, mas o cristão que se veste de maneira indecente está levando muitas vezes o outro ao pecado. Calvino também critica o linguajar e pensamento imorais, e todos os tipos de costumes que envolvem esse tipo de impureza.

“Se o Senhor requer de nós a pudicícia, então ele condena tudo quanto lhe seja contrário. Conseqüentemente, se aspiras à obediência, então que não arda interiormente teu coração com cobiça depravada, nem os olhos te incitem a desejos corruptos, nem teu corpo seja ataviado ao ponto de despudoramento, nem, com palavras torpes, a mente seduza tua língua a pensamentos semelhantes, nem te inflame o apetite desenfreado com sua imoderação.”(idem)

Devemos manter nossas casas limpas de qualquer tipo de impureza. Não é conveniente um casal cristão que manifeste sua sexualidade para outros. Devemos tomar cuidado nessa área.

O sétimo mandamento [ 2.8.41-42 ]

Não cometerás adultério. (Êxodo 20.14)

O casamento, instituição tão desprezada atualmente (inclusive em igrejas), é a grande base para este mandamento. Não apenas a traição conjugal está em vista aqui, mas toda forma de relacionamento sexual fora do matrimônio. Deus ama a pureza, e seus filhos devem amá-la também.

“A suma, portanto, é que não nos poluamos com qualquer imundície ou libidinosa incontinência. A isto corresponde o preceito afirmativo: que dirijamos todas as partes de nossa vida casta e continentemente. De uma maneira mais expressa proíbe a fornicação, à qual tende toda sorte de luxúria, a fim de que, pela natureza e desonestidade que consigo leva – que é mais acentuada e palpável nela, enquanto desonra o próprio corpo –, nos incite a detestar todo gênero de luxúria.” (2.8.41, p.163)

Calvino entende que o homem não foi criado para viver sozinho. Por isso, existe o dom que Deus lhe entregou – o matrimônio – que, após a queda, é mais importante ainda para evitarmos a luxúria. Hoje vemos uma quantidade imensa de “teólogos” defendendo o sexo fora do casamento (e isto inclui o antes do casamento), algo que nunca foi defendido pela sã doutrina.

“De acordo com nossa necessidade, o Senhor nos socorreu quando instituiu o matrimônio, cuja união, consumada por sua autoridade, também santificou com sua bênção. Donde se deduz que diante dele não só é maldita toda e qualquer outra união fora do matrimônio, como também essa própria união conjugal foi ordenada como um remédio indispensável para que não nos atiremos a desenfreada concupiscência.” (2.8.41, p.163s)

Evidentemente, nem todos se casam. O problema é que muitos não se dão ao matrimônio, mas também não podem suportar os desejos de seus corpos. O cristão precisa entender que, na maioria dos casos, para vencer essa batalha, é necessário casar-se.

“A virgindade, reconheço-o, não é virtude que se despreze. Entretanto, visto que foi negada a uns e a outros concedida apenas por um tempo, aqueles que são atormentados pela incontinência e não podem levar a melhor no embate, recolham-se ao refúgio do matrimônio, para que cultivem assim a castidade na medida de sua vocação.” (2.8.42, p.164)

Assim, aqueles que defendem a idéia de um celibato possível para todos os membros da igreja estão enganados. Não se pode impôr aos irmãos jugo que eles certamente não suportarão. Por outro lado, a igreja deve reconhecer que existe esse dom no meio dela e tratar respeitosamente aqueles que receberam essa graça especial.

“A continência é um dom especial de Deus e do gênero daqueles que se conferem não indiscriminadamente, nem ao corpo da Igreja como um todo, mas a poucos de seus membros, afirma o Senhor… nem todos são capazes disso, mas somente aqueles a quem tenha sido especialmente dado do céu. Donde se conclui: ‘Quem o pode aceitar, aceite-o.’ Paulo afirma-o ainda mais explicitamente, quando escreve que cada um tem de Deus seu próprio dom, um de uma forma, outro, porém, de outra [1Co 7.7].” (idem)