Dons do Espírito [ 2.2.15-16 ]

Uma crença popularizada no meio evangélico diz respeito aos dons espirituais, isto é, capacidades especiais recebidas pelos crentes regenerados pelo Espírito Santo. Ou seja, são dádivas dadas somente pelos crentes, uma vez que estes tornaram-se espirituais. Não nego que a doutrina seja bíblica, porém existe uma certa “gnosticalização” do conceito, ao menosprezar outros dons que também são dados por Deus e que, portanto, podem ser considerados espirituais. Para Calvino, entre eles, está a razão humana.

“Se reputarmos ser o Espírito de Deus a fonte única da verdade, a própria verdade, onde quer que ela apareça, não a rejeitaremos, nem a desprezaremos, a menos que queiramos ser insultuosos para com o Espírito de Deus. Ora, nem se menosprezam os dons do Espírito sem desprezar- se e afrontar-se ao próprio Espírito.” (2.2.15, p.43)

A seguir o reformador lista as diversas conquistas humanas, em variadas áreas como filosofia, direito, medicina, matemática, entre outras. Tudo isso é fruto do dom de Deus e não deve ser rejeitado.

“Portanto, se esses homens, a quem a Escritura chama naturais [1Co 2.14], que não tinham outra ajuda além da luz da natureza, foram tão engenhosos na inteligência das coisas deste mundo, tais exemplos devem ensinar-nos quantos são os dons e graças que o Senhor tem deixado à natureza humana, mesmo depois de ser despojada do verdadeiro e sumo bem.” (idem)

Claro que há falhas na razão humana, mas como foi dito, aquilo que é verdade não pode ser ignorado. Calvino considera isto como um pecado, pois rejeita-se uma dádiva do Espírito. Ele lembra que isso não significa que o Espírito habita nos ímpios só porque eles têm dons, mas que é ele quem sustenta e vivifica tudo o que há. Negar isso é cair em grave erro.

“Pois se o Senhor nos quis assim que fôssemos ajudados pela obra e ministério dos ímpios na física, na dialética, na matemática e nas demais áreas do saber, façamos uso delas, para que não soframos o justo castigo de nossa displicência, caso negligenciemos as dádivas de Deus nelas graciosamente oferecidas.” (2.2.16, p.44)

Essas maravilhosas habilidades legadas por Deus não devem se tornar motivo de orgulho. O homem continua em condição miserável mesmo com tantos avanços no saber. Peçamos a Deus essa consciência.

“Não julgue ser o homem sumamente ditoso, quando se lhe concede tão grande poder de compreender a verdade sob os elementos deste mundo, deve-se, ao mesmo tempo, apreender que não só toda esta capacidade de compreensão, como também a compreensão que daí resulta, é coisa sem consistência e sem estabilidade diante de Deus, quando não subjaz nela o sólido fundamento da verdade… após a queda, foram subtraídos ao homem os dons graciosos, assim também foram corrompidos estes dons naturais que lhe restavam.” (idem)

O teatro da glória de Deus [ 1.5.1-2 ]

Um dos maiores debates entre apologetas e teólogos diz respeito ao conhecimento que o homem alcança por meio da revelação natural de Deus. Quando Paulo fala sobre homens que poderiam dar graças ao Criador, mas foram rebeldes (Rm 1.18-32) a que ele se refere?

Para alguns, é possível chegar-se a um conhecimento verdadeiro do Criador apenas por meio do estudo e contemplação da Criação – podemos aprender sobre sua sabedoria, sobre sua bondade, etc. Para outros, esse conhecimento é possível, porém devido à semente divina colocada na mente do homem. Sem ela, o homem contemplaria as coisas, mas jamais poderia chegar ao conceito de Deus. Existe ainda um grupo de estudiosos que acreditam que esse conhecimento adquirido por meio da observação da natureza pode levar alguém a ser salvo.

“Não só implantou Deus na mente humana essa semente de religião a que nos temos referido, mas ainda de tal modo se revelou em toda a obra da criação do mundo, e cada dia nitidamente se manifesta, que eles não podem abrir os olhos sem serem forçados a contemplá-lo.” (1.5.1, p.55)

Para Calvino, a semente divina é complementada pela manifestação da sabedoria e poder divinos na Criação. Porém, como já foi dito antes, este conhecimento não leva ninguém ao arrependimento e à salvação, mas deixa os homens indesculpáveis diante de Deus.

“Em primeiro lugar, para todo e qualquer rumo a que dirijas os olhos, nenhum recanto há do mundo, por mínimo que seja, em que não se vejam brilhar ao menos algumas centelhas de sua glória.” (1.5.1, p.55)

A expressão calvinista de que a Criação é o “formosíssimo teatro” da glória de Deus (1.14.20, p.175) é conhecida nos diversos ramos do Cristianismo. Pela internet encontramos pentecostais e católicos citando isso, mesmo sem saber seu autor. Realmente, para o reformador, aqueles que se aventuram em ciências como astronomia e medicina podem descobrir um pouco mais sobre nosso Criador.

“De fato, quantos nessas artes liberais à farta se abeberaram, ou mesmo apenas de leve as experimentaram, ajudados por sua contribuição, são levados muito mais longe na penetração dos segredos da divina sabedoria… Como, ao serem essas coisas perscrutadas, mais explicitamente se projeta a providência divina, assim, para contemplar-lhe a glória, impõe-se à alma que se eleve um tanto mais alto.” (1.5.2, p.56)

A colaboração do pensamento protestante ao desenvolvimento da ciência moderna é um fato que apenas os mais céticos (leia-se: naturalistas) negam, e vemos aqui Calvino sem temer qualquer constrangimento que a pesquisa e o estudo poderiam trazer. No entanto, aqueles que não são cientistas também podem aprender por meio da observação das coisas criadas.

“Nem mesmo a pessoa mais simples e as de cultura mais elementar, que foram ensinadas só pelo recurso dos olhos, não podem ignorar a excelência da divina arte a revelar-se profusamente nesta incontável e, além do mais, particularmente, distinta e harmoniosa variedade da milícia celestial; salta à vista que não existe ninguém a quem o Senhor não manifeste sobejamente sua sabedoria.” (1.5.2, p.56)