Nossa esperança [ 2.10.17-19 ]

A lição que podemos tirar dessas últimas seções é não confiarmos nos bens terrenos, nem esperar que eles nos dêem satisfação. Em certo momento Deus reunirá de maneira gloriosa céus e terra, restaurando a harmonia do universo. E ali estarão também os cristãos, recebendo bênçãos muito maiores que temos na era presente.

“Onde estará esta beleza e graça dos fiéis, senão quando a face deste mundo tiver sido mudada pela manifestação do reino de Deus? Quando os olhos convergirem para essa eternidade, desprezada a momentânea agrura das calamidades presentes, confiantemente irrompam nestas palavras: ‘Não permitirás jamais que pereça o justo, mas os ímpios tu os precipitarás no poço da perdição’ [Sl 55.22, 23].” (2.10.17, p. 200)

Não devemos desfalecer se temos essa esperança, muito menos invejar o ímpio. O sofrimento do crente nesta vida é muito pequeno se comparado à alegria que ele terá no futuro. Devemos orar pelos ímpios para que eles percebam que o “caminho largo” propõe uma alegria falsa e efêmera. Tenhamos como exemplo os santos do Antigo Testamento.

“Visto que contemplavam o céu, sabiam que os santos são atormentados pelo Senhor ‘com a cruz’ por apenas um momento; que as misericórdias com que são cumulados são perpétuas. Por outro lado, anteviam a ruína, ruína eterna e que jamais haverá de findar-se, dos ímpios, os quais, como em um sonho, haveriam de ser felizes só por um dia.” (2.10.18, p.201)

Calvino, por fim, comenta alguns textos bíblicos que tratam da vida futura, começando por Jó 19.25-27, onde o protagonista desse livro fala de uma ressurreição porvir. Para o reformador, não há qualquer motivo para não crermos que o texto não ensina a mesma verdade que os cristãos devem crer.

“Jó não teria chegado a esta amplitude de esperança, se em pensamento tivesse se deixado ficar na terra. Portanto, há que convir em que ele fixou seus olhos na imortalidade futura, pois compreendeu que, inclusive na sepultura, seu Redentor se preocupara com ele; já que a morte é o supremo desespero para os que têm seus pensamentos exclusivamente neste mundo, este não podia tirar-lhe a esperança.” (2.10.19, p.202)

Que também guardemos essa esperança em nossos corações.

O magnífico palácio [ 1.14.20-22 ]

Para esta seção, é importante ter em mente a atitude proposta por Calvino para estudar a Criação de Deus.

“Portanto, para usar de brevidade, saibam os leitores então terem aprendido, em verdadeira fé, quem é Deus o Criador do céu e da terra, se, em primeiro lugar, seguirem esta regra universal: que não deixem de atentar, seja por ingrata irreflexão, seja por ingrato esquecimento, para os esplendentes primores que Deus exibe em suas criaturas; e, em segundo lugar, assim aprendam a aplicar essas coisas a si próprios, para que se lhes apeguem profundamente ao coração.” (1.14.21, p.176)

Isto é, para o reformador, devemos observar as coisas criadas contemplando as maravilhas do poder de Deus nela, e não apenas reconhecendo isso, mas aplicando ao nosso coração, a fim de agirmos em piedade e adoração. Nesse pequeno trecho, onde Calvino volta-se rapidamente ao tema da Criação outra vez, vemos algumas das mais belas passagens escritas pelo teólogo de Genebra, e podemos perceber que ele coloca em prática esses dois princípios citados acima. Comecemos com seu breve resumo da doutrina da Criação.

“Deus criou do nada o céu e a terra; daqui produziu a todo gênero, animais e coisas inanimadas; distinguiu em admirável seqüência incontável variedade de coisas; a cada gênero revestiu de sua natureza específica; designou funções, atribuiu regiões e moradas; e, visto que todas as coisas são susceptíveis à corrupção, contudo providenciou para que, preservadas, se conservem as espécies, uma a uma, até o dia final… Igualmente adornou o céu e a terra com uma abundância perfeitíssima, e a tudo com diversidade e formosura como se fosse um grande e magnífico palácio admiravelmente mobiliado.” (1.14.20, p.175)

É nesse belo palácio que o homem foi colocado, com tudo o que é necessário para ele à disposição. Algo que nos deve encher de alegria e gratidão. Ao contrário do homem moderno, que conhece tantas maravilhas do universo, mas é incapaz de glorificar a Deus, Calvino, com o pouco que sabia (se comparado a nós) se enche de júbilo.

“De quão grande ingratidão haveria de ser agora duvidarmos que esse Pai boníssimo tenha cuidado de nós, quando vemos ter sido solícito a nosso respeito antes mesmo que nascêssemos! Quão ímpio seria tremer de desconfiança de que, em algum momento, sua benevolência nos falte na necessidade, quando vemos ser-nos exibido, com sua prodigalidade, tudo o que é bom, quando ainda nem éramos nascidos!” (1.14.22, p.177)

Que esse sentimento também esteja presente em nós. Por mais acostumados que estejamos com as maravilhas da Criação, devemos ensinar nossos corações a seguirem aqueles dois princípios que abrem esse post. Certamente essa experiência fará nossa vida cada vez mais contente, e nosso relacionamento com Deus cada dia mais vivo. Ao mesmo tempo, como Calvino, perceberemos que as coisas criadas demonstram aquilo que a Bíblia já ensina – que os atributos de Deus são maravilhosos e, muitas vezes, indizíveis.

“De fato, se quisermos apresentar, como lhe convém à dignidade, quanto refulja na estruturação do mundo a inestimável sabedoria, poder, justiça e bondade de Deus, não estará à altura da magnitude de empresa de tão grande proporção nenhum esplendor nem ornato de linguagem.” (1.14.21, p.176)

Contra os maniqueus [ 1.14.3 ]

Os anjos sempre foram personagens bíblicos que atrairam especulações e curiosidades de muitos. Ao continuar seu alerta, Calvino novamente nos diz para não irmos além do que se deve saber. Por exemplo, se Moisés não nos conta quando os anjos foram criados, isso não nega aquilo que sabemos – que somente Deus é incriado.

De fato, presos a especulações, muitos acabam dando a anjos honra que não são deles. Outros se interessam tanto pelo assunto que acabam menosprezando as confiáveis informações da Palavra de Deus.

“A preeminência da natureza angélica de tal modo tem obcecado a mente de muitos, que chegaram a pensar que se lhes faz agravo, se fossem, por assim dizer, forçados em sua condição de criaturas a sujeitar-se à autoridade do Deus único. E por isso chegaram a atribuir-lhes certa divindade” (1.14.3, p.160)

Porém, antes de tratar diretamente de angelologia, o reformador prefere discutir o pensamento de Mani – criador da seita dos maniqueus, de onde vem o termo “maniqueísta” – “que inventou para si dois princípios absolutos: Deus e o Diabo”(idem). Isto é, esse falso mestre acreditava num dualismo absoluto entre bem e mal, como se tanto Deus quanto o Diabo fossem detentores de poder e natureza semelhantes, como se Deus tivesse criado o que é bom, e seu inimigo aquilo que é mal. Calvino combate duramente essa idéia idólatra, que se parece muito com a idéia que alguns tem de “batalha espiritual” atualmente.

“Ora, uma vez que, por assim dizer, nada seja mais próprio de Deus que a eternidade, e a existência própria, aqueles que atribuem isto ao Diabo porventura não estão, de certo modo, a adorná-lo com o título da divindade? Onde, pois, a onipotência de Deus, se ao Diabo se concede tal poder que, contra a vontade de Deus e a despeito de sua oposição, leve a bom termo tudo quanto deseja?” (idem)

O reformador sustenta que o Diabo não tem o poder de fazer aquilo que quer sem a permissão do Criador. Além disso, o Diabo nada criou, sendo tudo obra de Deus. Temos a seguir uma declaração marcante da teologia calvinista – a ênfase na bondade das coisas criadas. Para Calvino, a Criação por si só não é algo ruim, mas apenas está afetada pelo pecado. Essa será a base para o chamado cultural do homem, que ele deve ensinar mais adiante.

“O único fundamento que os maniqueus têm – não ser próprio atribuir-se a um Deus bom a criação de qualquer coisa má –, isto nem de leve fere a fé ortodoxa, a qual não admite que no universo inteiro haja alguma natureza má, porquanto nem a depravação e malignidade, seja do homem, seja do Diabo, ou os pecados que daí nascem, provêm da natureza, mas da corrupção da natureza; nem de início há absolutamente nada que exista em que Deus não haja estampado o selo, tanto de sua sabedoria, quanto de sua justiça.” (idem)

Um novo alerta [ 1.14.1-2 ]

Terminado o longo tratado a respeito do verdadeiro Deus e do puro conhecimento do Criador, João Calvino agora dedica-se à própria Criação. Antes, porém ele resolve novamente voltar-se contra todos aqueles que desviam-se do testemunho simples da Escritura, perguntando questões inúteis sobre Deus. Ele cita, por exemplo, aqueles quer perguntam o motivo de Deus ter “demorado tanto” para criar o universo, e outros que questionam o que Deus fazia antes de criar. A resposta clássica de Agostinho é citada.

“E, judiciosamente, como em galhofa lhe perguntasse certo individuo abelhudo o que Deus estivera fazendo antes de o mundo ser criado, respondeu aquele piedoso ancião: a construir o inferno para os curiosos.” (1.14.1, p.158)

Ao invés de gastarmos tempo com especulações frívolas, o Senhor nos convida a conhecer mais a respeito dele, e de nós mesmos, através das lentes que ele mesmo preparou.

“Pois, assim como os olhos, ou toldados pela decrepitude da velhice, ou entorpecidos de outro defeito qualquer, nada percebem distintamente, a menos que sejam ajudados por óculos, de igual modo nossa insuficiência é tal que, a não ser que a Escritura nos dirija na busca de Deus, de pronto nos extraviamos totalmente.” (idem)

Calvino nos lembra que aquilo que Deus nos deu, sua Criação, já nos tomará muito de nossa atenção, o que significa que não há necessidade de nos determos naquilo que não nos foi revelado. Assim como há um dia de descanso, a mente deve descansar sobre certos assuntos, e ocupar-se somente com aquilo que é importante.
“Aqui também, até que, sujeita à obediência da fé, aprende a cultivar esse repouso a que nos convida a santificação do sétimo dia, vocifera a razão humana, como se tais passos na obra da criação fossem inconsistentes com o poder de Deus.” (1.14.2, p.159)

Por fim, o reformador inicia o processo de analisar a Criação, focando mais uma vez informações que nos ajude a reconhecer o Deus verdadeiro como um Pai bondoso. Enfim, o teólogo de Genebra quer nos levar à adoração. Que sigamos seu exemplo no estudo da Palavra.

“Mas é preciso considerar diligentemente na própria ordem das coisas criadas o amor paternal de Deus para com o gênero humano, visto que não criou Adão antes que enchesse o mundo de toda abundância de coisas boas… assumindo o cuidado de um chefe de família provido e zeloso, mostrou Deus sua mirífica bondade para conosco.” (idem)

(Re)Conhecendo Deus na Criação [ 1.5.9-10 ]

Depois de nos apresentar diferentes maneiras de conhecermos ou, pelo menos, obtermos algumas informações sobre o Criador, Calvino novamente adverte que o objetivo desse estudo (repare que ele não usou a palavra “teologia” até agora) não é meramente acadêmico, mas pede uma resposta humana.

“Do que compreendemos ser esta a via mais direta de buscar a Deus e o processo mais apropriado de conhecê-lo: que não tentemos, por meio de ousada curiosidade, penetra à investigação de sua essência, a qual é antes para ser adorada do que para ser meticulosamente inquirida; ao contrário, que o contemplemos em suas obras, em virtude das quais ele se torna próximo e familiar, e de algum modo se nos comunica.” (1.5.9, p.63)

Além da intimidade com Deus, aqueles que se dedicam a este conhecimento também crescem na fé. Vemos que, para Calvino, o crescimento espiritual está vinculado ao tempo que se dedica meditando sobre o Criador.

“Conhecimento como este deve não só incitar-nos à adoração de Deus, mas ainda despertar-nos e alçar-nos à esperança da vida futura. Quando, porém, atentamos para o fato de que os exemplos que o Senhor oferece, tanto de sua clemência, quanto de sua severidade, são meramente rudimentares e incompletos, convém que reputemos, não dubiamente, que ele assim preludia coisas ainda maiores, cuja manifestação e plena exibição são deferidos à outra existência.” (1.5.10, p.64)

Isto é, quando vemos o cuidado de Deus para com seus santos e sua justa punição aos pecadores, estamos contemplando apenas um relance do que será visto na eternidade. Glória e bênçãos infinitas para os salvos, e um futuro de castigos para os réprobos. Nesse trecho, Calvino cita as sábias palavras de Santo Agostinho, que merecem atenção.

“Se agora fosse todo pecado punido por castigo público, poder-se-ia pensar que nada fica reservado ao Juízo Final. Por outro lado, se Deus não punisse agora claramente a nenhum pecado, poder-se-ia crer que não existe nenhuma providência divina.” (Cidade de Deus, Livro I, cap. 8)

Muitas vezes gastamos tanto tempo pedindo por experiências sobrenaturais que nos esquecemos que é possível aprendermos algo sobre o amor, a sabedoria e a justiça de Deus pela ordem natural de nosso Universo. Muito dos problemas que nos afligem são fruto dessa falta de busca, algo que, para Calvino, nos conduz à “verdadeira e plena felicidade” (1.5.10, p.64).

O teatro da glória de Deus [ 1.5.1-2 ]

Um dos maiores debates entre apologetas e teólogos diz respeito ao conhecimento que o homem alcança por meio da revelação natural de Deus. Quando Paulo fala sobre homens que poderiam dar graças ao Criador, mas foram rebeldes (Rm 1.18-32) a que ele se refere?

Para alguns, é possível chegar-se a um conhecimento verdadeiro do Criador apenas por meio do estudo e contemplação da Criação – podemos aprender sobre sua sabedoria, sobre sua bondade, etc. Para outros, esse conhecimento é possível, porém devido à semente divina colocada na mente do homem. Sem ela, o homem contemplaria as coisas, mas jamais poderia chegar ao conceito de Deus. Existe ainda um grupo de estudiosos que acreditam que esse conhecimento adquirido por meio da observação da natureza pode levar alguém a ser salvo.

“Não só implantou Deus na mente humana essa semente de religião a que nos temos referido, mas ainda de tal modo se revelou em toda a obra da criação do mundo, e cada dia nitidamente se manifesta, que eles não podem abrir os olhos sem serem forçados a contemplá-lo.” (1.5.1, p.55)

Para Calvino, a semente divina é complementada pela manifestação da sabedoria e poder divinos na Criação. Porém, como já foi dito antes, este conhecimento não leva ninguém ao arrependimento e à salvação, mas deixa os homens indesculpáveis diante de Deus.

“Em primeiro lugar, para todo e qualquer rumo a que dirijas os olhos, nenhum recanto há do mundo, por mínimo que seja, em que não se vejam brilhar ao menos algumas centelhas de sua glória.” (1.5.1, p.55)

A expressão calvinista de que a Criação é o “formosíssimo teatro” da glória de Deus (1.14.20, p.175) é conhecida nos diversos ramos do Cristianismo. Pela internet encontramos pentecostais e católicos citando isso, mesmo sem saber seu autor. Realmente, para o reformador, aqueles que se aventuram em ciências como astronomia e medicina podem descobrir um pouco mais sobre nosso Criador.

“De fato, quantos nessas artes liberais à farta se abeberaram, ou mesmo apenas de leve as experimentaram, ajudados por sua contribuição, são levados muito mais longe na penetração dos segredos da divina sabedoria… Como, ao serem essas coisas perscrutadas, mais explicitamente se projeta a providência divina, assim, para contemplar-lhe a glória, impõe-se à alma que se eleve um tanto mais alto.” (1.5.2, p.56)

A colaboração do pensamento protestante ao desenvolvimento da ciência moderna é um fato que apenas os mais céticos (leia-se: naturalistas) negam, e vemos aqui Calvino sem temer qualquer constrangimento que a pesquisa e o estudo poderiam trazer. No entanto, aqueles que não são cientistas também podem aprender por meio da observação das coisas criadas.

“Nem mesmo a pessoa mais simples e as de cultura mais elementar, que foram ensinadas só pelo recurso dos olhos, não podem ignorar a excelência da divina arte a revelar-se profusamente nesta incontável e, além do mais, particularmente, distinta e harmoniosa variedade da milícia celestial; salta à vista que não existe ninguém a quem o Senhor não manifeste sobejamente sua sabedoria.” (1.5.2, p.56)