A Lei Cerimonial [ 2.7.16-17 ]

Existe, no entanto, uma porção da Lei que pode se considerar abolida – as cerimônias. Calvino, porém, entende que essas cerimônias não devem ser praticadas, mas que são usadas por nós para ver e entender melhor a glória de Cristo.

“Ora, assim como ao povo antigo teriam as cerimônias oferecido um espetáculo vazio, salvo se nelas fosse revelado o poder da morte e ressurreição de Cristo, assim também, se elas não cessassem, hoje não seria possível discernir a que propósito foram instituídas.” (2.7.16, p.126)

“Vemos, pois, que em seu cancelamento refulge melhor a verdade do que se continuassem tipificando a Cristo, embora de longe e como que por trás de um véu, o qual já apareceu concretamente. Por isso também, na morte de Cristo, o véu do templo se rasgou em duas partes [Mt 27.51], porque já era vinda à luz a imagem viva e expressa dos bens celestes, que foi iniciada apenas em delineamentos obscuros, como fala o autor da Epístola aos Hebreus [10.1].” (idem)

Assim, esse aspecto da Lei também nos serve de interesse, porém não deve ser colocado em prática, pois isso seria desprezar o caráter definitivo e universal da revelação em Cristo. O erro de muitas igrejas atuais e seus judaizantes modernos está justamente nessa atitude leviana a respeito dos costumes e propósitos da Lei. Calvino entende que as cerimônias procuravam muito mais a confissão do povo, mas não tinham o poder de expiar o pecado, pois isto só está em Cristo.

“Com justiça, portanto, o Apóstolo chama aos ritos e cerimônias veterotestamentários ‘títulos de dívida’ contrários aos que os observavam, uma vez que através deles atestavam abertamente sua condenação e impureza. Nem a isto se contrapõe o fato de que eles também fossem participantes conosco da mesma graça. Pois alcançaram isto em Cristo, não nas cerimônias, o que o Apóstolo naquela passagem dele distingue, porquanto, então em vigor, obscureciam sua glória.” (2.7.17, p.128)

Assim, a expressão “títulos de dívida” (Cl 2.13,14), para Calvino, representava as confissões de pecado (ou seja, de dívida) que os judeus deveriam fazer nas cerimônias mosaicas. Esses títulos só foram cancelados quando Jesus pagou por eles, demonstrando a ineficácia da Lei Cerimonial para salvar. Infelizmente, muitas igrejas se esquecem disso hoje, e fazem seus seguidores temerem maldições e realizarem celebrações judaicas. Isto é negar o poder da Cruz do Senhor. Que Deus nos guarde desse erro!

“Como quisessem os falsos apóstolos de novo sujeitar-lhes a Igreja Cristã, Paulo, não sem causa, reinvestigando-lhes mais a fundo o significado, advertiu aos colossenses no que recairiam se neste modo se deixassem subjugar-se por elas. Pois, ao mesmo tempo, se privavam do benefício de Cristo, razão por que, consumada uma vez a expiação eterna, Cristo aboliu essas observâncias diárias, as quais, eficazes apenas para atestar os pecados, nada podiam fazer para cancelá-los.” (idem)

A maldição da Lei [ 2.7.14-15 ]

Para alguns, o entendimento de Calvino sobre a Lei é errôneo, pois vemos muitas passagens contrárias à Lei no Novo Testamento. Calvino explica que a maldição da Lei é abolida no caso dos servos de Cristo, mas os ensinos que ela contém ainda nos são úteis. Diferente do que acontece com os incrédulos, ela não é um freio para o coração corrupto, mas torna-se expressão escrita daquilo que já está gravado no coração do fiel. Em Mateus 5.17,18, por exemplo, Jesus nos diz que a Lei não será abolida.

“Confirma ele sobejamente que, por sua vinda, nada seria detraído da observância da lei. E com razão, uma vez que ele veio antes para este fim, a saber, para que lhe remediasse às transgressões. Por parte de Cristo, portanto, permanece inviolável o ensino da lei, a qual, instruindo, exortando, reprovando, corrigindo, nos plasma e prepara para toda obra boa.” (2.7.14, p.125)

O mesmo pode ser dito de Paulo, que é tido por muitos como alguém que negou a Lei. Pelo contrário, o apóstolo tratava do mesmo assunto. A respeito das maldições, temos os mandamentos como inoperantes, por Cristo se tornar maldito por nós. No entanto, quanto ao ensino e à justiça, a Lei continua proveitosa.

“Portanto, Paulo ensina que devemos tudo fazer para nos desvencilharmos dos grilhões da lei, se não queremos perecer miseravelmente sob eles. Mas, de que grilhões? Dos grilhões daquela austera e hostil exação que nada redime do supremo direito, nem deixa impune qualquer transgressão… Entretanto, isto permanece sempre incontestável: nada se deve detrair da autoridade da lei, e que ela deve ser sempre tomada por nós com a mesma veneração e obediência.” (2.7.15, p.125)

Assim, que os cristãos não dêem ouvidos àqueles pastores que se voltam contra a Lei do Senhor. A nossa regeneração torna os mandamentos agradáveis e nos livra da maldição e do medo. Mas isto não significa que o código de santidade proposto por Deus deva ser rejeitado. Pelo contrário, ele se torna mais belo a cada dia ao verdadeiro cristão.

A necessidade do Mediador [ 2.6.3-4 ]

“Ora, ainda que, em tempos idos, muitos se tenham gloriado de adorar o nome supremo, e Artífice do céu e da terra, entretanto uma vez, que não tinham nenhum Mediador, não pôde acontecer que, de fato, degustassem a misericórdia de Deus e fossem assim persuadidos de que ele era seu Pai. Portanto, porque não se atinham ao Cabeça, isto é, a Cristo, evanescido foi entre eles o conhecimento de Deus, donde também resultou que, tombados afinal em crassas e repelentes superstições, pusessem à mostra sua ignorância.” (2.6.4, p.111)

A idéia de que o interesse de alguém por Deus implica em sua salvação é algo ainda presente hoje. Muitos declaram amar e confiar num Criador, mas poucos são aqueles que vivem conforme a vontade dele. Por que isso acontece? Essas pessoas seguem um ídolo por não conhecerem aquele que revela o Pai.

“O primeiro passo para a piedade é reconhecer que Deus nos é o Pai, para que nos proteja, governe e sustente, até que nos congregue na eterna herança de seu reino. Daqui se faz patente o que dissemos há pouco: à parte de Cristo não subsiste o conhecimento salvífico de Deus, e por isso desde o princípio do mundo ter sido ele posto diante de todos os eleitos, para quem voltassem os olhos e em quem descansassem sua confiança.” (2.6.4, p.110s)

Isto também é válido para o povo antigo, ainda que eles vivessem em um período de sombras, sem a revelação completa de nosso Deus. Jesus é o cumprimento daquele pacto feito muito tempo antes de sua vinda.

“‘Eis a virgem conceberá e dará à luz um filho’ [Is 7.14], indicando indiretamente que, embora, por sua depravação, o rei e o povo rejeitassem a promessa que lhes era oferecida, como se de propósito se lançassem a abalar a fidedignidade de Deus, no entanto o Pacto não haveria de vir a ser nulo – o Redentor viria a seu tempo.” (2.6.3, p.109)

Assim, os cristãos devem se lembrar sempre dessa verdade. Sem Cristo, não há salvação, não há reconciliação e não há nem mesmo um relacionamento com Deus. Numa era de frouxidão doutrinária, o maior perigo para igreja pode ser esquecer da necessidade de um Mediador. Que Deus nos use para falar dele!

“‘Credes em Deus; também crede em mim’, diz ele [Jo 14.1]. Pois, falando apropriadamente, embora a fé se eleve de Cristo ao Pai, deixa ele claro, no entanto, que, embora se apóie firme em Deus, ela aos poucos se desvanece, a não ser que na condição de Mediador intervenha esse mesmo que a retém em sólida firmeza.” (2.6.4, p.110)

A figura do Mediador [ 2.6.1-2 ]

Após vários capítulos explanando a natureza da Queda do homem, João Calvino passa do problema à solução. Ainda que não adentre muito no assunto, as próximas seções ele falará sobre a necessidade de um mediador entre o homem pecador e Deus. Este mediador só pode ser Cristo, e a idéia de que todas as religiões nos aproximam de Deus é falsa. Assim, somente os judeus encontraram a verdadeira piedade, uma vez que esperavam o Messias.

“Com estas palavras [Jo 4.22] não só condena como falsas a todas e quaisquer religiões dos povos, mas assinala também a razão: porque, sob a lei, somente ao povo eleito se prometeu o Redentor. Donde se segue que jamais culto algum agradou a Deus a não ser aquele que contemplasse a Cristo.” (2.6.1, p.106)

Essa crença em Cristo está clara no Antigo Testamento, onde nos precursores do Messias (os ungidos do Senhor), Israel se estabeleceu fundamentado na mesma fé que a Igreja. Tanto as promessas a Abraão, a Lei de Moisés e o reinado de Davi apontam para a figura do Mediador.

“Está patente, portanto, em uma única cabeça foi primordialmente computada a semente de Abraão, nem foi manifesta a salvação prometida, até que essa semente viesse a Cristo, cujo ofício é ajuntar as coisas que foram dispersas. Portanto, da graça do Mediador dependia a adoção original do povo eleito. O que, embora em Moisés ainda não se exprimisse em termos claros, contudo se faz bastante patente ter sido geralmente conhecido de todos os piedosos.” (2.6.2, p.107)

“Nem de fato há dúvida de que o Pai celeste quisesse que se contemple em Davi e em seus pósteros a imagem viva de Cristo. Por isso, desejando exortar os piedosos ao temor de Deus, Davi manda beijar ao Filho [Sl 2.12], ao que de fato responde esta declaração do evangelho: ‘Quem não honra ao Filho, não honra ao Pai’ [Jo 5.23].” (idem)

Portanto, não existe diferença radical entre o povo da Antiga Aliança e o da Nova Aliança. Ainda que existam grandes diferenças sobre a maneira como o Senhor governava seu povo e sua religião, a salvação viria somente pela graça, pela fé na figura do Ungido. Que tenhamos isso em mente enquanto proseguirmos nesse estudo. Glória a Deus por seu Messias!

“Sem dúvida que depois da queda do primeiro homem nenhum conhecimento de Deus valeu para a salvação, sem o Mediador, pois que Cristo, quando diz que a vida eterna é esta: conhecer ao Pai como o único Deus verdadeiro e a Jesus Cristo, a quem ele enviou [Jo 17.3], fala não apenas de seu tempo, pelo contrário compreende a todos os séculos.” (2.6.1, p.106)

Três Pessoas, Um Deus [ 1.13.16-17 ]

Pai, Filho e Espírito são Pessoas que subsistem como Um Deus. Essa é a doutrina que Calvino volta a explicar, algo de importância ímpar para quem deseja a verdadeira piedade. Essas Pessoas são distintas entre si, mas ao mesmo tempo são um. Para o verdadeiro cristão, é recomendável pensar sempre nos termos propostos com Gregório Nazianzeno:

“Não posso pensar em um e único, sem que me veja imediatamente envolvido pelo fulgor dos três; nem posso distinguir os três, sem que me veja imediatamente voltado para um e único.” (Sermão sobre o Santo Bastismo, citado em 1.13.17, p.140)

De fato, a fórmula do batismo comprova isso. Visto que há apenas um só batismo, uma só fé e um só Deus (Ef 4.5), não devemos nunca pensar em algo além do Deus único, pois “caso haja variados gêneros de fé, necessário se faz que também haja muitos deuses” (1.13.16, p.139). E, uma vez que esse único batismo é feito em nome do único Deus, faz sentido que a ordem de Jesus inclua o nome das 3 Pessoas.

“Aliás, não resta dúvida que, ao dizer: ‘Batizai-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo’ [Mt 28.19], Cristo, mediante esta solene injunção, desejava testificar que a perfeita luz da fé já então se manifestara, visto que, na realidade, isto equivale exatamente a serem eles batizados no nome de um só e único Deus, o qual, em plena evidência, se mostrou no Pai, no Filho e no Espírito. Do quê se faz meridianamente claro que na essência de Deus residem três pessoas, nas quais, todavia, se conhece um só e único Deus.” (idem)

É importante combatermos também a heresia conhecida como sabelianismo ou modalismo, que afirma serem Pai, Filho e Espírito Santo apenas modos como Deus se apresenta ou age, ou apenas designativos entre muitos que a Deidade tem. Calvino rejeita esse falso ensino, enfatizando novamente a subsistência de três pessoas distintas em Deus.

“Que o Filho tem sua propriedade distinta do Pai no-lo mostram as referências que já citamos, pois a Palavra não haveria estado com o Pai se não fosse outra distinta do Pai; nem haveria tido sua glória junto ao Pai, a não ser que dele se distinguisse… Além disso, o Pai não desceu à terra, contudo desceu aquele que procedeu do Pai; o Pai não morreu, nem ressuscitou, e, sim, aquele que fora por ele enviado” (1.13.17, p.140)

“Cristo assinala a distinção do Espírito Santo em relação ao Pai quando diz que ele, o Espírito, procede do Pai; além disso, a distinção do Espírito em relação a si mesmo a evidencia sempre que o chama outro, como quando anuncia que outro Consolador haveria de ser por ele enviado.” (idem)

Calvino é necessário ainda hoje, pois nos leva a entender melhor o Senhor e a combater os falsos ensinamentos. A doutrina da Trindade, tão desprezada e desconhecida em nossas igrejas, é uma das mais difíceis de ser compreendida. Porém, como veremos, é aquela que traz maiores recompensas, pois fala da natureza do próprio Deus. Ainda que possamos entender pouco sobre ela, esse pouco nos ensina mais sobre o amor de Deus, a comunhão entre os santos e a glória do Criador.

A divindade de Cristo [ 1.13.11-13 ]

“Em primeiro plano, digno de especial atenção é isto: que os apóstolos ensinam que o que se predissera do Deus eterno ou já se patenteou em Cristo ou um dia haverá de se manifestar nele.” (1.13.11, p.133)

Continuando a argumentação em favor da divindade de Cristo, Calvino passa agora a citar o Novo Testamento, demonstrando como os apóstolos trataram a pessoa de Jesus como divina, sem cair na idolatria ou no politeísmo. A lista de passagens bíblicas e de motivos para aceitarmos a natureza divina do Filho é imensa, de maneira que somente a cegueira do pecado impede os homens de percebê-la. Justamente por essa quantidade de argumentos, citarei apenas alguns exemplos.

“Quando Isaías profetiza que o Senhor dos Exércitos haveria de ser aos judeus e israelitas por pedra de tropeço e rocha de escândalo [Is 8.14], Paulo afirma que isso se cumpriu em Cristo [Rm 9.33]. Logo, Paulo declara que Cristo é esse Senhor dos Exércitos.” (idem)

“E esse é Paulo, que assim fala [1Co 8.5-6]: “Ainda que muitos se chamem deuses, seja no céu, seja na terra, para nós, entretanto, há um só Deus, de quem procedem todas as coisas.” Quando da mesma boca ouvimos que Deus se manifestou em carne [1Tm 3.16], com cujo próprio sangue Deus adquiriu a Igreja para si [At 20.28], por que imaginamos um segundo Deus, a quem aquele de modo algum reconhece? E não há a mínima dúvida de que o mesmo foi o sentimento de todos os piedosos.” (1.13.11, p.134)

Os apóstolos também falam de Jesus como alguém que tem autoridade de perdoar pecados, algo que somente Deus, que é o juíz de toda a terra, pode arrogar-se.

“Brada o Senhor através do Profeta [Is 43.25]: “Sou eu, sou eu, aquele que apaga tuas iniqüidades por amor de mim.” Como, à luz desta reiteração, os judeus pensassem que a Deus se infligia ofensa por Cristo perdoar pecados, Cristo afirmou não só com palavras que esse poder lhe competia, mas até o comprovou mediante milagre [Mt 9.6]. Vemos assim que ele possui não apenas o exercício, mas ainda o poder de remissão de pecados, o qual o Senhor nega que se pode transferir a outrem.” (1.13.12, p.134s)

Além disso, Cristo também ia além da operação de milagres, mas outorgava aos seus discípulos o dom necessário para que realizassem esses sinais também, algo que somente Deus pode fazer, mas que é operado “em nome de Jesus”. Também é a seu nome são dadas várias das orações dos crentes da igreja primitiva, sem que haja ali idolatria. Paulo várias vezes pede a Cristo aquilo que também pede ao Pai, e mostra que o conhecimento de Cristo é onde devemos nos gloriar. De fato, é esse conhecimento de Deus por Cristo a razão da nossa própria existência, e algo que o próprio Calvino pôde perceber.

“Este conhecimento prático é, indubitavelmente, mais preciso e mais seguro que especulação ociosa de qualquer sorte. Pois a alma piedosa percebe a Deus mui presente, e como que quase o toca, ali onde se sente vivificar, iluminar, preservar, justificar e santificar.” (1.13.13, p.136)

Que nos relacionemos com Jesus da mesma maneira.