Cristo no Antigo Testamento [ 1.13.9-10 ]

O Novo Testamento inova ao tratar Cristo como Deus? Ou o Antigo Testamento, com suas sombras e previsões, já nos mostra essa verdade velada? Para o reformador francês, está claro que os Moisés e os profetas já nos ensinavam sobre a Palavra que é Deus. Alguns textos nos serão úteis:

“Salmo 45 [v.6]: ‘Teu trono, ó Deus, é para todo sempre’, os judeus desconversam, alegando que o nome Elohim cabe também aos anjos e às potestades superiores. Entretanto, em lugar nenhum na Escritura se acha uma passagem semelhante em que uma criatura seja elevada a um trono eterno. Ademais, ele não é chamado simplesmente Deus, mas também o Soberano Eterno.” (1.13.9, p.124)

“O mesmo Cristo não é obscuramente apresentado por Isaías [9.6] como Deus, mas ainda adornado de poder supremo, o que é próprio de Deus somente: ‘Este é’, diz ele, ‘o nome com que o designarão: Deus Forte, Pai da Eternidade’” (idem)

Além disso, as aparições do enigmático Anjo do Senhor no Antigo Testamento demonstram claramente haver ali já um prenúncio daquele que seria o Mediador entre Deus e os homens. Este Anjo várias vezes toma para si honrarias que seriam dignas apenas do Criador, o que significa ser esse mensageiro o próprio Deus. Desta seção tomaremos apenas o exemplo de Juízes 13, mas Calvino também cita Oséias 12.5, Gênesis 32.29s, Zacarias 2.3, Isaías 25.9 e Malaquias 3.1.

“Com efeito, negando-se a haver de comer pão, o Anjo ordena que o sacrifício fosse oferecido ao Senhor. A seguir, prova, pelo próprio fato, que ele é realmente o Senhor. Desse modo, Manoá e a esposa concluem, desta evidência, que haviam visto não simplesmente um anjo, mas a Deus. Daí esta exclamação: ‘Havemos de morrer, porque vimos a Deus’. Quando, porém, a esposa responde: ‘Se o Senhor nos quisesse matar, não teria recebido de nossa mão o sacrifício’, confessa com certeza que aquele que antes disse ser um anjo era realmente Deus. Além disso, agrega que a própria resposta do Anjo dirime toda dúvida: ‘Por que perguntas por meu nome, que é maravilhoso?’” (1.13.10, p.125)

Vemos, portanto, que existe continuidade na revelação de Deus. O Novo Testamento não surgiu do nada, mas é a consumação e ápice da história contada no Antigo Testamento. É por isso que não deve nos surpreender tantos personagens em comum. Nessas duas divisões da Bíblia encontramos o mesmo protagonista – Deus, que encarnou e viveu como homem.

O Verbo Eterno e Divino [ 1.13.7-8 ]

Agora que a Trindade já foi bem definida, é hora de Calvino argumentar a favor da divindade do Filho. Ele nos lembra que a expressão Palavra de Deus, comum na Bíblia não significa simplesmente uma “momentânea e evanescente emissão de voz” (1.13.7, p.122), mas alguém que era verdadeiramente Deus, estava com Deus e foi instrumento da Criação “para que a glória de Deus reluza naquele que é sua imagem” (idem).

“João, porém, é de todos o que fala muito mais claramente, quando declara que aquela Palavra que desde o princípio era Deus com Deus, juntamente com Deus o Pai, é a causa de todas as coisas. Ora, João não só atribui ao Verbo uma essência real e permanente, mas ainda lhe assinala algo peculiar e mostra, com luminosa claeza, como Deus foi o criador do mundo mediante a Palavra” (1.13.7, p.123)

Porém, existem aqueles dizem ser Deus o Verbo, mas como um ser que só passou a existir quando “Deus abriu seus sacros lábios na criação” (1.13.8, p.123). Essa doutrina tão sutil é combatida duramente por Calvino, pois implicitamente ensina que há variação na natureza divina. Isso o verdadeiro crente não pode aceitar.

“A piedade não reconhece nem admite nenhum título que sugira haver ocorrido algo novo a Deus em si mesmo. Porque, se nele tivesse havido algo adventício, cairia por terra essa afirmação de Tiago: ‘todo dom perfeito promana de cima e desce do Pai das luzes, em quem não há mudança ou sombra de variação.’” (idem)

Alguns diziam ser o fiat lux (haja luz) o surgimento da Palavra, quando Deus falou pela primeira vez. A estes Calvino também tem uma resposta.

“Ora, só porque algo começa a manifestar-se em determinado tempo não se deve por isso concluir que jamais existira antes. Eu, porém, chego a conclusão bem diferente: como no exato momento em que Deus disse: Haja luz, o poder da Palavra tenha emergido e se tenha patenteado, ela já existia muito antes. Mas, se alguém perguntar quanto tempo antes, não se achará nenhum começo.” (idem)

Um dos maiores motivos para glorificarmos nosso Criador são as suas perfeições. Nosso louvor e nossa adoração são dados a um Deus perfeito, que não prova mudanças em si mesmo, de quem não há nada em falta ou que se deva diminuir. Aceitar a doutrina da eternidade do Verbo é isso: confirmar a imutabilidade de Deus, e declarar sua perfeição.