Ação divina sobre os ímpios [ 2.4.3-4 ]

Falando sobre a dificuldade que os teólogos têm a respeito da soberania de Deus mesmo nos corações pecaminosos, Calvino lamenta que o próprio Agostinho tenha às vezes vacilado nesse assunto (embora os editores, tanto da Cultura Cristã, quanto da UNESP, entendam ser uma citação do Pseudo-Agostinho). Para o reformador, precisamos ser honestos com as palavras da Bíblia em entender que Deus move o coração do réprobo de duas formas, a saber:

“Primeira como se, com efeito, removida sua luz, nada resta senão trevas e cegueira; ou, retirado seu Espírito, em pedra se torna nosso coração; ou, cessando-lhe a direção, à tortuosidade se transvia, com razão se diz que ele cega, endurece, inclina àqueles a quem priva da capacidade de ver, de obedecer, de seguir retamente.

A segunda maneira, a qual se aproxima muito mais à propriedade dos termos, é que, para executar seus juízos, mediante o ministro de sua ira, Satanás não só lhes determina os desígnios, como lhe apraz, mas ainda lhes desperta a vontade e firma os esforços.”(2.4.3, p.78)

Alguns versos que confirmam o primeiro tipo de juízo divino se encontram em Jó 12.20,24 e Isaías 63.17. Enquanto da segunda maneira temos o caso de Faraó (Êx 4.21), além de passagens como Deuteronômio 2.30 e Salmo 105.25. A Bíblia claramente ensina que Deus está por trás desses atos, ainda que esses homens permaneçam culpados por sua maldade. Um exemplo comum é quando o Senhor levanta uma nação pagã contra Israel.

“Além disso, sempre que lhe aprouve punir a transgressão do povo, como levou a bom termo sua obra mediante os réprobos? De tal modo que vejas que a eficiência do agir esteve nele e que eles simplesmente contribuíram com o desempenho. Pelo que, ora ameaçava convocá-los com seu assobio [Is 5.26; 7.18], ora usava os ímpios como uma rede para emaranhá-los [Ez 12.13; 17.20]; ora como um malho para ferir aos israelitas [Jr 50.23].” (2.4.4, p.79)

Para concluir, o reformador nos deixa outra brilhante reflexão de Agostinho (agora o verdadeiro!). Que meditemos sobre ela e nos maravilhemos com nosso Deus.

“Que os maus pequem, isso eles fazem por natureza; porém que ao pecarem, ou façam isto ou aquilo, isso provém do poder de Deus, que divide as trevas conforme lhe apraz.” (idem)

Tríplice operação [ 2.4.1-2 ]

Como a vontade humana é guiada para o bem ou para o mal? Este é o assunto tratado por Calvino nas próximas seções. Para isso, o reformador usa primeiro a comparação oferecida por Agostinho, de que o homem, semelhante a um cavalo, é levado por Deus pelo reto caminho, ou montado por Satanás corre por despenhadeiros íngremes.

“Portanto, que se diz estar a vontade do homem natural sujeita ao jugo do Diabo, tanto que daí é acionada, não significa que ela seja constrangida à obediência, relutante e renitente, como, por direito de senhorio, obrigamos a escravos indispostos a obedecerem a nossas ordens; pelo contrário, fascinada pelas artimanhas de Satanás, mostra-se-lhe necessariamente obediente a todo ditame.” (2.4.1, p.76)

O reformador entende que, embora chamemos certos males como obras do diabo, vários deles têm como raiz a própria vontade humana, cuja malícia fundamenta o reino do inimigo. Mas a questao que se levanta com isso é: como conciliar a decisão humana, com a manipulação diabólica e, para piorar, a soberania divina. Vemos Jó, por exemplo, associar as ações malignas dos caldeus a Deus, enquanto o narrador já havia citado a ação do diabo no caso. Calvino entende que há diferença por conta de dois fatores – o fim e o modo.

“O desígnio do Senhor é exercitar pela calamidade a paciência de seu servo; Satanás está empenhado em levá-lo ao desespero; os caldeus buscam, fora do direito e da ética, auferir ganho da coisa alheia. Tão grande diversidade nos intentos já distingue sobejamente a operação de cada um.”(2.4.2, p.77)

“Não menos de diferença há no modo do agir. O Senhor permite a Satanás que seu servo seja afligido; concede e entrega, para que os caldeus sejam impelidos por ele, a quem escolheu por ministros para que executem isto. Satanás, por outro lado, com seus aguilhões envenenados, espicaça o espírito depravado dos caldeus para que perpetrem esta abominação; estes se arrojam furiosamente à injustiça e atrelam e contaminam nessa perversidade a todos os seus membros.” (idem)

Calvino adverte que ele está tratando do caso específico da história de Jó. Mas mesmo assim, podemos identificar esse princípio universal quando pensarmos no governo do Senhor sobre o mundo. Teremos nossos corações tranquilizados e seremos cuidadosos em nossas decisões, a fim de sermos vasos de honra.

“Logo, vemos que não é absurdo atribuir o mesmo ato a Deus, a Satanás e ao homem; ao contrário, a diversidade no propósito e na maneira faz com que reluza aqui, sem culpa, a justiça de Deus; com seu opróbrio se manifeste a impiedade de Satanás e do homem.” (idem)

A eficiência da providência [ 1.18.1-2 ]

Calvino volta-se novamente para a questão dos decretos de Deus em relação aos maus atos cometidos. Ele fala da popular distinção entre Deus fazer e permitir certo evento, para então negar que haja base para supor isso. Os atos malignos também são decretados por Deus, mas ele não se mancha com isso. Um dos exemplos claros está em Jó, que foi atacado por Satanás, mas associou a Deus o que aconteceu com ele, sem que houvesse qualquer objeção da Escritura.

“Jó reconhece que da parte de Deus fora despojado de todos os seus haveres e em pobre transformado, pois assim aprouvera a Deus. Portanto, seja o que for que os homens maquinem, ou o próprio Satanás, entretanto Deus retém o timão, de sorte que lhes dirija os propósitos no sentido de executarem seus juízos… Seria ridículo que o Juiz apenas permitisse o que queria que fosse feito, contudo não o decretasse e não determinasse a execução aos serventuários.” (1.18.1, p.224)

Para Calvino, é um absurdo considerar a idéia de que Deus fica apenas “assentado numa guarita” (1.18.1, p.225), dependendo do que os homens decidem fazer ou nao, para executar seus decretos. Pelo contrário, a mente do homem é dirigida pelo Senhor para seus propósitos. Mesmo na condenação dos réprobos vemos o Espírito como causa eficiente.

“Muitos, porém, lançam estes fatos à conta da permissão, como se, ao rejeitar aos réprobos, Deus os deixasse entregues a Satanás para que os cegasse. Todavia, uma vez que o Espírito Santo declara expressamente que cegueira e insânia são infligidas pelo justo juízo de Deus [Rm 1.20-24], essa solução se torna muitíssimo frívola.” (1.18.2, p.225)

Calvino cita o caso de Faraó, onde a Bíblia ensina que Deus endureceu o coração do inimigo dos judeus, ao mesmo tempo que deixa claro que o vilão também estava agindo. Trata-se de uma relação praticamente sinergista, em que o Senhor sustenta e guia os maus desígnios do pecador para seus propósitos. De fato, o reformador nos lembra que se não for assim, como poderia o coração de Faraó ter se endurecido mais ainda?

“Como se, na verdade, se bem que de modos diversos, não se harmonizem perfeitamente bem entre si estes dois fatos: que o homem, quando é acionado por Deus, contudo ele, ao mesmo tempo, está também agindo. Eu, porém, lanço contra eles o que objetam, porque, se endurecer denota permissão absoluta, o próprio impulso da contumácia não estará propriamente em faraó. Com efeito, quão diluído e insípido seria interpretar assim, como se faraó apenas se deixasse endurecer!” (1.18.2, p.226)

Assim, é necessário que aceitemos essa doutrina. Deus não precisa de defensores, mas quer que anunciemos sua verdade, por mais dolorosa que seja aos nossos ouvidos antropocêntricos. O Rei do Universo comanda todos conforme sua vontade, sem se deixar sujar pelo pecado. Isso pode ser difícil de compreender para alguns, mas é o que a Palavra nos apresenta. Que nos submetamos a ela, então.

Arrependimento de Deus? [ 1.17.12-14 ]

“Muitos daqui argúem que Deus não fixou os afazeres humanos por um decreto eterno; ao contrário, para cada ano, dia e hora, um a um, decreta isto ou aquilo, segundo são os méritos de cada indivíduo ou conforme o julgue reto e justo.” (1.17.12, p.220)

Se Deus decreta tudo o que acontece, como vemos passagens onde a Escritura afirma que Deus arrependeu-se de certas ações, ou que ele mudou seu decreto baseado em ações humanas? Essas questõs Calvino responderá nas últimas seções desse longo capítulo sobre a providência.

Primeiramente, ele trata da questão do arrependimento de Deus. Para o reformador, a Bíblia deixa bastante claro que Deus não comete erros para arrepender-se. Calvino lembra que num mesmo capítulo a Bíblia usa a expressão arrependimento para Deus, para logo em seguida dizer que o Senhor não arrepende-se (1Sm 15). Assim, devemos entender essa palavra, quando usada para Deus, como um antropomorfismo.

“Esta é, na verdade, a forma de acomodação: que se representa, não tal como é em si, mas como nós o sentimos… assim também não devemos conceber outra coisa sob o vocábulo arrependimento senão a mudança de ação… pelo termo arrependimento se entende o que Deus muda em suas obras. Entretanto, não se reverte nele nem o plano, nem a vontade, nem se oscila seu sentimento. Ao contrário, o que desde a eternidade previra, aprovara, decretara, leva adiante em perpétuo teor, por mais súbita que a variação pareça aos olhos dos homens.” (1.17.13, p.220s)

Sobre a mudança de decisão que Deus toma sobre certos assuntos, como, por exemplo, a não-destruição de Nínive no livro de Jonas, o reformador também tem muito a nos dizer. Existem ações que Deus quer tomar, mas que têm as reações dos seres humanas como meios para chegarem a elas. Isto é, para salvar Nínive, é necessário propor o arrependimento por meio da ameaça de destruição. Deus iria salvar a cidade, mas era necessário levar aquele povo ao reconhecimento de seus erros.

“Quem não percebe que, mediante ameaças desta ordem, o Senhor queria despertar ao arrependimento àqueles a quem infundia medo, para que escapassem ao juízo de que, por seus pecados, eram merecedores?” (1.17.14, p.221)

Da mesma maneira, quando Deus nos exorta a mudarmos nossos caminhos, é preciso saber que ele tem prazer em levar-nos ao arrependimento, e não deseja o castigo de seus filhos. Nosso Pai está pronto a perdoar e retém suas maldições se humildemente nos voltamos para ele diante de uma advertência.

“Pois o Senhor aplaina o caminho para sua eterna determinação quando, anunciando o castigo, exorta ao arrependimento àqueles a quem quer poupar, antes que algo varie em sua vontade, e certamente não em sua palavra, exceto que não exprime, sílaba a sílaba, o que entretanto é fácil de entender.” (1.17.14, p.222)

Providência ou acaso? [ 1.16.7-9 ]

Calvino continua sua exposição sobre a providência divina, demonstrando que as ações naturais não apenas são governadas pelo Criador, mas também levadas por ele a um propósito que lhe agrade. Tanto aquilo que ordinário quanto o extraordinário estão debaixo da soberania de Deus.

“Sua providência geral não apenas vigora nas criaturas, de sorte a continuar a ordem natural, mas ainda, por seu admirável desígnio, se aplica a um fim definido e apropriado.”
(1.16.7, p.201)

Como já foi dito, essa doutrina não agrada a muitos, o que leva à uma acusação comum – estariam aqueles que defendem o governo de Deus sobre tudo se assemelhando aos antigos filósofos, que defendiam o controle da sorte, do destino ou do acaso. Evidentemente, essa objeção não se encaixa, uma vez que os cristãos defendem um universo governador por um Ser pessoal. E não apenas um Des pessoal, mas cheio de sabedoria e bondade.

“Ao contrário, de tudo constituímos a Deus árbitro e moderador, o qual, por sua sabedoria, decretou desde a extrema eternidade o que haveria de fazer, e agora, por seu poder, executa o que decretou. Daí, afirmamos que não só o céu e a terra, e as criaturas inanimadas, são de tal modo governados por sua providência, mas até os desígnios e intenções dos homens, são por ela retilineamente conduzidos à meta destinada… Nada há mais absurdo do que alguma coisa acontecer sem que Deus o ordene, pois doutra sorte aconteceria às cegas.” (1.16.8, p.201s)

Calvino também fala do termo permissão, usado por Agostinho, que não pode significar que Deus simplesmente assiste os eventos do universo, deixando o acontecer o que quiser. O Criador permitir algo significa também sua ação governadora sobre todos, sendo ele a primeira causa de tudo.

“Certamente, ele não imagina Deus a repousar em ociosa torre de observação, enquanto se dispõe a permitir algo, quando intervém uma, por assim dizer, vontade presente, de qualquer modo não se poderia declarar como causa.” (idem)

Por fim, Calvino também leva em consideração que muitos dos fatos que nos parecem fortuitos são providenciados por Deus, mesmo que não os entendamos. Em suas palavras, “muito aquém da altura da providência de Deus se põe a lerdeza da mente” (1.16.9, p.202). Certos eventos acontecem por causa da própria natureza dos elementos envolvidos, mas mesmo ali está a mão de Deus a guiar esses acontecimentos ordinários.

“Raciocínio idêntico vale em relação à contingência dos eventos futuros. Como todas as coisas futuras nos são incertas, por isso as temos em suspenso, como se houvessem de inclinar para um lado ou para outro. Entretanto, permanece não menos arraigado em nosso coração que nada haverá de acontecer que o Senhor já não o haja provido.” (1.16.9, p.203)

Nos próximos textos, Calvino dedicará mais de sua atenção ao assunto da providência, nos levando a confiar plenamente no justo desígnio de Deus sobre a Criação. Que tenhamos esses pensamentos na mais alta conta, visto que nos servem para elevar a mente ao Criador.

O Deus que decide [ 1.16.4-6 ]

Muitas vezes para a mente humana a idéia de um Deus que governa e determina todas as coisas gera problema. Alguns temem que sua liberdade seja suprimida por essa idéia, outros querem inocentar Deus dos eventos que consideram ruins. Porém, o que a Bíblia ensina é que o Criador realmente tem em suas mãos o controle de tudo, e age de maneira eficaz.

“Pergunto, pois, que outra coisa é governar, senão presidir de tal modo que as coisas sobre as quais se preside sejam regidas por um conselho determinado e uma ordem infalível?” (1.16.4, p.197)

Negar o que o Senhor está envolvido em cada evento, é torná-lo “Regente do universo somente em nome, não de fato” (idem). Por isso, Calvino gasta um pouco de seu estudo mostrando a providência de Deus tanto na natureza, quanto entre os homens. Uma das provas do poder de Deus sobre sua criação encontra-se no Salmo 147.

“Com efeito, Davi louva a providência geral de Deus, porque ministra alimento aos filhotes de corvos que o invocam; quando, porém, o próprio Deus ameaça de fome aos animais, porventura não declara suficientemente que ele alimenta a todos os viventes, ora com escassa medida, ora com medida mais farta, conforme bem lhe pareceu?” (1.16.5, p.198)

Da mesma forma, a humanidade não pode mover um passo, se não for guiada pelo próprio Criador e Preservador. Os exemplos bíblicos são inúmeros, e não devemo nos deixar em dúvida.

“‘Do homem’, diz ele, ‘é a disposição do coração, e do Senhor é a preparação da língua’ [Pv 16.1, 9]. Sem dúvida que é uma ridícula insânia que míseros homens deliberem agir sem Deus, quando realmente nem podem falar a não ser aquilo que ele quer.” (1.16.6, p.199)

Deus também é aquele que decide quem será exaltado e quem será humilhado. Em sua justiça, ele fará aquilo que lhe agradar, e o que lhe dará glória. Cabe ao homem agradecer pela decisão de seu Criador e agir sem desespero.

“Embora os ricos estejam, no mundo, mesclados com os pobres, enquanto a cada um é divinamente assinalada sua condição, Deus, que a todos ilumina, não é de modo nenhum cego, e assim exorta os pobres à paciência, porque todos quantos não estão contentes com a própria sorte tentam alijar o fardo que Deus impôs sobre eles… Uma vez que Deus não pode despojar-se da função de Juiz, o salmista conclui daqui que de seu secreto desígnio permite que uns se enalteçam e outros permaneçam desprezíveis.” (1.16.6, p.200)

A mensagem de Calvino não deve nos levar à passividade e ao conformismo, mas é necessária para entender porque somos quem somos. Deus nos criou, e rege nossa vida conforme sua vontade soberana. Aqueles que fogem dessa verdade enfrentarão temor e ansiedade, enquanto o fiel achará, mesmo em dificuldades, alegria e prazer. Que tenhamos isso em nosso coração.