Deus, Criador e Preservador [ 1.16.1-3 ]

Se Deus é o Criador de tudo, segue-se que ele é o Sustentador e Governador também. Esse é o raciocínio de Calvino ao entrar no assunto da providência divina. Quem crê em Deus como Criador deve reconhecê-lo como soberano também.

“Se não chegamos até sua providência, por mais que pareçamos não só compreender com a mente, mas até confessar com a língua, ainda não aprendemos corretamente o que isto significa: ‘Deus é Criador’.” (1.16.1, p.192)

O governo de Deus sobre a criação não se restringe a simplesmente acionar a “máquina do universo” e deixá-la funcionando, como creem os deístas (e muitos crentes), mas ele mesmo se envolve no funcionamento de tudo, seja (ao nosso ver) bonança ou desastre. Além disso, nem a sorte, nem o acaso devem ser lembrados como regentes do universo, mas somente Deus.

“Se alguém cai nas garras de assaltantes, ou de animais ferozes; se do vento a surgir de repente sofre naufrágio no mar; se é soterrado pela queda da casa ou de uma árvore; se outro, vagando por lugares desertos, encontra provisão para sua fome; arrastado pelas ondas, chega ao porto; escapa milagrosamente à morte pela distância de apenas um dedo; todas essas ocorrências, tanto prósperas, quanto adversas, a razão carnal as atribui à sorte. Contudo, todo aquele que foi ensinado pelos lábios de Cristo de que todos os cabelos da cabeça lhe estão contados [Mt 10.30], buscará causa mais remota e terá por certo que todo e qualquer evento é governado pelo conselho secreto de Deus.” (1.16.2, p.193)

Assim, todas as coisas, embora tenham em sua natureza certas propriedades, só se tornam efetivas quando são movidas por Deus a realizar aquilo a que foram propostas. O crente deve guardar isso, para que se lembre que Deus é aquele que decide como governar cada ser criado. Essa doutrina nos será de grande importância, trazendo confiança e glória ao Criador e conforto à alma.

“Primeiro, que poder mui amplo de fazer o bem há com aquele em cuja posse estão o céu e aterra e a cujo arbítrio as criaturas todas voltam os olhos, de sorte a devotar-se à sua obediência. Em segundo lugar, podem descansar em segurança na proteção desse a cujo arbítrio se sujeitam todas as coisas que poderiam fazer-lhes dano; sob cuja autoridade, não menos que de um freio, Satanás é coibido, juntamente com todas as suas fúrias e todo o seu aparato; de cujo arbítrio pende tudo quanto se opõe ao nosso bem-estar.” (1.16.3, p.195)

A doutrina da providência, longe de ser uma fonte de especulação (como acreditam alguns), é um oásis de segurança para o crente, em meio a tantas pessoas em busca de um sentido na vida. Somente aceitando o governo do nosso Pai sobre tudo o que há poderemos ser cristãos verdadeiramente constantes e satisfeitos em Deus.

Um novo alerta [ 1.14.1-2 ]

Terminado o longo tratado a respeito do verdadeiro Deus e do puro conhecimento do Criador, João Calvino agora dedica-se à própria Criação. Antes, porém ele resolve novamente voltar-se contra todos aqueles que desviam-se do testemunho simples da Escritura, perguntando questões inúteis sobre Deus. Ele cita, por exemplo, aqueles quer perguntam o motivo de Deus ter “demorado tanto” para criar o universo, e outros que questionam o que Deus fazia antes de criar. A resposta clássica de Agostinho é citada.

“E, judiciosamente, como em galhofa lhe perguntasse certo individuo abelhudo o que Deus estivera fazendo antes de o mundo ser criado, respondeu aquele piedoso ancião: a construir o inferno para os curiosos.” (1.14.1, p.158)

Ao invés de gastarmos tempo com especulações frívolas, o Senhor nos convida a conhecer mais a respeito dele, e de nós mesmos, através das lentes que ele mesmo preparou.

“Pois, assim como os olhos, ou toldados pela decrepitude da velhice, ou entorpecidos de outro defeito qualquer, nada percebem distintamente, a menos que sejam ajudados por óculos, de igual modo nossa insuficiência é tal que, a não ser que a Escritura nos dirija na busca de Deus, de pronto nos extraviamos totalmente.” (idem)

Calvino nos lembra que aquilo que Deus nos deu, sua Criação, já nos tomará muito de nossa atenção, o que significa que não há necessidade de nos determos naquilo que não nos foi revelado. Assim como há um dia de descanso, a mente deve descansar sobre certos assuntos, e ocupar-se somente com aquilo que é importante.
“Aqui também, até que, sujeita à obediência da fé, aprende a cultivar esse repouso a que nos convida a santificação do sétimo dia, vocifera a razão humana, como se tais passos na obra da criação fossem inconsistentes com o poder de Deus.” (1.14.2, p.159)

Por fim, o reformador inicia o processo de analisar a Criação, focando mais uma vez informações que nos ajude a reconhecer o Deus verdadeiro como um Pai bondoso. Enfim, o teólogo de Genebra quer nos levar à adoração. Que sigamos seu exemplo no estudo da Palavra.

“Mas é preciso considerar diligentemente na própria ordem das coisas criadas o amor paternal de Deus para com o gênero humano, visto que não criou Adão antes que enchesse o mundo de toda abundância de coisas boas… assumindo o cuidado de um chefe de família provido e zeloso, mostrou Deus sua mirífica bondade para conosco.” (idem)

Um argumento histórico [ 1.13.27-29 ]

Finalizando o longo capítulo sobre a Trindade, Calvino rebate agora os argumentos históricos dos antitrinitarianos. Para alguns dos falsos mestres, os pais da igreja nunca defenderam a doutrina ortodoxa sobre o Deus Triuno, algo de que o reformador discorda solenemente. A primeira vítima da distorção é Irineu, que supostamente ensina que somente o Pai é o Deus de Israel. O reformador rebate essa acusação lembrando que o autor na verdade estava combatendo outros hereges, que negavam ser o Deus do Antigo Testamento também Deus Pai, e aproveita em seguida para citar o próprio Irineu.

“Irineu se concentra inteiramente nisto: tornar patente que na Escritura não se proclama outro Deus senão o Pai de Cristo, e que se cogita erroneamente outro, e daí não é de maravilhar-se se conclui tantas vezes que o Deus de Israel não era outro senão aquele que é celebrado por Cristo e pelos apóstolos.” (1.13.27, p.153)

“Aquele que, em acepção absoluta e não particularizada, na Escritura é chamado Deus, esse é verdadeiramente o Deus único, e Cristo, com efeito, é chamado Deus em acepção absoluta.” (Irineu, citado em idem)

A próxima vítima dos antitrinitarianos é Tertuliano, sob o pretexto de que coloca o Filho em segundo plano. Calvino, apesar de admitir a dificuldade nos escritos desse pai, deixa claro que ele não ensinou nada além da doutrina correta.

“É verdade que ele confessa admitir o Filho como segundo em relação ao Pai, todavia não o entende como outro senão em função da distinção pessoal. Em algum outro lugar, ele diz que o Filho é visível, entretanto, após haver arrazoado ambos os lados da questão, conclui ser ele invisível até onde é a Palavra.” (1.13.28, p.154)

Depois de citar esses casos, Calvino lembra que Justino Mártir, Hilário e Inácio também ensinaram a correta doutrina, apesar do que afirmam os hereges. Prova disso é que Ário, um antitrinitariano, não apelou a nenhum deles diante do Concílio de Nicéia. Além disso, Agostinho em sua obra magistral sobre a Trindade também nada encontra de errado entre os escritos desses santos homens.

“Mercê destas considerações, contudo, o leitor piedoso por fim reconhecerá, segundo espero, estar desmantelada todas as cavilações com que Satanás tem tentado até agora perverter ou entenebrecer a pura fé da doutrina.” (1.13.29, p.155)

Uma doutrina não é reconhecida como verdadeira por maioria de votos, mas pelo que diz a Escritura. No entanto, é importante quando ouvimos as vozes do passado, e todos esses santos homens concordam a respeito de algo tão complexo. Isso nos dá segurança sobre o que cremos e nos leva a desconfiar daquilo que era estranho aos pais. Calvino sabe disso, e assim conclui seu ensino sobre a Trindade, algo que nos desafia a estudar cada dia mais, e especular cada vez menos.

“Finalmente, confio que tenha sido fielmente explicada toda a suma desta doutrina, desde que os leitores imponham moderação à curiosidade, nem reivindiquem para si avidamente mais do que se faz necessário controvérsias molestas e perplexivas. Aliás, creio que bem pouco satisfeitos haverão de ficar aqueles a quem deleita o imoderado gosto de especular.” (idem)

Mais heresias antitrinitarianas [ 1.13.25-26 ]

obs.: antes de ler esse post, recomendo uma revisada no Sobre os termos técnicos [ 1.13.4-6 ], do dia03/02/09

O reformador de Genebra prossegue seu tratamento às heresias com algumas afirmações um pouco difíceis, mas que nos serão úteis se as entendermos. Novamente, ele se volta contra aqueles que dizem haver diferença entre a essência do Pai e das outras duas pessoas. Outros afirmam que acreditamos em algo semelhante a uma “quaternidade”, onde a substância divina diferencia-se nas (ou mesmo, das) três subsistências, “como se supuséssemos que de uma essência única procedem, dir-se-ia por derivação, três pessoas” (1.13.25, p.151). Usarei as palavras de Rick Phillips para nos ajudar nesse assunto tão denso.

“Calvino argumenta que a essência divina, compartilhada pela Trindade inteira, é ingênita [não-gerada]. Mas as pessoas do Filho e do Espírito são geradas pelo Pai (eternamente, portanto nunca houve um tempo onde eles não existiam). As Pessoas não são separadas da essência divina, o que significaria haver três deuses, mas são diferenciadas de cada outra dentro da divina essência única.” (traduzido daqui)

Dizer que Filho e Espírito não têm parte com (ou que recebebem) a essência divina do Pai, é torná-los menos que Deus, ao mesmo tempo que se nega a própria natureza do Pai, como proposta pela Bíblia. O que Phillips explica nos é dito da seguinte maneira por Calvino.

“Embora a essência não concorra à distinção de pessoas, como parte ou membro da Trindade, contudo as pessoas não subsistem sem ela ou fora dela, porquanto não só o Pai, se não fosse Deus, não podia ser Pai, mas também o Filho de outra sorte não seria Filho, a não ser porque é Deus… Finalmente, se Pai e Deus fossem sinônimos, então o Pai seria o deificador, nada no Filho restaria senão uma sombra, nem seria a Trindade outra coisa senão a conjunção do Deus único e uno com duas coisas criadas.” (idem)

Outra objeção que se levanta, diz respeito à hierarquia dentro das pessoas da Trindade. Para os falsos mestres, Cristo é menor do que Deus, como alguns textos da Bíblia supostamente comprovam. Porém, Calvino nos mostra que isso se deve à distinção de funções entre as Pessoas e à encaranção, não por algo diferente na natureza do Pai e do Filho.

“Assim, quando dizia aos apóstolos: “Convém que eu suba ao Pai, porque o Pai é maior do que eu” [Jo 14.28; 16.7], não está atribuindo a si apenas uma divindade secundária, como se no que tange à essência eterna seja inferior ao Pai, mas porque, sendo Mediador que possui a glória celestial, consorcia os fiéis na participação dessa glória.” (1.13.26, p.152)

É importante conhecermos a Trindade, pois por ela entendemos melhor a nossa salvação. Podemos compreender um pouco mais sobre o amor de Deus, como nessa belíssima passagem, em que Calvino expressa o ministério do Redentor.

“E de fato Cristo desceu até nós para que, elevando-nos até o Pai, ao mesmo tempo também nos elevasse a si próprio, visto ser um com o Pai.” (idem)

Heresias antitrinitarianas [ 1.13.23-24 ]

Os falsos mestres sempre tiveram dificuldades com a doutrina trinitariana. Agora analisaremos alguns de seus ensinos, e a resposta de Calvino, caso não tenha sido dada em posts anteriores.

“Pois certos biltres… confessaram que, na realidade, há três pessoas, desde que se faça, porém, a restrição de que o Pai, que é o único verdadeiro e propriamente Deus, ao formar o Filho e o Espírito, neles comunicou sua deidade… Objetam que, se ele[Cristo] é verdadeiramente o Filho de Deus, é absurdo que ele seja Filho de uma Pessoa” (1.13.23, p.146)

Ou seja, o problema desse primeiro ensinamento não é negar as três Pessoas, mas afirmar que o Pai é responsável por tornar o Filho e o Espírito, por assim dizer, Deus. Isso tornaria Cristo realmente Filho de Deus, e não “apenas” filho de uma Pessoa. Embora Calvino admita que é comum se associar ao Pai o termo “Deus”, isso não exclui Cristo de subsistir em Deus, ser verdadeiro Deus e verdadeiro Filho de Deus, como vimos em estudos anteriores.

“Ora, se admitimos que toda a essência só esteja no Pai, ou ela se fará divisível, ou estará totalmente ausente do Filho; e assim, despojado de sua essência, ele será Deus apenas em nome… Além disso, em função de seu princípio, é necessário admitir que o Espírito é somente do Pai, porquanto se é ele derivação da essência primária, a qual não é própria senão ao Pai, de direito não se considerará o Espírito como sendo do Filho, o que, no entanto, é refutado pelo testemunho de Paulo, o qual o faz comum a Cristo e ao Pai [Rm 8.9].” (1.13.23, p.147s)

O próximo erro tratado é a afirmação de que quando a Escritura menciona Deus sem qualificação, deve-se entender apenas como o Pai. Afinal, dizem os falsos mestres, se não pensarmos assim, diremos que Cristo é Pai de si mesmo. Novamente, Calvino utiliza alguns dos textos que falam de Jesus como Deus, demonstrando que os hereges não entenderam corretamente a Trindade. Chama atenção em especial, a passagem onde Cristo diz que somente Deus é bom [Mt 19.17]. Ou admitem que o Verbo é Deus ou que ele não é bom.

“Pergunto se o eterno Verbo de Deus é bom ou não. Se o negam, sua impiedade fica plenamente indiciada; admitindo-o, cortam a garganta a si próprios.” (1.13.24, p.149)

Por fim, o reformador também lembra da passagem da criação do homem - “Façamos o homem à nossa imagem” [Gn 1.26] – quando o Criador fala no plural. Para ele, essa é uma indicação velada da tripessoalidade de Deus.

“Ora, pois, a não ser que admitam ser comum ao Filho e ao Espírito, com o Pai, o poder de criar, e comum a autoridade de ditar ordens, se seguirá que Deus não falou consigo mesmo no âmbito de sua interioridade; ao contrário, ele dirigiu a palavra a outros artífices exteriores.” (1.13.24, p.150)

A questão da Trindade sempre será discutida por mestres e falsos mestres. É importante, para não nos afastarmos do verdadeiro Deus, que tenhamos a Escritura como nossa guia. Foi isso que Calvino procurou e nos recomenda. Somente assim saberemos diferenciar entre a ortodoxia e a idolatria.

Em defesa da Trindade [ 1.13.20-21 ]

Após a longa explanação da doutrina trinitariana, Calvino prepara-se para tratar das inúmeras heresias surgidas contra o verdadeiro ensinamento da Escritura. Ele lembra que seu propósito nunca foi adentrar em polêmicas, mas “conduzir pela mão aos que se deixam de bom grado ensinar” (1.13.21, p.143). Porém, é necessário tratar desse assunto, para que os fiéis não caiam no erro, de ir além da Palavra.

“Tenhamos o cuidado de aplicar-nos a esta questão com docilidade mais do que com sutileza, não inculcamos no espírito ou investigar a Deus em qualquer outra parte que não seja em sua Sagrada Palavra, ou a seu respeito pensar qualquer coisa, a não ser que sua Palavra lhe tome a dianteira, ou falar algo que não seja tomado dessa mesma Palavra.” (1.13.21, p.144)

Assim, é importante que tenhamos em mão mais uma declração doutrinária, para que possamos prosseguir. Já que trataremos das heresias, um bom resumo da ortodoxia nos será útil. Felizmente Calvino nos providencia uma, que nos servirá de guia nas seções posteriores. A citação é longa, porém necessária.

“Quando professamos crer em um só e único Deus, pelo termo Deus entende-se uma essência única e simples, em que compreendemos três pessoas sem especificação, designam-se não menos o Filho e o Espírito que o Pai; quando, porém, o Filho é associado ao Pai, então se interpõe a relação, e com isso fazemos distinção entre as pessoas.

Mas, uma vez que as propriedades específicas implicam de si uma gradação nas pessoas, de sorte que no Pai estejam o princípio e a origem, sempre que se faz menção, simultaneamente, do Pai e do Filho, ou do Espírito, se atribui ao Pai, de modo peculiar, o termo Deus. Desse modo retém-se a unidade de essência e tem-se em conta a ordem de gradação, o que, entretanto, nada detrai da divindade do Filho e do Espírito.” (1.13.20, p.142)

Que meditemos nessa breve definição, para que possamos identificar os erros e não sermos contaminados por eles.