O décimo mandamento [ 2.8.49-50 ]

“Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo.” (Êxodo 20.17)

Finalizando sua exposição dos Decálogo, Calvino apresenta um mandamento que cuida especialmente de nossas mentes. Trata-se de uma ordem para que não desejemos aquilo que não é nosso. Vemos o Senhor preocupado em impedir até mesmo intenções pecaminosas que levem a atos pecaminosos.

“Visto que Deus quer que a alma toda seja possuída do afeto do amor, de nossas disposições se deve alijar todo desejo contrário à caridade… Não se nos insinue qualquer pensamento que nos mova o espírito com uma concupiscência danosa e tendente ao detrimento de outrem. A que corresponde o preceito oposto, que tudo quanto concebemos, deliberamos, queremos, intentamos, seja isto associado com o bem e proveito do próximo.” (2.8.49, p.171)

“Portanto, da mesma forma que até aqui o Senhor ordenou que a norma da caridade presida a nossas vontades, a nossos esforços, a nossas ações, assim agora ordena sejam conduzidos à mesma norma os pensamentos de nossa mente, para que não haja nenhum pensamento corrupto e pervertido, que incite a mente em outra direção. Da mesma forma que proibiu que a mente fosse inclinada e induzida à ira, ao ódio, à fornicação, à rapina, à mentira, assim proíbe agora que ela seja sequer incitada a essas transgressões.” (2.8.49, p.171s)

Jesus já disse que é do coração que vêm todos os males que contaminam o homem. Calvino entende que muitos desses desejos vêm do fato que não temos amor por nossos irmãos. É importante sabermos que só cultivamos maus pensamentos, que visam prejudicar o próximo, porque não o amamos como deveríamos.

“Ora, donde de fato acontece que te subam à mente desejos danosos em relação a teu irmão, senão porque, em negligenciando-o, só te preocupas contido mesmo? Se, pois, toda tua mente estivesse imbuída da caridade, nenhuma partícula lhe estaria aberta a tais imaginações. Portanto, até onde agasalha ela a cobiça, até esse ponto ela tem de estar vazia de caridade.” (2.8.50, p.172)

Quanto àqueles que objetam ser duro esse mandamento, nos condenando por qualquer idéia aleatória que surge em nossa mente, Calvino nos lembra que Deus não pede menos que a perfeição. A segunda tábua dos mandamentos nos demonstra como Deus trata os homens e nossa missão é seguirmos sua santidade.

“É questão de fantasias dessa espécie que, enquanto se exibem diante das mentes, ao mesmo tempo mordem e ferem o coração com a cobiça, uma vez que nunca vem à mente optar por algo, que o coração não palpite excitado. Portanto, Deus ordena um maravilhoso ardor de afeição, que não quer que seja obstruído sequer pelo menor assomo de cobiça. Requer um espírito mirificamente disposto, que não tolera ser estugado por sequer leves aguilhões contra a lei do amor.” (idem)

Que esvaziemos nossas mentes de qualquer pensamento que deseja o que não nos pertence.

O nono mandamento [ 2.8.47-48 ]

Não serás testemunha falsa contra teu próximo. (Êxodo 20.16)

A base para esse mandamento é que Deus, como a própria verdade, não deseja que seus servos tenham como prática a mentira. Em especial, se ela servir para difamar ou rebaixar nossos irmãos.

“Portanto, a suma é esta: que não prejudiquemos o nome de alguém ou com calúnias e incriminações falsas, ou mentindo façamos dano a seu patrimônio; enfim, não façamos mal a quem quer que seja, pelo desenfreamento da maledicência e da mordacidade… Que prestemos a cada um, até onde for viável, fiel assistência na afirmação da verdade, para que se proteja a integridade tanto de seu nome, quanto de suas coisas.” (2.8.47, p.169)

Calvino entende que este mandamento também nos impõe que refreemos nossa língua no tratamento ao próximo. Além disso, também devemos usar nossas palavras para abençoar vidas, falar aquilo que é verdadeiro e manter o bom nome dos nossos irmãos. Este é o maior tesouro que alguém pode ter. Por isso, a maledicência também é proibida.

“A tal ponto nos deleitamos, por um como que envenenado prazer, seja em procurar descobrir, seja em divulgar as faltas alheias! Nem pensemos ser uma desculpa procedente, se muitas vezes não estamos a mentir. Ora, Aquele que proíbe que seja deturpado pela mentira o nome de um irmão, quer também que se conserve ele ilibado, quanto seja exeqüível em consonância com a verdade.” (2.8.48, p.170)

O reformador condena todo tipo de brincadeira ou sarcamos que procure humilhar e diminuir os outros, expondo seus defeitos, e causando vergonha e tristeza. Isto inclui não apenas o falar, mas também ouvir e cultivar dentro de si tais chistes. Nosso Deus é santo e pede santidade na língua, ouvidos e coração.

“Não afetemos falsa urbanidade e embebida de amargos sarcasmos, mediante os quais, sob a aparência do chiste, com mordacidade se trazem à baila os defeitos dos outros… Não ofereçamos, seja a língua, sejam os ouvidos, a expressões maledicentes e sarcásticas, e não abandonemos, sem razão, a mente a sinuosas suspeitas; pelo contrário, fiéis intérpretes das palavras e atos de todos, conservemos-lhes sinceramente ilibada a honorabilidade, tanto no juízo, quanto nos ouvidos, quanto na língua.” (2.8.48, p.171)

Uma ética calvinista [ 2.8.46 ]

Na segunda parte de sua exposição do oitavo mandamento, Calvino apresenta algumas aplicações práticas. A primeira delas é que devemos a todo custo lutar para que as pessoas mantenham seus bens e, ao mesmo tempo, não devemos nos apegar demais aos nossos.

“Até onde possível, mediante conselho e assistência, a todos ajudemos fielmente a conservarem o que é seu. Entretanto, se tivermos de nos haver com pérfidos e enganadores, estejamos preparados antes a ceder algo do que é nosso do que com eles contendermos… Aqueles a quem houvermos de ver premidos pelas dificuldades das coisas, compartilhemos-lhes das necessidades e com nossa abundância supramos-lhes a falta de recursos. Finalmente, atente cada um, não importa até onde, por dever de ofício, obrigado para com outros e de boa fé, a pagar o que lhes deve.” (2.8.46, p.168)

Para o teólogo, devemos entregar a cada pessoa aquilo que lhes devemos. Isto significa que devemos agir corretamente ao lidar com empregados, patrões, governantes, pais, etc. Não tratar estas pessoas como elas merecem é furtar-lhe algo. Calvino fala em especial de nossos líderes tanto na sociedade quanto na igreja.

“Tenha o povo em honra a todos que lhe são constituídos em autoridade, suporte-lhes de bom grado o domínio, obedeça-lhes às leis e determinações, a nada se furtando que possa fazer para o agrado de Deus. Por outro lado, sustenham esses o cuidado de seus súditos, conservem a paz pública, sejam por proteção aos bons, reprimam os maus. De tal modo administrem a tudo como se tivessem de prestar conta de sua função a Deus, o Juiz Supremo.” (idem)

“Exerçam sua autoridade como os bons pastores sobre suas ovelhas. Por sua vez, receba-os o povo por mensageiros e apóstolos de Deus, renda-lhes essa honra de que o Mestre Supremo os fez dignos, proveja-lhes aquelas coisas que lhes são necessárias à vida.” (idem)

De maneira semelhante, pais e filhos, jovens e velhos, e empregados e chefes devem se tratar dignamente, cada qual segundo a posição que tem.

“Reverenciem os jovens a idade senil, como o Senhor quis que essa idade seja digna de honra. Também, com sua prudência e pela experiência que os excelem, assistam os idosos à insuficiência da juventude, não apoquentando-os com recriminações ásperas e estridentes; pelo contrário, moderem a severidade pela afabilidade e delicadeza.” (idem)

“Que os empregados, diligentes e com mansidão, se mostrem obedientes aos patrões, não fazendo isso em aparência, mas de coração, como que servindo ao próprio Deus. Os patrões também não se conduzam como rabugentos e intratáveis para com os empregados, não os pressionem com excessiva aspereza, nem os tratem insolentemente. Antes, pelo contrário, reconheçam que eles são seus irmãos e seus conservos sob o Senhor celeste, a quem devem amar mutuamente e tratar humanamente.” (idem)

Cristo seja nosso modelo ao tratarmos com o próximo. Que não usemos a posição que Deus nos deu para massacrá-lo ou desrespeitá-lo. Não sejamos como ladrões, não entregando a cada pessoa aquilo que é dela ou tomando o que não nos pertence. Que o Espírito Santo nos ilumine nessas situações.

O oitavo mandamento [ 2.8.45 ]

Não cometerás furto. (Êxodo 20.15)

Calvino dedica duas longas seções à aplicações deste mandamento. Além de serem úteis aos estudantes da Bíblia, esses comentários também nos apresentam um pouco da ética e do pensamento econômico do reformador.

“Somos proibidos de cobiçar as coisas alheias e, conseqüentemente, se nos ordena fazer sincero esforço em conservar a cada um seus próprios bens. Pois, deve-se assim refletir: que a cada um vem aquilo que possui, não por contingência fortuita, mas em virtude da dispensação do Supremo Senhor de todas as coisas. Portanto, não se pode, mediante maldosas artimanhas, defraudar as posses de quem quer que seja sem que se cometa violação da divina dispensação.” (2.8.45, p.166s)

Existem diferentes formas de furto, como o roubo por meio de violência, o fraude realizada com sutileza, a doação que vem por meio de bajulação e mesmo os bens que são tomados em nome de uma suposta justiça. Aquele que oprime o mais fraco não escapa deste mandamento.

“Deus vê os longos embustes com os quais o homem matreiro procura enredilhar o espírito mais simples, até que o atraia, afinal, a suas malhas; Deus vê as leis duras e desumanas com as quais o mais poderoso oprime e prostra o fraco; Deus vê os engodos com os quais o mais astuto isca o incauto como que com anzóis, todos os quais escapam ao julgamento humano, nem vêm à cogitação.” (2.8.45, p.167)

Mas o teólogo também olha para o lado daqueles que são senhores, e sabe que alguém “mais fraco” não é um santo. Roubamos quando não realizamos bem o serviço pelo qual somos pagos. Vemos aqui um pouco da ética trabalhista de Calvino.

“Se, ocioso, um administrador ou mordomo devora o capital de seu senhor, nem está preocupado com o cuidado de seu patrimônio; se ou esbanja indebitamente os cabedais a si confiados, ou os dissipa desregradamente; se um criado tem em zombaria ao patrão; se lhe divulga os segredos; se de qualquer forma lhe trai, seja a vida, sejam os bens; se, por outro lado, um senhor oprime desumanamente à família; em crime de furto se faz culpado diante de Deus. Pois, quem não perfazo que, em função de sua vocação, deve aos outros, não só retém o alheio, mas até dele se apropria.” (idem)

Oremos para que o Senhor transforme nosso coração. Muitas vezes nossos trabalhos são cansativos e entediantes, mas estamos lidando com os bens de outros também, e não apenas os nossos. Sejamos bons mordomos.

Conselhos matrimoniais [ 2.8.43-44 ]

Como foi dito na seção anterior, nem todos têm o dom do celibato, portanto é necessário que o cristão se case. Calvino entende que o homem que não se casa certamente perderá a batalha contra sua própria carne, e isso ele enfatiza diversas vezes. O jovem cristão, em especial, deve guardar essa verdade e não fugir daquilo que Deus nos propõe como igreja.

“Ademais, que aquele que não se pode conter, contraia matrimônio no Senhor [1Co 7.9]. Significa, assim, em primeiro lugar, que a maior parte dos homens está sujeita ao vício da incontinência; em seguida, dentre esses que estão assim sujeitos, a nenhum excetua a quem não ordene refugiar-se nesse único remédio com o qual se pode ir de encontro à impudência” (2.8.43, p.165)

Finalizando a análise desse mandamento, o teólogo de Genebra também apresenta algumas dicas para aqueles que já estão casados. Cabem aos cônjuges manterem sua relação de maneira honrosa e sóbria, sem excessos. Citando Ambrósio, Calvino explica que o marido que “na relação conjugal não tem nenhuma preocupação de decoro ou honorabilidade chamou de adúltero para com a própria esposa” (2.8.44, p.166). Não é porque está casado que alguém não pode cair no vício da luxúria.

“Assim, enquanto proíbe a prática de fornicação, ao mesmo tempo veda o atentar contra a pudicícia alheia, seja pelo atavio lascivo do corpo, seja por gestos obscenos, seja por palavras impuras. Pois, um filósofo chamado Arquelau disse não sem razão a um jovem vestido muitíssimo voluptuosa e sensualmente, que pouco importava em que parte do corpo mostrasse sua desonestidade. Eu aplico isso a Deus, que detesta toda impureza em qualquer parte, seja do corpo, seja da alma.” (idem)

Vemos que a questão de usar trajes apropriados tem muito a ver com este mandamento. Membros da igreja muitas vezes pensam que trata-se apenas de um tradicionalismo antiquado, mas o cristão que se veste de maneira indecente está levando muitas vezes o outro ao pecado. Calvino também critica o linguajar e pensamento imorais, e todos os tipos de costumes que envolvem esse tipo de impureza.

“Se o Senhor requer de nós a pudicícia, então ele condena tudo quanto lhe seja contrário. Conseqüentemente, se aspiras à obediência, então que não arda interiormente teu coração com cobiça depravada, nem os olhos te incitem a desejos corruptos, nem teu corpo seja ataviado ao ponto de despudoramento, nem, com palavras torpes, a mente seduza tua língua a pensamentos semelhantes, nem te inflame o apetite desenfreado com sua imoderação.”(idem)

Devemos manter nossas casas limpas de qualquer tipo de impureza. Não é conveniente um casal cristão que manifeste sua sexualidade para outros. Devemos tomar cuidado nessa área.

O sétimo mandamento [ 2.8.41-42 ]

Não cometerás adultério. (Êxodo 20.14)

O casamento, instituição tão desprezada atualmente (inclusive em igrejas), é a grande base para este mandamento. Não apenas a traição conjugal está em vista aqui, mas toda forma de relacionamento sexual fora do matrimônio. Deus ama a pureza, e seus filhos devem amá-la também.

“A suma, portanto, é que não nos poluamos com qualquer imundície ou libidinosa incontinência. A isto corresponde o preceito afirmativo: que dirijamos todas as partes de nossa vida casta e continentemente. De uma maneira mais expressa proíbe a fornicação, à qual tende toda sorte de luxúria, a fim de que, pela natureza e desonestidade que consigo leva – que é mais acentuada e palpável nela, enquanto desonra o próprio corpo –, nos incite a detestar todo gênero de luxúria.” (2.8.41, p.163)

Calvino entende que o homem não foi criado para viver sozinho. Por isso, existe o dom que Deus lhe entregou – o matrimônio – que, após a queda, é mais importante ainda para evitarmos a luxúria. Hoje vemos uma quantidade imensa de “teólogos” defendendo o sexo fora do casamento (e isto inclui o antes do casamento), algo que nunca foi defendido pela sã doutrina.

“De acordo com nossa necessidade, o Senhor nos socorreu quando instituiu o matrimônio, cuja união, consumada por sua autoridade, também santificou com sua bênção. Donde se deduz que diante dele não só é maldita toda e qualquer outra união fora do matrimônio, como também essa própria união conjugal foi ordenada como um remédio indispensável para que não nos atiremos a desenfreada concupiscência.” (2.8.41, p.163s)

Evidentemente, nem todos se casam. O problema é que muitos não se dão ao matrimônio, mas também não podem suportar os desejos de seus corpos. O cristão precisa entender que, na maioria dos casos, para vencer essa batalha, é necessário casar-se.

“A virgindade, reconheço-o, não é virtude que se despreze. Entretanto, visto que foi negada a uns e a outros concedida apenas por um tempo, aqueles que são atormentados pela incontinência e não podem levar a melhor no embate, recolham-se ao refúgio do matrimônio, para que cultivem assim a castidade na medida de sua vocação.” (2.8.42, p.164)

Assim, aqueles que defendem a idéia de um celibato possível para todos os membros da igreja estão enganados. Não se pode impôr aos irmãos jugo que eles certamente não suportarão. Por outro lado, a igreja deve reconhecer que existe esse dom no meio dela e tratar respeitosamente aqueles que receberam essa graça especial.

“A continência é um dom especial de Deus e do gênero daqueles que se conferem não indiscriminadamente, nem ao corpo da Igreja como um todo, mas a poucos de seus membros, afirma o Senhor… nem todos são capazes disso, mas somente aqueles a quem tenha sido especialmente dado do céu. Donde se conclui: ‘Quem o pode aceitar, aceite-o.’ Paulo afirma-o ainda mais explicitamente, quando escreve que cada um tem de Deus seu próprio dom, um de uma forma, outro, porém, de outra [1Co 7.7].” (idem)