O segundo mandamento [ 2.8.17-18 ]

“Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima nos céus, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não as adorarás, nem lhes darás culto.” (Êxodo 20.4,5)

Se o primeiro mandamento tratava sobre a natureza única de Deus, o segundo fala em especial sobre que culto deveria ser dedicado a ele. Calvino entende o mandamento como uma declaração de que toda forma material acaba diminuindo a glória de Deus. Deus é espírito e não tem uma imagem que algum humano possa conceber.

“Neste mandamento declara ainda mais explicitamente agora de que natureza é, e com que modalidade de culto deve ser ele honrado, para que não ousemos atribuir-lhe algo sensório… ele nos dissuade e afasta totalmente das observâncias materiais insignificantes que nossa mente bronca, em razão de sua ignorância, costuma inventar quando concebe a Deus. E daí nos instrui em relação a seu legítimo culto, isto é, ao culto espiritual e estabelecido por ele mesmo. Assinala, ademais, o que é o mais grosseiro defeito nesta transgressão: a idolatria exterior.” (2.8.17, p.144)

Novamente o reformador usa a imagem de um casamento para ilustrar a quebra de um mandamento. Falando sobre o divino castigo àqueles que fabricam imagens, ele entende que a ira de Deus assemelha-se à de um marido que descobre a traição de sua esposa. Por isso existe ameaça de grave julgamento sobre a família que se envolver nesse tipo de culto.

“Portanto, como um marido, quanto mais santo é e casto, tanto mais gravemente se ofende ao ver o coração da esposa a inclinar-se para com um rival, assim o Senhor, que verdadeiramente nos desposou para si, evidencia ser muito ardente sua inconformidade, sempre que, desdenhada a pureza de seu santo matrimônio, somos manchados de apetites impuros.” (2.8.18, p.145)

O tema da ira divina será tratado especialmente nas próximas seções. É importante destacar o entendimento de Calvino sobre essa mandamento, em relação ao primeiro. Para o reformador, mais grave que a idolatria, é manchar o culto a Deus com imagens deste pecado.

“Mas, então isto sente especialmente o Senhor, quando oferecemos a outro o culto de sua divina majestade, que conviera ser absolutamente ilibado, ou o corrompemos com alguma superstição, uma vez que, deste modo, não só violamos o compromisso feito no casamento, mas ainda, acenando aos amantes, maculamos o próprio leito conjugal.” (idem)

Esse mandamento é um apelo para que tenhamos cuidado com o tipo de culto que dedicamos ao Senhor. Mesmo hoje os protestantes e evangélicos não estão isentos de cair nesse erro. Precisamos questionar todo tipo de prática que dá mais ênfase ao que é ilustrado por homens que àquilo que é descrito na Palavra. Peçamos que o Espírito Santo nos ilumine em nossas falhas.

O primeiro mandamento [ 2.8.16 ]

“Não terás outros deuses diante de mim.” (Êxodo 20.2,3)

Sobre cada mandamento, Calvino tem muito a dizer. Por isso, parece-nos necessário dedicar apenas um post à seção em que ele explica o primeiro preceito do Decálogo. Diz-nos o Senhor que não podemos dar a outro aquilo que só a ele pertence.

“O fim deste mandamento é que Deus quer ser o único a ter a preeminência em seu povo e nele exercer seu direito em plena medida… não podemos ter Deus sem que, ao mesmo tempo, abracemos as coisas que lhe são próprias. ” (2.8.16, p.142)

Por trás de uma ordem simples, o reformador encontra os mais diversos princípios. Aqui, por exemplo, encontramos importantes coisas que devemos dedicar apenas a Deus. Calvino lista 4 delas: adoração, confiança, invocação e ação de graças.

“Chamo adoração a veneração e o culto que qualquer um de nós lhe rende, quando se lhe submete à grandeza. Por isso, não improcedentemente, incluo à adoração a submissão de nossa consciência à sua lei. Confiança é a segurança de nele descansar, em virtude do reconhecimento de seus predicados, quando, atribuindo-lhe toda sabedoria, justiça, poder, verdade, bondade, reconhecemos que somos bemaventurados somente em sua comunhão. Invocação é o recurso de nossa mente à sua fidelidade e assistência, como ao sustentáculo único, sempre que alguma necessidade insiste. Ação de graças é a gratidão com que se lhe atribui o louvor de todo bem.” (idem)

Tudo isso deve ser entregue somente a Deus e mais ninguém. Note a importância que Calvino dá ao cumprimento da Lei do Senhor como forma de adoração, algo tão esquecido hoje em dia. É preciso que sempre examinemos nossas mentes se quisermos ser verdadeiros adoradores. Um homem que confia em sua força, que agradece ao dinheiro, depende só do Estado ou é motivado pela aprovação da sociedade pode estar erigindo falsos deuses. Estamos sempre diante do Senhor, algo que Calvino chama atenção com a ilustração do matrimônio.

“A frase que segue, diante de minha face, intensifica a indignidade, pela qual Deus é provocado ao ciúme sempre que em seu lugar pomos nossas invenções, tal como se uma esposa despudorada, trazido escancaradamente o amante diante dos olhos do marido, mais lhe incendesse o ânimo… não se podem admitir novas deidades sem que seja ele testemunha e observador de seu sacrilégio. Mas, a esta petulância acrescenta-se o máximo de impiedade, a saber, que, em seus desvios, o homem julga poder burlar os olhos de Deus.” (2.8.16, p.143)

Que nossos corações entreguem somente ao Senhor aquilo que é dele. Que ele seja nossa motivação, nosso porto seguro, nosso braço forte. Por fim, que não sejamos ingratos.

O prefácio do Decálogo [ 2.8.13-15 ]

“Eu sou o SENHOR teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão. Não terás outros deuses diante de mim.” (Êxodo 20.2,3)

O primeiro mandamento inicia-se com a apresentação de quem é o Legislador. Para alguns estudiosos, isso funciona como todo pacto suserano-servo, existe uma clásula apresentando o governante, seus distintivos e o relacionamento histórico. Calvino entende como uma argumentação que confere maior autoridade à Lei, caso o povo tente esquecer quem a outorgou.

“A si reivindica o poder e o direito de soberania a fim de que constrinja o povo eleito pela necessidade de obedecer-lhe. Exara a promessa de graça, mercê de cuja doçura alicie o mesmo ao zelo de santidade. Traz à lembrança o benefício conferido, para que acuse aos judeus de ingratidão, caso não lhe respondam à benignidade.” (2.8.13, p.140)

Um resumo das palavras de Deus seriam, para Calvino, “eu vos escolhi para mim por povo, a quem houvesse de beneficiar não apenas na presente vida, mas ainda houvesse de prodigalizar a bem-aventurança da vida futura” (2.8.14, p.140). A afirmação de ser o Senhor lembra que ele é soberano e a “teu Deus” frisa o amor divino e a verdade da eleição. A lembrança da libertação do Egito enche o coração do desejo de agradecer-lhe por meio da obediência.

“Tão logo o nome de Deus é referido, nossa mente não pode deixar de cair em alguma vã invenção. Portanto, visto que Deus quer propiciar remédio a este mal, adorna ele sua divindade de títulos seguros, e dessa forma nos cerca como que de determinadas cercas, para que não vaguemos para cá ou para lá, e desatinadamente inventemos para nós algum Deus novo, se deixado de parte o Deus vivo suscitemos um ídolo em seu lugar.”(2.8.15, p.141)

Essa lembrança da libertação realizada por Deus não apenas servia para que os israelistas fossem levados à submissão, mas também nos lembra que fomos libertos do poder do mal por este mesmo Senhor. Que nos lembremos dessa verdade diante de tentações.

“Não deve haver homem algum, cujo coração não se sinta inflamado ao atentar para a lei, promulgada por aquele que é Rei de reis e supremo Monarca, de quem todas as coisas procedem, e para as quais justamente devem ordenar-se e dirigir-se a seu fim. Ninguém, afirmo, há que não deva ser arrebatado a abraçar o Legislador, à observância de cujos mandamentos é ensinado ter sido escolhido de modo especial; de cuja bondade espera não somente a abundância de todas as coisas boas, mas ainda a glória de uma vida imorta1; de cujo admirável poder e misericórdia se sabe muito bem ser libertado das fauces da morte.” (2.8.15, p.141s)