Ação divina sobre Satanás [ 2.4.5 ]

Em uma seção curta, Calvino fala sobre a soberania de Deus sobre o diabo. O próprio inimigo de Deus também é instrumento da vontade divina, cumprindo decretos, maldições e juízos sobre os homens. Um exemplo bíblico encontra-se em 1Samuel, quando um espírito maligno foi convocado para atormentar Saul.

“Saul ou foi ‘arrebatado’, ou foi ‘entregue’ a ‘um mau espírito do Senhor’ e a ‘um mau espírito da parte do Senhor’ [1Sm 16.14; 18.10; 19.9]. Atribuir isto ao Espírito Santo é uma impiedade. Logo, chama-se ‘espírito de Deus’ a um espírito impuro, porque este lhe atende ao mando e poder, mais um instrumento seu em ação do que um agente de si próprio.” (2.4.5, p.79s)

Essa doutrina nos deve trazer paz, e não confusão. Não se tratam de atos maus da parte de Deus, mas de seus decretos, que nos dão a certeza de que não estaremos jamais indefesos. Hoje muitos evangélicos vivem temendo o inimigo, pois não reconhecem esse ensinamento bíblico. Que tenhamos a mesma convicção de Calvino ao tratar desse tema.

“Entretanto, com grande diferença, sempre se distingue em um mesmo ato aquilo que o Senhor faz daquilo que Satanás e os ímpios porfiam por fazer. Aquele faz com que sirvam à sua justiça estes instrumentos maus que tem sob a mão e pode volver para onde quer. Estes, na medida em que são maus, em seu agir dão à luz a iniqüidade concebida pela depravação da mente.” (2.4.5, p.80)

Tríplice operação [ 2.4.1-2 ]

Como a vontade humana é guiada para o bem ou para o mal? Este é o assunto tratado por Calvino nas próximas seções. Para isso, o reformador usa primeiro a comparação oferecida por Agostinho, de que o homem, semelhante a um cavalo, é levado por Deus pelo reto caminho, ou montado por Satanás corre por despenhadeiros íngremes.

“Portanto, que se diz estar a vontade do homem natural sujeita ao jugo do Diabo, tanto que daí é acionada, não significa que ela seja constrangida à obediência, relutante e renitente, como, por direito de senhorio, obrigamos a escravos indispostos a obedecerem a nossas ordens; pelo contrário, fascinada pelas artimanhas de Satanás, mostra-se-lhe necessariamente obediente a todo ditame.” (2.4.1, p.76)

O reformador entende que, embora chamemos certos males como obras do diabo, vários deles têm como raiz a própria vontade humana, cuja malícia fundamenta o reino do inimigo. Mas a questao que se levanta com isso é: como conciliar a decisão humana, com a manipulação diabólica e, para piorar, a soberania divina. Vemos Jó, por exemplo, associar as ações malignas dos caldeus a Deus, enquanto o narrador já havia citado a ação do diabo no caso. Calvino entende que há diferença por conta de dois fatores – o fim e o modo.

“O desígnio do Senhor é exercitar pela calamidade a paciência de seu servo; Satanás está empenhado em levá-lo ao desespero; os caldeus buscam, fora do direito e da ética, auferir ganho da coisa alheia. Tão grande diversidade nos intentos já distingue sobejamente a operação de cada um.”(2.4.2, p.77)

“Não menos de diferença há no modo do agir. O Senhor permite a Satanás que seu servo seja afligido; concede e entrega, para que os caldeus sejam impelidos por ele, a quem escolheu por ministros para que executem isto. Satanás, por outro lado, com seus aguilhões envenenados, espicaça o espírito depravado dos caldeus para que perpetrem esta abominação; estes se arrojam furiosamente à injustiça e atrelam e contaminam nessa perversidade a todos os seus membros.” (idem)

Calvino adverte que ele está tratando do caso específico da história de Jó. Mas mesmo assim, podemos identificar esse princípio universal quando pensarmos no governo do Senhor sobre o mundo. Teremos nossos corações tranquilizados e seremos cuidadosos em nossas decisões, a fim de sermos vasos de honra.

“Logo, vemos que não é absurdo atribuir o mesmo ato a Deus, a Satanás e ao homem; ao contrário, a diversidade no propósito e na maneira faz com que reluza aqui, sem culpa, a justiça de Deus; com seu opróbrio se manifeste a impiedade de Satanás e do homem.” (idem)

O inimigo contido [ 1.14.17-19 ]

Que o Diabo se levanta contra Deus e seus filhos, já sabemos, mas até onde vai o seu poder? Calvino mostra que, ao contrário da crença popular, o inimigo só pode ir até onde Deus determinou. Não existe uma luta equilibrada, pois Satanás, mesmo rebelde, ainda serve aos planos do Senhor e só pode ir até onde lhe é permitido.

“Quanto, porém, diz respeito à discórdia e luta que dissemos existir de Satanás com Deus, entretanto assim importa admitir que isto permanece estabelecido: que aquele nada pode fazer, a não ser que Deus o queira e consinta.” (1.14.17, p.171)

Isso não quer dizer que o Inimigo não seja um anjo rebelde e não odeie seu próprio Criador, mas significa que o seu mal é usado por Deus a fim de alcançar o bem, e a fim de cumprir seus próprios planos. Entre seus exemplos, Calvino cita a ação do Diabo em Jó e contra Acabe (1Rs 22.20).

“Ele se opõe a Deus com vil paixão e deliberado intento. Em virtude dessa depravação, é ele incitado à tentativa dessas coisas que julga serem especialmente contrárias a Deus. Como, porém, este o mantém amarrado e tolhido pelo freio de seu poder, ele leva a bom termo apenas aquelas coisas que lhe foram divinamente concedidas, e assim, queira ou não, obedece a seu Criador, porquanto é compelido a prestar-lhe serviço aonde quer que o mesmo o impelir.” (1.14.17, p.172)

Além disso, devemos ter a certeza de que o Senhor não permitirá que Satanás derrote definitavamente os cristãos. Por mais que Deus permita dificuldades, é somente sobre os incrédulos que o demônio exerce seu poder total. Isso se deve não a algo especial que os crentes têm, mas à vitória de Cristo.

“Doutra sorte, ela seria a cada instante reduzida cem vezes a nada pelo Diabo. Ora, uma vez que tal é nossa insuficiência e tal lhe é o furibundo poder, como, a não ser firmados na vitória de nosso Chefe, faríamos frente, sequer um mínimo, a seus multiformes e constantes ataques? Portanto, Deus não permite o reinado de Satanás nas almas dos fiéis, mas só nas almas dos ímpios e incrédulos, a quem não tem por dignos de serem contados em sua igreja, os abandona para que sejam por ele governados.” (1.14.18, p.173)

Finalizando o estudo sobre o Diabo e os demônios, Calvino também rebate a heresia de que os espíritos maus são apenas impulsos humanos, e não verdadeiras criaturas. Ele mostra que não há sentido em pensar vários dos textos bíblicos que tratam do assunto entendendo-se os demônios como outra coisa além de seres reais pessoais.

“Quão improcedentes haveriam de ser estas expressões: que os seres diabólicos foram destinados ao juízo eterno; que fogo lhes foi preparado; que mesmo agora são atormentados e torturados pela glória de Cristo, se simplesmente não existissem nenhum diabo?” (1.14.19, p.175)

Uma lição que fica nesse último estudo é que sempre devemos exortar a igreja a não ir além do que a Palavra diz. Muitos crentes hoje vivem com medo de demônios, por aprenderem doutrinas erradas sobre o Inimigo. Não podemos dar crédito a especulações e suspostas revelações que vão contra o que o Espírito Santo nos revelou. Devemos ter cuidado, sim, com os ardis e a astúcia de Satanás, mas sem abandonar a certeza de que Deus é soberano.

A natureza do inimigo [ 1.14.16 ]

Em seções anteriores, Calvino combateu duramente a doutrina dos maniqueus, que pregava uma paridade de origem, natureza e poder entre Deus e o Diabo. Um dos motivos dessa doutrina ser tão forte anos depois é que ela “livra” Deus da acusação de ser o criador da natureza má do Inimigo. O reformador explica como isso não é necessário, e como Deus nada tem a ver com os erros do demônio.

“Como, porém, o Diabo foi criado por Deus, lembremo-nos de que esta malignificência que atribuímos à sua natureza não procede da criação, mas da depravação. Tudo quanto, pois, tem ele de condenável, sobre si evocou por sua defecção e queda… Não venhamos, crendo que ele recebeu de Deus exatamente o que é agora, a atribuir ao próprio Deus o que lhe é absolutamente estranho.” (1.14.16, p.171)

O reformador não vai muito além da pouca informação bíblica, que apenas diz que os demônios já estiveram em uma posição de glória, mas eles mesmos decidiram abandoná-la, em rebeldia. A Bíblia é clara em dizer que os anjos maus abandonaram seus postos, não foram empurrados para fora de lá.

“Pois o que era proveitoso de se conhecer, claramente se ensina em Pedro e Judas [2Pe 2.4; Jd 6]: ‘Deus não poupou’, dizem eles, ‘aos anjos que pecaram e não conservaram sua origem; ao contrário, abandonaram sua morada.’ E Paulo, mencionando os anjos eleitos [1Tm 5.21], sem dúvida contrasta com eles tacitamente os réprobos.” (idem)

“Por esta razão, Cristo declara [Jo 8.44] que Satanás, quando profere a mentira, fala do que é próprio à sua natureza, e apresenta a causa: ‘porque não permaneceu na verdade.’ De fato, quando estatui que Satanás não persistiu na verdade, implica em que outrora ele estivera nela.” (idem)

Note que ele nem cita os supostos textos-bases sobre a rebelião de Satanás, algo comum hoje em dia. Para Calvino, o Espírito Santo não quis nos tem a intenção de nos satisfazer a “curiosidade com histórias fúteis, destituídas de proveito”(idem). Portanto, precisamos ser humildes e aceitar de bom grado aquilo que a Palavra nos ensina.

“Estejamos contentes com resumirmos a matéria assim: na criação original foram anjos de Deus; mas, em degenerando, perderam-se e se fizeram instrumentos de perdição a outros.” (idem)

O inimigo da Igreja [ 1.14.13-15 ]

Terminado o estudo sobre os anjos bons, Calvino agora fala sobre os demônios, iniciando com o chefe deles – o Diabo. Sua descrição do Inimigo nos faz lembrar que lutamos contra alguém muito perigoso, alguém que é simplesmente “o autor, guia e arquiteto de toda maleficência e iniqüidade” (1.14.15, p.170). Às vezes isso é algo que desejamos esquecer.

“Ele é descrito de tal forma em Gênesis, capítulo 3, onde afasta o homem da obediência que devia a Deus, para que, a um tempo, não só despoje a Deus da justa honra, mas ainda precipita o próprio homem na ruína.” (idem)

“Um inimigo prestíssimo em audácia, vigorosíssimo em forças, astutíssimo em estratagemas, infatigável em diligência e presteza, munidíssimo de todos os apetrechos bélicos, habilíssimo na arte de guerrear, conduzamos tudo a este fim: que não nos deixemos sobrepujar por inércia ou pusilanimidade, mas, em contraposição, tendo o ânimo soerguido e despertado, finquemos pé a resistir; e uma vez que esta beligerância não se finda senão com a morte, nos exortemos à perseverança.” (1.14.13, p.169)

Mais ainda, não apenas o diabo está contra nós, mas um exército de inimigos, o que deve nos deixar mais atentos às tentações e ataques satânicos. A Escritura várias vezes refere-se a essas hostes demoníacas, ainda que fale muitas vezes apenas do líder delas.

“Assim, pois, muitas vezes a referência é a um Satanás ou Diabo, no número singular, denotando-se aquele império de iniqüidade que se opõe ao reino de justiça. Pois da mesma forma que a Igreja e a sociedade dos santos têm a Cristo como Cabeça, assim também a facção dos ímpios, e a própria impiedade, nos são pintadas com seu príncipe, que nessa esfera exerce império absoluto.” (1.14.14, p.170)

A chave para não sermos derrotados nessa perigosa batalha é nos apegarmos àquele que tem poder para vencer. Que tenhamos isso em mente, que deixemos de lado nosso orgulho e independência.

“Sobretudo, porém, cônscios de nossa insuficiência e obtusidade, invoquemos a assistência de Deus a nosso favor, nem tentemos coisa alguma, senão apoiados nele, visto que só a ele pertence o ministrar conselho, força, coragem e armas.” (1.14.13, p.169)

Contra os maniqueus [ 1.14.3 ]

Os anjos sempre foram personagens bíblicos que atrairam especulações e curiosidades de muitos. Ao continuar seu alerta, Calvino novamente nos diz para não irmos além do que se deve saber. Por exemplo, se Moisés não nos conta quando os anjos foram criados, isso não nega aquilo que sabemos – que somente Deus é incriado.

De fato, presos a especulações, muitos acabam dando a anjos honra que não são deles. Outros se interessam tanto pelo assunto que acabam menosprezando as confiáveis informações da Palavra de Deus.

“A preeminência da natureza angélica de tal modo tem obcecado a mente de muitos, que chegaram a pensar que se lhes faz agravo, se fossem, por assim dizer, forçados em sua condição de criaturas a sujeitar-se à autoridade do Deus único. E por isso chegaram a atribuir-lhes certa divindade” (1.14.3, p.160)

Porém, antes de tratar diretamente de angelologia, o reformador prefere discutir o pensamento de Mani – criador da seita dos maniqueus, de onde vem o termo “maniqueísta” – “que inventou para si dois princípios absolutos: Deus e o Diabo”(idem). Isto é, esse falso mestre acreditava num dualismo absoluto entre bem e mal, como se tanto Deus quanto o Diabo fossem detentores de poder e natureza semelhantes, como se Deus tivesse criado o que é bom, e seu inimigo aquilo que é mal. Calvino combate duramente essa idéia idólatra, que se parece muito com a idéia que alguns tem de “batalha espiritual” atualmente.

“Ora, uma vez que, por assim dizer, nada seja mais próprio de Deus que a eternidade, e a existência própria, aqueles que atribuem isto ao Diabo porventura não estão, de certo modo, a adorná-lo com o título da divindade? Onde, pois, a onipotência de Deus, se ao Diabo se concede tal poder que, contra a vontade de Deus e a despeito de sua oposição, leve a bom termo tudo quanto deseja?” (idem)

O reformador sustenta que o Diabo não tem o poder de fazer aquilo que quer sem a permissão do Criador. Além disso, o Diabo nada criou, sendo tudo obra de Deus. Temos a seguir uma declaração marcante da teologia calvinista – a ênfase na bondade das coisas criadas. Para Calvino, a Criação por si só não é algo ruim, mas apenas está afetada pelo pecado. Essa será a base para o chamado cultural do homem, que ele deve ensinar mais adiante.

“O único fundamento que os maniqueus têm – não ser próprio atribuir-se a um Deus bom a criação de qualquer coisa má –, isto nem de leve fere a fé ortodoxa, a qual não admite que no universo inteiro haja alguma natureza má, porquanto nem a depravação e malignidade, seja do homem, seja do Diabo, ou os pecados que daí nascem, provêm da natureza, mas da corrupção da natureza; nem de início há absolutamente nada que exista em que Deus não haja estampado o selo, tanto de sua sabedoria, quanto de sua justiça.” (idem)