Espírito x Escritura – parte 2 [ 1.9.2 ]

Como já vimos, crescimento espiritual e leitura da Palavra não se separam.

“Se ansiamos por receber algum uso e fruto da parte do Espírito de Deus, imperioso nos é aplicar-nos diligentemente a ler tanto quanto ouvir a Escritura.” (1.9.2, p.94)

Porém, existem aqueles que negam a necessidade do estudo bíblico e enfatizam uma suposta orientação do Espírito Santo. Ainda hoje esse tipo de heresia existe, e muitas vezes vemos alguém enganando a si, afirmando ter uma revelação especial, quando aquilo que ela sustenta pode até ir contra a Escritura. Diante dessas pessoas, que “buscam o Espírito de si próprios e não por ele mesmo” (idem), Calvino pergunta:

“Uma vez que Satanás se transfigura em anjo de luz, que autoridade terá o Espírito entre nós, a não ser que seja discernido por meio de sinal de absoluta certeza?” (idem)

A resposta de Calvino pode parecer polêmica para alguns, mas, para ele, o Espírito Santo não irá além daquilo que está escrito. Isto é, ele não negará as Sagradas Escrituras, e nem pode fazê-lo. Evidentemente, alguns dirão que estamos prendendo Deus em uma caixa, mas o reformador responde:

“Alegam, com efeito, que é afrontoso que o Espírito de Deus, a quem todas as coisas devem ser sujeitas, seja subordinado à Escritura. Como se, na verdade, isto fosse ignominoso ao Espírito Santo: ser ele por toda parte igual e conforme a si mesmo; permanecer consistente consigo em todas as coisas; em nada variar! De fato, se fosse necessário julgar em conformida com qualquer norma humana, angélica, ou estranha, então deveria considerar-se que o Espírito estaria reduzido a subordinação.” (idem)

Deus não pode mentir, e aquilo que ele disse na Escritura, é aquilo que Deus Espírito diz aos seus. Qualquer ensino que desvirtue isso é anátema.

“Para que o espírito de Satanás não se insinue sob o nome do Espírito, ele quer ser por nós reconhecido em sua imagem que imprimiu nas Escrituras. Ele é o autor das Escrituras: não pode padecer variação e inconsistência para consigo mesmo. Portanto, como ali uma vez se manifestou, assim tem ele de permanecer para sempre.” (1.9.2, p.95)

Espírito x Escritura – parte 1 [ 1.9.1 ]

Citei em tópico anterior, a relevância dos escritos de João Calvino para nosso tempo. Parece que o reformador francês enfrentava desafios semelhantes aos que os crentes atuais encaram. Esse capítulo, em especial, é um dos melhores lidos até agora (em minha opinião) e merece alguns posts a mais. Nele Calvino fala sobre aqueles que menosprezam as Escrituras em detrimento de suposta orientação do Espírito de Deus.

“Surgiram em tempos recentes certos desvairados que, arrogando-se, com extremada presunção, o magistério do Espírito Santo, fazem pouco caso de toda leitura da Bíblia e se riem da simplicidade daqueles que ainda seguem, como eles próprios a chamam, a letra morta e que mata.” (1.9.1, p.93)

Provavelmente nos virá à memória alguém que pensa de maneira semelhante aos contemporâneos do reformador, e alguns até tenham se sentido mal por parecerem tão “insensíveis ao toque do Espírito”. Mas o reformador sabe que nenhum dos apóstolos pensava como os hereges de seu tempo.

“Eu, porém gostaria de saber deles que Espírito é esse de cuja inspiração transportam a alturas tão sublimadas que ousem desprezar como pueril e rasteiro o ensino da Escritura? Ora, se respondem que é o Espírito de Cristo, tal certeza é absolutamente ridícula, se na realidade concedem, segundo penso, que os apóstolos de Cristo e os demais fiéis da Igreja primitiva, foram iluminados não por outro Espírito. O fato é que nenhum deles aprendeu o menosprezo pela Palavra de Deus.” (idem)

Para Calvino, o Espírito e a Escritura estão unidos por um “vínculo inviolável” (idem), mas aqueles que tentam criar uma dicotomia entre esses dois elementos cometem sacrilégio e desrespeito para com Deus, sua Palavra e o próprio ministério do Espírito Santo.

“Logo, não é função do Espírito que nos foi prometido configurar novas e inauditas revelações ou forjar um novo gênero de doutrina, mediante a qual sejamos afastados do ensino do evangelho já recebido; ao contrário, sua função é selar-nos na mente aquela mesma doutrina que é recomendada no evangelho.” (1.9.1, p.94)

Criar uma divisão entre o que a Bíblia diz e o que o Espírito Santo ensina é colocar Deus contra Deus. Não que tenhamos um Livro como divindade, mas ali estão guardados os pensamentos do próprio Criador. Fugir da Palavra em nome do Espírito é dizer que Deus, que não pode mentir, se contradiz, ou que o Consolador deixou seu ministério a fim de trazer inovações no Cristianismo. Tal postura é incompatível com a de um cristão e deve ser combatida. Que o Espírito de Cristo nos ajude nisso.

Um testemunho vivo [ 1.8.12-13 ]

No final do capítulo VIII, Calvino nos deixa uma advertência:

“A Escritura será realmente satisfatória para o conhecimento salvífico de Deus, então, finalmente, quando a certeza lhe for fundamentada na convicção interior pelo Espírito Santo… Procedem insipientemente, porém, aqueles que desejam que se prove aos infiéis que a Escritura é a Palavra de Deus, pois, a não ser pela fé, isso não se pode conhecer.” (1.8.13, p.92)

O apologeta deve ter esta consciência – por mais satisfatórias que sejam suas respostas a razão humana, o homem só se colocará aos pés de Cristo por meio da fé que vem de Deus. Ao mesmo tempo em que é uma obra catequética, as Institutas também são apologéticas. Ainda assim, o reformador sabia que não eram seus escritos pura e simplesmente que converteriam os homens a Deus, mas a Palavra e o Espírito.

De fato, desde os primórdios, a Bíblia é alvo de ataques e controvérsias. Hoje, até teólogos ditos cristãos acabam questionando a veracidade da Palavra de Deus. Porém, a Palavra resiste e sempre encontra lugar no coração dos fiéis.

“Nem se deve julgar ser de importância mínima que, desde que a Escritura foi publicada, constantemente se lhe anuiu à obediência o querer de tantos séculos, e por mais que Satanás, com todo o mundo, a tenha tentado, por meio perplexivos, seja oprimindo, seja destruindo, seja de todo refreando e obliterando da lembrança dos homens, entretanto sempre, como a palmeira, tem ela subido mais alto e persistido de forma inabalável.” (1.8.12, p.91)

Além da resistência da Palavra ao ataque do mundo, vemos também a resistência dos santos e santas por amor à Bíblia, não por um desejo sadomasoquista, mas como testemunhas (μάρτυρες) das verdades ali reveladas.

“Portanto, não é uma comprovação de pouco peso o fato de a Escritura ser selada pelo sangue de tantas testemunhas, mormente quando ponderamos que eles enfrentaram a morte para dar testemunho da fé, não com excesso fanático, como por vezes costuma suceder a espíritos sem norte, mas, ao contrário, por zelo firme e constante, contido sóbrio, por Deus.” (1.8.13, p.92)

Muitos homens e mulheres foram mortos pelo Evangelho, comprovando que ele é muito mais que o registro da religião de alguns judeus. Essas pessoas morreram porque sabiam que carregavam a verdade, uma coisa que jamais pode ser escondida dos outros. Peçamos a Deus a ousadia de nossos irmãos, para não deixarmos a Escritura oculta diante de qualquer tipo de ameaça.

Mais argumentos pela Escritura [ 1.8.9-11 ]

Algo que me chama atenção desde o início deste leitura é a maneira como Calvino sempre toca pontos atuais, mesmo sem perceber. Isto não deve ser surpresa, pois quando se faz uma exposição de Cristianismo, acabamos tratando de questões universais e atemporais, de maneira que vemos a relevância da Escritura, e de seus expositores, em nossa vida.

Nesse trecho, Calvino continua a defender a Bíblia de acusações dos incrédulos. E uma dessas acusações nos lembra bastante o pensamento vigente em universidades seculares e seminários teológicos – a autoria de Moisés, e mesmo sua existência. Ora, se a Bíblia diz que Moisés existiu e escreveu parte de seus textos, mas isso não é verdade, a Palavra não é confiável. O reformador nota que trata-se de uma tentativa de desmerecer a Bíblia, mas que os critérios que se usam contra ela nunca seriam usados contra outros textos antigos.

“Mas, se alguém puser em dúvida que jamais existiu um Platão, um Aristóteles, ou um Cícero, quem não haverá de dizer que tal insânia deve ser castigada com bofetadas ou com açoites?” (1.8.9, p.88)

O reformador também nos lembra que Moisés sempre foi conhecido dos povos hebreus, o que parece indicar sua credibilidade. Mesmo com os manuscritos sendo transmitidos por gerações, a Lei Mosaica pode ser considerada verdadeira, pois “foi maravilhosamente preservada, mais pela providência celestial do que pelo cuidado de homens” (idem).

Um exemplo disso é o relato feito em 1Macabeus, que conta da queima de todos os volumes das Escrituras, ordenado por Antíoco. Ainda assim, pouco depois a Escritura circulava normalmente entre o povo. Por meio da providência, os judeus, a quem “Agostinho merecidamente chama de os bibliotecários da Igreja” (1.8.10, p.90), preservaram os volumes pouco depois dessa perseguição.

Também o Novo Testamento é digno de admiraçao, por apresentar escritores que aos olhos humanos jamais poderiam ter escrito aqueles textos. A explicação é que somente por meio do poder de Deus os apóstolos podem alcançar tamanha sabedoria e discernimento para colocar no papel.

“Neguem esses cães que o Espírito Santo haja descido sobre os apóstolos ou, quando menos, anulem a credibilidade da história. Entretanto, a própria realidade brada patentemente que esses homens haviam sido ensinados pelo Espírito que, antes desprezíveis em meio ao próprio vulgo, de repente começaram a dissertar tão magnificamente acerca de mistérios celestiais.” (1.8.11, p.91)

A Bíblia é um tesouro preservado de geração em geração. E isto só aconteceu pelo cuidado de homens piedosos e, em primeiro lugar, pela providência divina. Que valorizemos mais e mais a Palavra do Senhor.

A favor da Escritura [ 1.8.1-8 ]

Depois de deixar claro que a Bíblia é suficiente para autenticar-se, e que o homem somente reconhecerá as palavras de Deus por meio da ação do Santo Espírito, Calvino nos mostra que isso não é motivo para nos silenciarmos. Pelo contrário, isto o motiva a apresentar mais razões que suportam a veracidade da Escritura, utilizando para isso provas que apelam ao bom senso de qualquer pessoa.

O primeiro desses argumentos para crermos nas Escritura envolve o conteúdo dos textos bíblicos. Isto é, para o reformador, a Palavra nos traz uma mensagem que é superior a qualquer texto humano, o que significa que ela deve ter origem divina.

“Quão peculiar, porém, é esse poder à Escritura, transparece claramente disto: que dos escritos humanos, por maior que seja a arte com que são burilados, nenhum sequer nos consegue impressionar de igual modo” (1.8.1, p.83)

“Se faz claro que ela está repleta de idéias que não poderiam ser concebidas em bases estritamente humanas.” (1.8.2, p.83)

O conteúdo da Palavra é uma prova incontestável da autoridade bíblica, mas a forma pela qual esse conteúdo é apresentado também nos chama a atenção. Calvino reconhece que muitas passagens foram escritas em “linguagem singela e sem realce” (1.8.1, p.82), mas não se esquece da beleza de outros trechos.

“Alguns profetas tem um modo de dizer elegante e polido, até mesmo esplendoroso, de sorte que sua eloquência não é inferior à dos escritores profanos. E, com tais, exemplos, o Espírito Santo quis mostrar que não lhe falta eloquência, enquanto em outros lugares fez uso de um estilo não burilado e pomposo.” (1.8.2, p.83)

O próximo argumento do reformador diz respeito à antiguidade da Bíblia, que demonstra não ser a distorção de outra religião, mas a revelação do próprio Deus. Em suas palavras, Moisés não estava a inventar um novo Deus (1.8.3, p.84). Calvino também lembra que o líder hebreu, autor do Pentateuco, é fonte de informação segura, alguém de quem não há nada a desconfiar. Prova disso é o fato de Moisés não deixar de citar no texto bíblico eventos constrangedores a ele e sua família.

Além disso, os milagres realizados por meio de Moisés comprovam a autoridade que Deus o entregou. Alguns podem argumentar que eram obras falsas, mas Calvino lembra que o profeta se valeu desses milagres para vindicar sua autoridade sobre os israelitas. Se eles não fossem reais, não haveria qualquer respeito pelo líder.

“Isto é, Moisés ter-se-ia apresentado no meio deles e, acusando o povo de infidelidade, contumácia, ingratidão e de outros atos incrimináveis, teria se vangloriado de que a doutrina lhe fora autenticada sobe seus próprios olhos, por esses milagres que eles mesmos jamais haviam contemplado!” (1.8.5, p.85)

O cumprimento das profecias, feitas por Moisés e pelos outros autores, também demonstram claramente o poder da Palavra. Mesmo profecias tão imprevisíveis quanto a aceitação dos gentios por parte de Yahweh ou o chamamento do rei pagão Ciro foram cumpridas. Vemos claramente que existe algo de diferente nos textos sagrados usados pelos cristãos.

“Não seria grande descaramento negar que a autoridade dos profetas foi confirmada com tais testemunhos, e que de fato se cumpriu o que eles afirmam, para que se desse crédito às suas palavra?” (1.8.8, p.88)

Em momentos de dúvida e fraqueza, podemos ter mente esse estudo de Calvino. Da mesma maneira que o Senhor cumpriu as profecias ditas pelos seus profetas, ele cumprirá as promessas que tem para o cristão. Não devemos temer, pois nosso Pai nos fala com autoridade e poder, e ele nos diz: “Porque eu, o SENHOR teu Deus, te tomo pela tua mão direita; e te digo: Não temas, eu te ajudo” (Isaías 41.13)

O Espírito e a Palavra [ 1.7.4-5 ]

Qual a base para afirmarmos a confiabilidade da Escritura? Para o reformador, a Bíblia “é indubitavelmente autenticada por si mesma” (1.7.5, p.79), e os crentes reconhecem isso. Ele está certo. Se a Biblia não se autentica, então precisamos de uma autoridade maior que o próprio Deus, uma vez que a Bíblia é Deus a falar. A Escritura é a Palavra de Deus e Deus não pode mentir. Portanto, “a suprema prova da Escritura se estabelece reiteradamente da pessoa de Deus falando nela” (1.7.4, p.78).

Por se tratar de uma questão de fé, é importante que tenhamos em mente que somente Deus pode capacitar alguém a entender o texto sagrado. Isto não nos isenta do evangelismo e da apologética. Pelo contrário, essas são ferramentas criadas pelo Senhor para alcançar a humanidade. Isto se dará pela obra do Espírito em nós.

“Deve-se buscar essa convicção para além das razões, dos juízos, ou das conjeturas humanas, ou seja, do testemunho íntimo do Espírito.” (idem)

“É necessário que o mesmo Espírito que falou pela boca dos profetas penetre em nosso coração, para que nos persuada de que eles proclamaram fielmente o que lhes fora divinamente ordenado.” (1.7.4, p.79)

Isto não quer dizer que a Bíblia se torna Palavra de Deus quando atinge o nosso coração, algo completamente subjetivo e relativista. Calvino quer dizer que a Bíblia já tem sua autoridade, quer seja o homem crente ou não, mas que somente por meio do testemunho interior do Espírito este homem perceberá a veracidade da Escritura.

“Respondo que o testemunho do Espírito é superior a toda razão. Ora, assim como só Deus é idônea testemunha de si mesmo em sua Palavra, também assim a Palavra não logrará fé nos corações humanos antes que seja neles selada pelo testemunho interior do Espírito Santo.” (1.7.4, p.79)

A verdadeira religião, portanto, consiste na união de uma vida guiada pelo Espírito através da Palavra. Antes de basearmos nossas certezas em nossos próprios raciocínios, em emoções ou experiências, a Bíblia tem primazia, pois é o próprio Deus que nos dá a fé. Calvino nos diz que a “fé verdadeira é aquela que o Espírito de Deus sela em nosso coração”(1.7.5, p.80), algo que o reformador mal consegue expressar.

“Aqui está uma convicção que não requer razões; um conhecimento ao qual assiste a mais sublimada razão; na verdade, no qual a mente descansa mais firme e constantemente que em quaisquer razões; enfim, um sentimento que não pode nascer senão de revelação celestial.” (idem)

Em um mundo cheio de “caçadores de Deus”, é irônico que a Bíblia – que “nos emanou diretamente da boca de Deus” (idem) – esteja esquecida em tantos púlpitos.