Quarta objeção pelagiana [ 2.5.4-5 ]

Uma das objeções mais comuns à doutrina calvinista é essa: se não temos a capacidade de cumprir o que Deus deseja, por que ele nos ordena? Para responder isso, Calvino nos lembra que essa é uma idéia comum na Bíblia, entre Cristo e os apóstolos.

“Cristo, que declara que sem ele nada podemos fazer [Jo 15.5], porventura com isso reprova e pune menos os que, à parte dele próprio, faziam o mal? Porventura com isso exorta menos a que cada um se devote às boas obras? Quão severamente Paulo investe contra os coríntios [1Co 3.3] em razão de sua negligência do amor fraternal! [1Co 16.14]. Contudo, por fim suplica que esse amor seja, pelo Senhor, dado aos mesmos coríntios.” (idem)

Calvino ainda cita os mais variados textos para mostrar que uma ordem sempre é dada com a advertência de que a capacidade de cumprí-la vem do Senhor. Mas, se as coisas funcionam dessa forma, para que serve exortar as pessoas? Existem duas respostas – para ímpios e justos. Sobre os primeiros, o reformador nos diz:

“É certo que, se pelos ímpios são desdenhadas, movidos por coração obstinado, se lhes tornarão em testemunho quando acontecer de virem diante do tribunal do Senhor; além de quê, já agora mesmo lhes fustigam e ferem a consciência, porquanto, por mais que as escarneça o mais insolente de todos, não obstante não as pode condenar.” (2.5.5, p.87)

Para os justos, as exortações ganham importância maior, por serem feramentas de Deus para alcançar seus propósitos redentivos.

“Ora, operando o Espírito interiormente, elas valem muitíssimo para inflamar o desejo do bem, para sacudir a indiferença, para alijar a volúpia da iniqüidade e seu envenenado dulçor; até mesmo em contrário, para gerar-lhes ódio e tédio, quem ousa acusá-las de supérfluas?” (2.5.5, p.88)

Os protagonistas dessa transformação causada pelas exortações são a Palavra e o Espírito, algo que Calvino deu grande atenção no Livro 1, e que agora voltam a aparecer, novamente trabalhando “em dupla”.

“Deus opera em seus eleitos de duas maneiras: interiormente, através do Espírito; exteriormente, mediante a Palavra. Pelo Espírito, iluminando-lhes a mente e plasmando o coração ao amor e ao cultivo da retidão, os faz novas criaturas. Pela Palavra, despertando-os para que desejem, busquem, alcancem essa mesma renovação. Em ambos – o Espírito e a Palavra – ele evidencia a operação de sua mão, segundo a maneira de sua dispensação.” (idem)
Portanto, é nosso papel como cristãos exortar e aconselhar que as pessoas abandonem o pecado. Não cabe a nós questionar se isso funcionará ou não. É Deus aquele que dá nova vida a um coração morto. Devemos confiar no poder de sua Palavra, aquela que não volta vazia – seja para salvação, seja para juízo.

Três Pessoas, Um Deus [ 1.13.16-17 ]

Pai, Filho e Espírito são Pessoas que subsistem como Um Deus. Essa é a doutrina que Calvino volta a explicar, algo de importância ímpar para quem deseja a verdadeira piedade. Essas Pessoas são distintas entre si, mas ao mesmo tempo são um. Para o verdadeiro cristão, é recomendável pensar sempre nos termos propostos com Gregório Nazianzeno:

“Não posso pensar em um e único, sem que me veja imediatamente envolvido pelo fulgor dos três; nem posso distinguir os três, sem que me veja imediatamente voltado para um e único.” (Sermão sobre o Santo Bastismo, citado em 1.13.17, p.140)

De fato, a fórmula do batismo comprova isso. Visto que há apenas um só batismo, uma só fé e um só Deus (Ef 4.5), não devemos nunca pensar em algo além do Deus único, pois “caso haja variados gêneros de fé, necessário se faz que também haja muitos deuses” (1.13.16, p.139). E, uma vez que esse único batismo é feito em nome do único Deus, faz sentido que a ordem de Jesus inclua o nome das 3 Pessoas.

“Aliás, não resta dúvida que, ao dizer: ‘Batizai-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo’ [Mt 28.19], Cristo, mediante esta solene injunção, desejava testificar que a perfeita luz da fé já então se manifestara, visto que, na realidade, isto equivale exatamente a serem eles batizados no nome de um só e único Deus, o qual, em plena evidência, se mostrou no Pai, no Filho e no Espírito. Do quê se faz meridianamente claro que na essência de Deus residem três pessoas, nas quais, todavia, se conhece um só e único Deus.” (idem)

É importante combatermos também a heresia conhecida como sabelianismo ou modalismo, que afirma serem Pai, Filho e Espírito Santo apenas modos como Deus se apresenta ou age, ou apenas designativos entre muitos que a Deidade tem. Calvino rejeita esse falso ensino, enfatizando novamente a subsistência de três pessoas distintas em Deus.

“Que o Filho tem sua propriedade distinta do Pai no-lo mostram as referências que já citamos, pois a Palavra não haveria estado com o Pai se não fosse outra distinta do Pai; nem haveria tido sua glória junto ao Pai, a não ser que dele se distinguisse… Além disso, o Pai não desceu à terra, contudo desceu aquele que procedeu do Pai; o Pai não morreu, nem ressuscitou, e, sim, aquele que fora por ele enviado” (1.13.17, p.140)

“Cristo assinala a distinção do Espírito Santo em relação ao Pai quando diz que ele, o Espírito, procede do Pai; além disso, a distinção do Espírito em relação a si mesmo a evidencia sempre que o chama outro, como quando anuncia que outro Consolador haveria de ser por ele enviado.” (idem)

Calvino é necessário ainda hoje, pois nos leva a entender melhor o Senhor e a combater os falsos ensinamentos. A doutrina da Trindade, tão desprezada e desconhecida em nossas igrejas, é uma das mais difíceis de ser compreendida. Porém, como veremos, é aquela que traz maiores recompensas, pois fala da natureza do próprio Deus. Ainda que possamos entender pouco sobre ela, esse pouco nos ensina mais sobre o amor de Deus, a comunhão entre os santos e a glória do Criador.

A divindade do Espírito [ 1.13.14-15 ]

Seguindo sua argumentação sobre as pessoas da Trindade, o reformador agora volta-se para o Espírito Santo. Calvino não tem dúvidas quanto a essa questão – o Espírito Santo é Deus, e uma Pessoa distinta do Pai e do Filho. Para isso, o texto de Gênesis 1.2, que diz que o Espírito pairava sobre as águas, nos é útil, pois demonstra a presença do Consolador na Criação.

Calvino vai ainda além e novamente lembra que a experiência do cristão é fundamental para crermos na divindade do Espírito Santo. Vemos outra vez o reformador enfatizando um relacionamento vivo com Deus, ao mesmo tempo em que é fortemente ancorado nas Escrituras.

“A melhor comprovação, porém, como o disse, nos será da experiência comum. Pois mui distanciado está das criaturas o que as Escrituras lhe atribuem e nós mesmos aprendemos da segura experiência da piedade. Ora, ele é aquele que, difuso por toda parte, a tudo sustém, alenta e vivifica, no céu e na terra. Já do número de criaturas se exclui por isto mesmo, a saber, que ele não é circunscrito por quaisquer limites. Ao contrário, isto é mui evidentemente divino: ao transmitir-lhes sua energia, infunde essência, vida e movimento a todas as coisas.” (1.13.14, p.137)

Como veremos em outra seção, essa experiência com Deus só é possível pelo novo nascimento, ou regeneração, que é operado no ser humano pelo próprio Espírito Santo. Calvino chama atenção para o fato de o Espírito ser o causador e sustentador desse nascimento, além de ser a fonte de vida eterna também, algo só possível a Deus.

“Ora, a Escritura ensina em muitos lugares que, não por energia tomada de empréstimo, ao contrário, por energia própria, é ele o autor dessa regeneração, e não só dela, mas também da imortalidade futura.” (idem)

Não apenas Deus Espírito é responsável pela nossa nova vida em Cristo, como também ele habita em nós, e somos chamados de templo por isso. Citando um argumento genial de Agostinho, Calvino nos lembra que templos são lugares onde deuses (nesse caso Deus) habitam.

“Se nos fosse ordenado edificar ao Espírito um templo de madeira e pedra, uma vez que esta honra só se deve a Deus, seria cristalino argumento em prol de sua divindade. Ora, pois, temos aqui um argumento muito mais luminoso: que não devemos fazer-lhe um templo, ao contrário, nós mesmos somos seu templo!” (Agostinho, A Máximo, ep. 66., citado em 1.13.15, p.138)

Calvino cita ainda outros textos relevantes à matéria, como Atos 5.3s, 6.9 e 28.25; Is 63.10 e Mt 12.31 (cf. Mc 3.29; Lc 12.10). É importante notarmos nessa seção a sobriedade e cuidado do reformador em não ir além do que a Escritura diz. Ainda que convicto a respeito da divindade do Espírito, Calvino prefere não forçar os textos a dizerem o que ele quer, e afirma:

“Deixo, cônscia e deliberadamente, de considerar muitos testemunhos de que os antigos fizeram uso… Por isso preferi abordar, um tanto seletivamente, apenas elementos em que as mentes piedosas pudessem solidamente arrimar-se.” (1.13.15, p.138)

Que o próprio Deus Espírito nos oriente a isso – respeito pela Escritura e desejo por um relacionamento vivo com o Criador.

Espírito x Escritura – parte 3 [ 1.9.3 ]

Existe uma acusação comum contra aqueles que tentam manter-se fiéis à Palavra, e desejam que somente as Escrituras falem no púlpito, através de uma boa interpretação – eles seguem a letra morta, não o Espírito que vivifica (uma distorção de 2Co 3.6). Calvino começa essa seção rebatendo essa falsa crítica.

“Portanto, morta é a letra, e a lei do Senhor mata a seus leitores, quando não só se divorcia da graça de Cristo, mas ainda, não tangindo o coração, apenas soa aos ouvidos. Se ela, porém, mediante o Espírito, é eficazmente impressa nos corações, se a Cristo manifesta, ela é a palavra da vida, a converter almas, a dar sabedoria aos símplices.” (1.9.3, p.95)

Há uma relação orgânica e viva entre Escritura e Espírito, de maneira que só conhece corretamente a Escritura aquele que está no Espírito. Ao mesmo tempo, somente pela Escritura podemos ter plena certeza das ações do Espírito e identificar falsas manifestações.

“Pois o Senhor ligou entre si, como que por mútuo nexo, a certeza de sua Palavra e a certeza de seu Espírito, de sorte que a sólida religião da Palavra se implante em nossa alma quando brilha o Espírito, que nos faz aí contemplar a face de Deus assim como, reciprocamente, abraçamos ao Espírito, sem nenhum temor de engano, quando o reconhecemos em sua imagem, isto é, a Palavra.” (idem)

Para Calvino, é ministério de Deus, em especial do Espírito, cuidar para que a mensagem da Escritura permaneça na mente dos cristãos. É comum ver igrejas que não seguem princípios bíblicos em seus cultos, apresentando a desculpa de que foram movidas pelo Senhor a isso. Devemos tomar cuidado com tais congregações.

“[Deus] enviou o mesmo Espírito, pelo poder de quem havia ministrado a Palavra, para que realizasse sua obra mediante a confirmação eficaz dessa mesma Palavra… Cristo abriu o entendimento aos dois discípulos de Emaús não para que, postas de parte as Escrituras, se fizessem sábios por si mesmos, mas para que entendessem essas Escrituras.” (idem)

Nossa oração é que o Espírito fale sempre, por meio do que Ele mesmo designou.

Espírito x Escritura – parte 2 [ 1.9.2 ]

Como já vimos, crescimento espiritual e leitura da Palavra não se separam.

“Se ansiamos por receber algum uso e fruto da parte do Espírito de Deus, imperioso nos é aplicar-nos diligentemente a ler tanto quanto ouvir a Escritura.” (1.9.2, p.94)

Porém, existem aqueles que negam a necessidade do estudo bíblico e enfatizam uma suposta orientação do Espírito Santo. Ainda hoje esse tipo de heresia existe, e muitas vezes vemos alguém enganando a si, afirmando ter uma revelação especial, quando aquilo que ela sustenta pode até ir contra a Escritura. Diante dessas pessoas, que “buscam o Espírito de si próprios e não por ele mesmo” (idem), Calvino pergunta:

“Uma vez que Satanás se transfigura em anjo de luz, que autoridade terá o Espírito entre nós, a não ser que seja discernido por meio de sinal de absoluta certeza?” (idem)

A resposta de Calvino pode parecer polêmica para alguns, mas, para ele, o Espírito Santo não irá além daquilo que está escrito. Isto é, ele não negará as Sagradas Escrituras, e nem pode fazê-lo. Evidentemente, alguns dirão que estamos prendendo Deus em uma caixa, mas o reformador responde:

“Alegam, com efeito, que é afrontoso que o Espírito de Deus, a quem todas as coisas devem ser sujeitas, seja subordinado à Escritura. Como se, na verdade, isto fosse ignominoso ao Espírito Santo: ser ele por toda parte igual e conforme a si mesmo; permanecer consistente consigo em todas as coisas; em nada variar! De fato, se fosse necessário julgar em conformida com qualquer norma humana, angélica, ou estranha, então deveria considerar-se que o Espírito estaria reduzido a subordinação.” (idem)

Deus não pode mentir, e aquilo que ele disse na Escritura, é aquilo que Deus Espírito diz aos seus. Qualquer ensino que desvirtue isso é anátema.

“Para que o espírito de Satanás não se insinue sob o nome do Espírito, ele quer ser por nós reconhecido em sua imagem que imprimiu nas Escrituras. Ele é o autor das Escrituras: não pode padecer variação e inconsistência para consigo mesmo. Portanto, como ali uma vez se manifestou, assim tem ele de permanecer para sempre.” (1.9.2, p.95)

Espírito x Escritura – parte 1 [ 1.9.1 ]

Citei em tópico anterior, a relevância dos escritos de João Calvino para nosso tempo. Parece que o reformador francês enfrentava desafios semelhantes aos que os crentes atuais encaram. Esse capítulo, em especial, é um dos melhores lidos até agora (em minha opinião) e merece alguns posts a mais. Nele Calvino fala sobre aqueles que menosprezam as Escrituras em detrimento de suposta orientação do Espírito de Deus.

“Surgiram em tempos recentes certos desvairados que, arrogando-se, com extremada presunção, o magistério do Espírito Santo, fazem pouco caso de toda leitura da Bíblia e se riem da simplicidade daqueles que ainda seguem, como eles próprios a chamam, a letra morta e que mata.” (1.9.1, p.93)

Provavelmente nos virá à memória alguém que pensa de maneira semelhante aos contemporâneos do reformador, e alguns até tenham se sentido mal por parecerem tão “insensíveis ao toque do Espírito”. Mas o reformador sabe que nenhum dos apóstolos pensava como os hereges de seu tempo.

“Eu, porém gostaria de saber deles que Espírito é esse de cuja inspiração transportam a alturas tão sublimadas que ousem desprezar como pueril e rasteiro o ensino da Escritura? Ora, se respondem que é o Espírito de Cristo, tal certeza é absolutamente ridícula, se na realidade concedem, segundo penso, que os apóstolos de Cristo e os demais fiéis da Igreja primitiva, foram iluminados não por outro Espírito. O fato é que nenhum deles aprendeu o menosprezo pela Palavra de Deus.” (idem)

Para Calvino, o Espírito e a Escritura estão unidos por um “vínculo inviolável” (idem), mas aqueles que tentam criar uma dicotomia entre esses dois elementos cometem sacrilégio e desrespeito para com Deus, sua Palavra e o próprio ministério do Espírito Santo.

“Logo, não é função do Espírito que nos foi prometido configurar novas e inauditas revelações ou forjar um novo gênero de doutrina, mediante a qual sejamos afastados do ensino do evangelho já recebido; ao contrário, sua função é selar-nos na mente aquela mesma doutrina que é recomendada no evangelho.” (1.9.1, p.94)

Criar uma divisão entre o que a Bíblia diz e o que o Espírito Santo ensina é colocar Deus contra Deus. Não que tenhamos um Livro como divindade, mas ali estão guardados os pensamentos do próprio Criador. Fugir da Palavra em nome do Espírito é dizer que Deus, que não pode mentir, se contradiz, ou que o Consolador deixou seu ministério a fim de trazer inovações no Cristianismo. Tal postura é incompatível com a de um cristão e deve ser combatida. Que o Espírito de Cristo nos ajude nisso.