Ação divina sobre os homens [ 2.4.5-8 ]

Calvino expande um pouco mais a questão da soberania de Deus sobre as vontades, e mostra que até em ações mais simples Deus está no controle. Um exemplo disso é a prestatividade dos egípcios em doar bens ao povo de Deus ou o comando do Senhor sobre as nações pagãs. Novamente, essa uma doutrina necessária para glorificar nosso Pai e nos confortarmos nele, não para que vivamos em especulações ou negações.

“Sempre que Deus, querendo fazer caminho à sua providência, dobra e revolve a vontade dos homens até mesmo nas coisas externas, nem lhes é livre a escolha, de modo que o arbítrio de Deus não lhe reja a liberdade. Queiras ou não, que teu intento é pendente antes da impulsão de Deus do que da liberdade de tua escolha, esta é a experiência diária.” (2.4.7, p.81)

Para complementar seu pensamento, Calvino mais uma vez apela aos escritos de Agostinho, que, com genialidade, nos explica melhor essa desafiadora doutrina.

“Se é diligentemente examinada, a Escritura mostra que não só as boas vontades dos homens, que de más ele assim as faz, e uma vez feitas, dirige para as boas ações e a vida eterna, mas também aquelas que conservam a criatura no mundo, assim estão sob o poder de Deus, de modo que, por seu mui secreto, porém mui justo juízo, as faz inclinar-se para onde quiser, quando quiser, seja para prestarem benefícios, seja para infligirem castigos.” (citado em 2.4.7, p.82)

Por fim, uma ressalva de Calvino – a questão da liberdade humana não diz respeito à capacidade das pessoas de alcançarem seus objetivos. Isto é, alguns tentam provar que o homem não tem a vontade livre por não conseguirem aquilo que planejaram. No entanto, essa doutrina não diz respeito a isso, mas ao próprio interior do homem.

“Pois, na discussão do livre-arbítrio, não se está a indagar se porventura se permite ao homem, por entre os ofícios externos, executar e consumar tudo quanto haja determinado na mente, mas se, em qualquer coisa que seja, tenha livre tanto a escolha do juízo quanto a inclinação da vontade, o que, se ambas assistem aos homens, de não menos livre-arbítrio será Atílio Régulo, confinado na estreiteza de um tonel crivado de pregos, que Augusto César a governar, de seu arbítrio, a grande parte do orbe terrestre.” (2.4.8, p.82)

Agostinho estava certo [ 2.3.13-14 ]

Para dar força a seu argumento, Calvino usa a autoridade daquela que é sua maior influência, Santo Agostinho. Certamente, este é o nome mais citado nas Institutas, e o reformador usará as próximas duas seções para demonstrar que o ensino sobre a graça apresentado em sua obra é o mesmo do Bispo de Hipona. A estratégia não é procurar autoridade da tradição, mas demonstrar, por meio de um nome respeitado entre protestantes e católicos, que nada de novo foi ensinado até agora.

“A graça de persistir no bem fora dada a Adão, se ele a quisesse exercitar; a nós nos é dada para que queiramos, e através da vontade superemos a concupiscência. Portanto, teria ele tido o poder, se o quisesse, porém não teve o querer, para que pudesse; a nós nos é dado não só o querer, mas ainda o poder. A primeira liberdade foi de poder não pecar; a nossa é muito maior: não poder pecar.” (Da Correção e da Graça, citado em 2.3.13, p.73)

A questão da graça operante e graça cooperante é também tratada por Agostinho. Para ele, todo o bem praticado por nós é fruto da ação divina sobre nossas vidas, de maneira que não há qualquer mérito humano ou capacidade que possa ser associada a homens e mulheres agindo por eles mesmos.
“A vontade dos fiéis é de tal maneira guiada pelo Espírito Santo, que podem agir bem porque assim o querem; e querem, porque Deus faz com que queiram [2Co 12.9]… Só a graça opera em nós toda boa obra” (citado em 2.3.13, p.73)
Calvino lembra que isso não significa que Agostinho (e, consequentemente, ele) acreditava que a vontade humana era suprimida pela graça de alguma forma, mas que ela continua, mas agora trasnformada. A objeção de que o amorou a fé só existem se nascem espontaneamente não se aplica aqui.
“O homem não é de tal maneira impulsionado, que seja impelido sem a disposição do coração, como se movido por uma força externa; ao contrário, é interiormente acionado, de tal forma que obedece de coração.” (2.3.14, p.74)

Assim, com Agostinho, Calvino conclui o seguinte sobre a vontade humana:

“E assim, ao homem é deixado um livre-arbítrio tal, se assim se prefere chamá-lo, que escreve em outro lugar: que nem se pode converter a Deus, nem em Deus persistir, senão pela graça: tudo quanto pode, o pode pela graça.” (2.3.14, p.7)

Corrupto por completo [ 2.3.1-2 ]

Uma confusão comum entre os leitores da Bíblia é a associação muito restrita do termo carne à porção sensória do ser humano. Calvino inicia o terceiro capítulo do livro 2 corrigindo este mal entendido. Não foi apenas o corpo humano afetado pela queda, como creem alguns, mas o homem por completo. Tudo aquilo que temos naturalmente está corrompido.

“Na verdade, tanto quanto em outras circunstâncias, se pudesse haver dúvida acerca desta matéria, a mesma nos é dirimida por Paulo, onde, descrito o velho homem, que dissera ter sido corrompido pelas concupiscências do erro, ordena que sejamos renovados no espírito de nossa mente [Ef 4.22, 23]. Vês que ele não situa os desejos ilícitos e depravados apenas na parte sensorial, mas também na própria mente, e por isso requer que lhe haja renovação.” (2.3.1, p.57)

A Bíblia é clara em afirmar que a parte imaterial do homem é fonte de pecado. Não derivamos nosso pensamento dos platônicos, mas de Deus. Mesmo o coração, considerado por alguns a melhor expressão do que é o ser humano, não escapa desse vírus implacável. “Em nada é mais branda a condenação do coração, quando se diz ser enganoso acima de todas as coisas e depravado [Jr 17.9].” (2.3.2, p.58). Para não se delongar muito nesse assunto, Calvino escolhe Romanos 3 como texto-base para demonstrar a nossa depravação. Temos uma citação longa, mas necessária.

“Ele priva o homem, de início, da justiça, isto é, da integridade e da pureza; a seguir, do entendimento [Rm 3.10, 11]. Ora, a carência de entendimento é demonstrada pela apostasia para com Deus, a busca de quem é o primeiro degrau da sabedoria. Mas essa deficiência necessariamente se acha naqueles que se têm afastado de Deus. Acrescenta em seguida que todos se têm transviado e se têm tornado como que putrefatos, que nenhum há que faça o bem; então adiciona as ignomínias com as quais contaminam a cada um de seus membros aqueles que uma vez se espojaram na dissolução. Finalmente, atesta que são vazios do temor de Deus, o que deveria ser a regra a dirigir-nos os passos.” (2.3.2, p.59)

O reformador nos lembra que essa passagem trata de toda humanidade, e não apenas de alguns. Ele também afirma que, embora nem todos cheguem a cometer tamanhos males, essa semente pecaminosa deixa aberta essa possibilidade no coração de todo ser humano.

“Se forem estes os dotes hereditários do gênero humano, em vão se busca algo de bom em nossa natureza. Reconheço, sem dúvida, que nem todas estas abominações vêm à tona em cada ser humano, entretanto não se pode negar que esta hidra jaz oculta no coração de cada um.” (idem)

Livre-arbítrio, um escravo [ 2.2.26-27 ]

A questão da liberdade da vontade humana é considerada um diferencial na teologia de Calvino. Assim, depois de discutir a corrupção da mente, o reformador volta-se para a demonstração de que não temos uma vontade livre. Pelo contrário, por natureza escolhemos aquilo que nos parece o bem, assim como qualquer animal faz. Não há deliberação da mente, mas apenas uma escolha natural.

“Se contemplas o que é este desejo natural do bem no homem, verificarás que ele o tem em comum com os animais… Sem razão, sem reflexão, segue a inclinação da natureza, como um animal. Portanto, se porventura o homem é levado a buscar o bom por injunção da natureza, isto em nada diz respeito à liberdade de arbítrio. Pelo contrário, requer-se isto: que depois de discenir o bom, o escolha e busque o que escolheu.” (2.2.26, p.54)

O erro dos arminianos é achar que os calvinistas entendem os homens como robôs. No entanto, os reformados reconhecem que o homem faz aquilo que deseja. O problema não é ele decidir o que fazer, mas o fato dele sempre decidir segundo sua inclinação pecaminosa. Além disso, mesmo o “bem” que o homem escolhe tem como pano de fundo seu desejo por bem-estar, o que certamente não é sinônimo de uma decisão conforme os padrões de Deus.

“Ora, aqui, primeiro, o apetite não só é chamado um movimento próprio da vontade, mas ainda uma inclinação natural, como também, segundo, o bom não provém de virtude ou de justiça, mas de condição, como, por exemplo, quando se trata do bem-estar do homem. Afinal, por mais que o homem deseje seguir o que é bom, contudo não o segue; assim como ninguém há a quem a bem-aventurança eterna não seja agradável, à qual, entretanto, ninguém aspira, senão pelo impulso do Espírito.” (2.2.26, p.54)

Assim, Calvino interpreta o polêmico capítulo 7 de Romanos como sendo a representação de um homem regenerado lutando contra seus impulsos, vivendo no conflito carne contra espírito. Somos pessoas presas ao pecado, e mesmo quando pedimos a Deus por libertação, o próprio Deus já está agindo em nós.

“Fora, pois, com tudo aquilo que muitos têm bradado acerca de uma preparação, porque, se às vezes os fiéis rogam por um coração que lhes seja plasmado para a obediência da lei de Deus, como o faz Davi em muitos lugares, entretanto deve-se notar que também este desejo de orar procede de Deus, o que se pode coligir de suas palavras. Pois, ao desejar que em si seja criado um coração limpo [Sl 51.10], por certo que não reivindica para si o início dessa criação.” (2.2.27, p.56)

Que a nossa atitude seja semelhanteao que Agostinho nos propõe em mais uma citação que Calvino faz.

“Confessa que todas essas coisas as tens de Deus; tudo quanto tens de bom, dele provém; de ti procede tudo quanto há de mau. Nada é nosso, senão o pecado.” (idem)

A falha da razão [ 2.2.24-25 ]

A razão, aliada à Lei Natural, é importante para que a humanidade organize-se em sociedade, produza coisas belas e úteis, possua uma certa moralidade e, consequentemente, não se destrua. No entanto, essas habilidades humanas de pouco valem quando o assunto é alcançar a verdadeira justiça. Comparando a mente do homem com a Lei de Deus, Calvino diz:

“E se queremos confrontar nossa razão com a lei de Deus, que é o paradigma da perfeita justiça, descobriremos em quão numerosos pontos aquela é cega! Por certo que longe está ela de alcançar aquelas coisas que são primordiais na primeira tábua do Decálogo, as quais dizem respeito à confiança em Deus, ao louvor da virtude e da justiça que se deve atribuir-lhe, à invocação de seu nome, à verdadeira observância do sábado.” (2.2.24, p.51)

O reformador admite que em relação à segunda tábua da Lei (que trata do relacionamento do homem com seu próximo) os homens têm mais sucesso em obedecer às ordem de Deus, por conta da manutenção da ordem social. Porém, ainda assim somos falhos se dependermos apenas dos dons naturais. Seremos facilmente ludibriados por nossa mente enganosa. Por esse motivo Calvino critica os filósofos, por se esquecerem da total corrupção humana e levarem em conta apenas ações maléficas deliberadas e realizadas.

“Ora, enquanto os filósofos caracterizam como vícios às tendências imoderadas da mente, assim o entendem aquelas que se exteriorizam e se manifestam por sinais mais crassos, porém reputam por nada os desejos depravados que afagam a mente de forma cariciosa.” (2.2.24, p.52)

“Se deve repudiar a opinião daqueles que ensinam que em todos os pecados permeiam deliberadamente a maldade e perversidade. Pois sempre que experimentamos a saciedade, com toda nossa boa intenção caímos.” (2.2.25, p.52)

Assim, a solução para que o homem dirija-se retamente é buscar iluminação do Espírito Santo, a fim de que seja instruído pela Palavra. Como já vimos, o objetivo a lei natural é condenatório, não salvífico, de maneira que ela não tem poder de guiar alguém a Deus. É preciso que homens e mulheres tomem consciência de sua própria incapacidade e busquem, como os santos fizeram, a orientação do Senhor. E por todos os dias de sua vida.

“Davi estava cônscio desse padecimento em relação a si mesmo, quando rogava que lhe fosse concedido entendimento para aprender retamente os preceitos do Senhor [Sl 119.34]. Ora, quem deseja alcançar para si nova compreensão, deixa claro que de modo algum lhe é suficiente à compreensão que possui… Nem ensina a Escritura que são nossas mentes iluminadas em apenas um dia, de sorte que, a partir daí, vejam por si próprias, porquanto o contínuo progresso e crescimento lhes são conferidos.” (2.2.25, p.52s)

A lei natural [ 2.2.22-23 ]

Em seções anteriores, Calvino citou três elementos que a mente humana, sem o apoio do Espírito Santo, não pode alcançar. Os dois primeiros eram o conhecimento de Deus e de seu favor, que nos leva a salvação. Agora, ele volta-se ao terceiro ponto – a lei natural – que todo ser humano carrega em si, e que serve de árbitro moral em sua vida.

“Se os gentios têm a justiça da lei da natureza gravada na mente, por certo que não diremos que são inteiramente cegos na maneira de conduzir a vida. E nada é mais generalizado que ser o homem suficientemente assistido, em relação à reta norma da vida, pela lei natural de que o Apóstolo aqui fala.” (2.2.22, p.49)

No entanto, essa lei natural não dá ao homem completa norma de vida, nem o prepara para a santidade. É claro que ela é útil para que a humanidade, mesmo caída, não se autodestrua. Porém, sua finalidade maior é condenatória. O apóstolo Paulo nos explica isso em Romanos 2.1 – “Portanto, és indesculpável, ó homem, quando julgas, quem quer que sejas; porque, no que julgas a outro, a ti mesmo te condenas; pois praticas as próprias coisas que condenas” – e Calvino tem essas palavras em mente ao expor essa doutrina.

“Portanto, a finalidade da lei natural é tornar o homem inescusável. E poderíamos defini-la adequadamente dizendo que é um sentimento da consciência mediante o qual discerne entre o bem e o mal o suficiente para que os homens não prextestem ignorância, sendo convencidos por seu próprio testemunho. A indulgência do homem para consigo mesmo é que, ao perpetrar o mal, sempre e de bom grado aparta a mente do senso de pecado, até onde permissível.” (2.2.22, p.50)

Muito útil nessa discussão é o que Calvino chama de “princípio de Temístio”. Este filosófo grego dizia que os homens sempre têm um senso de pecado em relação a situações gerais. No entanto, para si, abre exceções, por considerar que o seu erro, naquele caso específico, é justificado. O reformador concorda – ainda que admita exceções, como veremos – com ele.

“Ninguém haverá que não afirme que o homicídio é mau, se a indagação é de cunho geral. Aquele, porém, que maquina a morte de um inimigo, delibera-a como se tratasse de uma boa coisa. O adúltero condenará o adultério em geral; entretanto o lisonjeará no seu em particular… homem se esquece dessa regra que havia há pouco estabelecido como princípio universal, quando chega a um caso particular.” (2.2.23, p.50)

Esse princípio, porém, não é absoluto. Calvino nos lembra que existem pessoas que realmente praticam a maldade sabendo que fazem o mal. O reformador cita a distinção do erro humano, feita por Aristóteles, entre incontinência e intemperança. O primeiro caso é esse citado em Temístio – alguém que considera algo como mau, mas está cego quando pratica esse mal. Já a intemperança diz respeito aos que convictamente praticam o erro. Como diz Ovídio:

“Vejo as coisas melhores e as aprovo; porém sigo as piores.” (Medéia, in Metamorfose, de Ovídio, VII, 20, citado em idem)

Portanto, a obra missionária é necessária, pois a lei natural nunca levará homens à salvação, mas apenas à condenação. É necessário que o crente se esforce por isso, não confundindo a mera obediência a essa lei à verdadeira piedade, esta que só vem do Senhor.