Deus é incoerente? [ 2.11.13-14 ]

Se existem tantas diferenças entre Antigo e Novo Testamento, isso significa que Deus é inconstante e mutável? Calvino deixará claro que não. O reformador nos explica que não é o Senhor quem muda, mas os homens; e em diferentes épocas, ele governo o mesmo plano em fórmulas diferentes, mas com a mesma substância. O teólogo de Genebra usa a imagem do fazendeiro que prescreve diferentes tarefas no inverno e no verão, e do pai que de maneira diferente cuida da criança, do adolescente e do jovem.

“Que há fora de ordem neste regime de Deus, que os confinou a rudimentos que com eles se coadunavam, segundo o nível de sua idade, e a nós nos instruiu através de uma disciplina mais firme e, dir-se-ia, mais viril? Portanto, nisto refulge a constância de Deus: que em todos os séculos tem ensinado a mesma doutrina e o mesmo culto de seu nome que preceituou desde o início persiste em requerê-lo. Que mudou a forma externa e o modo, nisto Deus não se mostra sujeito a mudança. Pelo contrário, apenas acomodou-se à capacidade dos homens, que é variável e mutável.” (2.11.13, p.218)

Calvino então levanta outra possível objeção – por que Deus não deixou claro seus planos sem ocultá-los? Por que não revela logo seu poder para o mundo inteiro, sem a necessidade de demora? O reformador considera irreverente e tolo esse tipo de questionamento.

“Isto é, na verdade, exatamente como se contendessem com Deus, só porque criou ele o mundo tão tarde, quando o poderia ter criado desde o princípio, ou porque quisesse ele que houvesse alternâncias entre inverno e verão, dia e noite. Nós, porém – o que devem sentir todos os piedosos –, não duvidamos que tudo quanto foi feito por Deus o foi sabiamente e com justeza, ainda que freqüentemente desconheçamos a causa por que lhe conveio assim agir. Ora, seria isto atribuir demais para nós: não conceder a Deus que tenha razões de seu propósito que nos são ignoradas.” (2.11.14, p.218)

Novamente, outra pergunta é levantada – por que Deus se deleitava antes com o sacrifício dos judeus e agora não mais? Para o teólogo, só pergunta isso quem enxerga de maneira pequena a antiga aliança e o próprio Senhor. “Deus não fez nenhuma destas coisas por sua própria causa; pelo contrário, a todas determinou em prol da salvação dos homens”(idem). Além disso, como já dissemos, esses sacrifícios apontavam para o Sacrifício maior, de Cristo.

A última acusação, sobre a escolha divina de se revelar aos outros povos somente quando desejou, também é respondida magistralmente por Calvino. A base da resposta está na soberania de Deus, uma doutrina que não deveríamos menosprezar, mas meditar e meditar nela.

“Quem, pergunto, negará ser justo que esteja na mão e no juízo de Deus a dispensação livre das suas graças, pelas quais quis iluminar as nações? Os lugares que quis incitar com a pregação da sua palavra? O modo e a medida que escolheu para estender o proveito e o sucesso de sua doutrina? Que restitua, de acordo com sua misericórdia, quando bem quiser, o conhecimento de seu nome, retirado do mundo por quantos séculos quis, em razão da ingratidão dos povos? Vemos, portanto, quão são indignas as calúnias com as quais os homens ímpios turbam as almas dos simples, dado que coloquem em dúvida a justiça de Deus ou a fé da Escritura.” (2.11.14, p.218s – usei aqui a tradução da UNESP, livro 1, p. 440)

Uma ética calvinista [ 2.8.46 ]

Na segunda parte de sua exposição do oitavo mandamento, Calvino apresenta algumas aplicações práticas. A primeira delas é que devemos a todo custo lutar para que as pessoas mantenham seus bens e, ao mesmo tempo, não devemos nos apegar demais aos nossos.

“Até onde possível, mediante conselho e assistência, a todos ajudemos fielmente a conservarem o que é seu. Entretanto, se tivermos de nos haver com pérfidos e enganadores, estejamos preparados antes a ceder algo do que é nosso do que com eles contendermos… Aqueles a quem houvermos de ver premidos pelas dificuldades das coisas, compartilhemos-lhes das necessidades e com nossa abundância supramos-lhes a falta de recursos. Finalmente, atente cada um, não importa até onde, por dever de ofício, obrigado para com outros e de boa fé, a pagar o que lhes deve.” (2.8.46, p.168)

Para o teólogo, devemos entregar a cada pessoa aquilo que lhes devemos. Isto significa que devemos agir corretamente ao lidar com empregados, patrões, governantes, pais, etc. Não tratar estas pessoas como elas merecem é furtar-lhe algo. Calvino fala em especial de nossos líderes tanto na sociedade quanto na igreja.

“Tenha o povo em honra a todos que lhe são constituídos em autoridade, suporte-lhes de bom grado o domínio, obedeça-lhes às leis e determinações, a nada se furtando que possa fazer para o agrado de Deus. Por outro lado, sustenham esses o cuidado de seus súditos, conservem a paz pública, sejam por proteção aos bons, reprimam os maus. De tal modo administrem a tudo como se tivessem de prestar conta de sua função a Deus, o Juiz Supremo.” (idem)

“Exerçam sua autoridade como os bons pastores sobre suas ovelhas. Por sua vez, receba-os o povo por mensageiros e apóstolos de Deus, renda-lhes essa honra de que o Mestre Supremo os fez dignos, proveja-lhes aquelas coisas que lhes são necessárias à vida.” (idem)

De maneira semelhante, pais e filhos, jovens e velhos, e empregados e chefes devem se tratar dignamente, cada qual segundo a posição que tem.

“Reverenciem os jovens a idade senil, como o Senhor quis que essa idade seja digna de honra. Também, com sua prudência e pela experiência que os excelem, assistam os idosos à insuficiência da juventude, não apoquentando-os com recriminações ásperas e estridentes; pelo contrário, moderem a severidade pela afabilidade e delicadeza.” (idem)

“Que os empregados, diligentes e com mansidão, se mostrem obedientes aos patrões, não fazendo isso em aparência, mas de coração, como que servindo ao próprio Deus. Os patrões também não se conduzam como rabugentos e intratáveis para com os empregados, não os pressionem com excessiva aspereza, nem os tratem insolentemente. Antes, pelo contrário, reconheçam que eles são seus irmãos e seus conservos sob o Senhor celeste, a quem devem amar mutuamente e tratar humanamente.” (idem)

Cristo seja nosso modelo ao tratarmos com o próximo. Que não usemos a posição que Deus nos deu para massacrá-lo ou desrespeitá-lo. Não sejamos como ladrões, não entregando a cada pessoa aquilo que é dela ou tomando o que não nos pertence. Que o Espírito Santo nos ilumine nessas situações.

O domingo para o cristão [ 2.8.33-34 ]

Alguns perturbadores acusavam os cristãos de retornarem a ritos judaicos, por conta do Dia do Senhor. Calvino responde essa questão lembrando novamente que a igreja não se reune em um dia fixo por conta de algum tipo de ritualismo, mas por ser necessária certa data fixa para essas celebrações. Paulo, por exemplo, não era contrário a este dia, mas ao uso judaico.

“Não o celebramos como uma cerimônia revestida com a mais estrita religiosidade, pela qual pensamos representar-se um mistério espiritual. Pelo contrário, tomamo-lo como um remédio necessário para reter-se ordem na Igreja… Visto que para suprimir-se a superstição se impunha isto, foi abolido o dia sagrado observado pelos judeus; e como era necessário para se conservarem o decoro, a ordem e a paz na Igreja, designou-se outro dia, o domingo para este fim.” (2.8.33, p.157s)

O reformador lembra que o domingo foi escolhido por ser o dia da ressurreição do Senhor, demonstrando que a realidade, da qual o sábado era apenas sombra, agora foi desvendada para os fiéis. Assim, da mesma maneira que fez com o sábado para os judeus, Calvino divide o sentido do mandamento, agora para os cristãos, em três partes.

“Em primeiro lugar, nos é outorgada sem sombras, para que por toda a vida observemos um perpétuo sabatismo de nossos labores, a fim de que o Senhor em nós opere por seu Espírito; em segundo lugar, para que cada um, individualmente, sempre que disponha de lazer, se exercite diligentemente na piedosa reflexão das obras de Deus. Então, ainda, para que todos a um tempo observemos a legítima ordem da Igreja, constituída para ouvir-se a Palavra, para a administração dos sacramentos, para as orações públicas. Em terceiro lugar, para que não oprimamos desumanamente os que nos estão sujeitos.” (2.8.34, p.158, grifos meus)

Calvino também critica aqueles que entendem que o mandamento, embora não tenha suas características cerimonais, ainda tem força moral, obrigando todos os cristãos a guardarem um dia da semana de maneira semelhante ao judaísmo¹.

“Asseverando que nada mais foi cancelado senão o que era cerimonial neste mandamento, com isto entendem em seu linguajar a fixação do dia sétimo, mas remanescer o que é moral, isto é, a observância de um dia na semana. Com efeito, isto outra coisa não é senão mudar o dia por despeito aos judeus e reter em mente a mesma santidade do dia, uma vez que ainda nos permanece nos dias sentido de mistério igual ao que tinha lugar entre os judeus.” (2.8.34, p.158)

Essa seção sobre o quarto mandamento se encerra com uma exortação. Não é saudável faltarmos as reuniões da igreja se desejamos manter nossa caminhada cristã sempre viva e crescente. O crente que despreza o encontro com a comunidade dos santos corre grande perigo.

“Importa manter-se, principalmente, o ensino geral: para que a religião não pereça ou enlanguesça entre nós, devem ser realizadas diligentemente as reuniões sagradas e deve dar-se atenção aos meios externos que servem para fomentar o culto divino.” (2.8.34, p.159)

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¹ Nota do editor: Alguém pode explicar melhor esta opinião de Calvino? Ele entende que não é pecado não dedicar o domingo totalmente a Deus, de maneira diferente do que pensam muitos reformados, por exemplo? Para ele o quarto mandamento vale apenas como princípio geral? Agradeço a cooperação de quem conhece mais sobre o reformador que este iniciante que vos escreve.

O sábado para o cristão [ 2.8.31-32]

Calvino entende também que Jesus, trazendo a revelação definitiva de Deus, torna-se o cumprimento do sábado. Com sua vinda, a observância cerimonial foi terminada, e os cristãos precisam entender que todos os dias de nossa vida devem ser dias dedicados ao Senhor.

“Por isso, escreve o Apóstolo em outro lugar que o sábado tem sido uma sombra da realidade futura, e que o corpo, isto é, a sólida substância da verdade, que bem explicou naquela passagem, está em Cristo [Cl 2.17]. Esta não consiste em apenas um dia, mas em todo o curso de nossa vida, até que, inteiramente mortos para nós mesmos, nos enchamos da vida de Deus. Portanto, que esteja longe dos cristãos a observância supersticiosa de dias.” (2.8.31, p.156)

Isto não quer dizer, certamente, que não há lugar para os princípios propostos pelo sétimo dia. Pelo contrário, é necessário que as reuniões das igrejas sejam feitas frequentemente. E claramente vemos na Bíblia a igreja se reunindo em grupo, para celebrarem a novidade de vida trazida pelo Senhor. Além disso, a função trabalhista do sábado ainda nos é útil.

“Ainda que o sábado esteja cancelado, entre nós, não obstante, ainda tem lugar isto: primeiro, que nos congreguemos em dias determinados para ouvir a Palavra, para partir o pão místico, para as orações públicas; segundo, para que se dê aos servos e aos operários relaxação de seu labor.” (2.8.32, p.156)

Calvino entende que temos muito proveito em observar essa datas. Usando o mandamento de Paulo (1 Co 14.40) para que tudo seja feito em ordem, o reformador apresenta um motivo para termos um dia fixo de reuniões – uma questão de organização também, algo que ele desenvolverá mais nas próximas seções. Finalizando, ele responde uma questão interessante: por que não se reunir diariamente? O teólogo mostra-se favorável a isso, mas sabe que nem todos têm maturidade para tanto.

“Por que, dirás, não nos congregamos antes diariamente, de sorte que, dessa forma, se ponha termo à distinção de dias? Prouvera que, de fato, isto se nos concedesse! E, por certo, a sabedoria espiritual era digna de que se lhe reservasse diariamente alguma porçãozinha do tempo. Mas, se pela fraqueza de muitos não se pode conseguir que se realizem reuniões diárias, e a norma da caridade não permite deles exigir mais, por que não obedeçamos à norma que nos foi imposta pela vontade de Deus?” (2.8.32, p.157)

É necessário que o crente tenha consciência dessas palavras de Calvino – primeiro, que toda sua vida consiste de um culto a Deus e que é importante dedicar uma parte de seu tempo diariamente à meditação e adoração ao Senhor; segundo, que é necessário que a igreja se reuna ao menos uma vez cada semana, e que ele tome parte dessas celebrações. Muito do que vemos de fraqueza espiritual hoje é fruto do desrespeito para com o culto público. Fujamos dessa armadilha!

Quem autoriza quem? [ 1.7.1-3 ]

A Igreja autoriza a Bíblia ou a Bíblia autoriza a Igreja? Questões como essas parecem distantes para os crentes de hoje em dia. A maioria dirá “é claro que a Bíblia tem autoridade sobre a Igreja”, mas poucos perceberão quantas vezes a igreja acaba tentando silenciar a Palavra.

“Como, porém, não se outorgam oráculos dos céus quotidianamente, e só subsistem as Escrituras, na qual aprouve ao Senhor consagrar sua verdade e perpétua lembrança, elas granjeiam entre os fiéis plena autoridade, não por outro direito senão aquele que emana do céu onde foram promulgadas, e, como sendo vivas, nelas se ouvem as próprias palavras de Deus.” (1.7.1, p.75)

Quantas vezes pastores e denominações se rendem ao último modismo evangélico ou mundano, considerando a Escritura defasada sobre certos assuntos? Quantos de nós aplaudimos certas manifestações espirituais, fingindo que Deus nada tem a dizer sobre isso? Outros preferem seguir certos “manuais de exorcismo” a descobrir o que a Escritura tem a dizer. Na prática, é a Igreja tentando autorizar a Bíblia, mas só naquilo que lhe convém.

“Se o fundamento da Igreja é a doutrina profética e apostólica, é necessário que esta doutrina tenha sua inteira infalibilidade antes que a Igreja começasse a existir.” (1.7.2, p.76)

Porém, a Igreja tem o seu papel no testemunho da veracidade das Escrituras. Livrando Agostinho da falsa acusação de só crer na Escritura se a Igreja o levar a isso, Calvino mostrar que este irmão queria, na verdade, dizer que a Igreja tem parte na obra do Espírito que nos dá certeza e convicção sobre a Palavra.

“O santo varão não tivera esta intenção: que fizesse pendente da autoridade ou do arbítrio da Igreja a fé que temos nas Escrituras; ao contrário, que apenas indicasse, o que também confessamos ser verdadeiro, que aqueles que ainda não foram iluminados pelo Espírito de Deus são induzidos à docilidade pela reverência à Igreja, para que porfiem em aprender do evangelho a fé em Cristo.” (1.7.3, p.77)

Assim, aprendemos que nossa missão é essa – trazer pessoas ao conhecimento de Deus. E isso só se consegue por meio da ação da Igreja e da apresentação séria da Escritura.