Deus de vivos [ 2.10.7-9 ]

A questão das bênçãos dadas aos personagens do Antigo Testamento continua sendo tratada por Calvino. Eles receberam uma herança espiritual ou meramente tesouros terrenos? Uma análise de diversos personagens mostrará que os nossos pais tiveram acesso à mesma vida eterna que teremos.

“As almas dos piedosos são não só iluminadas para o conhecimento de Deus, como também são, de certo modo, a ele ligadas. Uma vez que, mediante esta modalidade de iluminação da Palavra, se apegaram a Deus Adão, Abel, Noé, Abraão e os demais patriarcas, digo que não há nenhuma dúvida de que tiveram ingresso no reino imortal de Deus. Pois essa era uma firme participação de Deus, que não pode subsistir fora da bênção da vida eterna.” (2.10.7, p.191)

O reformador cita diversos textos do Antigo Testametno, como Habacuque 1.12 e Isaías 33.22, confirmando sua doutrina. Seu argumento é bastante simples – é impossível que Deus graciosamente resolva relacionar-se com alguém sem que também lhe presenteie com a vida eterna.

“A que homem ele haverá de manifestar-se por Deus a quem não abra também os tesouros da salvação?… Não se pode obter essa sua presença, a qual, ao mesmo tempo, não se possua a vida… Pois, não só aos corpos apenas enunciava ele haver-lhes de ser Deus, mas, sobretudo, às almas. Mas as almas, salvo se unidas a Deus pela justiça, dele alienadas, permanecem na morte. Por outro lado, faça-se presente esta união: levará consigo perpétua salvação.” (2.10.8, p.192)

A Bíblia também trata muitas vezes os fiéis como se mantivessem um relacionamento com Deus após sua morte, como se a existência não acabasse com o fim da vida. Várias promessas serão cumpridas quando o objeto do que foi prometido já estiver morto. Por exemplo, a bênção de uma longa e bem-aventurada posteridade. Deus não é Deus de mortos, mas de vivos.

“Com efeito, a veracidade desta promessa então a selou o Senhor, e como que lhe exibiu o cumprimento, quando, muito depois da morte destes, o denominavam o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó [Ex 3.6]. E então? Não era, porventura, ridícula essa designação, se haviam perecido? Ora, teria sido exatamente como se assim houvesse falado: ‘Eu sou Deus daqueles que não existem.’… Donde era de se concluir que, na verdade, não se extinguem na morte aqueles a quem receberam sob sua tutela, guarda e proteção é Aquele que é o árbitro da morte e da vida.” (2.10.9, p.192s)

A unidade dos testamentos [ 2.10.4-6 ]

Calvino continua sua exposição da similaridade entre os dois Testamentos, lembrando que a fé em Cristo, o Mediador, é comum ao povo antigo e à igreja. Temos o exemplos diversos na Bíblia, e o reformador destaca alguns:

“E, para que não disputemos por demorado tempo acerca de coisa óbvia, temos a notável afirmação do Senhor: ‘Abraão exultou porque haveria de ver meu dia; viu-o e se regozijou’ [Jo 8.56]… Tanto a bendita Virgem, quanto Zacarias, em seus cânticos [Lc 1.54, 55, 72, 73], dizem que a salvação revelada em Cristo foi o cumprimento das promessas que o Senhor fizera outrora a Abraão e aos patriarcas. Se, em manifestando a seu Cristo, o Senhor saldou o compromisso de seu antigo juramento, não se pode dizer que seu objetivo não esteve sempre em Cristo e na vida eterna” (2.10.4, p.189)

Não apenas o Mediador da Aliança, mas as consequências que envolvem esse contrato com Deus são semelhantes para Israel e os cristãos. Paulo liga claramente os símbolos do batismo e da ceia com as situações dos israelitas no deserto, como vemos em 1 Coríntios 10. Ali, o apóstolo mostra que o mesmo Deus que castigou os israelitas é aquele pode castigar a Igreja. Consequentemente, tanto os judeu quanto os crentes de hoje recebem de Cristo alimento e herança espiritual.

“Não só os cercou o Senhor dos mesmos benefícios, mas também manifestou sua insigne graça entre eles pela instrumentalidade dos mesmos símbolos. Como se [Paulo] estivesse a dizer: Se confiais que estais fora de perigo só porque não apenas o Batismo com que fostes selados, mas também a Ceia de que participais diariamente, têm excelentes promessas, enquanto isso, desprezada a bondade de Deus, vos entregais desenfreadamente à dissolução, sabei que os judeus nem mesmo precisaram de tais símbolos, contra quem, no entanto, a despeito disso, o Senhor executou mui severamente seus juízos.” (2.10.5, p.189)

Algumas objeções podem ser feitas, como a comparação que Jesus faz entre si mesmo e o maná no deserto. Diz Cristo que aquele pão não lhes deu a vida eterna, algo que sua carne nos providencia (João 6). A resposta está no contexto da cena, onde o Senhor está confrontando pessoas que tentam colocá-lo contra Moisés. Jesus ensina que ele, como Pão vivo, é alimento eterno.

“Porquanto sabia que o Senhor, quando fazia chover do céu o maná, não havia derramado apenas o alimento do ventre, mas também o havia dispensado como um mistério espiritual, para prefigurar a vivificação em espírito que se tem em Cristo, Paulo não negligencia este aspecto, que era o mais digno de consideração. Pelo que se conclui, certa e claramente, que não só foram comunicadas aos judeus as mesmas promessas de vida eterna e celestial com que o Senhor nos digna agora, mas também foram elas seladas com sacramentos verdadeiramente espirituais.” (2.10.6, p.190)

Portanto, podemos ter certeza de que o mesmo Deus que cuidou de Abraão e seus descendentes é aquele que cuidará de nossas vidas. Que tenhamos essa confiança.

Uma esperança para todos [ 2.9.1-3 ]

Calvino enfatiza as semelhanças entre o Antigo e o Novo Testamento nesse capítulo. Uma de suas intenções é combater as heresias propostas por Serveto e grupos anabatistas, que rejeitavam os judeus como herdeiros da vida eterna. Para o reformador, vemos apenas uma forma de governo diferente, de uma aliança que vem pelo mesmo Mediador.

“O pacto de todos os ancestrais em nada difere do nosso em substância e na própria realidade, o qual, em última instância é um e o mesmo. Varia-lhes, no entanto, a forma da dispensação.” (2.10.2, p.187)

Existem alguns pontos de contato entre estes dois momentos da história da salvação que são destacados por Calvino. São eles: a vida eterna, a graça e o Mediador. Cada um será tratado adiante.

Primeiro, sustentemos que a meta proposta aos judeus não foi opulência carnal e felicidade, a que supinamente aspirassem, mas, ao contrário, que foram eles adotados à esperança da imortalidade e que a realidade desta adoção lhes foi certificada, seja por divinas comunicações, seja pela lei, seja pelos profetas. Segundo, que o pacto mediante o qual foram coligados ao Senhor não se fundamenta em quaisquer méritos seus, mas unicamente na misericórdia de Deus, que os chamou. Terceiro, que eles não só tiveram, mas também conheceram a Cristo como o Mediador, através de quem tanto fossem unidos a Deus, quanto fossem eles possuidores de suas promessas.” (idem, grifos meus)

Sobre este primeiro ponto, Calvino nos lembra que Paulo nos diz que o Evangelho, ainda que encoberto, foi a mensagem que o povo de Israel ouviu. Ora, sendo a mesma mensagem que recebemos pelos apóstolos, está claro que diz respeito à vida eterna em um reino espiritual, não a promessas terrenas.

“De igual modo, da lei e dos profetas tem testemunho a justiça da fé, que é ensinada pelo próprio evangelho [Rm 3.21]. Porque, de fato o evangelho não detém os corações humanos no encantamento da presente vida, ao contrário os arrebata à esperança da imortalidade; não os prende às delícias terrenas, mas, proclamando a esperança posta no céu, para ali os transporta.” (2.9.3, p.188)

“Ora, se a doutrina do evangelho é espiritual e abre acesso à posse da vida incorruptível, não pensemos que aqueles a quem fora ele prometido e anunciado, tenham descartado e negligenciado o cuidado da alma, e tenham se embotado na busca dos prazeres do corpo, como se fossem animais brutos.” (idem)

Assim, os cristãos não devem cair no erro de pensar que existe diferença entre a esperança prometida aos patriarcas e a nós. Todos aguardamos uma herança divina, e não um mundo de prazeres e bênçãos meramente materiais. Não devemos ser gnósticos e renegar a criação, porém também precisamos cuidar para que nosso coração não esteja neste mundo caído, mas nos novos céus e nova terra.

Lei e Evangelho II [ 2.9.4-5 ]

A dicotomia Lei e Evangelho continua sendo tratada por Calvino. Diferente de muitos grupos, o reformador não entende que haja uma distinção tão grande entre essas duas porções da Palavra. Ele reconhece que Paulo usa os termos de maneira contrária ás vezes, quando quer discutir a justiça quem da lei e a justiça que vem da fé.

“Certamente que não se deve rejeitar esta antítese, pois, com freqüência, Paulo entende sob o termo lei a norma do justo viver, pela qual Deus exige de nós o que é seu, nenhuma esperança de vida outorgando, se não lhe obedecemos integralmente, e por sua vez acrescenta maldição, se nos desviamos mesmo que seja apenas um mínimo.” (2.9.4, p.184)

Por outro lado, a Lei, como já dissemos várias vezes, é a própria expressão da vontade de Deus. Ela foi a revelação do Criador aos judeus e, como tal, não pode ser meramente descartada. Certamente existe um motivo para que nossos pais seja chamados heróis da fé – ainda que envoltos em sombra, eles creram na mensagem de graça que foi apresentada.

“Paulo acrescenta, pouco depois, que ele tem o testemunho da parte da lei e dos profetas [Rm 3.21]. Aliás, no final desta mesma Epístola [Rm 16.25, 26], ainda que a ensinar que a pregação de Jesus Cristo é a revelação do mistério guardado em silêncio durante os tempos eternos, atenua esta postulação com uma explicação anexa, ensinando que esse mistério se manifestou por meio das Escrituras proféticas. Do que concluímos que onde se trata de toda a lei, dela difere o evangelho só no que respeita a uma clara manifestação.” (2.9.4, p.184s)

No limite dessas duas dispensações há um personagem que se destaca – João Batista. Enquanto ele não tenha conhecido a glória da Aliança renovada por Cristo, este profeta a anunciou, reconhecendo que estava se iniciando uma diferente era.

“Porque ainda não havia fulgido o pleno dia, foi ele chamado por Cristo uma lâmpada a arder e a luzir [Jo 5.35]. No entanto, tampouco isso impede que João Batista seja contado entre os pregoeiros do evangelho, posto que, além disso, ele fez uso do mesmo batismo que, mais tarde, foi outorgado aos apóstolos. Entretanto, o que ele começou, somente após Cristo ter sido recebido na glória celeste veio a completar-se, de maneira mais desenvolta, pela instrumentalidade dos apóstolos.” (2.9.5, p.185)

Que tenhamos em nossos corações a convicção de que vivemos um momento glorioso na história da salvação, e que isso gere em nós um sentimento de cuidado pela mensagem que devemos anunciar.

Lei e Evangelho [ 2.9.1-3 ]

Depois de várias seções sobre a Lei, Calvino passa a analisar também a natureza do Evangelho, comparando essas duas porções da Escritura. Para o reformador, os judeus receberam certa revelação de Deus, porém algo não tão valioso quanto recebebemos – a saber, Cristo.

“Não que o ensino destes tenha sido inútil ao povo antigo ou que nada lhes foi também aproveitado, mas somente que não chegaram a possuir o tesouro que Deus nos transmitiu pela mão deles. Ora, hoje se nos põe diante dos olhos, de maneira familiar, a graça acerca da qual testificaram. E, enquanto a degustaram apenas superficialmente, ela nos é oferecida mais copiosamente em sua concretização.” (2.9.1, p.181)

Isso significa que os israelitas receberam parte da mensagem sobre Cristo, mas fomos nós que obtivemos maior conhecimento do plano de redenção, antes envolto em sombras.

“‘Portanto, com sua vinda, Cristo trouxe à luz, mediante o evangelho, a vida e a imortalidade’ [2Tm 1.10]. Com estas palavras, não entende Paulo que os pais tenham sido submergidos nas trevas da morte até que o Filho de Deus se revestisse de carne; pelo contrário, vindicando ao evangelho esta prerrogativa de honra, ensina que ele foi uma nova e insólita modalidade de embaixada, pela qual Deus cumpriu o que havia prometido, de sorte que na pessoa do Filho se patenteasse a veracidade das promessas.” (2.9.2, p.182s)

Calvino, no entanto, deixa um alerta. Não recebemos ainda todas as bênçãos prometidas em Cristo pela Lei, uma heresia ensinada por Serveto. Em uma dura palavra contra este teólogo, o reformador mostra que ainda temos bênçãos a esperar. Nossa salvação está no futuro ainda.

“Logo, ainda que no evangelho Cristo nos ofereça a atual plenitude de bênçãos espirituais, contudo a concretização jaz sempre sob a custódia da esperança, até que, despojados da carne corruptível, sejamos transfigurados na glória daquele que vai a nossa frente.” (2.9.3, p.183)

Vemos, portanto, o reformador defendendo a idéia tão popular atual do “já” mas “ainda não”. Isto é, já desfrutamos de todas as bênçãos, algumas agora, enquanto outras nos vêm apenas pela fé. Tanto o Evangelho quanto a Lei contêm essas promessas, ainda que se mostrem de forma diferente.

“Nem se ajustam mal entre si estas duas coisas: possuirmos nós em Cristo tudo quanto contempla à perfeição da vida celeste e, no entanto, ser a fé a visão de bens que ainda não se vêem” [Hb. 11.1]. Que se note apenas uma diferença na natureza ou qualidade das promessas: que o evangelho mostra com o dedo o que a lei vislumbrou sob a forma de tipos.” (2.9.3, p.184)

Que Deus nos dê essa consciência.
E, só pra constar: Boa comemoração de 500 anos a todos! =)

Pecados veniais e mortais [ 2.8.58-59 ]

Novamente, o mestre francês mira nas idéias inovadoras dos escolásticos. Dessa vez, Calvino critica a noção errônea entre pecados mortais e veniais. Entenda-se pecado venial como “um desejo pecaminoso sem assentimento deliberado, que viceja no coração não por tempo demorado” (Tomás de Aquino, citado em 2.8.58, p.159). Isto é, teríamos um tipo de mal que não seria tão grave ofensa contra Deus quantos os pecados “comuns”. No entanto, o reformador explica que tanto esse desejo quanto a ação vêm do mesmo lugar.

“Eu, porém, digo que certamente não se pode suscitar tal desejo, a não ser em virtude da falta dessas coisas que se requerem na lei… Donde provêm esses impulsos, ainda que lânguidos, senão porque há algo vazio na alma para dar acolhida a tentações desta natureza?” (idem)

Quando Deus nos ordena que amemos com todo nosso ser, está claro que toda a alma deve estar voltada a ele, sem exceção para desejos malignos rápidos. Além disso, o décimo mandamento justamente nos proibe de ter pensamentos maus, significando que isto é algo tão pecaminoso quanto a própria ação consumada.

“O preceito é sobre amar a Deus de todo o coração, de toda a mente, de toda a alma. Portanto, a não ser que para o amor de Deus se voltem todos os poderes da alma, já é alienamento da obediência da lei, porquanto os inimigos que aí se insurgem contra seu reino, e lhe obstam os decretos, provam não estar bem firmado em nossa consciência o trono a Deus… Sobre a transgressão da lei sempre se descarrega a maldição de Deus. Portanto, não há por que eximamos da sentença de morte a qualquer cobiça, ainda as mais leves.” (idem)

A idéia de pecados menos terríveis parece mais agradável por nos deixar a consciência mais tranquila. No entanto, não é isto que ensina a Palavra. Se Deus é aquele que ordena, como poderia um desacato a sua autoridade ser menos que mortal?

“Com efeito, deveriam considerar não só o que se ordena, mas também quem é que o ordena, visto que nela a mínima transgressão da lei que ele estabeleceu é ferida sua autoridade. Porventura lhes é de pouca importância que a majestade de Deus seja violada em qualquer coisa? Ademais, se na lei expôs Deus sua vontade, desagrada-lhe tudo quanto é contrário à lei.” (2.8.59, p.180)

Por outro lado, felizmente, em relação aos que estão debaixo da graça de Cristo nenhum pecado mais é mortal. Fomos cobertos pelo sangue de Cristo, ele levou sobre si a morte que seria nossa. Que louvemos ao Senhor por tanto amor.

“Quanto aos pecados que os santos e os fiéis cometem, saibam que são veniais, não por sua natureza, mas porque pela misericórdia de Deus são perdoados.” (idem)