O sábado para o cristão [ 2.8.31-32]

Calvino entende também que Jesus, trazendo a revelação definitiva de Deus, torna-se o cumprimento do sábado. Com sua vinda, a observância cerimonial foi terminada, e os cristãos precisam entender que todos os dias de nossa vida devem ser dias dedicados ao Senhor.

“Por isso, escreve o Apóstolo em outro lugar que o sábado tem sido uma sombra da realidade futura, e que o corpo, isto é, a sólida substância da verdade, que bem explicou naquela passagem, está em Cristo [Cl 2.17]. Esta não consiste em apenas um dia, mas em todo o curso de nossa vida, até que, inteiramente mortos para nós mesmos, nos enchamos da vida de Deus. Portanto, que esteja longe dos cristãos a observância supersticiosa de dias.” (2.8.31, p.156)

Isto não quer dizer, certamente, que não há lugar para os princípios propostos pelo sétimo dia. Pelo contrário, é necessário que as reuniões das igrejas sejam feitas frequentemente. E claramente vemos na Bíblia a igreja se reunindo em grupo, para celebrarem a novidade de vida trazida pelo Senhor. Além disso, a função trabalhista do sábado ainda nos é útil.

“Ainda que o sábado esteja cancelado, entre nós, não obstante, ainda tem lugar isto: primeiro, que nos congreguemos em dias determinados para ouvir a Palavra, para partir o pão místico, para as orações públicas; segundo, para que se dê aos servos e aos operários relaxação de seu labor.” (2.8.32, p.156)

Calvino entende que temos muito proveito em observar essa datas. Usando o mandamento de Paulo (1 Co 14.40) para que tudo seja feito em ordem, o reformador apresenta um motivo para termos um dia fixo de reuniões – uma questão de organização também, algo que ele desenvolverá mais nas próximas seções. Finalizando, ele responde uma questão interessante: por que não se reunir diariamente? O teólogo mostra-se favorável a isso, mas sabe que nem todos têm maturidade para tanto.

“Por que, dirás, não nos congregamos antes diariamente, de sorte que, dessa forma, se ponha termo à distinção de dias? Prouvera que, de fato, isto se nos concedesse! E, por certo, a sabedoria espiritual era digna de que se lhe reservasse diariamente alguma porçãozinha do tempo. Mas, se pela fraqueza de muitos não se pode conseguir que se realizem reuniões diárias, e a norma da caridade não permite deles exigir mais, por que não obedeçamos à norma que nos foi imposta pela vontade de Deus?” (2.8.32, p.157)

É necessário que o crente tenha consciência dessas palavras de Calvino – primeiro, que toda sua vida consiste de um culto a Deus e que é importante dedicar uma parte de seu tempo diariamente à meditação e adoração ao Senhor; segundo, que é necessário que a igreja se reuna ao menos uma vez cada semana, e que ele tome parte dessas celebrações. Muito do que vemos de fraqueza espiritual hoje é fruto do desrespeito para com o culto público. Fujamos dessa armadilha!

O quarto mandamento [ 2.8.28-30 ]

Lembra-te do dia do sábado, para o santificar. Seis dias trabalharás, e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o sábado do SENHOR teu Deus; não farás nenhuma obra. (Êxodo 20.8-10a)

O quarto mandamento guarda características diferentes, por sua natureza também cerimonial, o que leva Calvino a dedicar algumas páginas a mais à ordenança do sábado. O reformador entende que há aqui uma ordenança prefigurativa, com muitos aspectos abolidos com a vinda de Jesus. Ele apresenta três funções principais neste mandamento.

Primeira, pois o celeste Legislador quis que sob o descanso do dia sétimo prefigurasse ao povo de Israel um repouso espiritual, pelo qual devem os fiéis descansar de suas próprias atividades para que deixem Deus neles operar. Segunda, quis ele que um dia fosse estabelecido no qual se reunissem para ouvir a lei e realizar os atos de culto, ou, pelo menos, o qual consagrassem particularmente à meditação de suas obras, de sorte que, por esta rememoração, fossem exercitados à piedade. Terceira, ordenou um dia de repouso no qual se concedesse aos servos e aos que vivem sob o domínio de outros para que tivessem alguma relaxação de seu labor.” (2.8.28, p.54, grifos meu)

Sobre o primeiro sentido, Calvino chama a atenção para o fato do sábado ser um mandamento enfatizado rigidamente por Deus. Parece haver um sentido de dignidade maior nele que em outros mandamentos, especialmente por conta de seu sentido tipológico. Em certo sentido, ele é a manifestação da licenciosidade do antigo Israel.

“Com efeito, de quase nenhum mandamento mais severamente o Senhor exige obediência. Quando, nos profetas, quer dar a entender que toda a religião está subvertida, queixa-se Deus de que seus sábados foram profanados, violados, não observados, não santificados, como se, posta de lado esta deferência, nada mais restasse em que pudesse ser honrado [Is 56.2; Jr 17.21-23, 27; Ez 20.12, 13; 22.8; 23.38].” (2.8.29, p.154)

Calvino nota que o sábado é um símbolo do senhorio de Deus sobre nossas vidas, quando abrimos mão de nossa vontade por amor ao Senhor. Repousamos de nossas preocupações e desejos para ganhar algo muito maior.

“Se nossa santificação se patenteia na mortificação da própria vontade, então mui adequada correspondência se oferece do sinal externo com a própria realidade interior. Importa que nos desativemos totalmente, para que Deus opere em nós, abrindo mão de nossa vontade, resignando o coração, de seus apetites abdicando toda a carne. Enfim, impõe-se abster-nos de todas as atividades de nosso próprio entendimento, para que, tendo a Deus operando em nós [Hb 13.21], nele descansemos, como também o ensina o Apóstolo [Hb 4.19].” (2.8.29, p.155)

Além disso, o reformador também chama atenção para o sentido do sábado que aponta para o descanso eterno dos filhos de Deus. Era necessário guardar sábado pós sábado, a fim de relembrar o Dia em que viveremos eternamente dedicados a Deus.

“O Senhor assim indicou que o sábado nunca haverá de ser absoluto até que tenha chegado o último dia… Portanto, pode parecer que, mediante o sétimo dia, o Senhor tenha delineado a seu povo a perfeição futura de seu sábado no Último Dia, a fim de que, pela incessante meditação do sábado, a esta perfeição aspirasse por toda a vida.” (2.8.30, p.155)

O juramento correto [ 2.8.27 ]

Encerrando o assunto do juramento, Calvino apresenta algumas características do que seria a atitude ideal. Ele lembra que o próprio Senhor fez uso desse procedimento, assim como os discípulos, em especial, Paulo.

“Quem ousaria dizer que Paulo haveria de ter jurado, se o juramento fora inteiramente proibido? Com efeito, onde a situação assim exigiu, jura sem qualquer escrúpulo, adicionada até mesmo, às vezes, uma imprecação [Rm 1.9; 2Co 1.23].” (2.8.27, p.152)

Em seguida, o teólogo francês debate se os juramentos adequados são apenas públicos ou podem ser feito de maneira particular. Ele entende que, embora juramentos públicos sejam mais recomendáveis, é possível dependendo da questão que se jure de maneira privada. Ele cita vários exemplos, como Abrãao e Isaque com Abimeleque, e Boaz com Rute. Uma citação interessante é o caso de clamarao Senhor como Juíz, algo que Calvino considera uma situação ainda mais perigosa.

“Ora, se aos indivíduos é lícito entre si invocar a Deus como Juiz [1Sm 24.12] em coisa grave e séria, muito mais o será como testemunha… Se pesados são os termos, invocar por testemunha é menos que invocar como juiz. Não vejo, portanto, por que aqui chamaríamos de ilícita a invocação de Deus por testemunha.” (2.8.27, p.153)

Por fim, o reformador entende que não teremos leis que cubram todos os casos e situações sobre o assunto. Ele apresenta como princípio a respeito disso que tenhamos em mente que é ao Senhor que adoramos, e que reverentemente usemos esse instrumento.

“Conseqüentemente, não tenho nenhuma regra melhor, senão que assim moderemos nossos juramentos, para que não sejam temerários, nem indiscriminados, nem caprichosos, nem frívolos, mas, ao contrário, sirvam a justa necessidade, onde de fato, ou tenha de vindicar-se a glória do Senhor, ou promover a edificação de um irmão. Pois, para este fim unicamente nos foi dado o mandamento.” (idem)

O juramento proibido [ 2.8.26 ]

Uma idéia comum na época de Calvino, e mais comum hoje em dia, é que Cristo proibe todo e qualquer tipo de juramento em Mateus 5.34-37. Calvino entende que, seguindo o padrão do ensino de Jesus no Sermão do Monte, não temos uma revogação de aspectos da Lei, mas a tentativa de colocá-la novamente em prática da maneira prescrita na Bíblia.

“Ele não teve o propósito de ou relaxar ou restringir a lei, mas de reconduzi-la ao verdadeiro e genuíno significado, que tinha sido assaz corrompido pelas falsas invenções dos escribas e fariseus… Portanto, o Senhor, o mais seguro intérprete da lei, adverte que é mau não apenas jurar falsamente, mas até mesmo o simples jurar. Jurar como? Certamente, jurar em vão. Mas, os juramentos que se recomendam na lei ele os deixa intactos e desimpedidos.” (2.8.26, p.151)

Calvino chama atenção para a cláusula “de modo algum” [Mt 5.34], mas entende que não haja uma proibição geral do juramento, mas dos juramentos que os versos anteriores explicam – tentativas de não dizer o nome de Deus, mas que acabavam invocando o Senhor como testemunha.

“Não obstante, a seus próprios olhos têm razão, fazendo finca pé naquele ‘de modo algum’, que entretanto não se refere ao termo ‘jurar’, mas às formas de juramentos anexas em seguida. Ora, também esta era uma parcela de seu erro: pensar que não tocavam no nome de Deus enquanto juravam pelo céu e pela terra… Embora não se profira o nome de Deus, contudo os homens juram por ele por meios indiretos, como quando juram pela luz vital, pelo pão com que se alimentam, pelo seu batismo, ou por quaisquer outros penhores da divina munificência para com eles.” (idem)

Assim, o reformador entende que Cristo está apenas criticando esse tipo de sutileza dos judeus, que tentavam se livrar de alguma possibilidade de castigo por perjúrios, invocando autoridades que não eram o Senhor. Em seu entendimento, não haveria necessidade de Cristo explicar pelo que ou por quem não podemos jurar se todo e qualquer juramento fosse proibido.

“Ora, se aplicas à substância a expressão ‘de modo algum’, como se de fato, sem nenhuma exceção, fosse ilícito todo e qualquer juramento, a que propósito serviria a explicação que se adiciona logo em seguida: ‘Nem pelo céu, nem pela terra’ etc., palavras mediante as quais se patenteia sobejamente lançar-se mão de subterfúgios do quê pensavam os judeus atenuar-se-lhes o erro?” (2.8.26, p.152)

O juramento por Deus [ 2.8.23-25 ]

Calvino entende que o terceiro mandamento nos ensina também a respeito dos juramentos. Uma vez que aquele que jura faz menção do nome de Deus, é necessário que haja a mais alta consideração pelo santo Nome. O reformador define juramento como “a invocação de Deus por testemunha para confirmar-se a veracidade de nossa palavra” (2.8.23, p.149). Vemos na Bíblia algumas manifestações dessa prática e o reformador entende ser essa uma expressão de louvor.

“‘Falarão’, diz ele, ‘a língua de Canaã e jurarão no nome do Senhor’ [Is 19.18], isto é, ao jurarem pelo nome do Senhor, estarão proferindo uma confissão de sua religião… Ao invocarmos o nome do Senhor em testemunho, diz-se, com razão, que estamos atestando nosso reconhecimento de sua divina soberania. Pois, dessa forma, o confessamos ser a eterna e imutável verdade, a quem invocamos não só como a testemunha idônea da verdade acima das demais, mas ainda como seu enunciador único, que pode trazer à luz as coisas escondidas e, ademais, como o conhecedor dos corações.” (idem)

Se clamar por Deus como testemunha é confessar ser ele a mais pura verdade, é um grave pecado jurar em falso. Calvino mostra que a Palavra usa a grave expressão “profanação” para esse tipo de atitude.

“Não é uma afronta leve fazer-se por ele falso juramento, donde também na lei se chama isso profanação [Lv 19.12]. Ora, que resta ao Senhor quando se vê despojado de sua verdade? Então deixa de ser Deus… ‘Vive o Senhor’ [1Sm 14.39]; ‘Faça-me isto o Senhor e estas coisas acrescente ele’ [1Sm 14.44; 2Sm 3.9; 2Rs 6.31]; ‘Deus seja testemunha contra a minha alma’ [2Co 1.23], que sugerem que não podemos invocar a Deus por testemunha de nossa palavra, sem que roguemos nos seja ele o vingador do falso juramento, se estamos a enganar.” (2.8.24, p.149s)

Outro erro em relação a esse assunto é usar de maneira banal o nome de Deus em juramentos. Aqueles que por qualquer futilidade usam o nome do Senhor como prova, laboram em erro grave. Aqui claramente há um descumprimento do mandamento de não tomar o Nome em vão.

“O juramento foi permitido e instituído não em função de capricho ou desejo, mas de necessidade, e por isso aparta-se de seu uso lícito quem se apropria dele por cousas não necessárias. Ora, outra necessidade não se pode pretender senão onde haja de servir-se ou à piedade ou ao amor.” (2.8.25, p.150)

Embora não seja um costume tão forte em nossos dias jurar por Deus, esse ensino nos leva também a pensar na maneira como lidamos com o nome do Senhor. Invocamos seu santo Nome com reverência e louvor, cientes de ser ele a Verdade? Ou agimos levianamente com o nome de Deus, manipulando pessoas com a Palavra, mentindo para alcançar respeito na comunidade dos santos, ou mesmo fazendo piadas? Que sejamos reverentes!

O terceiro mandamento [ 2.8.22 ]

Não tomarás o nome do SENHOR teu Deus em vão; porque o SENHOR não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão. (Êxodo 20.7)

A análise do terceiro mandamento traz muitas passagens interessantes, o que nos dará algumas citações mais longas que o usual. Certamente isso será proveitoso para todos nós. Calvino, diferente de muitos cristãos hoje, leva muito a sério a questão do nome de Deus. Toda reverência é necessária para tratarmos de assuntos concernentes ao Criador.

“A finalidade do mandamento é que Deus quer que a majestade de seu nome nos seja sacrossanta. Logo, a suma será que não a profanemos tratando-o com menosprezo e irreverentemente… Dessa forma, assim nos convém estar dispostos no pensar e no falar que nada pensemos ou falemos acerca do próprio Deus e de seus mistérios, a não ser reverentemente e com muita sobriedade, de sorte que, em estimando-lhe as obras, nada concebamos a não ser o que lhe é honroso.” (2.8.22, p.148)

Calvino entende que existem três consequências desse mandamento que devem ser colocados em prática. Não podemos tratar com levianidade o Senhor, não podemos manipular sua Palavra para propósitos que não são piedosos, nem desprezar qualquer de suas obras, visto que são fruto de seu poder e sabedoria.

“Tudo quanto a mente concebe a seu respeito, tudo quanto a língua profere, saiba sua excelência e corresponda à sagrada sublimidade de seu nome, afinal, seja adequado a enaltecer-lhe a magnificência. Segundo, não abusemos, temerária e pervertidamente, de sua santa Palavra e de seus venerandos mistérios, seja a serviço da ambição, seja a serviço da avareza, seja a serviço de nossos divertimentos. Pelo contrário, uma vez que trazem impressa em si a dignidade de seu nome, tenham sempre entre nós sua honra e apreço.

Finalmente, não lhe difamemos ou desacreditemos as obras, como contra ele costumam injuriosamente vociferar homens miseráveis; ao contrário, tudo quanto rememoramos como feito por ele, celebremo-lo com os louvores de sabedoria, de justiça e de bondade.” (idem)

Lidar com assuntos concernentes à Divindade é lidar com aquilo que há de mais importante no universo. Os crentes devem tomar consciência disso, em especial. Se eles não têm respeito pela pessoa de Deus, como o mundo tomará consciência dAquele que é santo? Precisamos nos precaver de não cairmos nessa grave falha.

“Nisto consiste santificar o nome de Deus. Quando se procede de outra maneira, de vão e ímpio abuso se polui ele, porque é subtraído do uso legítimo a que unicamente fora consagrado, e, ainda que em nada mais seja despojado, entretanto de sua dignidade se torna desprezível aos poucos.” (idem)