Sobre as promessas [ 2.5.9-10 ]

Calvino continua a tratar da objeção sobre o que ordena a Lei de Deus e qual a nossa capacidade de cumprir isto. Primeiro, ele fala daqueles chamados à conversão que se encontram na Escritura. Como ele já deixou claro em estudos anteriores, o homem não tem a capacidade de cumprir o que Deus deseja.

“No mínimo, se exige de nós mais do que sejamos capazes de executar. Na verdade, não se pode diluir de quaisquer cavilações essa afirmação de Jeremias: que foi sem efeito o pacto de Deus firmado com o povo antigo, porque o era apenas da letra; nem ser além disso estabelecido de outra maneira, que é o Espírito quem plasma os corações à obediência [Jr 31.32].” (2.5.9, p;92)

Uma variação desse objeção diz respeito às promessas feitas a nós. Se não temos capacidade de cumprir para receber aquilo que nos é prometido, então Deus zomba de nós. Calvino explica que essas promessas têm funções – para incrédulos e para os piedosos. Sobre os ímpios ele diz:

“Deus punge a consciência dos ímpios, para que não se deliciem nos pecados de forma tão deliciosa, sem nenhuma lembrança de seus juízos, assim nas promessas lhes faz de certo modo testificar quão indignos são de sua benignidade… Nas promessas enuncia esta lei: que finalmente receberão então suas bênçãos, caso se apartem da depravação; ou, só por isto: que compreendam ser com razão excluídos daquelas bênçãos que se devem aos verdadeiros adoradores de Deus.” (2.5.10, p.93)

A respeito dos piedosos, Calvino nos explica que as promessas do Senhor nos fazem desejar cada vez mais viver uma vida que o agrade, e isto nos leva ao arrependimento e à fé. Clamamos ao Salvador que nos salve e nos liberte de nossa incapacidade.

“Ensinados pelos preceitos acerca da vontade de Deus, somos advertidos de nossa miséria, nós que, de todo o coração, dela tanto discrepamos. Ao mesmo tempo, somos instigados a invocar-lhe o Espírito, por quem somos dirigidos pelo reto caminho. No entanto, uma vez que nossa displicência não é suficientemente acicatada pelos preceitos, acrescentam-se as promessas para que, por um certo dulçor, a seu amor nos aliciam.” (idem)

Vemos aqui que temos um Pai maravilhoso, que nos dá bênçãos que não merecíamos. Que a gratidão seja nossa principal motivação para crescer cada dia mais em santidade.

A Lei e a Graça [ 2.5.6-8 ]

Ainda falando sobre a questão das exortações bíblicas, Calvino nos diz que as ordens que nos são dadas pela Lei não são a medida de nosso livre-arbítrio. Para o reformador, essa idéia é falsa. Pois muitas vezes a Bíblia nos lembra que devemos pedir a Deus o poder para cumprir sua Lei. Ela deixa claro o pecado e a nossa incapacidade.

“Pergunto, pois, que lhes significam estas passagens: ‘A lei foi outorgada por causa das transgressões’ [Gl 3.19]; ‘O conhecimento do pecado é mediante a lei’ [Rm 3.20]; ‘A lei engendra o pecado’ [Rm 7.7, 8]; ‘Sobreveio a lei para que abundasse a ofensa’ [Rm 5.20]? A lei deveria limitar-se às nossas forças, para que não fosse dada em vão? Pelo contrário, antes a lei foi posta muito acima de nós, para que nos convencesse de nossa incapacidade.” (2.5.6, p.88)

O reformador entende que existem três categorias básicas da Lei, cada qual com seu propósito. E em nenhuma delas devemos entender que isso implica na capacidade do homem para obedecer. O primeiro tipo nos ordena a conversão a Deus, o segundo que cumpramos os mandamentos do Senhor, e o terceiro que permaneçamos na graça de Deus. Calvino desenvolverá melhor esse tema depois, então é importante sabermos apenas que dependemos da graça para realizar o que é esperado de nós.

“Ela ensina que o poder de obedecer procede da bondade de Deus, e por isso nos convida às preces, mediante as quais imploremos que nos seja dado esse poder… Quando porém, ao mesmo tempo, se lhes associam promessas, as quais proclamam que não só necessitamos do auxílio da graça divina, mas ainda de todo poder, as mesmas comprovam mais que suficientemente que somos de todo inaptos, para não dizer incapazes, para observar a lei.” (2.5.7, p.89s)

Assim, a Lei não é aquela que nos diz o que podemos fazer, mas aquela que nos mostra o que deveríamos fazer, mas não conseguimos. Ela aponta para a justiça, mas realça nosso pecado. A nossa única salvação é clamar pelo socorro de Deus, pedir pela ação da graça divina e batalhar por nossa vida. Somente nos reconhecendo incapazes, começaremos a ser capacitados a cumprir toda a justiça. As palavras de Agostinho expressam isso muito bem:

“Deus ordena o que não podemos, para que saibamos o que devamos dele suplicar.”

“Deus dá o que ordena e então ordena o que quer.” (2.5.7, p.90)

Quarta objeção pelagiana [ 2.5.4-5 ]

Uma das objeções mais comuns à doutrina calvinista é essa: se não temos a capacidade de cumprir o que Deus deseja, por que ele nos ordena? Para responder isso, Calvino nos lembra que essa é uma idéia comum na Bíblia, entre Cristo e os apóstolos.

“Cristo, que declara que sem ele nada podemos fazer [Jo 15.5], porventura com isso reprova e pune menos os que, à parte dele próprio, faziam o mal? Porventura com isso exorta menos a que cada um se devote às boas obras? Quão severamente Paulo investe contra os coríntios [1Co 3.3] em razão de sua negligência do amor fraternal! [1Co 16.14]. Contudo, por fim suplica que esse amor seja, pelo Senhor, dado aos mesmos coríntios.” (idem)

Calvino ainda cita os mais variados textos para mostrar que uma ordem sempre é dada com a advertência de que a capacidade de cumprí-la vem do Senhor. Mas, se as coisas funcionam dessa forma, para que serve exortar as pessoas? Existem duas respostas – para ímpios e justos. Sobre os primeiros, o reformador nos diz:

“É certo que, se pelos ímpios são desdenhadas, movidos por coração obstinado, se lhes tornarão em testemunho quando acontecer de virem diante do tribunal do Senhor; além de quê, já agora mesmo lhes fustigam e ferem a consciência, porquanto, por mais que as escarneça o mais insolente de todos, não obstante não as pode condenar.” (2.5.5, p.87)

Para os justos, as exortações ganham importância maior, por serem feramentas de Deus para alcançar seus propósitos redentivos.

“Ora, operando o Espírito interiormente, elas valem muitíssimo para inflamar o desejo do bem, para sacudir a indiferença, para alijar a volúpia da iniqüidade e seu envenenado dulçor; até mesmo em contrário, para gerar-lhes ódio e tédio, quem ousa acusá-las de supérfluas?” (2.5.5, p.88)

Os protagonistas dessa transformação causada pelas exortações são a Palavra e o Espírito, algo que Calvino deu grande atenção no Livro 1, e que agora voltam a aparecer, novamente trabalhando “em dupla”.

“Deus opera em seus eleitos de duas maneiras: interiormente, através do Espírito; exteriormente, mediante a Palavra. Pelo Espírito, iluminando-lhes a mente e plasmando o coração ao amor e ao cultivo da retidão, os faz novas criaturas. Pela Palavra, despertando-os para que desejem, busquem, alcancem essa mesma renovação. Em ambos – o Espírito e a Palavra – ele evidencia a operação de sua mão, segundo a maneira de sua dispensação.” (idem)
Portanto, é nosso papel como cristãos exortar e aconselhar que as pessoas abandonem o pecado. Não cabe a nós questionar se isso funcionará ou não. É Deus aquele que dá nova vida a um coração morto. Devemos confiar no poder de sua Palavra, aquela que não volta vazia – seja para salvação, seja para juízo.

Terceira objeção pelagiana [ 2.5.3 ]

A próxima objeção à doutrina de Calvino diz respeito à diferenciação entre bons e maus. Isto é, se não podemos escolher entre bem e mal, então deveriam ser todos justos ou todos injustos. Mais ainda, se não há a possibilidade de escolha, como tantos se desviam da fé?

Ora, a resposta do reformador é simples e rápida – é a eleição de Deus que determina se aparentes fiéis persistirão ou não. Da mesma maneira, é a graça do Senhor que retira alguns da miséria do pecado e outros não.

“Todos laboremos em igual enfermidade, só recobram saúde aqueles a quem aprouve ao Senhor aplicar a mão curadora. Os outros, a quem, em seu justo juízo, pretere, definham em sua podridão até de todo consumir-se. Nem é de outra parte que uns perseveram até o fim, outros tombam, apenas iniciada a corrida.” (2.5.3, p.86)

Assim, mesmo a perseverança dos santos é fruto do poder divino, e não algo em que colaboramos com o Senhor, recebendo algum mérito. A razão pela qual alguns cristãos nominais desviam-se da fé é que a mão de Deus não os presenteou com a capacitação para vencerem.

“Com efeito, também a própria perseverança é dom de Deus, dom que não prodigaliza a todos indiscriminadamente; ao contrário, confere a quem bem lhe parece. Se se procura a causa da diferença, por que uns perseveram constantes, outros por instabilidade desfalecem, não nos é mostrada nenhuma outra causa senão que àqueles, firmados por seu poder, o Senhor os sustenta para que não pereçam; a estes não lhes ministra o mesmo poder, para que sejam exemplos de inconstância.” (idem)

Segunda objeção pelagiana [ 2.5.2 ]

A segunda objeção levantada envolve também os bons atos que os homens praticam. Calvino afirma que esse argumento foi levantado por Crisóstomo, Jerônimo, e até Aristóteles. Diz o seguinte: “Se não procedem da livre escolha do arbítrio, sejam as virtudes, sejam os vícios, não é congruente que ao homem se inflija castigo, ou se outorgue recompensa.” (2.5.2, p.84)

Sobre a questão dos atos maus, mais uma vez lemos que não se trata de uma questão de alguém poder ser livre para fazer algo além do pecado, mas se esse ato foi praticado voluntariamente, por alguém desejoso de cometê-lo.

“Ora, que importa se de livre ou servil juízo se peque, contanto que o seja pelo desejo da vontade, especialmente quando o homem, como pecador, argumenta com base nisto: que está debaixo da servidão do pecado?” (idem)

A respeito da questão dos galardões, vemos aqui uma belíssima exposição de Calvino, auxiliado por Agostinho. Essas recompensas não são fruto de nosso mérito, mas é a própria graça de Deus agindo em nossas vidas, quando o Senhor considera como nosso algo que foi conseguido por ele mesmo.

“Deus não coroa a nossos méritos, mas a seus próprios dons; galardões, porém, se chamam aqueles que não se devem a nossos méritos; ao contrário, que são retribuídos por graças já outorgadas… Se a ti se houver de pagar o que é devido, punido terás de ser. Portanto, que acontece? Deus não te pagou a pena devida; pelo contrário, confere graça não devida. Se queres ser estranho à graça, vangloria-te de teus méritos.” (idem)

O resumo desse ensino é que “a graça não procede do mérito, mas o mérito, da graça” (2.5.2, p.85). Isto é, mais uma vez Deus inverte o que era esperado e dá ao homem mais do que ele merece e precisa. Recebemos dele algo que não é nosso, mas que por sua bondade é tido como propriedade dos fiéis. Que louvemos ao Senhor por isso!

“Uma vez que a benignidade e liberalidade de Deus são inesgotáveis e multíplices, porque faz nossas as graças que nos confere, as recompensa exatamente como se fossem virtudes nossas.” (idem)

Primeira objeção pelagiana [ 2.5.1 ]

As próximas seções Calvino dedicará a possíveis objeções levantadas à sua doutrina da vontade humana. Em sua opinião, tratam se pessoas que carregam “um falso conceito de liberdade” (2.5.1, p.83). Para facilitar o estudo, farei um post para cada uma delas. A primeira delas, pode ser resumida na seguinte frase: “Se o pecado, dizem eles, é por necessidade, então deixa de ser pecado; se é voluntário, então pode ser evitado”. (idem)

Esse argumento, que remonta a Pelágio (séc.V), pode ser resumido da seguinte forma: o pecado deve ser voluntário, pois somente assim o pecador será culpado. O reformador argumenta que o ser humano é pecador por corrupção em sua natureza, não por uma criação falha de Deus. Além disso, Calvino nos lembra que a culpa do homem não se baseia apenas em suas ações, mas também na condenação que Adão trouxe a seus filhos.

“Donde, pois, essa incapacidade que os ímpios de bom grado invocariam como pretexto, senão que, por sua livre vontade, Adão se entregou à tirania do Diabo? Daqui, pois, a corrupção de cujos laços somos mantidos atados, ou, seja, que o primeiro homem desertou de seu Criador.” (idem)

Novamente o exemplo do Diabo e dos anjos é usado aqui. Enquanto o inimigo peca tanto por necessidade quanto por vontade, e é culpado disso, os anjos desejam o bem, ainda que lhes seja necessário por sua natureza. Uma citação adaptada de Bernardo aqui é útil.

“Mais miseráveis somos nós por isto: que a necessidade é voluntária, necessidade que, todavia, a tal ponto nos mantém sujeitos a si, que nos tornamos escravos do pecado, como já referimos.” (idem)

O que existe, Calvino conclui, é uma confusão entre vontade e liberdade. Um ato pode ser praticado voluntariamente, mas ainda assim não ser um ato livre. É importante guardarmos isso, para não cairmos em erro e sabermos responder as dúvidas sobre a sã doutrina.