A Lei leva à Graça [ 2.7.8-9 ]

A Lei não apenas nos mostra quão grandiosa foi a graça de Deus ao cobrir nossos pecados. Ela também nos leva a pedir por graça em nossas vidas. Diante de nossa incapacidade e do castigo sobre nós, só nos resta implorar para que o Senhor tenha misericórdia sobre nós.

“Posta de parte a opinião injustificada de sua própria capacidade, compreendam que é tão somente pela mão de Deus que são firmados e subsistem, de sorte que, nus e vazios, se refugiem na misericórdia, nesta repousem inteiramente, no recesso desta se escondam, e tão-somente a esta se apeguem por justiça e méritos, misericórdia que foi revelada em Cristo a todos quantos, em verdadeira fé, não só a buscam, mas também nela esperam.” (2.7.8, p.119)

Para Calvino, enquanto Deus demonstra sua severidade e justiça pela Lei, “em Cristo sua face brilha, cheia de graça e brandura, para com os pecadores, ainda que míseros e indignos” (idem). Assim, a Lei nos leva à Graça, fato que é confirmado também por Agostinho em inúmeras citações e, em especial, na obra Do Espírito e da Letra.

“A lei ordena; a graça ministra o poder para cumprir… Deus ordena as coisas que não podemos, para que saibamos o que lhe devamos pedir.”

Concluindo, Calvino nos deixa a oração em que Agostinho pede a Deus que o capacite a cumprir os mandamentos. Que sejamos como esses dois homens, e a humildade esteja sempre em nossos lábios.

“Assim faze, ó Senhor; assim faze, ó Senhor misericordioso; ordena o que não se pode cumprir; sim, ordena o que não se pode cumprir, a não ser por tua graça, para que, uma vez que os homens não o possam cumprir por suas próprias forças, toda boca se cale e ninguém se faça grande a si mesmo. Sejam todos pequeninos e o mundo todo se faça culpado diante de Deus.” (três últimas citações de Agostinho tiradas de 2.7.9, p.120)

Uma expressão inconveniente [ 2.2.7-8 ]

Os calvinistas são conhecidos por negarem o livre-arbítrio. Mas o que significa isso? Alguns dizem que é o mesmo que tratar o homem como máquinas, mas essa é uma visão preconceituosa e caricatural. Calvino nos explica que podemos usar esse termo, pois acreditamos que o homem exerce sua vontade.

“Desse modo, pois, dir-se-á que o homem é dotado de livre-arbítrio: não porque tenha livre escolha do bem e do mal, igualmente; ao contrário, porque age mal por vontade, não por efeito de coação.” (2.2.7, p.34)

No entanto, trata-se de um termo problemático, uma vez que essa vontade exercida conscientemente pelo homem está limitada pelos vis efeitos do pecado. Isto é, o homem escolhe o que deseja, mas o que deseja não vai além do mal. Ele é livre, mas serve (ainda que livremente) a um senhor – o pecado.

“Excelente liberdade, sem dúvida, seria se com efeito o homem não fosse compelido pelo pecado a servi-lo; se, no entanto, é escravo por querer, escravo por vontade, de sorte que a vontade lhe é mantida amarrada pelas peias do pecado!” (idem)

Assim, não recomenda-se a expressão “livre-arbítrio” por ser um termo problemático e carregado de pressuposições. Para ser utilizado bem, é necessário que seja definido antes. Um exemplo dessa prática encontra-se nos escritos de Agostinho. O bispo de Hipona usava o termo, mas sempre lembrando que o livre-arbítrio não é totalmente livre.

“Contudo firmemente confessa, em outro lugar, que sem o Espírito a vontade do homem não é livre, uma vez que se fez sujeita a desejos que a acorrentam e a dominam… Em outra passagem, depois de mostrar que o livre-arbítrio é estabelecido pela graça, investe asperamente contra aqueles que a si o reivindicam sem a graça.” (2.2.8, p.34)

Portanto, para Calvino e Agostinho, o livre-arbítrio é, na verdade, servo. Sujeita-se a um senhor – o pecado – mas torna-se livre quando Cristo o liberta. Mas, se foi libertado, como alguém pode ser gloriar de tal liberdade? Por isso é recomendável que não usemos tal termo, na opinião de Calvino. Rejeita-se o termo não por uma negação da vontade humana, mas pela necessidade de evitar erros.

Analisando os patrísticos [ 2.2.5-6 ]

Sobre o seguinte estudo, é bom já saber o que João Calvino pensa da maioria dos personagens que serão citados.

“Pareceu-me bem abordar, de passagem, estes dois pontos, para que o leitor já veja quanto discordo dos escolásticos mais sóbrios. Ora, dos sofistas mais recentes difiro em extensão ainda maior, a saber, quanto estão distanciado da antigüidade.” (2.2.6, p.34)

Nessas seções o reformador lista algumas das idéias dos antigos teólogos a respeito da liberdade humana. Embora concorde em algum ponto ou outro, o teólogo de Genebra rejeita boa parte do que foi ensinado pelos pais. O que se percebe é que eles se preocuparam muito mais em adaptar noções filosóficas (como já foi dito) a realizar uma boa exegese da Palavra. Isso não difere muito do que muitos cristãos fazem hoje, dependendo mais de Freud e Darwin que de Moisés ou Paulo.

Vejamos alguns exemplos:

“No afã de tornar isto evidente, o autor da obra A Vocação dos Gentios enumera uma tríplice vontade: a primeira, sensória; a segunda, animal; a terceira, espiritual, das quais as duas primeiras ensinam que o homem as tem livres, sendo a última obra do Espírito Santo no homem.” (2.2.5, p.33)

“Veio, porém, a prevalecer entre as escolas a distinção que enumera uma tríplice liberdade: a primeira, da necessidade; a segunda, do pecado; a terceira, da miséria, das quais a primeira é por natureza de tal forma inerente ao homem que de nenhum modo pode ser alijada; as outras duas foram perdidas mediante o pecado. De bom grado acolho esta distinção, exceto que aqui se confunde, indevidamente, necessidade com coação.” (idem)

Desses escritos emerge também a idéia de dois tipos de graça em Deus – uma que coopera com nosso livre-arbítrio (já que desejaríamos, de algum modo boas coisas), e outra que é a ação única de Deus sobre nós, nos dando o desejo de querer o bem. Esses aspectos se chamariam de graça cooperante e graça operante, respectivamente. O problema dessa definição é justamente a idéia de que o homem naturalmente tem uma tendência ao bem.

“Nesta divisão desagrada-me isto: que, enquanto atribui à graça de Deus o eficaz desejo do bem, dá a entender que, já de sua própria natureza, de certo modo, ainda que ineficazmente, o homem deseja o bem. Assim Bernardo, asseverando que de fato a boa vontade é obra de Deus, no entanto concede isto ao homem: que ele deseja, de moto próprio, esta espécie de boa vontade.” (2.2.6, p.33)

Como Calvino ainda não se dedicará a combater as idéias de autonomia humana, não temos aqui grandes objeções contra as doutrinas apresentadas, apenas o parecer do reformador sobre elas. O que podemos aprender é aquilo que sempre foi dito por ele – testar todas as doutrinas pelas Escrituras, a fim de nos protegermos contra pressupostos humanos.

Os Patrísticos e o livre-arbítrio [ 2.2.4 ]

Como foi dito no final do post anterior, a maioria dos patrísticos foram influenciados pela filosofia grega, o que os levou a abraçar concepções da vontade humana que não se acomoda ao ensino bíblico. “Muitos deles, no entanto, têm se aproximado dos filósofos muito mais do que é justo” (2.2.4, p.30), lamenta Calvino, pois uma situação como essa não traz iluminação aos fiéis da igreja.

“Ademais, embora os gregos, mais que outros, e entre eles singularmente Crisóstomo, excederam o limite em exaltar a capacidade da vontade humana, contudo todos os antigos, excetuado Agostinho, nesta matéria a tal ponto ou divergem, ou vacilam, ou falam confusamente, que de seus escritos quase nada de certo se pode referir.” (2.2.4, p.31)

Seguido os filósofos, os pais da igreja muitas vezes entendiam que apenas a sensibilidade ou parte sensória do homem estava debilitada pelo pecado, enquanto a razão e a vontade, muitos criam, não foram muito ou plenamente afetadas. Dessas teorias o termo livre-arbítrio é o centro. Porém, poucos dos pais se preocuparam em defini-lo, o que gera ambiguidade e confusão em seus escritos.

“Orígenes, contudo, parece ter proposto isto, acerca de que entre eles, indistintamente, havia consenso, quando disse: ‘O livre-arbítrio é a faculdade da razão para discernir o bem ou o mal, a faculdade da vontade para escolher um ou outro desses dois.’ Agostinho não discorda dele quando ensina que o livre-arbítrio é a faculdade da razão e da vontade pela qual, assistindo-as a graça, se escolhe o bem, deixando ela de assisti-las, escolhe-se o mal. ” (2.2.4, p.32)

Resumidamente, os autores antigos ensinavam que o homem possuia a capacidade de discernir entre bem e mal (a razão). Baseados nesse discernimento tomava suas decisões. Esse ensino Calvino resume a nós, embora veremos que ele os rejeitará mais adiante.

“Estão de acordo, em primeiro lugar, em que o substantivo arbítrio se deve referir antes à razão, à qual cabe discernir entre o bom e o mau, enquanto o adjetivo livre pertence propriamente à vontade, que se pode vergar para uma ou outra dessas duas alternativas.” (idem)

O que aprendemos aqui é que não devemos estar presos à tradição, pura e simplesmente. Os escritos dos antigos nos serão úteis e edificantes, mas devem sempre ser avaliados à luz da Escritura.

Um argumento histórico [ 1.13.27-29 ]

Finalizando o longo capítulo sobre a Trindade, Calvino rebate agora os argumentos históricos dos antitrinitarianos. Para alguns dos falsos mestres, os pais da igreja nunca defenderam a doutrina ortodoxa sobre o Deus Triuno, algo de que o reformador discorda solenemente. A primeira vítima da distorção é Irineu, que supostamente ensina que somente o Pai é o Deus de Israel. O reformador rebate essa acusação lembrando que o autor na verdade estava combatendo outros hereges, que negavam ser o Deus do Antigo Testamento também Deus Pai, e aproveita em seguida para citar o próprio Irineu.

“Irineu se concentra inteiramente nisto: tornar patente que na Escritura não se proclama outro Deus senão o Pai de Cristo, e que se cogita erroneamente outro, e daí não é de maravilhar-se se conclui tantas vezes que o Deus de Israel não era outro senão aquele que é celebrado por Cristo e pelos apóstolos.” (1.13.27, p.153)

“Aquele que, em acepção absoluta e não particularizada, na Escritura é chamado Deus, esse é verdadeiramente o Deus único, e Cristo, com efeito, é chamado Deus em acepção absoluta.” (Irineu, citado em idem)

A próxima vítima dos antitrinitarianos é Tertuliano, sob o pretexto de que coloca o Filho em segundo plano. Calvino, apesar de admitir a dificuldade nos escritos desse pai, deixa claro que ele não ensinou nada além da doutrina correta.

“É verdade que ele confessa admitir o Filho como segundo em relação ao Pai, todavia não o entende como outro senão em função da distinção pessoal. Em algum outro lugar, ele diz que o Filho é visível, entretanto, após haver arrazoado ambos os lados da questão, conclui ser ele invisível até onde é a Palavra.” (1.13.28, p.154)

Depois de citar esses casos, Calvino lembra que Justino Mártir, Hilário e Inácio também ensinaram a correta doutrina, apesar do que afirmam os hereges. Prova disso é que Ário, um antitrinitariano, não apelou a nenhum deles diante do Concílio de Nicéia. Além disso, Agostinho em sua obra magistral sobre a Trindade também nada encontra de errado entre os escritos desses santos homens.

“Mercê destas considerações, contudo, o leitor piedoso por fim reconhecerá, segundo espero, estar desmantelada todas as cavilações com que Satanás tem tentado até agora perverter ou entenebrecer a pura fé da doutrina.” (1.13.29, p.155)

Uma doutrina não é reconhecida como verdadeira por maioria de votos, mas pelo que diz a Escritura. No entanto, é importante quando ouvimos as vozes do passado, e todos esses santos homens concordam a respeito de algo tão complexo. Isso nos dá segurança sobre o que cremos e nos leva a desconfiar daquilo que era estranho aos pais. Calvino sabe disso, e assim conclui seu ensino sobre a Trindade, algo que nos desafia a estudar cada dia mais, e especular cada vez menos.

“Finalmente, confio que tenha sido fielmente explicada toda a suma desta doutrina, desde que os leitores imponham moderação à curiosidade, nem reivindiquem para si avidamente mais do que se faz necessário controvérsias molestas e perplexivas. Aliás, creio que bem pouco satisfeitos haverão de ficar aqueles a quem deleita o imoderado gosto de especular.” (idem)