Primeira objeção pelagiana [ 2.5.1 ]

As próximas seções Calvino dedicará a possíveis objeções levantadas à sua doutrina da vontade humana. Em sua opinião, tratam se pessoas que carregam “um falso conceito de liberdade” (2.5.1, p.83). Para facilitar o estudo, farei um post para cada uma delas. A primeira delas, pode ser resumida na seguinte frase: “Se o pecado, dizem eles, é por necessidade, então deixa de ser pecado; se é voluntário, então pode ser evitado”. (idem)

Esse argumento, que remonta a Pelágio (séc.V), pode ser resumido da seguinte forma: o pecado deve ser voluntário, pois somente assim o pecador será culpado. O reformador argumenta que o ser humano é pecador por corrupção em sua natureza, não por uma criação falha de Deus. Além disso, Calvino nos lembra que a culpa do homem não se baseia apenas em suas ações, mas também na condenação que Adão trouxe a seus filhos.

“Donde, pois, essa incapacidade que os ímpios de bom grado invocariam como pretexto, senão que, por sua livre vontade, Adão se entregou à tirania do Diabo? Daqui, pois, a corrupção de cujos laços somos mantidos atados, ou, seja, que o primeiro homem desertou de seu Criador.” (idem)

Novamente o exemplo do Diabo e dos anjos é usado aqui. Enquanto o inimigo peca tanto por necessidade quanto por vontade, e é culpado disso, os anjos desejam o bem, ainda que lhes seja necessário por sua natureza. Uma citação adaptada de Bernardo aqui é útil.

“Mais miseráveis somos nós por isto: que a necessidade é voluntária, necessidade que, todavia, a tal ponto nos mantém sujeitos a si, que nos tornamos escravos do pecado, como já referimos.” (idem)

O que existe, Calvino conclui, é uma confusão entre vontade e liberdade. Um ato pode ser praticado voluntariamente, mas ainda assim não ser um ato livre. É importante guardarmos isso, para não cairmos em erro e sabermos responder as dúvidas sobre a sã doutrina.

Ação divina sobre Satanás [ 2.4.5 ]

Em uma seção curta, Calvino fala sobre a soberania de Deus sobre o diabo. O próprio inimigo de Deus também é instrumento da vontade divina, cumprindo decretos, maldições e juízos sobre os homens. Um exemplo bíblico encontra-se em 1Samuel, quando um espírito maligno foi convocado para atormentar Saul.

“Saul ou foi ‘arrebatado’, ou foi ‘entregue’ a ‘um mau espírito do Senhor’ e a ‘um mau espírito da parte do Senhor’ [1Sm 16.14; 18.10; 19.9]. Atribuir isto ao Espírito Santo é uma impiedade. Logo, chama-se ‘espírito de Deus’ a um espírito impuro, porque este lhe atende ao mando e poder, mais um instrumento seu em ação do que um agente de si próprio.” (2.4.5, p.79s)

Essa doutrina nos deve trazer paz, e não confusão. Não se tratam de atos maus da parte de Deus, mas de seus decretos, que nos dão a certeza de que não estaremos jamais indefesos. Hoje muitos evangélicos vivem temendo o inimigo, pois não reconhecem esse ensinamento bíblico. Que tenhamos a mesma convicção de Calvino ao tratar desse tema.

“Entretanto, com grande diferença, sempre se distingue em um mesmo ato aquilo que o Senhor faz daquilo que Satanás e os ímpios porfiam por fazer. Aquele faz com que sirvam à sua justiça estes instrumentos maus que tem sob a mão e pode volver para onde quer. Estes, na medida em que são maus, em seu agir dão à luz a iniqüidade concebida pela depravação da mente.” (2.4.5, p.80)

Ação divina sobre os ímpios [ 2.4.3-4 ]

Falando sobre a dificuldade que os teólogos têm a respeito da soberania de Deus mesmo nos corações pecaminosos, Calvino lamenta que o próprio Agostinho tenha às vezes vacilado nesse assunto (embora os editores, tanto da Cultura Cristã, quanto da UNESP, entendam ser uma citação do Pseudo-Agostinho). Para o reformador, precisamos ser honestos com as palavras da Bíblia em entender que Deus move o coração do réprobo de duas formas, a saber:

“Primeira como se, com efeito, removida sua luz, nada resta senão trevas e cegueira; ou, retirado seu Espírito, em pedra se torna nosso coração; ou, cessando-lhe a direção, à tortuosidade se transvia, com razão se diz que ele cega, endurece, inclina àqueles a quem priva da capacidade de ver, de obedecer, de seguir retamente.

A segunda maneira, a qual se aproxima muito mais à propriedade dos termos, é que, para executar seus juízos, mediante o ministro de sua ira, Satanás não só lhes determina os desígnios, como lhe apraz, mas ainda lhes desperta a vontade e firma os esforços.”(2.4.3, p.78)

Alguns versos que confirmam o primeiro tipo de juízo divino se encontram em Jó 12.20,24 e Isaías 63.17. Enquanto da segunda maneira temos o caso de Faraó (Êx 4.21), além de passagens como Deuteronômio 2.30 e Salmo 105.25. A Bíblia claramente ensina que Deus está por trás desses atos, ainda que esses homens permaneçam culpados por sua maldade. Um exemplo comum é quando o Senhor levanta uma nação pagã contra Israel.

“Além disso, sempre que lhe aprouve punir a transgressão do povo, como levou a bom termo sua obra mediante os réprobos? De tal modo que vejas que a eficiência do agir esteve nele e que eles simplesmente contribuíram com o desempenho. Pelo que, ora ameaçava convocá-los com seu assobio [Is 5.26; 7.18], ora usava os ímpios como uma rede para emaranhá-los [Ez 12.13; 17.20]; ora como um malho para ferir aos israelitas [Jr 50.23].” (2.4.4, p.79)

Para concluir, o reformador nos deixa outra brilhante reflexão de Agostinho (agora o verdadeiro!). Que meditemos sobre ela e nos maravilhemos com nosso Deus.

“Que os maus pequem, isso eles fazem por natureza; porém que ao pecarem, ou façam isto ou aquilo, isso provém do poder de Deus, que divide as trevas conforme lhe apraz.” (idem)

Tríplice operação [ 2.4.1-2 ]

Como a vontade humana é guiada para o bem ou para o mal? Este é o assunto tratado por Calvino nas próximas seções. Para isso, o reformador usa primeiro a comparação oferecida por Agostinho, de que o homem, semelhante a um cavalo, é levado por Deus pelo reto caminho, ou montado por Satanás corre por despenhadeiros íngremes.

“Portanto, que se diz estar a vontade do homem natural sujeita ao jugo do Diabo, tanto que daí é acionada, não significa que ela seja constrangida à obediência, relutante e renitente, como, por direito de senhorio, obrigamos a escravos indispostos a obedecerem a nossas ordens; pelo contrário, fascinada pelas artimanhas de Satanás, mostra-se-lhe necessariamente obediente a todo ditame.” (2.4.1, p.76)

O reformador entende que, embora chamemos certos males como obras do diabo, vários deles têm como raiz a própria vontade humana, cuja malícia fundamenta o reino do inimigo. Mas a questao que se levanta com isso é: como conciliar a decisão humana, com a manipulação diabólica e, para piorar, a soberania divina. Vemos Jó, por exemplo, associar as ações malignas dos caldeus a Deus, enquanto o narrador já havia citado a ação do diabo no caso. Calvino entende que há diferença por conta de dois fatores – o fim e o modo.

“O desígnio do Senhor é exercitar pela calamidade a paciência de seu servo; Satanás está empenhado em levá-lo ao desespero; os caldeus buscam, fora do direito e da ética, auferir ganho da coisa alheia. Tão grande diversidade nos intentos já distingue sobejamente a operação de cada um.”(2.4.2, p.77)

“Não menos de diferença há no modo do agir. O Senhor permite a Satanás que seu servo seja afligido; concede e entrega, para que os caldeus sejam impelidos por ele, a quem escolheu por ministros para que executem isto. Satanás, por outro lado, com seus aguilhões envenenados, espicaça o espírito depravado dos caldeus para que perpetrem esta abominação; estes se arrojam furiosamente à injustiça e atrelam e contaminam nessa perversidade a todos os seus membros.” (idem)

Calvino adverte que ele está tratando do caso específico da história de Jó. Mas mesmo assim, podemos identificar esse princípio universal quando pensarmos no governo do Senhor sobre o mundo. Teremos nossos corações tranquilizados e seremos cuidadosos em nossas decisões, a fim de sermos vasos de honra.

“Logo, vemos que não é absurdo atribuir o mesmo ato a Deus, a Satanás e ao homem; ao contrário, a diversidade no propósito e na maneira faz com que reluza aqui, sem culpa, a justiça de Deus; com seu opróbrio se manifeste a impiedade de Satanás e do homem.” (idem)

Vontade e Necessidade [ 2.3.5 ]

Novamente Calvino trata da questão da liberdade humana, agora centrando-se no aspecto da nessecidade de pecar. Como já foi dito, o homem, embora escravo do pecado, em nenhum momento tem sua vontade violentada. O teólogo de Genebra crê que o que existe aí é uma confusão entre compulsão e necessidade. Ele cita um antigo mestre para ajudar em sua explicação.

“O homem, ao sujeitar-se a esta necessidade, não é privado da vontade, mas da sanidade da vontade… Com efeito, nem se pronunciou inadequadamente Bernardo, que ensina subsistir em todos nós o querer – porém, querer o bem ser proveito; querer o mau, defeito. Isto é, simplesmente querer provém do homem: querer mal, da natureza corrompida; querer bem, da graça.” (2.3.5, p.62)
Calvino mostra que tanto Deus quanto o diabo têm necessidades voltadas para certo valor, e nem por isso podemos considerá-los como marioenetes ou robôs. Não se trata de uma compulsão, mas de uma orientação. Tratam-se de trechos bastante elucidativos:
“Ora, a bondade de Deus é a tal ponto entrelaçada com sua divindade, que não lhe é mais necessário ser Deus do que ser bom. O Diabo, porém, em decorrência de sua queda, a tal ponto se alienou da comunhão do bem, que nada pode fazer senão o mal… Portanto, não se impede que a vontade de Deus seja livre em fazer o bem, só porque ele por necessidade opera o bem; se o Diabo, que outra coisa não pode fazer senão o mal, entretanto peca por vontade, quem por isso dirá que o homem peca menos voluntariamente, uma vez que está sujeito à necessidade de pecar?” (2.3.5, p.62s)
O que existe no caso do homem, para Calvino, é uma relação quase simbiótica entre vontade e necessidade. Ao mesmo tempo em que o homem é livre enquanto peca, ele tem a necessidade de pecar. A vontade do homem produz a necessidade, e a necessidade produz a vontade. Novamente trazendo Bernardo como guia, o reformador nos deixa uma desafiadora citação dele:
“Desse modo, não sei por que modo depravado e estranho, mudada pelo pecado, em verdade para pior, a própria vontade para si engendra a necessidade, de modo que nem a necessidade, uma vez que provenha da vontade, pode escusar a vontade, nem a vontade, uma vez que tenha sido seduzida, pode excluir a necessidade… E assim a alma, de certa maneira estranha e deplorável, sob esta necessidade, há um tempo, decorrente da vontade e perniciosamente livre, afirma ser não só escrava, mas também livre: escrava, em função da necessidade; livre, em função da vontade; e, o que é mais estranho e mais deplorável: é culposa, por ser livre; e é escrava, por ser culposa; e, em decorrência disso, é escrava, quando é livre.” (2.3.5, p.63)

A Graça Comum [ 2.3.3-4 ]

A última seção terminou com Calvino nos explicando que nem todas as pessoas efetivam toda a corrupção que existe em seus corações. Nem todos se parecem com o retrato da humanidade que Paulo apresenta em Romanos 3. O reformador passa a explicar isso, uma doutrina que mais tarde ficaria conhecida como graça comum.

“Em seus eleitos, o Senhor cura estes achaques na maneira que logo exporemos; nos outros, aplicado um freio, apenas os coíbe, só para que não se arrojem a extremos, até onde antevê ser conveniente para a preservação da totalidade das coisas.” (2.3.3, p.60)

As maneiras que Deus utiliza para deter o pecado nos seres humanos não-regenerados são das mais variadas. O importante é notarmos que tudo está debaixo da providência de Deus, que sabiamente governa a humanidade.

“Daqui, uns são contidos pelo senso de vergonha, outros, pelo temor das leis, para que não se lancem a muitas espécies de torpezas, se bem que, em larga medida, não dissimulam sua impureza; outros, porque julguem ser de vantagem uma forma honesta de viver, a ela, de certa maneira, aspiram; outros se alteiam acima da condição vulgar para que, mercê de sua própria importância, contenham os demais na linha da deferência apropriada.” (idem)

O reformador também nos lembra que muitos homens carregam algumas virtudes, mas que elas são sempre dons com que Deus presenteia alguns ímpios, sem que haja algum tipo de transformação interior nessas pessoas. Por sua providência o Senhor capacita as pessoas conforme sua vontade e propósito.

“Por cuja razão, em linguagem comum, não nos arreceamos de dizer ser este bem-nascido, ser aquele de natureza depravada. Entretanto, nem deixamos de incluir a um e ao outro sob a condição universal de depravação humana, mas apontamos que, por graça especial, o Senhor tem conferido a um, da qual não dignou prover ao outro.” (2.3.4, p.61)

No entanto, por maior que seja a aparência de justiça em um ímpio, há um teste final que ele não pode superar – sua motivação. Deus distribui seus dons a essas pessoas e muitas possuem elevado padrão de conduta. No entanto, nenhum ímpio glorificará conscientemente a Deus com seus atos. Por mais virtuoso que seja o incrédulo, ele é incapaz de fazer o que faz para a glória de Deus e isso o torna pecador, mesmo em sua justiça.

“Onde nenhum empenho há de promover a glória de Deus, empenho de que são desprovidos todos os que Deus não regenerou por seu Espírito, está ausente a parte principal da retitude.” (2.3.4, p.61s)

Não devemos pensar que os homens não são todos corruptos porque um ou outro se elevam acima dos pecadores. Precisamos ter em mente que somente aqueles que buscam a glória de Deus realmente entenderam o que é a perfeita justiça.