Corrupto por completo [ 2.3.1-2 ]

Uma confusão comum entre os leitores da Bíblia é a associação muito restrita do termo carne à porção sensória do ser humano. Calvino inicia o terceiro capítulo do livro 2 corrigindo este mal entendido. Não foi apenas o corpo humano afetado pela queda, como creem alguns, mas o homem por completo. Tudo aquilo que temos naturalmente está corrompido.

“Na verdade, tanto quanto em outras circunstâncias, se pudesse haver dúvida acerca desta matéria, a mesma nos é dirimida por Paulo, onde, descrito o velho homem, que dissera ter sido corrompido pelas concupiscências do erro, ordena que sejamos renovados no espírito de nossa mente [Ef 4.22, 23]. Vês que ele não situa os desejos ilícitos e depravados apenas na parte sensorial, mas também na própria mente, e por isso requer que lhe haja renovação.” (2.3.1, p.57)

A Bíblia é clara em afirmar que a parte imaterial do homem é fonte de pecado. Não derivamos nosso pensamento dos platônicos, mas de Deus. Mesmo o coração, considerado por alguns a melhor expressão do que é o ser humano, não escapa desse vírus implacável. “Em nada é mais branda a condenação do coração, quando se diz ser enganoso acima de todas as coisas e depravado [Jr 17.9].” (2.3.2, p.58). Para não se delongar muito nesse assunto, Calvino escolhe Romanos 3 como texto-base para demonstrar a nossa depravação. Temos uma citação longa, mas necessária.

“Ele priva o homem, de início, da justiça, isto é, da integridade e da pureza; a seguir, do entendimento [Rm 3.10, 11]. Ora, a carência de entendimento é demonstrada pela apostasia para com Deus, a busca de quem é o primeiro degrau da sabedoria. Mas essa deficiência necessariamente se acha naqueles que se têm afastado de Deus. Acrescenta em seguida que todos se têm transviado e se têm tornado como que putrefatos, que nenhum há que faça o bem; então adiciona as ignomínias com as quais contaminam a cada um de seus membros aqueles que uma vez se espojaram na dissolução. Finalmente, atesta que são vazios do temor de Deus, o que deveria ser a regra a dirigir-nos os passos.” (2.3.2, p.59)

O reformador nos lembra que essa passagem trata de toda humanidade, e não apenas de alguns. Ele também afirma que, embora nem todos cheguem a cometer tamanhos males, essa semente pecaminosa deixa aberta essa possibilidade no coração de todo ser humano.

“Se forem estes os dotes hereditários do gênero humano, em vão se busca algo de bom em nossa natureza. Reconheço, sem dúvida, que nem todas estas abominações vêm à tona em cada ser humano, entretanto não se pode negar que esta hidra jaz oculta no coração de cada um.” (idem)

Livre-arbítrio, um escravo [ 2.2.26-27 ]

A questão da liberdade da vontade humana é considerada um diferencial na teologia de Calvino. Assim, depois de discutir a corrupção da mente, o reformador volta-se para a demonstração de que não temos uma vontade livre. Pelo contrário, por natureza escolhemos aquilo que nos parece o bem, assim como qualquer animal faz. Não há deliberação da mente, mas apenas uma escolha natural.

“Se contemplas o que é este desejo natural do bem no homem, verificarás que ele o tem em comum com os animais… Sem razão, sem reflexão, segue a inclinação da natureza, como um animal. Portanto, se porventura o homem é levado a buscar o bom por injunção da natureza, isto em nada diz respeito à liberdade de arbítrio. Pelo contrário, requer-se isto: que depois de discenir o bom, o escolha e busque o que escolheu.” (2.2.26, p.54)

O erro dos arminianos é achar que os calvinistas entendem os homens como robôs. No entanto, os reformados reconhecem que o homem faz aquilo que deseja. O problema não é ele decidir o que fazer, mas o fato dele sempre decidir segundo sua inclinação pecaminosa. Além disso, mesmo o “bem” que o homem escolhe tem como pano de fundo seu desejo por bem-estar, o que certamente não é sinônimo de uma decisão conforme os padrões de Deus.

“Ora, aqui, primeiro, o apetite não só é chamado um movimento próprio da vontade, mas ainda uma inclinação natural, como também, segundo, o bom não provém de virtude ou de justiça, mas de condição, como, por exemplo, quando se trata do bem-estar do homem. Afinal, por mais que o homem deseje seguir o que é bom, contudo não o segue; assim como ninguém há a quem a bem-aventurança eterna não seja agradável, à qual, entretanto, ninguém aspira, senão pelo impulso do Espírito.” (2.2.26, p.54)

Assim, Calvino interpreta o polêmico capítulo 7 de Romanos como sendo a representação de um homem regenerado lutando contra seus impulsos, vivendo no conflito carne contra espírito. Somos pessoas presas ao pecado, e mesmo quando pedimos a Deus por libertação, o próprio Deus já está agindo em nós.

“Fora, pois, com tudo aquilo que muitos têm bradado acerca de uma preparação, porque, se às vezes os fiéis rogam por um coração que lhes seja plasmado para a obediência da lei de Deus, como o faz Davi em muitos lugares, entretanto deve-se notar que também este desejo de orar procede de Deus, o que se pode coligir de suas palavras. Pois, ao desejar que em si seja criado um coração limpo [Sl 51.10], por certo que não reivindica para si o início dessa criação.” (2.2.27, p.56)

Que a nossa atitude seja semelhanteao que Agostinho nos propõe em mais uma citação que Calvino faz.

“Confessa que todas essas coisas as tens de Deus; tudo quanto tens de bom, dele provém; de ti procede tudo quanto há de mau. Nada é nosso, senão o pecado.” (idem)

A falha da razão [ 2.2.24-25 ]

A razão, aliada à Lei Natural, é importante para que a humanidade organize-se em sociedade, produza coisas belas e úteis, possua uma certa moralidade e, consequentemente, não se destrua. No entanto, essas habilidades humanas de pouco valem quando o assunto é alcançar a verdadeira justiça. Comparando a mente do homem com a Lei de Deus, Calvino diz:

“E se queremos confrontar nossa razão com a lei de Deus, que é o paradigma da perfeita justiça, descobriremos em quão numerosos pontos aquela é cega! Por certo que longe está ela de alcançar aquelas coisas que são primordiais na primeira tábua do Decálogo, as quais dizem respeito à confiança em Deus, ao louvor da virtude e da justiça que se deve atribuir-lhe, à invocação de seu nome, à verdadeira observância do sábado.” (2.2.24, p.51)

O reformador admite que em relação à segunda tábua da Lei (que trata do relacionamento do homem com seu próximo) os homens têm mais sucesso em obedecer às ordem de Deus, por conta da manutenção da ordem social. Porém, ainda assim somos falhos se dependermos apenas dos dons naturais. Seremos facilmente ludibriados por nossa mente enganosa. Por esse motivo Calvino critica os filósofos, por se esquecerem da total corrupção humana e levarem em conta apenas ações maléficas deliberadas e realizadas.

“Ora, enquanto os filósofos caracterizam como vícios às tendências imoderadas da mente, assim o entendem aquelas que se exteriorizam e se manifestam por sinais mais crassos, porém reputam por nada os desejos depravados que afagam a mente de forma cariciosa.” (2.2.24, p.52)

“Se deve repudiar a opinião daqueles que ensinam que em todos os pecados permeiam deliberadamente a maldade e perversidade. Pois sempre que experimentamos a saciedade, com toda nossa boa intenção caímos.” (2.2.25, p.52)

Assim, a solução para que o homem dirija-se retamente é buscar iluminação do Espírito Santo, a fim de que seja instruído pela Palavra. Como já vimos, o objetivo a lei natural é condenatório, não salvífico, de maneira que ela não tem poder de guiar alguém a Deus. É preciso que homens e mulheres tomem consciência de sua própria incapacidade e busquem, como os santos fizeram, a orientação do Senhor. E por todos os dias de sua vida.

“Davi estava cônscio desse padecimento em relação a si mesmo, quando rogava que lhe fosse concedido entendimento para aprender retamente os preceitos do Senhor [Sl 119.34]. Ora, quem deseja alcançar para si nova compreensão, deixa claro que de modo algum lhe é suficiente à compreensão que possui… Nem ensina a Escritura que são nossas mentes iluminadas em apenas um dia, de sorte que, a partir daí, vejam por si próprias, porquanto o contínuo progresso e crescimento lhes são conferidos.” (2.2.25, p.52s)

Bancarrota espiritual [ 2.2.20-21 ]

Adentramos finalmente em um dos principais pontos da teologia calvinista, e vemos que o reformador dedica realmente um bom tempo ao assunto – a pecaminosidade humana. Evidentemente, Calvino usará diversas passagens da Escritura para demonstrar a total inabilidade humana em relação à piedade. Ele começa com Moisés.

“Diz ele: ‘Teus olhos viram aqueles sinais e portentos ingentes, e o Senhor não te deu coração para entender, nem ouvidos para ouvir, nem olhos para ver’ [Dt 29.3, 4]. Que mais precisaria dizer, se no que tange à consideração das obras de Deus, nos chamou de broncos?” (2.2.20, p.47)

Em seguida o próprio Cristo deixa patente nossa bancarrota espiritual – termo usado por Lloyd-Jones.

“Cristo, por sua palavra, também confirmou isto claramente, quando dizia que ninguém podia vir a ele, a não ser aquele a quem fosse dado por seu Pai [Jo 6.44]… Portanto, ele não pôde mostrar de forma mais clara qual é nossa capacidade para conhecermos a Deus, do que quando nega que tenhamos olhos para contemplar-lhe a imagem mesmo onde tão claramente ela se exibe.” (idem)

Nas palavras de Calvino, é necessário que o Espírito forme ouvidos novos em cada homem, a fim de que eles possam ouvir o Evangelho. Aliás, as figuras usadas pela Bíblia são das mais variadas. Uma das mais comuns é a comparação da regeneração com o fim da cegueira. Isso é explicitado em especial no texto de Efésios que também é exposto pelo reformador.

“Dessa forma, o que aqui detrai aos homens, só a Deus, em oração, atribui em outro lugar: ‘O Deus’, diz ele, ‘e Pai da glória vos dê o Espírito de sabedoria e de revelação’ [Ef 1.17]. Ouves já nessas palavras que toda sabedoria e revelação é dom de Deus. Então, o que diz ele em seguida a isso? ‘Iluminados os olhos de vossa mente’ [Ef 1.181]. Certamente, se carecem de nova revelação, é que por si mesmos são cegos. Segue-se, então: ‘Para que saibais qual seja a esperança de vossa vocação’ [Ef 1.18], etc. Logo, confessa que as mentes dos homens não são capazes de tão grande entendimento, ao ponto de conhecerem sua vocação.” (2.2.21, p.48)

Essa doutrina, como já dissemos mais de uma vez, não é meramente uma depreciação da humanidade, mas parte do remédio necessário para a salvação do homem. Somente ao nos reconhecermos necessitados de Deus iremos ao seu encalço. Lembremo-nos sempre que Deus favorece o humilde, mas rejeita os orgulhosos.

“Se o que buscamos de Deus, confessamos assim faltar-nos, e ele próprio acusa nossa indigência naquilo que promete, que ninguém vacile em confessar que só será capaz de entender os mistérios de Deus quando tiver sido iluminado por sua graça. Quem mais entendimento se atribui, tanto mais cego e menos reconhece sua cegueira.” (2.2.21, p.49)

A miséria humana [ 2.2.17-19 ]

“Esta é a síntese: pode-se perceber em todo o gênero humano que a razão é própria à nossa natureza, a qual nos distingue dos animais brutos, assim como pela sensibilidade diferem estes das coisas inanimadas… Porque, donde procede que um seja mais eminente que outro, senão para que na natureza comum se sobreleve a graça especial de Deus, a qual, preterindo a muitos, se proclama não estar obrigada a ninguém?” (2.2.17, p.44s)

Assim, temos um resumo do pensamento de Calvino a respeito da mente humana. Ela ainda pode alcançar as alturas, mas somente porque Deus o abençoou. Como ele disse ao iniciar esse tema, a razão ainda pode aprender e produzir conhecimento sobre temas terrenos, mas não sobre temas celestiais. Sobre essa “falha” o reformador falará agora. Trata-se de uma “visão espiritual”, que ele entende como formada por três tópicos:

“Conhecer a Deus, conhecer seu paterno favor para conosco, no qual se nos firma a salvação, e conhecer a maneira de plasmar a vida segundo a norma de sua lei. Quer nos primeiros dois desses pontos, quer, porém, especialmente no segundo, aqueles que dentre os homens são os mais talentosos, são mais cegos que as toupeiras.” (2.2.18, p.45)

Somos totalmente incapazes de nos aproximarmos da luz de Deus por nós próprios. Por mais que o cérebro do homem possa nos dar produtos impressionantes, ele naturalmente se encontra em trevas e não pode alcançar a verdade espiritual. Isso é o que a Escritura também ensina, como os textos a seguir, citados pelo reformador nos mostram.

“Nesta passagem [João 1.4,5] indica-se certamente que a alma do homem é iluminada pelo fulgor da divina luz de tal sorte que nunca é inteiramente destituída um mínimo sequer de sua tênue chama, ou no mínimo de uma centelha, mas mesmo com essa iluminação não compreende a Deus.” (2.2.19, p.46)

“Quando o Espírito chama aos homens trevas, ao mesmo tempo os despoja de toda faculdade de entendimento espiritual. Razão por que os fiéis, que a Cristo abraçam, afirma serem nascidos não de sangue, nem da vontade da carne ou da vontade do homem, mas de Deus [Jo 1.13]. Como se estivesse dizendo que a carne não é capaz de tão sublime sabedoria que possa conceber a Deus e ao que é de Deus, a não ser que seja iluminada pelo Espírito de Deus.” (idem)

Essa doutrina deve nos levar à humildade, mas também deve impulsionar o empreendimento missionário. Peçamos a Deus por isso. Que sua igreja reconheça cada dia mais a pobreza em que os homens se encontram, e que essa triste constatação a leve a ser instrumento divino do resgate da humanidade com mais vigor.

A origem da corrupção [ 2.1.10-11 ]

Finalizando o primeiro capítulo do Livro 2, Calvino gasta mais tempo para deixar claro que o pecado é culpa do homem, e não de Deus. Novamente ele se volta para a questão da impiedade ser um problema de corrupção da natureza humana, não da própria natureza.

“Lembremo-nos de que nossa ruína deve ser imputada à depravação de nossa natureza, não à natureza em si, em sua condição original, para que não lancemos a acusação contra o próprio Deus, como sendo o autor dessa natureza.” (2.1.10, p.25)

O texto de Gênesis nos diz que o Criador observou suas obras criadas e avaliou positivamente tudo o que foi feito, em especial o homem. De fato precisamos entender isso – o ser humano é bom pois foi criado por Deus e por ter sido avaliado positivamente pelo mesmo. Claro que isso se passa antes da Queda, mas o pecado é obra nossa não de Deus. Nós nos fizemos inimigos do Criador por nossa própria culpa.

“Negamos que essa depravação tenha se originado da própria natureza como tal, para que deixemos claro que ela é antes uma qualidade adventícia que sobreveio ao homem, e não uma propriedade substancial que tenha sido congênita desde o princípio… Como poderia Deus, a quem uma a uma comprazem suas mínimas obras, ser inimigo da mais nobre de todas as criaturas? Deus, porém, é antes inimigo da corrupção de sua obra, e não da própria obra.” (2.1.11, p.26)

Esse ensinamento é importante, pois combate a heresia dos maniqueus. Os mestres dessa seita não podiam aceitar que existisse algo de mau em um ser criado por Deu, e por isso tentaram criar sua própria explicação para isso. Surgiu daí a idéia de entidades menores que foram responsáveis pela formação do homem, algo certamente não-bíblico.

“Assim dissipa-se a tola baboseira dos maniqueus que, como no homem imaginassem malignidade intrínseca, ousaram anexar-lhe um outro criador, para que não parecessem atribuir ao Deus justo a causa e o princípio do mal.” (idem)

Não precisamos apelar para especulações se queremos explicar a corrupção humana.A Bíblia proveu todas as respostas, de maneira que o crente piedoso poderá obtê-las com estudo e dedicação.