Terceira função da Lei [ 2.7.12-13 ]

O terceiro uso da Lei diz respeito aos crentes em Jesus, aqueles regenerados e habitados pelo Espírito Santo. Para nós, as palavras de Moisés têm dois usos principais – a instrução da vontade do Senhor e a exortação para que nos desviemos do erro.

“Pois a lei lhe é o melhor instrumento mediante o qual melhor aprendam cada dia, e com certeza maior, qual é a vontade de Deus, a que aspiram, e se lhe firmem na compreensão… pois que ninguém até agora penetrou tanto a sabedoria que não possa da instrução diária da lei fazer novos progressos no conhecimento mais puro da vontade divina.” (2.7.12, p.122s)

“Visto que necessitamos não só de ensinamento, mas ainda de exortação, o servo de Deus tirará ainda esta utilidade da lei para que, mediante sua freqüente meditação, seja incitado à obediência, nela seja consolidado e seja impedido de transgredir neste caminho escorregadio.” (2.7.12, p.123)

Para nós que estamos em Cristo, os mandamentos devem ser doces, não amargos. Portanto, é um erro pensarmos que a Lei foi abandonada com a Nova Aliança. Ela ainda demonstra aquilo que Deus espera de nós. O padrão de Deus para seu povo foi revelado ali, e os cristãos não podem desprezar esse ensino. Aqueles que negam qualquer valor para os mandamentos de Moisés caem em grande erro.

“Ora, se não se pode negar que nela sobressai um modelo absoluto de justiça, então, a menos que não devamos ter qualquer regra de viver bem e retamente, será ímpio dela afastar-nos. Na verdade, porém, a perpétua e influxível regra de viver não são muitas, mas uma única. Pelo que, o que diz Davi, que o homem justo medita dia e noite na lei do Senhor [Sl 1.2], não se deve entender como a referência a uma só era, pois que é muitíssimo aplicável a todas as épocas, uma a uma, até o fim do mundo.” (2.7.13, p.124)

Ainda que a santidade perfeita não seja alcançada aqui, devemos lutar e correr em direção a ela. Calvino usa a comparação bíblica com a corrida, na qual o grande alvo é a glória eterna, já ganha pelos méritos do Senhor Jesus.

“Nessa porfia, se não falharmos, tudo bem. Com efeito, toda esta vida é um estádio, do qual, corrido o percurso, o Senhor nos concederá que alcancemos aquela meta a que agora nossos esforços se empenham à distância.” (idem)

Sobre as advertências [ 2.5.11 ]

Calvino dedica o capítulo 5 de seu segundo livro às objeções à sua doutrina da liberdade humana. Nessa seção ele trata das advertências que o Senhor nos dá, alertando para as consequências judiciais de nossos pecados – catástrofes, maldições, inimigos, entre outros. Para os detratores do reformador, se o homem não possui o livre-arbítrio, essas censuras tornam-se inúteis e vazias. Novamente, trata-se de um erro básico, pois a doutrina de Calvino não ensina a nulidade da vontade humana, mas a sua escravidão.

“Respondam, portanto, se porventura podem negar que a causa de sua obstinação é por ser sua vontade depravada. Se acham a fonte do mal dentro de si próprios, por que se extenuam à busca de causas estranhas, para que a si não pareçam ser eles mesmos os autores da própria ruína?” (2.5.11, p.94)

Assim, da mesma maneira que as promessas levam ímpios e justos à clamar pela graça de Deus, essas reprimendas também têm esse papel. Tratam-se de avisos do Senhor para que não cometamos o mal, ou sofreremos as consequências disso. Diante da tentação, o pecado pode ser evitado caso essas ameaças nos venham à memória.

“Se persistirem obstinadamente nos desregramentos, que aprendam nas calamidades a acusar e detestar antes sua própria depravação, em vez de acusar a Deus de injusta crueldade; se não se despojaram da aptidão para aprender, tomados de tédio dos pecados, de cujo merecimento se vêem miseráveis e perdidos, retornem ao caminho e, em séria confissão, reconheçam que o Senhor, ao reprovar, desperta a lembrança.” (idem)

Calvino nos lembra, como duas passagens que a disposição para obedecer a Deus vem do próprio Deus. Por isso, não devemos pensar que o Senhor nos deixa sozinhos, tentando escapar do destino dos ímpios. Pelo contrário, sua mão nos guia para longe de sua própria ira.

“Diz o Profeta: Inclinei meu coração a observar teus preceitos [Sl 119.112]; na verdade porque havia se devotado a Deus, de bom grado e de jovial disposição de espírito; contudo não se gaba de ser o autor dessa disposição, a qual, no mesmo Salmo, confessa ser dádiva de Deus [Sl 119.33-40].” (2.5.11, p.95)

“[Sobre Fl 2.12,13] Por certo que lhes assinala participação ativa, para que não se refestelem no torpor da carne; por outro lado, preceituando-lhes medo e solicitude, abate-os de tal modo que se lembrem ser obra própria de Deus o mesmo que lhes é ordenado fazer. Com o que exprime claramente que, visto que a capacidade lhes é suprida do céu, agem os fiéis, por assim dizer, passivamente, para que de modo algum reivindiquem algo para si.” (idem)

Que Deus nos abençoe e nos ajude a guardar essa doutrina tão grandiosa. Que não nos esqueçamos de reconhecer nossa pequenez diante do Salvador.

Terceira objeção pelagiana [ 2.5.3 ]

A próxima objeção à doutrina de Calvino diz respeito à diferenciação entre bons e maus. Isto é, se não podemos escolher entre bem e mal, então deveriam ser todos justos ou todos injustos. Mais ainda, se não há a possibilidade de escolha, como tantos se desviam da fé?

Ora, a resposta do reformador é simples e rápida – é a eleição de Deus que determina se aparentes fiéis persistirão ou não. Da mesma maneira, é a graça do Senhor que retira alguns da miséria do pecado e outros não.

“Todos laboremos em igual enfermidade, só recobram saúde aqueles a quem aprouve ao Senhor aplicar a mão curadora. Os outros, a quem, em seu justo juízo, pretere, definham em sua podridão até de todo consumir-se. Nem é de outra parte que uns perseveram até o fim, outros tombam, apenas iniciada a corrida.” (2.5.3, p.86)

Assim, mesmo a perseverança dos santos é fruto do poder divino, e não algo em que colaboramos com o Senhor, recebendo algum mérito. A razão pela qual alguns cristãos nominais desviam-se da fé é que a mão de Deus não os presenteou com a capacitação para vencerem.

“Com efeito, também a própria perseverança é dom de Deus, dom que não prodigaliza a todos indiscriminadamente; ao contrário, confere a quem bem lhe parece. Se se procura a causa da diferença, por que uns perseveram constantes, outros por instabilidade desfalecem, não nos é mostrada nenhuma outra causa senão que àqueles, firmados por seu poder, o Senhor os sustenta para que não pereçam; a estes não lhes ministra o mesmo poder, para que sejam exemplos de inconstância.” (idem)

Graça sempre operante [ 2.3.11-12 ]

Uma dos sintomas de não se creditar à graça de Deus toda boa vontade humana é a idéia de que ela continua subjugada aos desejos e aos méritos do homem. Isto é, após o homem ter feito bom uso da primeira graça, ele recebe como recompensa novas dádivas. Novamente a idéia semipelagiana de graça operante e cooperante entra no debate.

“Contudo, aqui se erra de duas maneiras, a saber: além de ensinarem que nossa gratidão é para com a primeira graça, e seu legítimo uso é remunerado por dons subseqüentes, ainda acrescentam que a graça já não opera em nós sozinha, ao contrário, ela é apenas cooperante.”(2.3.11, p.71)

Isso não quer dizer que Calvino negue doutrinas bíblicas, e em particular, palavras de Jesus a respeito de seus servos. É evidente que a Bíblia fala que os servos que são sábios no uso de seus dons receberão graça sobre graça. Isso está fora de questão. O debate aqui diz respeito à de onde vem a sabedoria desses servos.

“Quanto melhor uso fizerem das graças precedentes, de tanto maiores bênçãos haverão de ser aumentadas a seguir. Todavia, afirmo que esse uso também procede do Senhor, e que esta recompensa provém de sua graciosa benevolência, e que usam perversamente, não menos que desgraçadamente, essa desgastada distinção de graça operante e graça cooperante. É verdade que Agostinho fez uso desta distinção, contudo atenuando-a com uma cômoda definição: Deus executa, cooperando, o que começa, operando; e é a mesma graça, porém muda o nome, conforme o diferente modo do efeito” (2.3.11, p.72)

Assim, para Calvino, existe uma distinção entre a graça trabalhando sozinha e a graça cooperando com nossa vontade. O que o diferencia dos outros teólogos é que mesmo essa vontade que está cooperando com a graça é fruto da obra do Espírito Santo em nós. Nossa vida com Deus é baseada no que ele chama de multiplicidade da graça. E isto concorda com as palavras de Paulo em 1Co 15.10: “Trabalhei mais do que todos estes, não eu, mas a graça de Deus comigo”. O reformador entende esse texto da seguinte maneira:

“Ora, o Apóstolo não está escrevendo que a graça do Senhor havia operado com ele de modo a fazer dele co-participante do labor, senão que, antes, transfere todo o louvor da ação somente à graça, mediante esta correção: ‘todavia não eu’, diz ele, ‘mas a graça de Deus que estava presente comigo’.” (2.3.12, p.73)

Assim, Calvino nos ensina a reconhecer mesmo nossos atos bons como frutos da ação poderosa de Deus sobre nossa vida, e não como um apoio para a graça divina. Ele nos chama a, como Bernardo, dizer:

“Ó Deus, atrai-me como por força, para fazer o que eu quero; arrasta-me, que sou moroso, para que me faças correr.” (Sermões sobre Cântico dos Cânticos, XXI; idem)