Graça sempre operante [ 2.3.11-12 ]

Uma dos sintomas de não se creditar à graça de Deus toda boa vontade humana é a idéia de que ela continua subjugada aos desejos e aos méritos do homem. Isto é, após o homem ter feito bom uso da primeira graça, ele recebe como recompensa novas dádivas. Novamente a idéia semipelagiana de graça operante e cooperante entra no debate.

“Contudo, aqui se erra de duas maneiras, a saber: além de ensinarem que nossa gratidão é para com a primeira graça, e seu legítimo uso é remunerado por dons subseqüentes, ainda acrescentam que a graça já não opera em nós sozinha, ao contrário, ela é apenas cooperante.”(2.3.11, p.71)

Isso não quer dizer que Calvino negue doutrinas bíblicas, e em particular, palavras de Jesus a respeito de seus servos. É evidente que a Bíblia fala que os servos que são sábios no uso de seus dons receberão graça sobre graça. Isso está fora de questão. O debate aqui diz respeito à de onde vem a sabedoria desses servos.

“Quanto melhor uso fizerem das graças precedentes, de tanto maiores bênçãos haverão de ser aumentadas a seguir. Todavia, afirmo que esse uso também procede do Senhor, e que esta recompensa provém de sua graciosa benevolência, e que usam perversamente, não menos que desgraçadamente, essa desgastada distinção de graça operante e graça cooperante. É verdade que Agostinho fez uso desta distinção, contudo atenuando-a com uma cômoda definição: Deus executa, cooperando, o que começa, operando; e é a mesma graça, porém muda o nome, conforme o diferente modo do efeito” (2.3.11, p.72)

Assim, para Calvino, existe uma distinção entre a graça trabalhando sozinha e a graça cooperando com nossa vontade. O que o diferencia dos outros teólogos é que mesmo essa vontade que está cooperando com a graça é fruto da obra do Espírito Santo em nós. Nossa vida com Deus é baseada no que ele chama de multiplicidade da graça. E isto concorda com as palavras de Paulo em 1Co 15.10: “Trabalhei mais do que todos estes, não eu, mas a graça de Deus comigo”. O reformador entende esse texto da seguinte maneira:

“Ora, o Apóstolo não está escrevendo que a graça do Senhor havia operado com ele de modo a fazer dele co-participante do labor, senão que, antes, transfere todo o louvor da ação somente à graça, mediante esta correção: ‘todavia não eu’, diz ele, ‘mas a graça de Deus que estava presente comigo’.” (2.3.12, p.73)

Assim, Calvino nos ensina a reconhecer mesmo nossos atos bons como frutos da ação poderosa de Deus sobre nossa vida, e não como um apoio para a graça divina. Ele nos chama a, como Bernardo, dizer:

“Ó Deus, atrai-me como por força, para fazer o que eu quero; arrasta-me, que sou moroso, para que me faças correr.” (Sermões sobre Cântico dos Cânticos, XXI; idem)

O querer e o executar [ 2.3.8-9 ]

Calvino continua a explorar a questão do bem que surge nos homens. Para ele, desde o princípio de nossa salvação temos o próprio Senhor como fonte de toda bondade. Na verdade, antes da fundação do mundo Deus já iniciou sua obra ao eleger-nos. Esta escolha, então, é aplicada quando o cristão crê na obra de Cristo, e isto vem de Deus.

“Adiciona-se outra razão, não contrária: ora, uma vez que o princípio do querer o bem e do agir corretamente procede da fé, impõe-se ver donde procede a própria fé. Como, porém, toda a Escritura proclama que a fé é um dom gracioso de Deus, segue-se que procede de sua mera graça que comecemos a querer o bem, estando naturalmente inclinados ao mal.” (2.3.8, p.67)

Assim, o reformador conclui que tudo aquilo que vem de bom, é dado a nós pelo Senhor. Não apenas a chegada à fé, mas mesmo aquelas iniciativas que parecem nossas são fruto da vontade de Deus em nossas vidas. Calvino cita o Salmo 51, onde Davi pede que Deus crie nele um coração puro. Ainda que já fosse um crente, o salmista reconhecer que somente de Deus vem a piedade. O reformador cita textos em que os crentes pedem para que o Senhor incline o coração deles ao bem, e nos dá uma advertência.

“Sem dúvida é surpreendente e portentoso o fremir de nosso orgulho! Nada exige o Senhor mais estritamente do que observarmos mui religiosamente seu sábado, a saber, descansando de nossos labores. E não há nada mais difícil de se conseguir de nós do que nos descartarmos de nossas ocupações para darmos justo lugar às obras de Deus.” (2.3.9, p.68)

Assim, toda pretensão de termos qualquer esforço próprio na salvação é eliminada, e precisamos aceitar esse “sábado” proposto por Calvino. Por fim, ele cita Filipenses 2.13, onde o Apóstolo Paulo nos diz que Deus não apenas opera o nosso querer, mas também o efetuar.

“A primeira parte de uma boa obra é a vontade; a segunda, o firme empenho em executá-la: Deus é o autor de ambos. Portanto, furtamos ao Senhor, se algo arrogamos para nós, seja na vontade, seja na execução. Se fosse dito que Deus empresta ajuda à vontade fraca, algo nos seria deixado; quando, porém, se diz que ele produz a vontade, então se localiza fora de nós tudo quanto nela há de bom. Ademais, uma vez que até mesmo uma boa vontade é esmagada pelo peso de nossa carne, tanto que não possa soerguer-se, acrescentou que, para superar as dificuldades dessa luta, nos é administrada a constância de empenho para que nos assista até mesmo a execução.” (2.3.9, p.69)

Tudo vem do Senhor, mesmo os nossos desejos mais sinceros. E eles não deixam de ser sinceros por virem do Senhor. Pelo contrário, por meio dele, eles se tornam reais.

A verdadeira humildade [ 2.2.9-11 ]

Como vimos nas seções anteriores, Calvino tem alguns restrições em relação aos patrísticos. No entanto, ele sabe que esses homens tinham boas intenções e procuravam edificar a igreja. Por isso, ele também nos diz o seguinte:

“Por mais extremados que sejam, por vezes, em exaltar o livre-arbítrio, contudo este propósito tem sido seu escopo: ensinar ao homem, inteiramente alijado da confiança de sua própria virtude, a ter sua força posta unicamente em Deus.”(2.2.9, p.37)

Terminado esse estudo sobre os pais da igreja, o reformador passa a ensinar qual é a atitude correta do homem ao defrontar-se com sua própria pecaminosidade. Precisamos humildemente nos reconhecermos com indignos da bondade de Deus para alcançarmos nossa salvação.
“Todo aquele que se vê profundamente acabrunhado e consternado pela consciência de sua miséria, pobreza, nudez, ignomínia, tem assim avançado extraordinariamente no conhecimento de si próprio.” (2.2.10, p.37)
Entre aqueles que abraçaram essa verdade temos Crisóstomo e, em especial, Agostinho, autor que Calvino cita diversas vezes, e realmente nos traz belíssimas reflexões.

“Da mesma forma que aquele orador, indagado qual seria o primeiro entre os preceitos da eloqüência, respondeu: a elocução; como o segundo: a elocução; também o terceiro: a elocução; assim, se me interrogas acerca dos preceitos da religião cristã, primeiro, segundo e terceiro, me agradaria responder sempre: a humildade.” (Agostinho, Homília I sobre o Advento, citado em 2.2.11, p.38)

Toda essa seção é uma exortação e um alerta para que sejamos cada dia mais humilde. Que não atribuamos a nós nada além de nosso próprio pecado, que reconheçamos que tudo de bom em nós vem de Deus. Calvino e aqueles que o precederam nos deixam esse ensino, que tanta falta faz hoje na igreja.

O magnífico palácio [ 1.14.20-22 ]

Para esta seção, é importante ter em mente a atitude proposta por Calvino para estudar a Criação de Deus.

“Portanto, para usar de brevidade, saibam os leitores então terem aprendido, em verdadeira fé, quem é Deus o Criador do céu e da terra, se, em primeiro lugar, seguirem esta regra universal: que não deixem de atentar, seja por ingrata irreflexão, seja por ingrato esquecimento, para os esplendentes primores que Deus exibe em suas criaturas; e, em segundo lugar, assim aprendam a aplicar essas coisas a si próprios, para que se lhes apeguem profundamente ao coração.” (1.14.21, p.176)

Isto é, para o reformador, devemos observar as coisas criadas contemplando as maravilhas do poder de Deus nela, e não apenas reconhecendo isso, mas aplicando ao nosso coração, a fim de agirmos em piedade e adoração. Nesse pequeno trecho, onde Calvino volta-se rapidamente ao tema da Criação outra vez, vemos algumas das mais belas passagens escritas pelo teólogo de Genebra, e podemos perceber que ele coloca em prática esses dois princípios citados acima. Comecemos com seu breve resumo da doutrina da Criação.

“Deus criou do nada o céu e a terra; daqui produziu a todo gênero, animais e coisas inanimadas; distinguiu em admirável seqüência incontável variedade de coisas; a cada gênero revestiu de sua natureza específica; designou funções, atribuiu regiões e moradas; e, visto que todas as coisas são susceptíveis à corrupção, contudo providenciou para que, preservadas, se conservem as espécies, uma a uma, até o dia final… Igualmente adornou o céu e a terra com uma abundância perfeitíssima, e a tudo com diversidade e formosura como se fosse um grande e magnífico palácio admiravelmente mobiliado.” (1.14.20, p.175)

É nesse belo palácio que o homem foi colocado, com tudo o que é necessário para ele à disposição. Algo que nos deve encher de alegria e gratidão. Ao contrário do homem moderno, que conhece tantas maravilhas do universo, mas é incapaz de glorificar a Deus, Calvino, com o pouco que sabia (se comparado a nós) se enche de júbilo.

“De quão grande ingratidão haveria de ser agora duvidarmos que esse Pai boníssimo tenha cuidado de nós, quando vemos ter sido solícito a nosso respeito antes mesmo que nascêssemos! Quão ímpio seria tremer de desconfiança de que, em algum momento, sua benevolência nos falte na necessidade, quando vemos ser-nos exibido, com sua prodigalidade, tudo o que é bom, quando ainda nem éramos nascidos!” (1.14.22, p.177)

Que esse sentimento também esteja presente em nós. Por mais acostumados que estejamos com as maravilhas da Criação, devemos ensinar nossos corações a seguirem aqueles dois princípios que abrem esse post. Certamente essa experiência fará nossa vida cada vez mais contente, e nosso relacionamento com Deus cada dia mais vivo. Ao mesmo tempo, como Calvino, perceberemos que as coisas criadas demonstram aquilo que a Bíblia já ensina – que os atributos de Deus são maravilhosos e, muitas vezes, indizíveis.

“De fato, se quisermos apresentar, como lhe convém à dignidade, quanto refulja na estruturação do mundo a inestimável sabedoria, poder, justiça e bondade de Deus, não estará à altura da magnitude de empresa de tão grande proporção nenhum esplendor nem ornato de linguagem.” (1.14.21, p.176)

A divindade de Cristo [ 1.13.11-13 ]

“Em primeiro plano, digno de especial atenção é isto: que os apóstolos ensinam que o que se predissera do Deus eterno ou já se patenteou em Cristo ou um dia haverá de se manifestar nele.” (1.13.11, p.133)

Continuando a argumentação em favor da divindade de Cristo, Calvino passa agora a citar o Novo Testamento, demonstrando como os apóstolos trataram a pessoa de Jesus como divina, sem cair na idolatria ou no politeísmo. A lista de passagens bíblicas e de motivos para aceitarmos a natureza divina do Filho é imensa, de maneira que somente a cegueira do pecado impede os homens de percebê-la. Justamente por essa quantidade de argumentos, citarei apenas alguns exemplos.

“Quando Isaías profetiza que o Senhor dos Exércitos haveria de ser aos judeus e israelitas por pedra de tropeço e rocha de escândalo [Is 8.14], Paulo afirma que isso se cumpriu em Cristo [Rm 9.33]. Logo, Paulo declara que Cristo é esse Senhor dos Exércitos.” (idem)

“E esse é Paulo, que assim fala [1Co 8.5-6]: “Ainda que muitos se chamem deuses, seja no céu, seja na terra, para nós, entretanto, há um só Deus, de quem procedem todas as coisas.” Quando da mesma boca ouvimos que Deus se manifestou em carne [1Tm 3.16], com cujo próprio sangue Deus adquiriu a Igreja para si [At 20.28], por que imaginamos um segundo Deus, a quem aquele de modo algum reconhece? E não há a mínima dúvida de que o mesmo foi o sentimento de todos os piedosos.” (1.13.11, p.134)

Os apóstolos também falam de Jesus como alguém que tem autoridade de perdoar pecados, algo que somente Deus, que é o juíz de toda a terra, pode arrogar-se.

“Brada o Senhor através do Profeta [Is 43.25]: “Sou eu, sou eu, aquele que apaga tuas iniqüidades por amor de mim.” Como, à luz desta reiteração, os judeus pensassem que a Deus se infligia ofensa por Cristo perdoar pecados, Cristo afirmou não só com palavras que esse poder lhe competia, mas até o comprovou mediante milagre [Mt 9.6]. Vemos assim que ele possui não apenas o exercício, mas ainda o poder de remissão de pecados, o qual o Senhor nega que se pode transferir a outrem.” (1.13.12, p.134s)

Além disso, Cristo também ia além da operação de milagres, mas outorgava aos seus discípulos o dom necessário para que realizassem esses sinais também, algo que somente Deus pode fazer, mas que é operado “em nome de Jesus”. Também é a seu nome são dadas várias das orações dos crentes da igreja primitiva, sem que haja ali idolatria. Paulo várias vezes pede a Cristo aquilo que também pede ao Pai, e mostra que o conhecimento de Cristo é onde devemos nos gloriar. De fato, é esse conhecimento de Deus por Cristo a razão da nossa própria existência, e algo que o próprio Calvino pôde perceber.

“Este conhecimento prático é, indubitavelmente, mais preciso e mais seguro que especulação ociosa de qualquer sorte. Pois a alma piedosa percebe a Deus mui presente, e como que quase o toca, ali onde se sente vivificar, iluminar, preservar, justificar e santificar.” (1.13.13, p.136)

Que nos relacionemos com Jesus da mesma maneira.

Adorando o verdadeiro Deus [ 1.10.1-3 ]

Agora que já está fundamentada em nossa mente a noção de que a Escritura é a revelação de Deus, Calvino parte para mostrar o que o texto bíbico tem a dizer sobre esse Criador. Para o reformador, uma boa descriçã da natureza do Senhor encontra-se em Êxodo 34.6,7.

“SENHOR, SENHOR Deus compassivo, clemente e longânimo e grande em misericórdia e fidelidade; que guarda a misericórdia em mil gerações, que perdoa a iniqüidade, a transgressão e o pecado, ainda que não inocenta o culpado, e visita a iniqüidade dos pais nos filhos e nos filhos dos filhos, até à terceira e quarta geração!”

“Notamos que se proclamam reiteradamente ser duas vezes magnífico aquele seu nome, a eternidade e existência própria, então evocam-se suas virtudes, mediante as quais nos é descrito não quem ele é em si, mas, antes, quem ele é em relação a nós, de sorte que este conhecimento dele consista mais de viva experiência do que de vazia e leviana especulação. Na verdade, ouvimos enumerarem-se aqui suas mesmas virtudes que assinalamos luzirem no céu e na terra: clemência, bondade, misericórdia, justiça, juízo, verdade. Ora, virtude e poder estão contidos no designativo Elohim.” (1.10.2, p.98)

A referência que Calvino faz à experiência é digna de nota. Ao contrário do que pensam alguns críticos do reformador francês, ele não pregava um relacionamento puramente racionalista com Deus, mas sempre enfatiza uma relação viva com o Criador, subordinada à Palavra e avivada pelo Espírito. “Logo, com a experiência por mestra, sentimos Deus ser tal qual se declara na Palavra” (idem). Assim, mais uma vez vemos a ênfase calvinista na teologia (palavra que Calvino evita) que leva à adoração cristã.

“Portanto, o conhecimento de Deus que na Escritura nos é proposto não visa a outro escopo que aquele que refulge gravado nas criaturas, isto é, nos convida, em primeiro lugar, ao temor de Deus; em seguida, à confiança nele, para que, na verdade, aprendamos a cultuá-lo não só com perfeita inocência de vida, mas ainda com obediência não fingida, e então a dependermos totalmente de sua bondade.” (idem)

Por fim, Calvino argumenta que a noção do Deus único é comum a muitos povos. Mesmo aqueles que são politeístas muitas vezes falam da unicidade de Deus. Ainda assim, mesmo afirmando a existência de alguém (ou algo) que elas chamam de Deus, essas pessoas são indesculpáveis, por corromper a verdade revelada pelo Criador.

“Ora, mesmo os que adoravam ingente multidão de deuses, quantas vezes têm falado de acordo com o genuíno senso da natureza, têm usado simplesmente o termo Deus, como se um Deus único lhes fosse bastante… Tudo quanto em bases naturais sentiram a respeito do Deus único de nada lhes valeu a não ser que ficassem inescusáveis… E já o dissemos em outro lugar, todos e quaisquer subterfúgios que os filósofos tem argutamente imaginado, não lhes diluem o crime de apostasia, senão que evidenciam que a verdade de Deus foi corrompida por todos eles.” (1.10.3, p.99)

De fato, vemos pessoas, que não procuram em qualquer momento da vida conformarem-se ao padrão proposto pelo Senhor, afirmando sua devoção a Deus. Sustentam apenas um termo vazio, praticam uma idéia deísta do Criador, e pensam ser isso o suficiente. Calvino encerra com uma advertência a eles, mas que também serve àqueles que procuram conhecer mais o Criador:

“Por esta razão, Habacuque, que condenou a todos os ídolos, ordena que busquem a Deus em seu templo [2.20], para que os fiéis não admitissem outro Deus senão aquele que se revelara por meio de sua Palavra.” (idem)