Uma ética calvinista [ 2.8.46 ]

Na segunda parte de sua exposição do oitavo mandamento, Calvino apresenta algumas aplicações práticas. A primeira delas é que devemos a todo custo lutar para que as pessoas mantenham seus bens e, ao mesmo tempo, não devemos nos apegar demais aos nossos.

“Até onde possível, mediante conselho e assistência, a todos ajudemos fielmente a conservarem o que é seu. Entretanto, se tivermos de nos haver com pérfidos e enganadores, estejamos preparados antes a ceder algo do que é nosso do que com eles contendermos… Aqueles a quem houvermos de ver premidos pelas dificuldades das coisas, compartilhemos-lhes das necessidades e com nossa abundância supramos-lhes a falta de recursos. Finalmente, atente cada um, não importa até onde, por dever de ofício, obrigado para com outros e de boa fé, a pagar o que lhes deve.” (2.8.46, p.168)

Para o teólogo, devemos entregar a cada pessoa aquilo que lhes devemos. Isto significa que devemos agir corretamente ao lidar com empregados, patrões, governantes, pais, etc. Não tratar estas pessoas como elas merecem é furtar-lhe algo. Calvino fala em especial de nossos líderes tanto na sociedade quanto na igreja.

“Tenha o povo em honra a todos que lhe são constituídos em autoridade, suporte-lhes de bom grado o domínio, obedeça-lhes às leis e determinações, a nada se furtando que possa fazer para o agrado de Deus. Por outro lado, sustenham esses o cuidado de seus súditos, conservem a paz pública, sejam por proteção aos bons, reprimam os maus. De tal modo administrem a tudo como se tivessem de prestar conta de sua função a Deus, o Juiz Supremo.” (idem)

“Exerçam sua autoridade como os bons pastores sobre suas ovelhas. Por sua vez, receba-os o povo por mensageiros e apóstolos de Deus, renda-lhes essa honra de que o Mestre Supremo os fez dignos, proveja-lhes aquelas coisas que lhes são necessárias à vida.” (idem)

De maneira semelhante, pais e filhos, jovens e velhos, e empregados e chefes devem se tratar dignamente, cada qual segundo a posição que tem.

“Reverenciem os jovens a idade senil, como o Senhor quis que essa idade seja digna de honra. Também, com sua prudência e pela experiência que os excelem, assistam os idosos à insuficiência da juventude, não apoquentando-os com recriminações ásperas e estridentes; pelo contrário, moderem a severidade pela afabilidade e delicadeza.” (idem)

“Que os empregados, diligentes e com mansidão, se mostrem obedientes aos patrões, não fazendo isso em aparência, mas de coração, como que servindo ao próprio Deus. Os patrões também não se conduzam como rabugentos e intratáveis para com os empregados, não os pressionem com excessiva aspereza, nem os tratem insolentemente. Antes, pelo contrário, reconheçam que eles são seus irmãos e seus conservos sob o Senhor celeste, a quem devem amar mutuamente e tratar humanamente.” (idem)

Cristo seja nosso modelo ao tratarmos com o próximo. Que não usemos a posição que Deus nos deu para massacrá-lo ou desrespeitá-lo. Não sejamos como ladrões, não entregando a cada pessoa aquilo que é dela ou tomando o que não nos pertence. Que o Espírito Santo nos ilumine nessas situações.

O oitavo mandamento [ 2.8.45 ]

Não cometerás furto. (Êxodo 20.15)

Calvino dedica duas longas seções à aplicações deste mandamento. Além de serem úteis aos estudantes da Bíblia, esses comentários também nos apresentam um pouco da ética e do pensamento econômico do reformador.

“Somos proibidos de cobiçar as coisas alheias e, conseqüentemente, se nos ordena fazer sincero esforço em conservar a cada um seus próprios bens. Pois, deve-se assim refletir: que a cada um vem aquilo que possui, não por contingência fortuita, mas em virtude da dispensação do Supremo Senhor de todas as coisas. Portanto, não se pode, mediante maldosas artimanhas, defraudar as posses de quem quer que seja sem que se cometa violação da divina dispensação.” (2.8.45, p.166s)

Existem diferentes formas de furto, como o roubo por meio de violência, o fraude realizada com sutileza, a doação que vem por meio de bajulação e mesmo os bens que são tomados em nome de uma suposta justiça. Aquele que oprime o mais fraco não escapa deste mandamento.

“Deus vê os longos embustes com os quais o homem matreiro procura enredilhar o espírito mais simples, até que o atraia, afinal, a suas malhas; Deus vê as leis duras e desumanas com as quais o mais poderoso oprime e prostra o fraco; Deus vê os engodos com os quais o mais astuto isca o incauto como que com anzóis, todos os quais escapam ao julgamento humano, nem vêm à cogitação.” (2.8.45, p.167)

Mas o teólogo também olha para o lado daqueles que são senhores, e sabe que alguém “mais fraco” não é um santo. Roubamos quando não realizamos bem o serviço pelo qual somos pagos. Vemos aqui um pouco da ética trabalhista de Calvino.

“Se, ocioso, um administrador ou mordomo devora o capital de seu senhor, nem está preocupado com o cuidado de seu patrimônio; se ou esbanja indebitamente os cabedais a si confiados, ou os dissipa desregradamente; se um criado tem em zombaria ao patrão; se lhe divulga os segredos; se de qualquer forma lhe trai, seja a vida, sejam os bens; se, por outro lado, um senhor oprime desumanamente à família; em crime de furto se faz culpado diante de Deus. Pois, quem não perfazo que, em função de sua vocação, deve aos outros, não só retém o alheio, mas até dele se apropria.” (idem)

Oremos para que o Senhor transforme nosso coração. Muitas vezes nossos trabalhos são cansativos e entediantes, mas estamos lidando com os bens de outros também, e não apenas os nossos. Sejamos bons mordomos.

Sobre bons e maus filhos [ 2.8.37-38 ]

O quinto mandamento contém uma promessa de vida longa e abundante àqueles que o cumprem. Calvino dedica as próximas duas seções a isto, uma vez que nos mostra o prazer que Deus tem em filhos submissos a seus pais. É importante ressaltar que isto está intimamente ligado à presença dos judeus na terra prometida, mas também serve de princípio para nós.

“Porque a terra toda foi abençoada para os fiéis, com razão contamos a presente vida entre as bênçãos de Deus. Por isso, esta promessa diz respeito, de igual modo, a nós, isto é, na medida em que a duração da presente vida nos é um atestado da divina benevolência.”(2.8.37, p.161)

O reformador não ignora o fato de existirem bons filhos que perecem cedo. Mas ele nos lembra que muito mais bem-aventurado é a vida eterna com Deus que uma vida longa neste mundo. Assim, a promessa é cumprida quer vivamos, quer morramos.

“Tudo nisto se situa: que reflitamos ser prometida vida longa até onde ela é uma bênção de Deus, que é, de fato, uma bênção até onde é evidência da graça divina, que ele atesta a seus servos, e deveras o demonstra, infinitamente mais copiosa e substancialmente, pela morte.” (idem)

Quanto aos filhos desobedientes, o castigo também se cumpre. Seja na pena de morte entre os israelitas antigos, seja por uma punição trazida pela providência. Ainda os que conseguem sobreviver receberão esta pena na eternidade.

“Ele próprio lhes provê o castigo, de qualquer modo que seja. Pois vemos quão grande número desta espécie de homens perece ou em combates ou em rixas; outros, porém, são afligidos de maneiras insólitas; quase todos são por prova de que esta ameaça não é vã. Se bem que há os que escapam até extrema velhice. Uma vez que, privados da bênção de Deus, nesta vida vegetam nada menos que miseravelmente e se reservam para maiores castigos no futuro, mui longe está de que se façam participantes da bênção prometida aos filhos piedosos.” (2.8.38, p.161)

Finalizando esse assunto, Calvino deixa claro que esta não é uma submissão cega. Como Paulo nos escreve em Efésios 6.1, esta é uma obediência no Senhor. Isto significa que a honra dada às autoridades só vai até onde o nosso Deus não é desonrado. Este princípio nos é muito útil em uma nação que muitas vezes é guiada por padrões mundanos.

“Portanto, se nos instigam à transgressão da lei, então, com justiça, não devem ser por nós tidos por pais, mas por estranhos, que nos estão tentando afastar da obediência do verdadeiro Pai. Assim se deve considerar em relação aos príncipes, aos senhores e a todo gênero de superiores nossos. Pois seria coisa indigna e fora de razão que sua autoridade seja exercida para rebaixar a alteza e majestade de Deus; já que, dependendo da autoridade divina deve guiar-nos e encaminhar-nos a ela.” (2.8.38, p.161s)

Que Deus no dê sabedoria para agir em cada situação.

O quinto mandamento [ 2.8.35-36 ]

Honra a teu pai e a tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o SENHOR teu Deus te dá. (Êxodo 20.12)

Sobre o quinto mandamento, Calvino dá uma interpretação surpreendente para aqueles que não estão familiarizados com sua teologia. Como ele deixou claro, normalmente o mandamento enfatiza a ação mais grave dentro dos princípios que ele quer ensinar. Assim, a desobediência aos pais é o que há de mais grave no que ele considera a idéia desta ordem: honrar aqueles que receberão alguma posição de autoridade sobre nós.

“A finalidade deste mandamento é: uma vez que ao Senhor Deus apraz a manutenção do que dispôs, importa que nos sejam invioláveis os graus de eminência por ele ordenados. A síntese, portanto, será: que usemos de deferência para com aqueles que o Senhor nos fez superiores e os tenhamos em honra, em obediência e em grato reconhecimento. Donde se segue a proibição: que não denigremos nada de sua dignidade, quer por desdém, quer por contumácia, ou por ingratidão.” (2.8.35, p.159)

Calvino entende que a prática desse mandamento nos ensina a submissão. Devemos estimar as pessoas que estão em posição superiores a nós, pois receberam esta honra da parte de Deus. Ele nota que muitos dos títulos do Criador são compartilhados com seres humanos (por exemplo, pai, rei, senhor). Isto não é sem propósito.

“Portanto, aqueles a quem faz participantes desses títulos ilumina-os como que com uma centelha de seu fulgor, de sorte que sejam, cada um, dignos de honra em conformidade com sua posição de eminência. Desse modo, aquele que nos é pai, é próprio reconhecer nele algo divinal, porquanto não sem causa é portador do título divino. De igual modo, aquele que é um príncipe, ou aquele que é um senhor, tem com Deus alguma comunhão de honra.” (idem)

Esta honra deve ser dada, não importa se tais superiores sejam dignos dela ou não. O importante é sabermos que foi Deus que os colocou, por sua providência, nessa posição. Em especial nessa situação, temos os pais. E Calvino não mede palavras quando fala de filhos rebeldes.

“Contudo, preceituou expressamente acerca da reverência de nossos pais, que nos trouxeram a esta vida, com o que nos deve ensinar, de certa maneira, a própria natureza. Pois são monstros, não seres humanos, os que infringirem o poder paterno por desrespeito ou insubordinação!” (2.8.36, p.160)

A fim de entendermos melhor como deveria ser o tratamento que os filhos devem dar aos pais, o teólogo de Genebra lista três manifestações dessa honra que o Senhor exige que prestemos a eles.

“A primeira dessas, a reverência, o Senhor a sanciona quando preceitua que seja entregue à morte aquele que maldisser ao pai ou à mãe [Ex 21.17; Lv 20.9; Pv 20.20], uma vez que aí castiga o menosprezo e a insolência. A segunda, a obediência, sanciona-a quando decreta a pena de morte contra os filhos contumazes e rebeldes [Dt 21.18-21]. Diz respeito à terceira a gratidão ou reconhecimento, o que Cristo diz: que é do mandamento de Deus que façamos o bem a nossos pais [Mt 15.4-6]. E quantas vezes Paulo faz menção deste mandamento, entende que nele se requerer obediência [Ef 6.1-3; Cl 3.20].” (idem, grifo meu)

Este mandamento é um dos mais difíceis de ser aplicados quando tratamos da honra aos governantes. Não sabemos quais os propósitos de Deus para levantar este ou aquele, mas precisamos tomar cuidado com nossas atitudes quando tratarmos de certos cargos. Àqueles que convivem com seus pais, as palavras de Calvino são uma grave advertência e ele chega a lembrar da condenação à morte aos que se rebelevam contra seus familiares. Assim, tomemos cuidado com tais atitudes.

Os dons naturais [ 2.2.13-14 ]

Resta ainda alguma coisa boa no homem? Para Calvino, a resposta não é tão simples como alguns crêem. Isto é, apenas pela bondade de Deus resta-nos alguns poucos dons naturais. Embora o homem esteja totalmente corrompido, tanto na mente quanto na vontade, e tenha se tornado escravo do pecado, ainda assim ele se diferencia dos seres irracionais. Ou seja, sobra à humanidade algumas dádivas, mantidos graciosamente por Deus. Nesse sentido, resta algo de bom nos seres humanos.

O reformador divide as nossas capacidades em dois tipos: aquelas compreendem os dons terrenos e as que compreendem dons celestiais. Evidentemente, o segundo tipo está ausente no homem caído. Conclusão: o homem pode também ser considerado totalmente mal.

“Chamo de ‘coisas terrenas’ aquelas que não dizem respeito a Deus e seu reino, à verdadeira justiça, à bem-aventurança da vida futura; mas, ao contrário, têm significado e nexo em relação à presente vida, e de certo modo se mantêm dentro dos limites. ‘Coisas celestiais’ chamo o puro conhecimento de Deus, o senso da verdadeira justiça e os mistérios do reino celeste. Na primeira classe estão a ciência política, a economia doméstica, todas as artes mecânicas e as disciplinas liberais; na segunda, o conhecimento de Deus e da divina vontade e a norma de plasmar a vida em conformidade com essa vontade.” (2.2.13, p.41)

Assim, Calvino lista algumas das áreas em que esses dons de Deus ainda estão presentes. A primeira dessas é na organização da sociedade, nas leis feitas pelo homem, etc. Mesmo aqueles que quebram a ordem social seguem algum tipo de padrão e conformam-se a ele.

“Daqui resulta que não se ache ninguém que não compreenda ser conveniente que todas e quaisquer comunidades humanas sejam reguladas por leis, e que não abarque na mente os princípios dessas leis… enquanto os homens disputam entre si a respeito de capítulos das leis, estão de acordo no que tange a certa noção básica da justiça… Não obstante, isto permanece: em todos é implantada uma certa semente da ordem política. E esta é ampla prova de que na direção desta vida homem nenhum é destituído da luz da razão.” (2.2.13, p.41s)

A capacidade humana também se mostra superior à de todos os outros seres também nas artes, sejam manuais ou liberais. Ora, como o homem manteria essa habilidade se não fosse dado por Deus? Não que mereçamos tamanho poder de criação, mas aprouve ao Senhor nos deixar alguma chama de razão, que permitisse isso.

“Mas, ainda que nem todos sejam aptos para aprender todas elas, todavia é marca bastante segura da energia comum o fato de que não se acha quase ninguém em quem não se evidencie proficiência em alguma arte. Nem se encontra à mão somente a energia e capacidade para aprender, mas também para inventar algo novo em cada arte, ou para aperfeiçoar e burilar o que hajas aprendido de outrem que veio antes de ti… Porque atinge indistintamente a piedosos e a ímpios, com razão se conta entre os dons naturais.” (2.2.14, p.42s)

Portanto, devemos ser gratos a Deus por essa habilidades que ele nos entregou. Ainda que os injustos não glorifiquem ao Senhor por isto, que nós tenhamos os corações agradecidos diante das maravilhas que a humanidade promoveu e continuará promovendo.