A Graça Comum [ 2.3.3-4 ]

A última seção terminou com Calvino nos explicando que nem todas as pessoas efetivam toda a corrupção que existe em seus corações. Nem todos se parecem com o retrato da humanidade que Paulo apresenta em Romanos 3. O reformador passa a explicar isso, uma doutrina que mais tarde ficaria conhecida como graça comum.

“Em seus eleitos, o Senhor cura estes achaques na maneira que logo exporemos; nos outros, aplicado um freio, apenas os coíbe, só para que não se arrojem a extremos, até onde antevê ser conveniente para a preservação da totalidade das coisas.” (2.3.3, p.60)

As maneiras que Deus utiliza para deter o pecado nos seres humanos não-regenerados são das mais variadas. O importante é notarmos que tudo está debaixo da providência de Deus, que sabiamente governa a humanidade.

“Daqui, uns são contidos pelo senso de vergonha, outros, pelo temor das leis, para que não se lancem a muitas espécies de torpezas, se bem que, em larga medida, não dissimulam sua impureza; outros, porque julguem ser de vantagem uma forma honesta de viver, a ela, de certa maneira, aspiram; outros se alteiam acima da condição vulgar para que, mercê de sua própria importância, contenham os demais na linha da deferência apropriada.” (idem)

O reformador também nos lembra que muitos homens carregam algumas virtudes, mas que elas são sempre dons com que Deus presenteia alguns ímpios, sem que haja algum tipo de transformação interior nessas pessoas. Por sua providência o Senhor capacita as pessoas conforme sua vontade e propósito.

“Por cuja razão, em linguagem comum, não nos arreceamos de dizer ser este bem-nascido, ser aquele de natureza depravada. Entretanto, nem deixamos de incluir a um e ao outro sob a condição universal de depravação humana, mas apontamos que, por graça especial, o Senhor tem conferido a um, da qual não dignou prover ao outro.” (2.3.4, p.61)

No entanto, por maior que seja a aparência de justiça em um ímpio, há um teste final que ele não pode superar – sua motivação. Deus distribui seus dons a essas pessoas e muitas possuem elevado padrão de conduta. No entanto, nenhum ímpio glorificará conscientemente a Deus com seus atos. Por mais virtuoso que seja o incrédulo, ele é incapaz de fazer o que faz para a glória de Deus e isso o torna pecador, mesmo em sua justiça.

“Onde nenhum empenho há de promover a glória de Deus, empenho de que são desprovidos todos os que Deus não regenerou por seu Espírito, está ausente a parte principal da retitude.” (2.3.4, p.61s)

Não devemos pensar que os homens não são todos corruptos porque um ou outro se elevam acima dos pecadores. Precisamos ter em mente que somente aqueles que buscam a glória de Deus realmente entenderam o que é a perfeita justiça.

A instrumentalidade dos ímpios [ 1.18.4 ]

Finalizado o assunto da providência (e o Livro 1 das Institutas), Calvino novamente defende a fé cristã de ataques antibíblicos. Para alguns, Deus deve ser considerado o autor de todos os pecados, uma vez que ele decreta e age sobre os ímpios para alcançar seus propósitos. Essa última seção objetiva a combater essa objeção. Como dissemos no post anterior, trata-se de uma confusão entre vontade e preceito.

“Isto nos cabe realmente sustentar: enquanto por instrumentalidade dos ímpios Deus leva a bom termo o que decretou em seu juízo secreto, não são eles escusáveis, como se estivessem obedecendo a seu preceito, o qual deliberadamente violam em sua desregrada cupidez.” (1.18.4, p.229)

Novamente Calvino usa do auxílio de Agostinho para defender essa doutrina que ele já expôs por bastante tempo. Chama atenção essa boa influência na vida do reformador, ainda que ele rejeite aquilo que discorda do bispo de Hipona. O argumento é o que já dissemos no estudo anterior – Deus e o homem diferem em seus objetivos para um mesmo ato.

“Uma vez que o Pai haja entregado o Filho, e Cristo seu corpo, e Judas o Senhor, por que nesta entrega Deus é justo e o homem réu, senão porque, em um e o mesmo ato que praticaram, a causa em função da qual o praticaram não é uma e única?” (Agostinho, Epístola XLVIII (93), a Vicente, capítulo 7, citado em 1.18.4, p.230)

A respeito do controle de Deus sobre a morte de seu próprio Filho, o reformador tem a dizer o mesmo que Santo Agostinho. Por fim, conclui – as intenções dos ímpios acabam os condenando, por mais que sejam eles instrumentos da bondade de Deus. Ninguém pratica o mal por ordem do Senhor.

“Certamente que, na traição de Judas, atribuir a Deus a culpa do ato nefando, visto que ele próprio não só quis que o Filho fosse entregue, como inclusive o entregou à morte, em nada será mais lícito que transferir a Judas o louvor da redenção… neste exame Deus não indaga o que os homens têm podido, ou o que têm feito, porém o que têm querido, de sorte que o que se leva em conta é o propósito e a vontade.” (1.18.4, p.231)

Conclusão do Livro 1

Aprendemos muitas coisas nesse ensino piedoso que Calvino nos traz. Dessas, destaco algumas que devemos manter conosco ao fechar esse tomo das Institutas: que o conhecimento de Deus é necessário para nossa felicidade, que a Escritura é a fonte primordial desse conhecimento vivo e dinâmico, e que o Criador também controla tudo por meio de seu poder e sabedoria. Que estejamos dispostos a sorver cada vez mais da Palavra de Deus.

“Ora, nosso saber não deve ser outra coisa senão abraçar com branda docilidade, e certamente sem restrição, tudo quanto foi ensinado nas Sagradas Escrituras.” (idem)

A vontade única de Deus [ 1.18.3 ]

Antes de tudo, um grande alerta àqueles que tentam diminuir ou fugir da doutrina da providência.

“Ora, se com falsa aparência de ignorância anelam ao louvor da modéstia, que de mais altivo se pode imaginar que opor à autoridade de Deus uma opiniãozinha insignificante: ‘Meu parecer é outro’, ou: ‘Não me agrada abordar isso’? Se ao contrário se põem abertamente a maldizer, que proveito fruirão arremetendo-se contra o céu a cuspir?” (1.18.3, p.227)

Calvino enfrenta agora a objeção daqueles que dizem que ensinamos Deus ter duas vontade, como se fizesse as coisas mesmo sem o querer, ou desejasse o que não deseja. Para o reformador, essas pessoas simplesmente fazem confusão entre vontade e preceito. O reformador rejeita a idéia de vontade dúbia do Criador, mesmo que a nós pareça muitas vezes isso. Ele usa como exemplo maior do controle de Deus a crucificação de Jesus.

“E, com efeito, a não ser que Cristo houvesse sido crucificado porque Deus assim o quis, donde teríamos redenção? Contudo, nem por isso Deus se põe em conflito consigo mesmo, nem se muda sua vontade, nem o que quer finge não querer; todavia, embora nele sua vontade seja uma só e indivisa, a nós parece múltipla, já que, em razão da obtusidade de nossa mente, não aprendemos como, de maneira diversa, o mesmo não queira e queira que aconteça.” (1.18.3, p.228)

Para reforçar sua idéia, Calvino apela novamente aos escritos de Agostinho, demonstrando que sua doutrina não idéia nova, mas algo que vem desde os tempos antigos. Trata-se de uma citação longa, mas que ilustra bem como conciliar essa a providência de Deus com o (mal) querer humano.

“Por vezes, com uma vontade boa, um homem quer algo que Deus não quer, como, por exemplo, se um bom filho quer que o pai viva, a quem Deus quer que morra; por outro lado, pode acontecer que, de má vontade, um homem queira o mesmo que, de boa vontade, Deus quer, como, por exemplo, se um filho mau queira que o pai morra, e isso também Deus queira. Isto é, aquele quer o que Deus não quer; este, porém, quer o que também Deus quer. E no entanto a piedade daquele, ainda que a querer coisa diferente, mais se coaduna com a vontade boa de Deus, do que a impiedade deste a despeito de querer o mesmo. Tanto importa que seja próprio ao homem querer, que o seja a Deus, e a que fim se inclina a vontade de cada um, de sorte que ou seja aprovada ou seja reprovada. Ora, mediante as vontades más de homens maus Deus executa o que quer de boa vontade.” (Agostinho, Inquirição a Lourenço, cap 101, citado em idem)

Isto é, um homem deseja o mal e ainda assim o que ele deseja é o mesmo que Deus deseja, porém com Deus o desejando para o bem. Trata-se de uma questão de intenções, muito mais que de ações (pois estas são praticadas por cada agente, não sendo Deus o executor dos atos maus). Como Deus sempre quer o bem e a justiça, sua glória é mantida, e sua santidade continua imaculada.

“E assim, de maneira mirífica e inefável, não se faça, exceto por sua vontade, o que se faz mesmo contra sua vontade, porque não se faria se ele não o permitisse; nem o permite, como se de qualquer forma não o quisesse; ao contrário, porque o quer; mesmo sendo bom não permitiria que mal se fizesse, exceto que, onipotente, até em relação ao mal pudesse fazer
bem.” (Agostinho, citado em 1.18.3, p.229)

Novamente, nossa oração que sejamos humildes e aceitemos de bom grado essa doutrina que a Bíblia nos ensina, e que os pais com todo cuidado expuseram para nós.

A eficiência da providência [ 1.18.1-2 ]

Calvino volta-se novamente para a questão dos decretos de Deus em relação aos maus atos cometidos. Ele fala da popular distinção entre Deus fazer e permitir certo evento, para então negar que haja base para supor isso. Os atos malignos também são decretados por Deus, mas ele não se mancha com isso. Um dos exemplos claros está em Jó, que foi atacado por Satanás, mas associou a Deus o que aconteceu com ele, sem que houvesse qualquer objeção da Escritura.

“Jó reconhece que da parte de Deus fora despojado de todos os seus haveres e em pobre transformado, pois assim aprouvera a Deus. Portanto, seja o que for que os homens maquinem, ou o próprio Satanás, entretanto Deus retém o timão, de sorte que lhes dirija os propósitos no sentido de executarem seus juízos… Seria ridículo que o Juiz apenas permitisse o que queria que fosse feito, contudo não o decretasse e não determinasse a execução aos serventuários.” (1.18.1, p.224)

Para Calvino, é um absurdo considerar a idéia de que Deus fica apenas “assentado numa guarita” (1.18.1, p.225), dependendo do que os homens decidem fazer ou nao, para executar seus decretos. Pelo contrário, a mente do homem é dirigida pelo Senhor para seus propósitos. Mesmo na condenação dos réprobos vemos o Espírito como causa eficiente.

“Muitos, porém, lançam estes fatos à conta da permissão, como se, ao rejeitar aos réprobos, Deus os deixasse entregues a Satanás para que os cegasse. Todavia, uma vez que o Espírito Santo declara expressamente que cegueira e insânia são infligidas pelo justo juízo de Deus [Rm 1.20-24], essa solução se torna muitíssimo frívola.” (1.18.2, p.225)

Calvino cita o caso de Faraó, onde a Bíblia ensina que Deus endureceu o coração do inimigo dos judeus, ao mesmo tempo que deixa claro que o vilão também estava agindo. Trata-se de uma relação praticamente sinergista, em que o Senhor sustenta e guia os maus desígnios do pecador para seus propósitos. De fato, o reformador nos lembra que se não for assim, como poderia o coração de Faraó ter se endurecido mais ainda?

“Como se, na verdade, se bem que de modos diversos, não se harmonizem perfeitamente bem entre si estes dois fatos: que o homem, quando é acionado por Deus, contudo ele, ao mesmo tempo, está também agindo. Eu, porém, lanço contra eles o que objetam, porque, se endurecer denota permissão absoluta, o próprio impulso da contumácia não estará propriamente em faraó. Com efeito, quão diluído e insípido seria interpretar assim, como se faraó apenas se deixasse endurecer!” (1.18.2, p.226)

Assim, é necessário que aceitemos essa doutrina. Deus não precisa de defensores, mas quer que anunciemos sua verdade, por mais dolorosa que seja aos nossos ouvidos antropocêntricos. O Rei do Universo comanda todos conforme sua vontade, sem se deixar sujar pelo pecado. Isso pode ser difícil de compreender para alguns, mas é o que a Palavra nos apresenta. Que nos submetamos a ela, então.

Arrependimento de Deus? [ 1.17.12-14 ]

“Muitos daqui argúem que Deus não fixou os afazeres humanos por um decreto eterno; ao contrário, para cada ano, dia e hora, um a um, decreta isto ou aquilo, segundo são os méritos de cada indivíduo ou conforme o julgue reto e justo.” (1.17.12, p.220)

Se Deus decreta tudo o que acontece, como vemos passagens onde a Escritura afirma que Deus arrependeu-se de certas ações, ou que ele mudou seu decreto baseado em ações humanas? Essas questõs Calvino responderá nas últimas seções desse longo capítulo sobre a providência.

Primeiramente, ele trata da questão do arrependimento de Deus. Para o reformador, a Bíblia deixa bastante claro que Deus não comete erros para arrepender-se. Calvino lembra que num mesmo capítulo a Bíblia usa a expressão arrependimento para Deus, para logo em seguida dizer que o Senhor não arrepende-se (1Sm 15). Assim, devemos entender essa palavra, quando usada para Deus, como um antropomorfismo.

“Esta é, na verdade, a forma de acomodação: que se representa, não tal como é em si, mas como nós o sentimos… assim também não devemos conceber outra coisa sob o vocábulo arrependimento senão a mudança de ação… pelo termo arrependimento se entende o que Deus muda em suas obras. Entretanto, não se reverte nele nem o plano, nem a vontade, nem se oscila seu sentimento. Ao contrário, o que desde a eternidade previra, aprovara, decretara, leva adiante em perpétuo teor, por mais súbita que a variação pareça aos olhos dos homens.” (1.17.13, p.220s)

Sobre a mudança de decisão que Deus toma sobre certos assuntos, como, por exemplo, a não-destruição de Nínive no livro de Jonas, o reformador também tem muito a nos dizer. Existem ações que Deus quer tomar, mas que têm as reações dos seres humanas como meios para chegarem a elas. Isto é, para salvar Nínive, é necessário propor o arrependimento por meio da ameaça de destruição. Deus iria salvar a cidade, mas era necessário levar aquele povo ao reconhecimento de seus erros.

“Quem não percebe que, mediante ameaças desta ordem, o Senhor queria despertar ao arrependimento àqueles a quem infundia medo, para que escapassem ao juízo de que, por seus pecados, eram merecedores?” (1.17.14, p.221)

Da mesma maneira, quando Deus nos exorta a mudarmos nossos caminhos, é preciso saber que ele tem prazer em levar-nos ao arrependimento, e não deseja o castigo de seus filhos. Nosso Pai está pronto a perdoar e retém suas maldições se humildemente nos voltamos para ele diante de uma advertência.

“Pois o Senhor aplaina o caminho para sua eterna determinação quando, anunciando o castigo, exorta ao arrependimento àqueles a quem quer poupar, antes que algo varie em sua vontade, e certamente não em sua palavra, exceto que não exprime, sílaba a sílaba, o que entretanto é fácil de entender.” (1.17.14, p.222)

Mais sobre a providência [ 1.17.9-11 ]

A doutrina da providência nos provoca mansidão e serenidade, por sabermos que Deus tem o controle do bem e do mal. Porém, Calvino nos mostra que aquele que entende corretamente essa doutrina não passa a viver em passividade, negando-se a ser prudente só porque Deus é soberano. Da mesma maneira, devemos entender que as causas secundárias de uma bênção não devem ser desprezadas.

“Enfim, nos benefícios recebidos reverenciará e louvará a Deus como seu principal autor, porém honrará aos homens como seus ministros e, como é de fato, compreenderá haver sido ligado pela vontade de Deus àqueles por cuja mão ele quis ser-lhes benévolo… Daí também não cessará de tomar conselhos, nem haverá de ser lerdo em implorar a assistência daqueles a quem perceberá disporem de meios donde haja de ser ajudado. Ao contrário, considerando que à mão se lhe oferecem da parte do Senhor todas e quaisquer criaturas que lhe podem prover algo, as porá para o uso como instrumentos legítimos da providência divina.” (1.17.9, p.215s)

Além disso, o homem piedoso também não culpará Deus pelos seus próprios erros ou imprudência, mas aceitará o infortúnio como fruto de seu vacilo. Devemos dar o nosso melhor, mas lembrando-nos sempre que existe um Criador que tudo governa. O reformador utiliza o ótimo exemplo de Joabe para exemplificar essa atitude.

“Assim é que Joabe, ainda que reconheça que o resultado da batalha está no arbítrio e mão de Deus, contudo não se entrega à inércia, mas executa diligentemente o que lhe é da alçada; deixa, porém, ao Senhor a direção do resultado: “Erguernos- emos firmes”, diz ele, “por nosso povo e pelas cidades de nosso Deus; o Senhor, porém, faça o que é bom a seus olhos” [2Sm 10.12].” (idem)

Calvino também reconhece que, debaixo de tantos periogos que envolvem nosso cotidiano, a condição humana muitas vezes é triste e lamentável. Depois de uma lista de inúmeros problemas que podem nos ocorrer, ele conclui.

“Em meio a estas dificuldades, porventura não deve o homem sentir-se em extremo miserável, como quem na vida apenas semivivo sustenta debilmente o sôfrego e lânguido alento, não menos que se tivesse uma espada perpetuamente a pender-lhe sobre o pescoço?” (1.17.10, p.217)

No entanto, ele chega à conclusão de que existe algo pior que todo o tipo de maldição conhecida. E é essa que devemos primeiramente evitar.

“Enfim, para que aqui não me demore por mais tempo, se prestares atenção perceberás facilmente que o extremo de todas as misérias é o desconhecimento da providência, e que a suprema bem-aventurança está posta em seu reconhecimento.” (1.17.11, p.219)

Que possamos usar essa doutrina tão bendita como algo que nos faça crescer em graça, e não como um motivo para indolência. Amém.