Uma rápida explicação [ 2.5.15 ]

Abrindo espaço em meio às objeções, Calvino explica novamente a natureza da regeneração. Como já foi dito, é nossa vontade que está agindo, mas ao mesmo tempo é algo totalmente transformado pelo Espírito. Em uma frase que pode significar um paradoxo para alguns, o reformador explica que ao mesmo tempo a vontade do pecador é reparada, mas também recriada.

“A vontade não é destruída pela graça; ao contrario, é antes reparada, pois que ambos esses conceitos se harmonizam esplendidamente, de modo que se pode dizer que a vontade do homem é restaurada, enquanto, corrigida a viciosidade e depravação, é ela dirigida à verdadeira norma da justiça, e ao mesmo tempo se pode dizer que é criada no homem uma vontade nova, porquanto está viciada e corrompida a tal ponto que ele tem por necessário induzir-lhe no íntimo uma nova natureza.” (2.5.15, p.100)

Isso não quer dizer que tenhamos alguma participação na salvação sem a obra do Espírito Santo em nós. Toda ação vem de Deus, ainda que sejamos nós agindo. Como diz o Senhor, “sem mim nada podeis fazer” (Jo 15.5). Para o reformador, ainda que os atos sejam nossos, devemos dar glória a Deus, pois por sua benignidade é que eles são nossos, ainda que originados nele.

“Uma vez que, entretanto, o querer nos é naturalmente ingênito, nos é dito não sem causa que efetuamos essas coisas cujo louvor, de direito, Deus para si reivindica, em primeiro lugar, porque nosso é, por sua benignidade, tudo quanto ele opera em nós, uma vez que compreendamos que não procedem de nós; em segundo lugar, visto que nossa é a mente, nossa a vontade, nosso o esforço, estes são por ele dirigidos para o bem.” (idem)

Depois dessa rápida explicação, o reformador voltará a se concentrar nas objeções contra sua doutrina, escolhendo alguns versos utilizados pelos precursores do arminianismo. Que Deus nos dê sabedoria e iluminação para continuarmos nesses estudos, sem nos desviarmos da sã doutrina.

Agostinho estava certo [ 2.3.13-14 ]

Para dar força a seu argumento, Calvino usa a autoridade daquela que é sua maior influência, Santo Agostinho. Certamente, este é o nome mais citado nas Institutas, e o reformador usará as próximas duas seções para demonstrar que o ensino sobre a graça apresentado em sua obra é o mesmo do Bispo de Hipona. A estratégia não é procurar autoridade da tradição, mas demonstrar, por meio de um nome respeitado entre protestantes e católicos, que nada de novo foi ensinado até agora.

“A graça de persistir no bem fora dada a Adão, se ele a quisesse exercitar; a nós nos é dada para que queiramos, e através da vontade superemos a concupiscência. Portanto, teria ele tido o poder, se o quisesse, porém não teve o querer, para que pudesse; a nós nos é dado não só o querer, mas ainda o poder. A primeira liberdade foi de poder não pecar; a nossa é muito maior: não poder pecar.” (Da Correção e da Graça, citado em 2.3.13, p.73)

A questão da graça operante e graça cooperante é também tratada por Agostinho. Para ele, todo o bem praticado por nós é fruto da ação divina sobre nossas vidas, de maneira que não há qualquer mérito humano ou capacidade que possa ser associada a homens e mulheres agindo por eles mesmos.
“A vontade dos fiéis é de tal maneira guiada pelo Espírito Santo, que podem agir bem porque assim o querem; e querem, porque Deus faz com que queiram [2Co 12.9]… Só a graça opera em nós toda boa obra” (citado em 2.3.13, p.73)
Calvino lembra que isso não significa que Agostinho (e, consequentemente, ele) acreditava que a vontade humana era suprimida pela graça de alguma forma, mas que ela continua, mas agora trasnformada. A objeção de que o amorou a fé só existem se nascem espontaneamente não se aplica aqui.
“O homem não é de tal maneira impulsionado, que seja impelido sem a disposição do coração, como se movido por uma força externa; ao contrário, é interiormente acionado, de tal forma que obedece de coração.” (2.3.14, p.74)

Assim, com Agostinho, Calvino conclui o seguinte sobre a vontade humana:

“E assim, ao homem é deixado um livre-arbítrio tal, se assim se prefere chamá-lo, que escreve em outro lugar: que nem se pode converter a Deus, nem em Deus persistir, senão pela graça: tudo quanto pode, o pode pela graça.” (2.3.14, p.7)

Chamado eficaz [ 2.3.10 ]

“Ora, o Apóstolo não está ensinando que, se a aceitarmos, se nos oferece a graça de uma boa vontade; ao contrário, que ele próprio efetua em nós o querer, o que outra coisa não é senão que o Senhor, por seu Espírito, nos dirige, inclina, governa o coração e nele reina como em domínio seu.” (2.3.10, p.70)

Ainda que não utilizasse os mesmos termos do Sínodo de Dort, Calvino certamente aprovaria suas declarações. Prova disso, é a ênfase que ele dá ao chamado eficaz de Deus, sua graça irresistível que vence qualquer barreira colocada pelo o homem, e o leva graciosamente à futura glorificação. Veja o que o teólogo de Genebra nos diz.

“Na verdade ele não está prometendo, através de Ezequiel [11.19, 20; 36.27], que haverá de dar aos eleitos um novo espírito apenas com esta finalidade: que sejam capacitados a andar em seus preceitos; ao contrário, para que, de fato, neles andem! Nem se pode interpretar diferentemente a afirmação de Cristo [Jo 6.45]: ‘Todo aquele que ouviu de meu Pai vem a mim’, senão que ensina que a graça de Deus é de si mesma eficaz.” (idem)

Calvino, ao contrário do que se pensa, não nega que o Evangelho deva ser oferecido a todos. No entanto, ele sabe que apenas Deus tem o poder para aplicar de maneira eficaz esta mensagem.

“Por certo que os homens devem ser ensinados que a benignidade de Deus é oferecida, sem exceção, a todos os que a buscam. Como, porém, somente aqueles a quem a graça celeste inspirou começam por fim a buscá-la, nem mesmo esta porçãozinha mínima deveria ser subtraída de seu louvor.” (idem)

Calvino sabe que tem como testemunha de sua posição o próprio Agostinho. O bispo de Hipona foi claro ao dizer que apenas “a natureza é comum a todos, a graça não”(2.3.10, p.71). Com isso, podemos entender que, embora a salvação não seja para todos, não sabemos quem são aqueles a quem Deus elegeu. Por isso, devemos proclamar o Evangelho a todos, a fim de que o próprio Senhor, por sua poderosa graça, traga seus filhos para junto de si.

O querer e o executar [ 2.3.8-9 ]

Calvino continua a explorar a questão do bem que surge nos homens. Para ele, desde o princípio de nossa salvação temos o próprio Senhor como fonte de toda bondade. Na verdade, antes da fundação do mundo Deus já iniciou sua obra ao eleger-nos. Esta escolha, então, é aplicada quando o cristão crê na obra de Cristo, e isto vem de Deus.

“Adiciona-se outra razão, não contrária: ora, uma vez que o princípio do querer o bem e do agir corretamente procede da fé, impõe-se ver donde procede a própria fé. Como, porém, toda a Escritura proclama que a fé é um dom gracioso de Deus, segue-se que procede de sua mera graça que comecemos a querer o bem, estando naturalmente inclinados ao mal.” (2.3.8, p.67)

Assim, o reformador conclui que tudo aquilo que vem de bom, é dado a nós pelo Senhor. Não apenas a chegada à fé, mas mesmo aquelas iniciativas que parecem nossas são fruto da vontade de Deus em nossas vidas. Calvino cita o Salmo 51, onde Davi pede que Deus crie nele um coração puro. Ainda que já fosse um crente, o salmista reconhecer que somente de Deus vem a piedade. O reformador cita textos em que os crentes pedem para que o Senhor incline o coração deles ao bem, e nos dá uma advertência.

“Sem dúvida é surpreendente e portentoso o fremir de nosso orgulho! Nada exige o Senhor mais estritamente do que observarmos mui religiosamente seu sábado, a saber, descansando de nossos labores. E não há nada mais difícil de se conseguir de nós do que nos descartarmos de nossas ocupações para darmos justo lugar às obras de Deus.” (2.3.9, p.68)

Assim, toda pretensão de termos qualquer esforço próprio na salvação é eliminada, e precisamos aceitar esse “sábado” proposto por Calvino. Por fim, ele cita Filipenses 2.13, onde o Apóstolo Paulo nos diz que Deus não apenas opera o nosso querer, mas também o efetuar.

“A primeira parte de uma boa obra é a vontade; a segunda, o firme empenho em executá-la: Deus é o autor de ambos. Portanto, furtamos ao Senhor, se algo arrogamos para nós, seja na vontade, seja na execução. Se fosse dito que Deus empresta ajuda à vontade fraca, algo nos seria deixado; quando, porém, se diz que ele produz a vontade, então se localiza fora de nós tudo quanto nela há de bom. Ademais, uma vez que até mesmo uma boa vontade é esmagada pelo peso de nossa carne, tanto que não possa soerguer-se, acrescentou que, para superar as dificuldades dessa luta, nos é administrada a constância de empenho para que nos assista até mesmo a execução.” (2.3.9, p.69)

Tudo vem do Senhor, mesmo os nossos desejos mais sinceros. E eles não deixam de ser sinceros por virem do Senhor. Pelo contrário, por meio dele, eles se tornam reais.

Capacitados ao bem [ 2.3.6-7 ]

Para que o homem totalmente depravado volte seus olhos para o Criador é necessária uma obra sobrenatural. É aquilo que Paulo chama de “boa obra”, que Deus havia iniciado nos filipenses (Fp 1.6), e que continuaria até o dia final. É necessário que o coração seja refeito. Ezequiel registra essa promessa do Senhor, dizendo que os homens teriam os corações de pedra trocados por de carne. Isto é, um milagre.

“Se porventura numa pedra existe plasticidade de qualquer natureza, a qual, tornada mais mole por algum meio, recebe algum tipo de inflexão, não negarei que o coração do homem pode tornar-se flexível à obediência do que é reto, desde que o que é nele imperfeito seja suprido pela graça de Deus. Mas, se com esta comparação o Senhor quis mostrar que nada de bom jamais será extraído do coração, a não ser que ele se faça inteiramente outro, não dividamos entre ele e nós o que reivindica exclusivamente para si.” (2.3.6, p.64)

Mais uma vez, então, o reformador enfatiza que não há violência ou destruição no ser humano, mas uma reorientação e transformação do seu coração.

“Quando Deus nos converte ao zelo do que é reto, uma pedra se transforma em carne e está eliminado tudo quanto é de nossa própria vontade: o que toma seu lugar procede inteiramente de Deus. Digo que a vontade é suprimida não até onde é vontade, pois que na conversão do homem permanece íntegro o que é da primeira natureza; digo ainda que a vontade é feito nova, não no sentido em que comece a existir, mas que ela muda de má em boa.” (2.3.6, p.64s)

É importante também acrescentar que o reformador deixa claro que essa obra divina não se dá apenas no início, mas segue a vida toda. Como diz Efésios 2.10, Deus preparou boas obras de antemão, para que andássemos nelas. Embora a vontade humana possa ser considerada uma “serva acompanhante” (expressão de Agostinho), Calvino enfatiza bastante que a fonte da obediência dessa serva é a própria graça de Deus. O comentário do Bispo de Hipona sobre João 6.45 é útil.

“Assim seu arbítrio o assiste, para que não só saiba o que deve fazer, mas, porque o sabe, também o faça. E daí, quando Deus, não mediante a letra da lei, mas através da graça do Espírito, assim ensina que o que alguém aprendeu, não apenas o veja, conhecendo; mas ainda o busque, querendo; e o faça, agindo.” (Agostinho, citado em 2.3.7, p.66)

Devemos nos unir a estes homens santos e reconhecer que nossa salvação vem somente do Senhor (Jonas 2.9). Desde o primeiro passo até o fim da jornada – tudo isto está nas mãos do Senhor, que nos transforma, nos cura e nos guia.