Calvino o iconoclasta [ 1.11.4-6 ]

“Resolveu-se que não se tenham nos templos representações pictoriais, como também não se pinte em suas paredes o que se cultua ou adora.” (Concílio de Elvira, cânon 36, citado por Calvino em 1.11.6, p.105)

Em seu combate às imagens usada por cristãos professos, Calvino apela várias vezes não apenas para a Escritura, mas para a própria incoerência da situação em que os idólatras muitas vezes se metem. Ele nota que é o medo dos seus poucos dias leva o homem a criar ídolos, mas é justamente por sua vida breve que a humanidade não deveria apegar-se aos falsos deuses.

“O homem se vê compelido a confessar que ele é uma criatura efêmera, e não obstante quer que um metal, a cuja divindade deu origem, seja considerado deus!” (1.11.4, p.103)

Mais ainda, para qualquer pessoa é óbvio que seres criados são inferiores àquele que os criou. Porém, os homens continuam a prostrar-se diante dessas figuras, como se elas tivessem alguma dignidade. Calvino cita o poeta Horácio e também ataca a veneração a ícones.

“Outrora eu era um tronco de figueira, um inútil pedaço de lenho / Quando um artífice, incerto se deveria fazer um banco etc. / Preferiu que eu fosse um deus.” (Horácio, Serm. I, sát. VIII)

“No Salmo [95], o Profeta acentua essa insânia, dizendo que aqueles que foram a tal ponto dotados de inteligência, que sabem que todas as coisas são movidas somente pelo poder de Deus, imploram o auxílio de coisas inanimadas e destituídas de sensibilidade.” (1.11.4, p.104)

Nem as representações gráficas estão isentas do pecado de corromper a glória de Deus. Calvino cita Gregório que gostaria de usar imagens com o fim de ajudar os iletrados, porém “se Gregório houvesse sido instruído nesta matéria, jamais haveria de ter assim falado” (1.11.5, p.105). Aquele que quer aprender de Deus deve conhecê-lo pelas maneiras que o próprio Deus indicou, e isto não inclui imagens.

“Os papistas assumem como infalível axioma: que as imagens fazem as vezes de livros. Pois os profetas opõem as imagens ao Deus verdadeiro, como coisas contrárias que jamais podem ser conciliadas… Uma vez que o Deus verdadeiro a quem os judeus adoravam é um e é único, pervertida e enganosamente se inventam figuras visíveis para que representem a Deus e miseravelmente iludidos se quedam todos os que daí buscam conhecimento.” (idem)

Hoje vivemos um afrouxamento nessa doutrina. O medo de parecer radical leva muitos pastores a aceitarem como normal representações de Deus, desde que não sejam estátuas. Apresentações de PowerPoint são ingênuas ilustrações que não levariam ninguém a pecar, alguns pensam. Talvez realmente ninguém chegue a adorar uma imagem JPEG, mas será que não estamos ainda assim diminuindo e corrompendo a glória do Senhor? Oremos por mais cuidado nessa área.

Calvino contra os ídolos [ 1.11.1-3 ]

A Bíblia nos revela um Deus eterno e gracioso, o que deve nos levar à adoração como proposta por ele, algo que o dignifique e não diminua a natureza do Criador. É por isso que Calvino agora se volta contra toda representação imagética da Deidade.

“Isaías, que é muito incisivo nesta demonstração, visto que ensina que a majestade de Deus é maculada de vil e absurda ficção, quando o incorpóreo é nivelado à matéria corpórea, o invisível à representação visível, o espírito à coisa inanimada, o imenso a um pequeno pedaço de madeira, pedra ou ouro.” (1.11.2, p.101)

Alguns argumentam que o fato de Deus manifestar-se em formas visíveis no Antigo Testamento significa que nos é permitido criar representações e figuras do Criador. Contra isso, Calvino também tem algo a dizer:

“Ora, nuvem, fumaça e chama, uma vez que eram símbolos da glória celestial, como que a interpor um frio, coibiam as mentes de todos para que não tentassem penetrar mais fundo… Acresce a isto que os profetas pintam os serafins que lhes foram manifestos em visão com a face velada em relação a nós, significando com isso ser tão grande o fulgor da glória divina, que até os próprios anjos se continham de contemplação direta, e as tênues centelhas que refulgem em seus anjos nos são subtraídas aos olhos.” (1.11.3, p.102)

O reformador também se lembra de Juvenal, escritor pagão que, na obra Sátiras, “censura aos judeus por adorarem as meras nuvens e a divindade do céu” (idem). Isso demonstra que a religião verdadeira da antiga aliança não envolve a construção de esculturas para serem adoradas.

“Por certo que ele está falando pervertida e impiamente. Entretanto, negando existir entre eles qualquer éfigie divina, fala mais verazmente que os papistas, que grasnam haver existido entre os judeus alguma representação visível de Deus.” (idem)

É claro que muitas vezes os judeus cairam nesse erro, mas Calvino nos lembra que não é algo que existia somente entre aqueles homens, mas uma “inclinação que em nós existe para a idolatria” (idem). Se aquele povo que viu tantos sinais errou, mais ainda nós devemos estar atentos para não tentarmos reduzir a glória do Criador à reles criatura.