Conselhos matrimoniais [ 2.8.43-44 ]

Como foi dito na seção anterior, nem todos têm o dom do celibato, portanto é necessário que o cristão se case. Calvino entende que o homem que não se casa certamente perderá a batalha contra sua própria carne, e isso ele enfatiza diversas vezes. O jovem cristão, em especial, deve guardar essa verdade e não fugir daquilo que Deus nos propõe como igreja.

“Ademais, que aquele que não se pode conter, contraia matrimônio no Senhor [1Co 7.9]. Significa, assim, em primeiro lugar, que a maior parte dos homens está sujeita ao vício da incontinência; em seguida, dentre esses que estão assim sujeitos, a nenhum excetua a quem não ordene refugiar-se nesse único remédio com o qual se pode ir de encontro à impudência” (2.8.43, p.165)

Finalizando a análise desse mandamento, o teólogo de Genebra também apresenta algumas dicas para aqueles que já estão casados. Cabem aos cônjuges manterem sua relação de maneira honrosa e sóbria, sem excessos. Citando Ambrósio, Calvino explica que o marido que “na relação conjugal não tem nenhuma preocupação de decoro ou honorabilidade chamou de adúltero para com a própria esposa” (2.8.44, p.166). Não é porque está casado que alguém não pode cair no vício da luxúria.

“Assim, enquanto proíbe a prática de fornicação, ao mesmo tempo veda o atentar contra a pudicícia alheia, seja pelo atavio lascivo do corpo, seja por gestos obscenos, seja por palavras impuras. Pois, um filósofo chamado Arquelau disse não sem razão a um jovem vestido muitíssimo voluptuosa e sensualmente, que pouco importava em que parte do corpo mostrasse sua desonestidade. Eu aplico isso a Deus, que detesta toda impureza em qualquer parte, seja do corpo, seja da alma.” (idem)

Vemos que a questão de usar trajes apropriados tem muito a ver com este mandamento. Membros da igreja muitas vezes pensam que trata-se apenas de um tradicionalismo antiquado, mas o cristão que se veste de maneira indecente está levando muitas vezes o outro ao pecado. Calvino também critica o linguajar e pensamento imorais, e todos os tipos de costumes que envolvem esse tipo de impureza.

“Se o Senhor requer de nós a pudicícia, então ele condena tudo quanto lhe seja contrário. Conseqüentemente, se aspiras à obediência, então que não arda interiormente teu coração com cobiça depravada, nem os olhos te incitem a desejos corruptos, nem teu corpo seja ataviado ao ponto de despudoramento, nem, com palavras torpes, a mente seduza tua língua a pensamentos semelhantes, nem te inflame o apetite desenfreado com sua imoderação.”(idem)

Devemos manter nossas casas limpas de qualquer tipo de impureza. Não é conveniente um casal cristão que manifeste sua sexualidade para outros. Devemos tomar cuidado nessa área.

O sétimo mandamento [ 2.8.41-42 ]

Não cometerás adultério. (Êxodo 20.14)

O casamento, instituição tão desprezada atualmente (inclusive em igrejas), é a grande base para este mandamento. Não apenas a traição conjugal está em vista aqui, mas toda forma de relacionamento sexual fora do matrimônio. Deus ama a pureza, e seus filhos devem amá-la também.

“A suma, portanto, é que não nos poluamos com qualquer imundície ou libidinosa incontinência. A isto corresponde o preceito afirmativo: que dirijamos todas as partes de nossa vida casta e continentemente. De uma maneira mais expressa proíbe a fornicação, à qual tende toda sorte de luxúria, a fim de que, pela natureza e desonestidade que consigo leva – que é mais acentuada e palpável nela, enquanto desonra o próprio corpo –, nos incite a detestar todo gênero de luxúria.” (2.8.41, p.163)

Calvino entende que o homem não foi criado para viver sozinho. Por isso, existe o dom que Deus lhe entregou – o matrimônio – que, após a queda, é mais importante ainda para evitarmos a luxúria. Hoje vemos uma quantidade imensa de “teólogos” defendendo o sexo fora do casamento (e isto inclui o antes do casamento), algo que nunca foi defendido pela sã doutrina.

“De acordo com nossa necessidade, o Senhor nos socorreu quando instituiu o matrimônio, cuja união, consumada por sua autoridade, também santificou com sua bênção. Donde se deduz que diante dele não só é maldita toda e qualquer outra união fora do matrimônio, como também essa própria união conjugal foi ordenada como um remédio indispensável para que não nos atiremos a desenfreada concupiscência.” (2.8.41, p.163s)

Evidentemente, nem todos se casam. O problema é que muitos não se dão ao matrimônio, mas também não podem suportar os desejos de seus corpos. O cristão precisa entender que, na maioria dos casos, para vencer essa batalha, é necessário casar-se.

“A virgindade, reconheço-o, não é virtude que se despreze. Entretanto, visto que foi negada a uns e a outros concedida apenas por um tempo, aqueles que são atormentados pela incontinência e não podem levar a melhor no embate, recolham-se ao refúgio do matrimônio, para que cultivem assim a castidade na medida de sua vocação.” (2.8.42, p.164)

Assim, aqueles que defendem a idéia de um celibato possível para todos os membros da igreja estão enganados. Não se pode impôr aos irmãos jugo que eles certamente não suportarão. Por outro lado, a igreja deve reconhecer que existe esse dom no meio dela e tratar respeitosamente aqueles que receberam essa graça especial.

“A continência é um dom especial de Deus e do gênero daqueles que se conferem não indiscriminadamente, nem ao corpo da Igreja como um todo, mas a poucos de seus membros, afirma o Senhor… nem todos são capazes disso, mas somente aqueles a quem tenha sido especialmente dado do céu. Donde se conclui: ‘Quem o pode aceitar, aceite-o.’ Paulo afirma-o ainda mais explicitamente, quando escreve que cada um tem de Deus seu próprio dom, um de uma forma, outro, porém, de outra [1Co 7.7].” (idem)