Diferenças entre os dois pactos: parte 4 [ 2.11.9-10 ]

O reformador prossegue sua exposição nos dando a quarta grande diferença entre o Antigo e o Novo Testamento:

“A Escritura chama o Antigo Testamento o Testamento de servidão, porque gera temor nas almas; o Novo, porém, o Testamento de liberdade, porque os anima à confiança e à certeza. Assim, Paulo na Epístola aos Romanos [8.15]: ‘Não recebestes’, diz ele, ‘o espírito de servidão, outra vez, para temor, mas o Espírito de adoção pelo qual clamamos: Abba, Pai’.” (2.11.9, p.213)

Isto é, enquanto o povo antigo deveria achegar-se a Deus temeroso das reprimendas da Lei, cheios de inquietação e temor, a igreja recebe com o Novo Testamento um espírito de alegria, liberdade e tranquilidade. Enquanto um povo estava debaixo de diversas cerimônias, temos acesso livre ao Criador. Isto é explicado em Gálatas 4.22-31, na alegoria entre Sara, a esposa livre, e Hagar, a escrava.

“A síntese é esta: o Antigo Testamento incutiu medo e tremor às consciências; pelo benefício do Novo Testamento acontece de serem liberadas para alegria. Aquele manteve as consciências sujeitas ao jugo da servidão; pela liberalidade deste elas estão liberadas para a liberdade.” (2.11.9, p.214)

Isso significa que os fiéis do Velho Testamento não viveram vidas plenas, mas estiveram sempre infelizes, debaixo do jugo da Lei? A resposta do reformador é: não. A diferença é que, ao crer nas promessas feitas a eles, já recebiam nos tempos antigos parte das bênçãos provenientes do Evangelho.

“Uma vez que seja evidente terem sido dotados conosco do mesmo Espírito de fé, segue-se terem sido participantes não só da mesma liberdade, como também da mesma alegria, respondemos que nenhuma das duas procedeu da lei… Foi fruto especial do Novo Testamento que, à parte da lei comum do Antigo Testamento, foram livrados desses males. Mais ainda, negaremos tenham sido eles a tal ponto aquinhoados do espírito de liberdade e certeza, que não experimentaram, em certo grau, tanto o temor quanto a servidão suscitados pela lei.” (2.11.9, p.214)

“E aqui deve-se também notar a respeito dos santos pais que viveram de tal modo sob o Antigo Testamento, que não se detiveram ali, mas sempre aspiraram ao Novo, e assim lhe abraçaram real participação.” (2.11.10, p.215)

Que o amor de Deus, em derramar sobre nós essa alegria proveniente do Evangelho, seja sempre motivo de adoração e louvor em nossas vidas.

Diferenças entre os dois pactos: parte 3 [ 2.11.7-8 ]

Baseado nos versos de Jeremias 31.31-34, em que Deus promete uma nova Aliança entre ele e seu povo, Calvino nos apresenta a terceira diferença entre os testamentos, auxiliado pelos escritos paulinos.

“Desta passagem o Apóstolo tomou ocasião para estabelecer esta comparação entre a lei e o evangelho, de sorte que àquela chamasse ensino literal, a este, doutrina espiritual; daquela disse ele ter sido gravada em tábuas de pedra; deste disse ter sido escrito nos corações; daquela disse ser uma pregação de morte; deste disse ser de vida; daquela, de condenação; deste, de justiça; daquela, ser cancelada; deste, diz que permanece [2Co 3.6-11]“. (2.11.7, p.212)

O reformador explica que existem algumas promessas na Lei, no entanto, elas podem ser consideradas como um elemento diferente, se levarmos em consideração a natureza pura dos mandamentos. Eles são bons, mas ministrando a um pecador só geram morte.

“Somente isto lhe atribuem o Profeta e o Apóstolo: que preceitua o que é reto, proíbe as impiedades, proclama recompensa aos cultores da justiça, ameaça castigo aos transgressores, porém, ao mesmo tempo, não muda nem corrige a depravação do coração, que é inerente a todos os homens.” (idem)

Com isso, não devemos considerar a Lei como um elemento inútil na história da salvação. Pelo contrário, foi proveitosa ao antigo Israel. No entanto, quando comparada com o brilho do Evangelho, a antiga dispensação mostra sua fraqueza. Calvino exemplifica essa diferença entre os dois ministérios por meio da população do povo de Deus.

“Ora, se computamos a multidão desses a quem, regenerados por seu Espírito mediante a pregação do evangelho, de todos os povos agregou à comunhão de sua Igreja, diremos terem sido pouquíssimos, de fato quase nenhum, os que outrora, em Israel, abraçaram o pacto do Senhor com afeto de coração e de alma, os quais, no entanto, foram muitos, caso sejam computados em seu próprio rol, sem comparação.” (2.11.8, p.213)

Diferenças entre os dois pactos: parte 2 [ 2.11.4-6 ]

“Outra diferença de Antigo e Novo Testamentos é expressa nas figuras, uma vez que naquele a realidade estava ausente, ostentava somente a imagem e uma sombra em lugar do corpo, este exibe a realidade presente e o corpo real.” (2.11.4, p.209)

A segunda diferença entre os dois pactos envolve novamente conceitos que já conhecemos: o Antigo Testamento é tipo e o Novo é antítipo. Isto é, o primeiro apresenta sombras de uma realidade revelada mais claramente no segundo. Novamente, isso não é uma questão de natureza, mas de administração de cada aliança. As cerimônias aqui ocupam um lugar importante.

“Estas cerimônias eram como que apenas acidentes do pacto, ou, na verdade, adições e anexos e, como diz o simples, acessórios… Conseqüentemente, em suma, neste contexto chama-se Antigo Testamento a maneira solene de confirmar o pacto compreendida em cerimônias e sacrifícios. Uma vez que, porém, nestas cerimônias e sacrifícios nada subsiste substancial, a não ser que se vá além deles, contende o Apóstolo ter sido necessário que se fizessem obsoletos e fossem abolidos, para que se desse lugar a Cristo, fiador e mediador de um Testamento superior [Hb 7.22], através de quem foi uma vez adquirida eterna santificação para os eleitos e obliteradas as transgressões que permaneciam sob a lei.” (2.11.4, p.210)

Assim, o Antigo Testamento era algo temporário, substituído pelo Novo, “com confirmação firme e substancial” (idem), um pacto com características eternas, ministrado pelo próprio Deus, na pessoa de Cristo. O povo de Israel, vivia, portanto em uma situação semelhante à infância, guardados pela Lei como tutor.

“Paulo designa esta pobreza de compreensão pelo termo infância, querendo o Senhor que fosse exercitada por elementos deste mundo e pelas mesquinhas observâncias externas, como que por regras de disciplina infantil, até que Cristo se manifestasse, através de quem convinha que o conhecimento do povo fiel atingisse a maturidade [Ef 4.13].” (2.11.5, p.210)

Essa distinção não significa que os grandes homens do Antigo Testamento eram inferiores em fé ou piedade. Jesus nos diz que eles tinham consciência de que algo maior aguardava o povo de Deus (Lc 10.24), e Pedro o confirma em sua primeira carta, capítulo 1, verso 12. Ainda assim, aqueles homens estavam debaixo de sombras e tipos, pois viviam numa fase em que o Senhor assim resolveu lidar com sua nação.

“Pois, a pregação destes é não somente obscura, como que acerca de coisas longínquas, mas ainda encerrada em tipos. Além disso, por mais elevado fosse neles o conhecimento, entretanto, uma vez que tenham tido necessariamente de submeter-se à ‘pedagogia’ comum do povo, também eles próprios se contam no número das crianças.” (2.11.6, p.211)

Que tenhamos o coração agradecido por receber essa revelação mais clara, mas que também temamos quando não nos mostramos gratos por tamanha generosidade da parte do Senhor.

Diferenças entre os dois pactos: parte 1 [ 2.11.1-3 ]

Depois da longa seção sobre as semelhanças entre o Antigo e o Novo Testamento, Calvino lista agora as diferenças entre os dois pactos. Porém, ele nos lembra que devemos tomar cuidado ao tratar o assunto.

“Digo que todas estas diferenças são de tal natureza, e comprometo-me a demonstrá-lo, que dizem respeito ao modo de administração, antes que à substância. Por esta razão, nada impedirá que as promessas permaneçam as mesmas, quer do Antigo, quer do Novo Testamento, e Cristo como sendo o mesmo fundamento das próprias promessas.” (2.11.1, p.206)

A primeira diferença já foi bastante comentada no capítulo anterior: as promessas futuras para judeus e para cristãos. Essa promessa não era diferente para os dois grupos, mas as imagens usadas para o antigo Israel são diferentes e, muitas vezes, remontam à realidades terrenas. No entanto, isso se devia ao fato de eles não estarem prontos ainda para as informações que a Igreja receberia a seguir.

“Portanto, foi-lhes destinada a mesma herança que a nós, mas, em razão da idade, ainda não eram capazes dela tomar posse e dela tratar. Estava entre eles a mesma Igreja, todavia, até esse ponto, como que na infância.” (2.11.2, p.207)

Assim como a bem-aventurança, o castigo no Antigo Testamento também usava de imagens terrenas, como punições nesta terra para muitos dos que pecaram contra Deus. Essa realidade também apontava para a realidade final, onde os ímpios receberiam castigos eternos e não apenas materiais.

“Aliás, nos devencilharemos facilmente de tais entraves se voltarmos a mente para esta dispensação de Deus de que falei, a saber, que durante esse tempo em que ao povo de Israel ministrava seu Testamento, até então como que de forma velada, quis ele significar e prefigurar ora, mediante benefícios terrenos, a graça da felicidade futura e eterna, ora, mediante castigos corporais, a gravidade da morte espiritual.” (2.11.3, p.209)

Vemos, portanto, que apesar dessas diferenças entre as duas porções da Bíblia, há uma unidade, a saber, que Deus é justo e a vingança pertence a ele. Que nos agarremos à cruz para fugir à ira vindoura.

Cristo: Esperança de Israel [ 2.10.20-23 ]

Finalizando essa seção, Calvino passa a citar os profetas posteriores, demonstrando que eles também criam em um futuro bastante diferente da prosperidade material que os judeus tinham (ou poderiam ter) na época antiga. Com a proximidade da vinda de Cristo a natureza dessa vida futura tornou-se cada vez mais clara para aquele povo.

“O Senhor susteve esta economia e esta ordem na administração do pacto de sua misericórdia, de sorte que, quanto mais com o correr do tempo se aproximava o dia da plena revelação, com tanto maior clareza o quis anunciar.” (2.10.20, p.202)

O reformador lembra que muitas vezes Deus utilizou comparou os benefícios eternos a benefícios temporais, a fim de que o povo pudesse entender bem suas dádivas, mas em geral a mensagem estava clara – viria um reino de bens eternos e espirituais. Alguns dos textos citados nessas seções são Ezequiel 37 e Isaías 26. Outros mostram mais claramente a glória futura, como Isaías 66 e Daniel 12. Tudo isso mostra que Israel abraçava esperança semelhante à nossa.

“O Antigo Testamento, ou Pacto, que Deus firmou com o povo de Israel, não se limitara às coisas terrenas; ao contrário, continha a promessa da vida espiritual e eterna, cuja expectação se impôs que fosse impressa na mente de todos quantos anuíam verdadeiramente ao pacto.” (2.10.23, p.204)

Portanto, que o crente não abrace o erro dos saduceus que criam numa realidade sem ressurreição e sem imortalidade. A esperança dos pais é a mesma nossa, de vivermos num reino com o Messias amado.

“Pois Cristo, o Senhor, promete hoje aos seus não outro ‘reino dos céus’ senão aquele onde se reclinem com Abraão, Isaque e Jacó [Mt 8.11], e Pedro declarava que os judeus de seu tempo eram herdeiros da graça do evangelho, por isso eram ‘os filhos dos profetas, incluídos no pacto que Deus havia outrora firmado com seu povo’ [At 3.25].” (2.10.23, p.204s)

Nossa esperança [ 2.10.17-19 ]

A lição que podemos tirar dessas últimas seções é não confiarmos nos bens terrenos, nem esperar que eles nos dêem satisfação. Em certo momento Deus reunirá de maneira gloriosa céus e terra, restaurando a harmonia do universo. E ali estarão também os cristãos, recebendo bênçãos muito maiores que temos na era presente.

“Onde estará esta beleza e graça dos fiéis, senão quando a face deste mundo tiver sido mudada pela manifestação do reino de Deus? Quando os olhos convergirem para essa eternidade, desprezada a momentânea agrura das calamidades presentes, confiantemente irrompam nestas palavras: ‘Não permitirás jamais que pereça o justo, mas os ímpios tu os precipitarás no poço da perdição’ [Sl 55.22, 23].” (2.10.17, p. 200)

Não devemos desfalecer se temos essa esperança, muito menos invejar o ímpio. O sofrimento do crente nesta vida é muito pequeno se comparado à alegria que ele terá no futuro. Devemos orar pelos ímpios para que eles percebam que o “caminho largo” propõe uma alegria falsa e efêmera. Tenhamos como exemplo os santos do Antigo Testamento.

“Visto que contemplavam o céu, sabiam que os santos são atormentados pelo Senhor ‘com a cruz’ por apenas um momento; que as misericórdias com que são cumulados são perpétuas. Por outro lado, anteviam a ruína, ruína eterna e que jamais haverá de findar-se, dos ímpios, os quais, como em um sonho, haveriam de ser felizes só por um dia.” (2.10.18, p.201)

Calvino, por fim, comenta alguns textos bíblicos que tratam da vida futura, começando por Jó 19.25-27, onde o protagonista desse livro fala de uma ressurreição porvir. Para o reformador, não há qualquer motivo para não crermos que o texto não ensina a mesma verdade que os cristãos devem crer.

“Jó não teria chegado a esta amplitude de esperança, se em pensamento tivesse se deixado ficar na terra. Portanto, há que convir em que ele fixou seus olhos na imortalidade futura, pois compreendeu que, inclusive na sepultura, seu Redentor se preocupara com ele; já que a morte é o supremo desespero para os que têm seus pensamentos exclusivamente neste mundo, este não podia tirar-lhe a esperança.” (2.10.19, p.202)

Que também guardemos essa esperança em nossos corações.